Música de Trabalho

segunda-feira, 26 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Uma nova experiência nasceu da nossa reunião, numa segunda-feira à noite, no Teatro Sitorne. Faz um tempo, durante os testes de bateria, antes da gravação propriamente dita, eu havia mostrado a andré t um trecho melódico que me ocorreu em uma tarde, diante de uma vitrine num shopping center de Salvador, enquanto esperava minha amada. Era um trecho de 16 compassos de blues ou, se preferir, encharcado de “blue notes”. A ideia me agradava, ainda que eu não tenha a menor pretensão em gravar um blues, nem falso, muito menos autêntico – deixo essa tarefa para os que dele realmente são. Mas mostrei a melodia a andré e ele também curtiu.

Contei a ele do excelente documentário/show a que assisti certa vez, quando trabalhava vendendo discos numa loja aqui de Salvador. Tratava-se do DVD “Down From The Mountain”, com artistas interpretando ao vivo a trilha sonora do aclamado filme “O Brother, Where Art Thou?” (com título em português “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”), dos Irmãos Cohen. Nele, o grupo The Fairfield Four (curiosamente um quinteto, a despeito do “quatro” no nome) reproduz uma canção chamada “Po’ Lazarus”. Esse grupo nasceu dentro do ambiente da música Gospel do Tennessee (EUA) e está até hoje na ativa, desde 1921 (!).

“Po’ Lazarus” é uma canção tradicional, de tema bíblico, e por eles executada no esquema stomp (com o bater dos pés sobre o tablado do palco) e palmas, imitando a sensação gerada pelo evento daquilo que os norte-americanos denominam “work song” – música de trabalho. Em geral, estamos acostumados a ouvir o gospel americano (o gospel de verdade, não esse treco que embala o polpudo mercado de música evangélica atualmente e de péssimo gosto estético/harmônico/melódico. A mensagem pode ser a mais bonita, mas a música fica em décimo plano) com acompanhamento de coral (sempre de efusivas possibilidades) e set instrumental guitarra-baixo-bateria-órgão hammond B3 (a base do que seria utilizado na instrumentação do blues elétrico, do jazz e do rock). Na “work song”, a cadência dos versos ritmava o trabalho nas lavouras, na construção de estradas e ferrovias, EUA afora, no correr do século XIX. Também nesse contexto, estão as mais profundas raízes da música norte-americana e, por consequência, muito do que chamamos universalmente de Música Pop.

Baseados nessa história de apenas o bater dos pés sobre um assoalho de madeira acompanhar o cantor, partimos para a tentativa de gerar uma base convincente para essa ideia. Falamos com a direção da Escola de Artes Sitorne, que gentilmente nos cedeu um horário para que gravássemos na sala do seu teatro. Chegamos na segunda-feira à noite: eu, Jô Estrada e Thiago Trad, antes, e encontramos com o amigo Paulinho Oliveira, ex-CASCADURA, que hoje trabalha lá mesmo. Depois, vieram nosso andré t e seu assistente Mark Mesquita.

andré dispôs seus microfones, montou seu set up, subimos ao tablado e testamos o som. Uns poucos ajustes e ele disse: “Podemos começar!”. Esse grupo de seis pessoas passou a circular pelo palco do teatro buscando o espaço onde o som ficaria melhor: confesso que esse foi o detalhe mais demorado de todo o processo. Mas, enfim, achamos um lugar no fundo do tablado onde a madeira parece ter sido ajustada para tal finalidade. Vamos gravar!

