Um tanto cedo, por volta de cinco e meia da manhã, já estava de pé. Havia combinado com meu velho amigo (velho porque o conheço há mais de 20 anos!) Ricardo Ferro uma sessão de fotos no Centro de Salvador – esse sim, muito velho! Queria ser fotografado caminhando pela Rua Ruy Barbosa, uma via estreita que liga a famosa Praça Castro Alves à Ladeira da Praça (no caso, da Praça Municipal).

Cresci frequentando um consultório médico de um otorrinolaringologista, que ficava naquela rua (todos sabem que desde pequeno sou surdo de um dos ouvidos). Tinha que fazer o percurso entre o Largo do Tanque até o antigo terminal da Barroquinha, subir as escadarias da igreja de mesmo nome (e onde, nos fundos, nasceu o primeiro candomblé como o conhecemos; leia o livro “O Candomblé da Barroquinha”, por Renato da Silveira) e de lá passar pela frente do antigo e então decadente Cine Glauber Rocha (que antes fora o Cine Guarany e, hoje, revitalizado, recebe o nome de Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha, mas com seu funcionamento comprometido devido ao insistente uso da Praça Castro Alves, onde está localizado, para toda e qualquer manifestação “popular”: de shows/cultos evangélicos e comícios eleitorais a festas ligadas a meios de comunicação) e, em seguida, pelo lindo prédio com fachada de pedra, onde outrora já funcionou a redação do Jornal A Tarde e as primeiras instalações do Estúdio WR. Então, entrava na Rua Ruy Barbosa, contígua àquela que na primeira metade do século XX foi a mais charmosa via pública da Bahia: a Rua Chile.
Esse trajeto faz parte das minhas lembranças de garoto. Toda semana ia lá, ao consultório de Dr. Carlos Fera, e era o mesmo de sempre: esperar duas horas até ser atendido (ordem de chegada era o padrão do esquema INPS, o SUS daqueles tempos; só não entendia porque tinha gente que chegava depois de mim e era atendido antes: ainda não haviam me explicado todas as possibilidades da aplicação da palavra “particular”). Sentado na cadeira tipo dentista, o médico, já um velhinho, pedia que eu virasse a cabeça. Apontava uma lanterninha para meu ouvido surdo, coletava algum material lá de dentro, pingava umas gotinhas de qualquer coisa, conversava com quem estivesse me acompanhando e nos dispensava.
Quando ia com Dindinha, minha tia e madrinha, corria o “risco” de ganhar um passeio com bolinho da Cubana, caso decidíssemos descer o Elevador Lacerda para pegar o ônibus (na Bahia ninguém toma o ônibus: pega) no ponto que fica em frente ao Mercado Modelo. Ou ainda melhor: empadinha da Savoy, lanchonete que fica em frente ao Relógio de São Pedro, na Avenida Sete (oficialmente, Avenida Sete de Setembro). Lá achávamos a mais incrível empadinha.
Na Ruy Barbosa, ficava um sebo de livros que alimentava muito a minha imaginação. Quando a espera era por demais demorada e enfadonha, conseguia escapulir por uns dez minutos e ir olhar a vitrine do Sebo Brandão, que ainda fica lá. Capas e capas: gravuras aos montes, índios em fotos multicoloridas, desenhos de caravelas e dinossauros estampavam livros de capa dura (verde ou vermelha) em tinta dourada… acho que li todos aqueles livros sem jamais tê-los aberto. Nos minutos diante da vitrine, me alimentava de toda aquela informação visual que, no correr da minha vida, foi sendo paulatinamente explicada, a cada passagem, a cada nova experiência!
Era nessas viagens até a Rua Ruy Barbosa que eu tomava contato com outros personagens da cidade: o “Charlie Chaplin da Bahia” (que, parece-me, morreu assassinado com um tiro à queima-roupa), o “Velhinho da Mágica” e, sobretudo, “A Mulher de Roxo”. Meio santa, meio bruxa, vestida de freira, de rainha ou de noiva, diziam ser louca, ter sido rica um dia. Amedrontava e consternava. Num dado momento, terá um texto dedicado a ela aqui e explicarei o porquê.
Por tudo isso e muito mais, decidi que esta sessão de fotos seria lá. Uma sessão de fotos solo, que ainda não tem nenhum objetivo prático e nem faz parte do projeto do disco Aleluia (ao menos, ainda não). Uma sessão de fotos para mim! Chegamos ao nosso destino com a cena bem vazia: eram seis horas da manhã, de uma segunda-feira, véspera de feriado: 7 de setembro. Boa parte da Cidade do Salvador ainda estava dormindo.