Pausa: bem, não tenho impressora em casa, assim, gravei um esboço da letra para essa música em um pen drive, onde estavam outras que pretendo aproveitar nesse processo do álbum. Não encontrei um lugar que pudesse imprimir pelo caminho e pensei: “Estou indo a uma escola! Lá tem impressora!”. Chegando lá, pus a mão no bolso para pedir a alguém para imprimir o bendito esboço e o pen drive não estava! No trajeto entre casa e escola, ele deve ter caído… Lamentei, mas seguimos sem letra mesmo. Afinal, o que iria valer, se iria realmente valer, eram os stomps e as palmas… Acaba a pausa…

Cantarolei a melodia num andamento que imaginava ser o mais natural. Marcamos com os pés o ritmo. Tentamos uma sequência de uma batida de pé a cada compasso. Depois, duas batidas, alternadas no segundo e no quarto tempo. Com palmas, sem palmas… Em vinte minutos, já tínhamos quatro ou cinco takes que nos deixaram satisfeitos.

andré t pôs os fones e ficou escutando… “Do caralho! Sonzão! Por mim, fica esse, como está!”. Ouvimos todos e compartilhamos da opinião de andré. Primeiro Thiago, depois Jô, assim por diante, ouvimos todos: eu, Paulinho, Mark… E nos cumprimentamos em saudação ao sucesso de algo que parecia ser mais complexo executar do que realmente foi.

Torno a chamar a atenção para o fato de que queremos apenas usar a alegoria desenvolvida do mundo do espetáculo americano, desde o começo do século XX, para contextualizá-lo à nossa necessidade de emoldurar uma obra atual. Não queremos ser grupo de blues, nem “macaquiar” coisa de gringo! Muito pelo contrário; a ideia é dar um novo direcionamento àquilo que já sabemos, conhecemos: reciclar!

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Uma viagem no meio

quarta-feira, 14 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Bem no meio do processo de entrar no estúdio, dei-me o luxo de viajar, em férias, com minha noiva… Mas bem no meio das gravações?

É que a viagem estava planejada antes de pensarmos em marcar as datas de estúdio e na vida é assim: prioridade é o que vem primeiro. Mantive os planos com a amada (ai de mim tentar demovê-la disso!) e fomos: break nas gravações.

Buenos Aires orgulha-se de sua tradição europeia, considera-se europeia, mas tem uma afirmação imensa em ser latino-americana. Às vezes, nos confundem em sua confusão. Fábio "Magallanes" Tanto mais, chegando lá em tempos de Mundial de Futebol (aquilo que outrora chamávamos de Copa do Mundo, termo, agora, de uso proibido, sob pena de pagamento de royaltes ao dono: a FIFA). Ora eles afirmam torcer por todos “los hermanos sudamericanos”, ora afirmam preferir torcer para o “english team” ao Brasil. Acho que todos sabem da histórica rivalidade entre a Inglaterra e a Argentina, com caso de invasão inglesa a nossos vizinhos e tudo o mais… Fato é que Buenos Aires é autêntica, mesmo sendo uma réplica. Suas caras são, em geral, ibéricas e/ou caucasianas. Um índio de Tucumán (norte do país) aqui e outro ali. A colônia oriental é crescente e já opera interferência em alguns costumes da cidade: tinturaria e culinária (no agradável Bar 6, experimentamos um troço chamado “wok de carne”, um tipo de yakisoba adaptado ao modo argentino de ser). Negros? Em dez dias, lembro de ter visto quatro e somente um, suspeito eu, tenha nascido lá. Os demais eram imigrantes ou turistas.

Cemitério da Recoleta

A tradição europeia é tão forte que um dos pontos turísticos mais celebrados de lá é um cemitério. Tem algo mais europeu que o culto à morte? O cemitério da Recoleta é realmente muito rico em suas esculturas lúgubres, seus mármores, testemunhas de um tempo que a cidade contava com uma classe alta mais opulenta e influente. Confesso que, apesar de ter curtido ir lá, tirado foto em pose de coreografia de “Thriller” de MJ, fiquei um pouco chocado com o lance das visitas ao túmulo de Eva Perón: havia uma fila de gente para tirar foto ao lado da catacumba da criatura! Em um momento, um par de gêmeas, na casa dos nove anos de idade, posou sorrindo enquanto a mãe que, acho, era colombiana, dizia: “Um momento…”, e tirou a foto com as duas com rostos angelicais. Mais um pouco e chegariam a mulher-barbada, o atirador de facas e a mula-sem-cabeça…

Porém, ao lado desse cemitério fica um centro comercial moderno chamado Buenos Aires Design. O design, a forma, as artes visuais são outros exemplos de orgulho dos portenhos. E eles têm todo motivo para sentirem orgulho disso. A cidade é extremamente visual: nos monumentos antigos, no “rosáceo” do palácio presidencial, mundialmente conhecido como “A Casa Rosada”, no grafite às ruas, nas vitrines sempre muito caprichadas de qualquer estabelecimento comercial, no filatelista (aquele cara que cria placas floreadas em cores vibrantes)… No que diz respeito a ver, BsAs dá um show.

Lembro que sentamos num restaurante bem modesto em Villa Crespo, do tipo que amo ir em qualquer cidade que vá. Aquele lugar frequentado pelos locais. Era um lugar como o Risca Faca, da Rua Visconde de Ouro Preto, no Centro de São Paulo, ou a Ceasinha do Rio Vermelho, em Salvador: culinária popular. Lá, a vitrine era ornada com uma marca estampando o nome do lugar (Salgado Alimentos), o balcão surrado com uma balança antiga e bem conservada, uma “adega” com diversos vinhos expostos, cuidadosamente organizados. As mesas seguiam uma linha organizada em pares e os garçons e garçonetes, todos jovens, vestiam avental longo por cima do jeans/camiseta/all star. A comida desse lugar é um caso à parte: massa fresca de primeira qualidade.

Alias, comida não é problema numa cidade cosmopolita como a capital argentina. Come-se bem e come-se de tudo: massas, carnes, frutos do mar, empanadas… Para não falar nas sorveterias, rotisserias e padarias: doces, sorvetes, suspiros gigantes, alfajores (os imbatíveis Cachafaz e La Bizantina, ainda que o melhor tenha sido um gigante da Panaderia Las Famílias, na Calle Armenia), bolos, caldas… Açúcar!

Em Buenos Aires, pode-se encontrar desde a famosa parrilla (recomendo o Lo de Jesus, em Palermo) à comida armênia (fomos ao Sarkis, também em Villa Crespo). Villa Crespo e Palermo: bairros bem situados, cheios de charme, lojas, gente interessante e bares. Pode-se andar em plena madrugada tranquilamente que é seguro. Ainda que, em Palermo, haja um tanto mais de barulho à noite (o cruzamento Serrano/Cabrera é carro e gente passando e falando a noite inteira), tanto mais é se perto da pequena e movimentada Plaza Cortazar, com bares/restaurantes/cafés 24 horas!

Foi bem próximo a essa praça que, num começo de noite, voltando para o hotel, paramos à porta de uma loja de roupas e percebemos que lá tocava o disco “Zii e Zie“, de Caetano. Como brasileiros, baianos, achamos massa, mas achamos normal: Caetano é mundialmente famoso.

No dia seguinte, indo para um passeio mais ao centro da cidade, passamos na frente da mesma loja e tocava Tom Zé: “Poxa! O cara gosta de música brasileira! Vou deixar um disco do CASCADURA que trouxe comigo com eles”.

À noite, voltamos pelo mesmo trajeto, justamente para deixar o disco na loja e, de repente, bater um papo com o pessoal de lá. Para nossa surpresa, ao chegarmos tocava um disco com música de capoeira! Pensei: “Esse é daqueles que sonha com a Bahia toda noite!”. Fazia frio. Chamei o camarada que devia ser o dono e entreguei o disco, me apresentei. O camarada ficou felizão: “Você é da Bahia?! Que legal… Que lindo, cara!”. Achar a Bahia “que lindo, cara!” é lugar comum para quem é de lá.

Lembro do domingo, quando íamos à tradicional Feira de San Telmo e, parados numa esquina, ponderávamos se estávamos seguindo na direção correta. Uma senhora de baixa estatura, no alto dos seus setenta e tantos anos, trajando um lindo e antigo abrigo vermelho, nos perguntou se queríamos ajuda. Aceitamos e ela nos orientou. Seguimos na mesma direção, ela perguntando se éramos do Brasil, de que cidade vínhamos… Quando dissemos Salvador, ela exclamou: “Hmmmm… Hay, llá, muchas iglesias, no?! Muy tradicional!”. Simpática! Disse que seu sonho era vir à Bahia e a Ouro Preto. Agradam-lhes as cidades com história, tradições verdadeiras… Essa senhorinha de amáveis olhos azuis foi uma das amostras do que se pode ter de simpatia dos argentinos. Sim! Não são de todo antipáticos. São carrancudos, em geral. Sempre sérios e apressados.