Essa rua tem alguns pequenos hotéis e pousadas, estrategicamente ali posicionados: próximos a pontos turísticos importantes de Salvador. Tem também uma galeria de arte, alguns antiquários e o Sebo Brandão. Funcionam, em outros prédios, mais bem conservados, alguns órgãos púbicos, ligados à Câmara de Vereadores e à Prefeitura de Salvador.
Por acaso, encontramos um grande amigo que trabalha naquela região como policial. Conversamos alguns minutos com ele antes de iniciarmos a sessão e logo fomos advertidos: “Sem mole! Ok, moçada?”. O cara é nosso amigo desde a adolescência (conhece o Ricardo Ferro desde a infância, quando estudaram juntos), é policial há bastante tempo, sempre trabalhando ali pelo Centro.
Lembrei com eles essa minha relação com a rua. Falei também da minha perplexidade de ver, cada vez mais, esse centro da cidade abandonado: todo mundo sabe, todo mundo critica, mas nada tem sido feito. É muleta de político falar do crack: câncer social e flagelo! É o que mais se fala.
Depois de algum tempo, nosso amigo “poliça” partiu para concluir seu turno. Ficamos lá, entre um click e outro, ligados, mas ao mesmo tempo sob a vigilância dos porteiros de alguns dos hotéis da rua. A área está realmente sinistra… A degradação da região é tremenda! O Centro de Salvador é uma pérola largada. Será que nenhuma ação séria será tomada pela prefeitura dessa cidade quanto ao trecho mais representativo do seu patrimônio histórico? A imundície entre o Terreiro de Jesus e Rua da Ajuda é quase medieval e certamente faria lembrar os tempos de arruaça de Álvaro Duarte, primeiro playboy da Bahia (bom checar as “aventuras” e comportamento dele que, filho do segundo Governador Geral do Brasil, Duarte da Costa, formou a primeira gang de arruaceiros daqui, no livro “A Coroa, a Cruz e a Espada”, de Eduardo Bueno). Lixo, usuários de crack, vias mal pavimentadas, poluição visual (com a colaboração dos candidatos dessa eleição de 2010)… Tudo muito aquém do merecimento dessa cidade…
Quando falo isso, lembro que nos meus tempos de garoto, essa cidade também tinha os mesmos problemas (exceto o do uso do crack, droga indisponível naqueles tempos). Mas e daí? Até quando? Será que já não nos demos conta da força da existência de todo esse patrimônio de Salvador? Não somente no reposicionamento turístico da cidade, mas também cultural. Seria ótimo se a própria população pudesse usufruir mais daquele trecho onde a cidade de fato nasceu. Seria sensacional se houve opções culturais de fato, como casas de shows estruturadas, bares bacanas que desfrutassem da mais privilegiada vista que Salvador pode oferecer, mas com transporte adequado, segurança eficiente e responsável e serviços que valessem o valor a ser pago, como acontece em outros lugares.
Seria incrível se o poder público municipal se organizasse a ponto de dar àquele lugar uma oportunidade de viver dignamente e não, como observou Ferro, “sobreviver e só…”. Acordar a cidade inteira a partir daquele lugar extraordinário. Aí, sim, Salvador se tornaria referência cultural, disponibilizando a seu povo um circuito cultural.
Seguimos fotografando até perto das oito horas, quando nos demos por satisfeitos. Rumamos para um lanche na Avenida Carlos Gomes: a Esfiha do Chinês! Abre parêntese: onde mais, em que outro local do planeta, a referência de um quitute árabe é um chinês? Na verdade, nem se sabe se era mesmo chinês, pois ele já não é mais o dono do estabelecimento: implantou a lanchonete, vindo de São Paulo, contam, mas já passou o ponto adiante. Reza outra lenda, por conta de ter sido “largado pela amante… brasileira”. Fecha parêntese.
Chegamos ao cruzamento onde se localiza a famosa Esfiha do Chinês e as portas estavam fechadas. Lembramos de outra lanchonete, na Rua Chile, logo depois da Rua do Tira Chapéu, na Praça Municipal. Voltamos… Paramos à porta, onde funcionários preparavam para abri-la para o dia de trabalho. Combinei com Ricardo Ferro de irmos rodando até encontrar um lugar para tomar um café e comer alguma coisa… Qualquer coisa.
Descemos a Rua Chile, cruzamos a Praça Castro Alves novamente, pegamos a Avenida Carlos Gomes, passamos pelo Largo dos Aflitos, seguimos até o Campo Grande: a Praça Dois de Julho (a original)… Encontramos uma padaria no Canela, perto da Escola de Belas Artes, na Rua Floriano Peixoto, se não me engano. Ricardo costuma frequentá-la. Coincidentemente, somente ali, àquela hora, oito e pouca da manhã, a cidade parecia acordar. Tomara.