Posso citar também o tiozinho do kiosko Milagritos (no cruzamento das calles Thames/J. Ramires Velasco). Kiosko é um tipo de “barraquinha-vende-tudo” e, lá, vende-se de tudo mesmo: refrigerante, cigarros, canetas, alfajores, figurinhas da copa… Num dos últimos dias, tínhamos que pegar o “omnibus” e não tínhamos dinheiro em moedas. E para pegar “omnibus, ou bus, como gostam de falar os portenhos, tem que se ter “monedas”. Por isso, as moedas são escassas nas ruas de Buenos Aires: quem as tem, guarda para usar no transporte urbano (esse sistema é, aliás, algo que realmente nos faz sentir inveja. Quem dera essa administração que aí está, na cidade do Salvador, pudesse enxergar alternativas a serem copiadas de lá. Mas a visão é estreita, a mente, pequena e a ganância, grande…).

Como não tínhamos os 1,10 pesos argentinos trocados para cada passagem, tínhamos que trocar e ninguém troca. Entramos no kiosko Milagro e, para nosso espanto, o “tiozinho” meio índio, meio “chino” trocou nossas moedas e deu-nos a indicação de onde pegaríamos o ônibus certo para o nosso destino, falando pausadamente, para que entendêssemos, preocupação menor para quem vive em Buenos Aires.

Outros exemplos de simpatia da cidade vieram de duas pessoas ligadas ao universo da música. O primeiro foi o produtor independente Martín Ramicone, atuante na cidade com seu selo/produtora Da Chance Music, com quem vinha me correspondendo. Figura única, conhecedor do Brasil (já morou em Maceió/AL), da música de cá e dos organismos do mercado musical de lá. Conversamos sobre história da América Latina, futebol e rock! Ganhei um bom amigo e parceiro para projetos futuros.

O outro foi um cara chamado Juan Trasmonte. Ele produz um programa de rádio chamado Club Brasil, com grande sucesso na FM local, em que apresenta música brasileira de todos os tempos, e ainda produz apresentações de artistas brasileiros por lá. Encontrei com ele rapidamente, em uma rápida conversa, em que me apresentou seu total domínio do nosso idioma e mostrou realmente conhecer a música daqui. Chamou-me atenção ele saber da grandeza do som que faz o amigo Tiganá Santana: achei o máximo! Falou de muita coisa sobre a música do Brasil, de como ela atinge positivamente as pessoas na Argentina, de como vinha a divulgando, o alcance de seu programa, o êxito. Falei a ele da trajetória do CASCADURA, dos planos para o futuro e da vontade de fazer o nosso novo trabalho, Aleluia, chegar lá.

Na despedida, ele me perguntou como o encontrei. Disse-lhe que foi por indicação de uma amiga, Mariana, que havia trabalhado com ele e que hoje tem um hotel supercharmoso, onde nos hospedávamos: o Querido! Querido é o nome apropriado para esse lugar, que fica em Villa Crespo (Calle Juan Ramirez Velasco, n° 934), ao lado do fantástico bairro de Palermo. Se for a Buenos Aires, fique lá: vale muito a pena. Eu vou voltar e vou ficar lá.

P.S.: Agora, de volta a casa, retomo as gravações do Aleluia junto a Thiago, Jô e andré. Acumulei, nessa viagem, referências e comparações para trazer algo de novo ao álbum. Tomara que funcione…

Quando eu chegar a Nicarágua!...

Quando eu chegar a Nicarágua!...

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Bateria em “O Rei do Olhar”

sexta-feira, 09 julho 2010 - postado por thiagotrad

Para vocês, um trecho das gravações de bateria de “O Rei do Olhar”, a primeira música desta jornada do Aleluia.

Leia mais sobre o processo de criação de “O Rei do Olhar” aqui.

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CASCADURA, Brasil e Argentina

segunda-feira, 05 julho 2010 - postado por thiagotrad

Já se vão quase três semanas desde que iniciamos o A Ponte e eu estou adorando a forma dinâmica com que o blog tem rolado: a participação de todos tem sido fundamental na construção dessa nova estrada. Provavelmente, vocês já notaram que eu não sou tão adepto da internet quanto o Fábio; eu até curto navegar pelos sites de música, culinária, notícias e afins, mas ainda não tenho nem um Orkut, por exemplo. Nada contra, só não aprendi a lidar com essa linguagem.

Mas quando surgiu a ideia de criarmos o blog, eu logo me animei, acho que estava faltando essa ferramenta para estreitarmos um pouco mais a comunicação entre o CASCADURA e vocês. E o momento era esse, afinal estamos gravando um álbum inédito, numa fase de muitas novidades. A necessidade de um disco novo era angustiante – já não gravávamos há 4 anos – e a largada foi dada!

O Aleluia está em pleno período de produção, músicas inéditas, novas parcerias, e uma busca enlouquecedora em descobrir sonoridades ainda não usadas por nós, além dessa troca de informação, que nos interessa muito. Desde o primeiro texto que Fábio escreveu para o blog, vi que o nível seria altíssimo. E a cada nova curiosidade revelada, gosto mais. Gostei demais do último post – até eu, que convivo direto com Fabão, pirei. Ele sempre tem alguma referência nova para apresentar, o negão saca tudo de Rhythm’n Blues; dentre tantas outras, acho que essa é a sua maior especialidade. E, pelo que vem rolando até aqui, certamente o Aleluia será um disco regado com muito Rhythm’n Blues.

Aliás, aproveito esse gancho sobre as influências do CASCADURA para voltar no tempo e contextualizar melhor essa história. Logo que eu entrei na banda, por volta de 2001, percebi que as referências de Fábio eram muitas e iam muito além das tradicionais bandas de rock dos anos 1960 e 70 (Beatles, Stones, The Who, Deep Purple etc.), ou das bandas de southern rock norte-americano (The Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd e cia.). Realmente, os dois primeiros discos do CASCADURA têm muito dessa época, mas não definiam ou encerravam o gosto musical de Fábio. O lance é que, entre um papo e outro, ele sempre citava alguns nomes para mim, de rockabilly e country music a Caetano e Gil. Não que Fabão seja um cara eclético (esse termo é perigoso, rs), mas seu gosto musical é amplo: se tiver uma boa melodia, ele para para ouvir.

Em muitas de nossas conversas, ele mencionava bandas argentinas. Confesso que, naquela época, conhecia pouco do rock dos nossos hermanos, apesar de saber que por lá o rock’n roll faz parte do estilo de vida deles. E essa ligação Brasil-Argentina ganhou força através do convívio com Nestor Madrid, um argentino radicado há muitos anos em Salvador e primeiro produtor dos discos do CASCADURA. Ele sempre falava que a gente teria uma grande aceitação por lá. O fato é que, nesse exato momento, Fábio está conferindo isso de perto, curtindo alguns dias em Buenos Aires.

Tenho certeza de que essa viagem vai mexer com a cabeça dele, talvez algumas músicas novas possam estar sendo compostas por lá. Além do mais, andré t também acaba de chegar de uma viagem por terras portenhas. Eu acredito que o Aleluia não ficará imune a isso. Apesar da eliminação de ambos países na Copa do Mundo, eu acho que Brasil e Argentina vão se encontrar no estúdio t.

Pra acabar com música, uma listinha de bandas argentinas que eu recomendo conferir: Almendra (uma das preferidas de Fábio), Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota e Ratones Paranoicos.

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O Rei do Olhar

terça-feira, 22 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Marcamos às 9 horas. Eu cheguei 9h15, mesma hora que Jô Estrada: andré t nos esperava para começarmos o dia de gravação. Sexta-feira, 18 de junho.

Tínhamos algumas baterias que foram registradas no “esquema teste” e que, de tão boas, acabaram sendo adotadas como oficiais para trabalharmos: deu-se o start no Aleluia!

Sugeri a gravação de um tema bem pesado: então, vamos começar pelo peso… Tive a ideia dessa música a partir de um instrumento em especial: uma baritone guitar.

O que é uma baritone guitar?
Trata-se de uma guitarra barítono, ou seja, uma guitarra mais grave que as normais. Tem seis cordas, seu aspecto é bem similar ao das guitarras convencionais. Mas ao invés de afinada em E (mi), ela é afinada em B (si), três tons e meio abaixo. Tem gente que confunde com a famigerada guitarra de sete cordas ou ainda com guitarras convencionais afinadas em tons mais baixos. Mas uma guitarra assim pode ter sua afinação abaixada até C (dó), no máximo. Aqui estamos falando de mais um semitom… e com segurança (sem as variações/ desafinações que ocorrem com cordas folgadas). A tensão nela é perfeita.

Esses detalhes talvez não façam tanto sentido para quem não é músico. Mas, como disse, foi a partir desse instrumento que me veio a ideia da canção…

andré havia feito uma viagem de passeio à Europa. E quando andré vai a algum lugar, ele precisa, muito, conhecer as lojas de instrumentos musicais da localidade. Tanto faz se estiver em Paris ou Boquira! Ele irá pesquisar se há algum apetrecho de uso musical que ainda não tenha e que precise conhecer… e levar consigo. Sua esposa que o diga.

Antes de ele fazer essa citada viagem, conversamos justamente sobre baritone guitar. Na volta, ele apareceu com uma, modelo Danelectro, que comprou na França… sei lá… Me emprestou por uns dias para que eu conhecesse o instrumento, já que eu nunca havia tocado um. Pimba! Veio o riff!

Depois, percebi que é meio “filho” da linha de baixo daquele sucesso do U2: “New Years Day”. Danelectro baritone guitar + pedal Rat Proco + amplificador Fender Bassman valvulado! Vixe! Riff em C (dó), música em G (sol). Certeiro!

Mostrei a andré e foi essa música que tocamos para Thiago Trad “acertar o som de uma bateria”. Ele apareceu com uma célula rítmica totalmente diferente da que eu havia imaginado, ainda que, devido a nosso entrosamento, desenvolvesse o que chamamos de bridge (ponte) e o refrão de forma muito similar ao que pensava. Mas a condução e a dinâmica da parte A (aquela onde desenvolvemos a historinha das letras) veio com muitas novidades e, ao mesmo tempo, impregnada de referências que curtimos.

Na sexta, fomos completar esse arranjo.
O baixo foi executado por Jô, coisa que ele fez em canções como “Senhor das Moscas”. Sugeri uma marcação com jeito de bolero… É! Be-o-Bó-lê-é-Le-rê-o-Ro! Bolero!

Se ligue: rock e bolero andam juntos, all the time! De “P.S. I Love You”, do 1° disco dos Beatles, a “Mesmo Eu Estando do Outro Lado”, tudo é bolero! O bolero é a grande força rítmica que ocupa o ocidente. Herança africana, muito bem desenvolvida no Caribe a partir de um toque dos cultos yorubanos trazidos pelos escravos dessa etnia (alguns chamam esse toque “tanimobé”, aqui na Bahia também chamado “arrebate”), sua presença no rock deu-se via Rhythm’n Blues dos anos 50, em exemplos como “You Better Move On”, do grande Arthur Alexander (regravada pelos Rolling Stones no começo da carreira; aliás, os Beatles também interpretaram coisas desse cara genial, como “Anna (Go to Him)”, também bolero) e “Stand By Me”, sucesso de Ben E. King.

Não esquecer que isso que chamam de “arrocha” nada mais é que uma leitura própria e peculiar sobre esse mesmo ritmo: bolero! Um exemplo massa que acho é o da música “Shama Lama Ding Dong”, incluída na trilha sonora do filme “Animal House” (em português, “Clube dos Cafajestes”), constante presença nas programações vespertina das TVs, interpretada pelo grupo Otis Day and The Knights.

Reproduzimos o baritone guitar, também executado por Jô Estrada, com a mesma filosofia que usei na demo que registrei no meu celular (é isso mesmo: assim que tenho uma ideia, registro-a de imediato no celular e depois vejo se vale a pena ser trabalhada ou não).

Ainda como reforço e somente para termos como alternativa no momento da mixagem, foram gravadas algumas dobras de guitarra, usando distorção bem convencional, mas num timbre todo especial descolado por andré t: ficou pesadíssimo! Em tempo, conta muito o fato de quem executa e quem grava: Jô Estrada e andré t.

Terminamos o dia de sexta bem satisfeitos, às 16 horas, porquê Jô e andré precisavam ensaiar com Messias, com quem tocam e com o qual farão o show de lançamento do excelente disco da estreia solo do líder da brincando de deus. O show acontecerá dia 30 de junho, na Igreja da Barroquinha (templo que, aliás, tem muito a ver com o projeto desse disco do CASCADURA… depois eu conto). E lá se foram: continuaríamos no sábado.

Sábado, 19 de junho, 9 horas: chegamos ao estúdio t.
Fomos recebidos por um entusiasmado andré t, que desde as 8 horas (!) mexia em um módulo de sintetizador – uma intervenção que a princípio me causou estranheza, confesso, mas que logo foi assimilada, apoiada e aplaudida! Uns arremates de guitarra e só restava gravar a voz.

Parêntese: ainda que saiba sobre o que a música irá falar, o tema, ainda não tenho uma letra completa. Somente o esboço do que virá a ser o texto dessa que já é a primeira música pronta do Aleluia. Sei que a canção tratará de uma analogia entre um ilusionista/ charlatão/ mágico e a mídia. Fala sobre o fato de “o truque do mágico só funciona se a plateia quiser acreditar nele”. Seu título: “O Rei do Olhar”.

P.S.: Depois da gravação de sábado, fomos os três nos recolher e descansar para um compromisso muito importante que teríamos naquela noite e que aponta para o motivo pelo qual Thiago Trad esteve ausente dessas duas sessões: sua união com a sua amada! Agora, Thiago é um homem casado! Tudo de melhor para ele.

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“Entrando” no estúdio

sexta-feira, 18 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Hoje, sexta-feira, entramos no estúdio t para “começar” a gravação do Aleluia, nosso novo disco.

As aspas dizem respeito ao fato de termos dado alguns passos “extraoficiais” rumo à confecção dessa obra, mesmo antes do anúncio do projeto. Já foi comentado, no post passado, que aqui discorreremos sobre tudo que diz respeito ao Aleluia: as referências, as influências, as participações, quem vai trabalhar nele. E, olha, vem assunto por aí…

Começamos a pesquisa já em fevereiro desse ano, mas tenho que confessar que desde o início de 2009 a ideia de um álbum novo, que se contrapusesse a tudo que já havíamos realizado, vinha me atraindo e, de certo modo, consumindo minha concentração.

A pretensão é de que o Aleluia seja realmente diferente em nossa história. E será! Da ideia inicial, fermentada em Salvador e por ela mesma, passamos à pesquisa. Ouvimos de tudo, vimos de tudo. Tenho lido de quase tudo. Mas, ultimamente, o velho interesse por história (especialmente século XVI) vem sendo novamente alimentado e de modo natural (vou passar algumas indicações aqui também).

Não temos, ou não tínhamos, nenhuma canção definitivamente pronta. Se uma tem harmonia e melodia, falta-lhe uma letra, um texto digno. Outra, que é um texto interessante, traz incertezas em seus trechos musicais. Preocupados? Isso é o mais interessante! A experiência anterior nos dotou de confiança suficiente para desenvolvermos o caminho ou deixar que ele nos desenvolva em torno das canções.

Mas, voltando… Fizemos alguns testes de estúdio. Teste de áudio, minúcias que somente andré t pode nos esclarecer (ele o fará), procurando principalmente som de bateria (escolhemos 3 kits tradicionais e 1 menos ortodoxo, em novo post deixemos Trad falar sobre sua matéria), mas também verificando alguns métodos que não usamos antes.

A primeira coisa que ficou definida é que trabalharemos canção por canção. Pra quem não é familiarizado com a rotina de uma gravação de disco vou tentar explicar: no estúdio de gravação, tempo é dinheiro… Literalmente! Você paga pela hora de uso. Quase um taxímetro. Assim, para melhor fazer valer o tempo, monta-se determinado kit de bateria e grava-se todas as músicas com o máximo de aproveitamento possível (olha lá, o tempo tá correndo!). Depois desmonta-se esse circo e vamos às guitarras ou ao baixo e as vozes, os teclados e assim por diante… Ou quase.

Nosso plano foge completamente disso. Queremos que cada música repercuta seu som. Mesmo! Ainda que andré t seja um mestre de grande habilidade no estúdio, que consiga fazer uma mesma bateria soar como diversas, ainda assim nos impusemos a obrigatoriedade de trabalhar música por música.

Toma mais tempo, dá mais trabalho… No entanto, a dedicação a cada faixa será muito especial. Cada uma poderá mostrar-se em sua personalidade, com seus detalhes próprios.

Mas, bem… Naqueles testes de que falei, que realizamos no estúdio, durante a pesquisa, Thiago deixou algumas baterias gravadas que ficaram muito boas e que, acho, vamos usá-las hoje para começarmos o disco. Temos até o registro desses testes em vídeo e de repente conseguimos postar algo aqui em breve. Pois será sobre essas baterias que vamos trabalhar hoje. Vamos lá…

P.S.: Bem, e para um disco que se chamará Aleluia, não será nada mal começarmos numa sexta-feira. ;)

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A Ponte

quinta-feira, 17 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Abrimos aqui uma nova etapa na carreira do CASCADURA. Este blog vem para servir de canal de comunicação com quem nos acompanha. Pretendemos realizar uma experiência completamente nova em nossas vidas.

Eu, Fábio Cascadura, e Thiago Trad, membros da banda há 18 e 10 anos, respectivamente, decidimos seguir realizando a nossa música com a mesma moçada que trabalhou em nosso CD anterior, “Bogary”: andré t (produtor deste e também do “Vivendo em Grande Estilo”) e Jô Estrada (coprodutor do “Bogary”) – não só pelo êxito atingido pelo disco por nós lançado em 2006, mas mais pelo clima e pelo entendimento artístico que compartilhamos.

Talvez, uma coisa esteja diretamente ligada à outra: a harmonia que temos, a cumplicidade de ideias e tudo que é produzido em nossa parceria flui a ponto de desaguar em canções que atingem as pessoas de modo próprio e definitivo. Essa tem sido a nossa experiência a partir da resposta recebida.

Mas eu falei em “nova experiência”…

Bem, estamos entrando no estúdio t, onde gravamos nossos álbuns mais recentes, sem nem uma canção definitivamente pronta. Já realizamos trabalhos em que parte do repertório acabou sendo gerado no correr das gravações, como o “Vivendo em Grande Estilo”, e, em outro caso, o “Bogary”, que sequer havíamos ensaiado alguma coisa e o disco todo ficou pronto em 27 dias!

Dessa vez, entramos no estúdio “nus”… Sem nada mais que vontade, ideias, sensações. Trazendo percepções de cheiros e sons da rua, paixão e a busca de um olhar crítico sobre o que acreditamos ser. Chegamos aqui alimentados pelo cotidiano da cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos e cientes de que somos provocados de modo agudo por ela.

E assim vamos: sem uma linha escrita. Apenas esboços e muito desejo de desafiar o desconhecido.

Se o “Bogary” trazia a carga da nossa experiência paulista e a saudade do que deixamos na Soterópolis, essa nova história é plenamente pautada em Salvador, nossa cidade, onde retornamos a viver, sobre a qual temos tanto a dizer e com a qual necessitamos dialogar.

A ponte para esse diálogo está aberta.
Seja bem vindo.

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