Há bastante tempo temos conversado sobre o próximo disco do CASCADURA e o que ele deveria ser ou não ser. Curioso, pois nunca passamos tanto tempo desenvolvendo conceitos.
Um pouco da nossa história (CASCADURA + produtor andré t):
Começamos a trabalhar juntos quase dez anos atrás, com um EP que se transformou no disco “Vivendo em Grande Estilo” (lançado em 2004). Entramos no estúdio e fizemos o álbum: simples assim!
Alguns anos depois, com a banda reduzida a Fábio e Thiago, chamamos Jô Estrada para a função de coprodutor (acumulada à de guitarrista) e gravamos o “Bogary”. Nesse disco, tivemos um tempo de preparação de conceitos: dois ou três cafés na casa de Jô (onde lutávamos para convencer Fábio a deixar “Adeus, Solidão” no disco), divididos entre inúmeras discussões sobre a música dos Beatles, Beach Boys, os artistas da Atlantic e os causos do nosso grande amigo Alvaro Tattoo!
No estúdio, o trabalho foi muito simples: Fábio tocava a música no violão, nós conversávamos um pouco sobre o que fazer (bem pouco mesmo) e Thiago sentava na bateria, muitas vezes sem nem saber a estrutura completa da música! E o trabalho fluiu…
Resolvemos continuar com esse grupo para o Aleluia; além de trabalharmos bem juntos, ao ponto de muitas vezes não precisar falar absolutamente nada e todos entenderem, somos muito amigos fora do trabalho e conversamos sobre tudo.
Desta vez, as coisas estão um tanto diferentes. Uma coisa aconteceu paralela e coincidentemente a todos: uma “redescoberta” da nossa casa. Da minha parte, passei pouco mais de dois meses entre São Paulo e Rio no ano passado, gravando e mixando o disco “Chiaroscuro”, de Pitty, e, ao mesmo tempo que foi um trabalho recompensador, entre amigos muito queridos, não via a hora de voltar para casa, e ouvir o sotaque que é peculiar a Salvador.
Essa “redescoberta” fez muito desse conceito do Aleluia. Que tal olhar para a cidade em que vivemos e reinterpretar nossa música e nossa maneira de apresentá-la? Que tal quebrar alguns paradigmas e mudar quase que completamente nosso modus operandi? Que tal não fazer um “Bogary 2, A Volta”? Que tal fazer algo que nos estimule e nos desafie, para que possamos fazer algo melhor do que tudo que já fizemos antes?…
Ao mesmo tempo que olhamos para a nossa cidade e para as nossas raízes, olhamos também para as raízes desse tal de rock’n'roll, um certo rhythm’n'blues que veio justamente dos filhos e netos dos escravos (alguma coincidência aqui?). Voltamos a falar da Atlantic (ouçam Atlantic Rhythm’n'Blues, coletânea fantástica), como conversei com Fábio num dos nossos primeiros encontros, onde descobrimos nosso amor mútuo pela música de Ray Charles (aliás, eu poderia passar horas falando só dele), Aretha Franklin, Otis Redding etc.
Mas e o disco? Simplesmente estamos dando um tratamento único para cada música. O normal e mais rápido numa gravação, como Fábio já explicou, é montar a estrutura e fazer todas as baterias e baixos juntos, numa só sentada! No Aleluia, estamos fazendo questão de trabalhar cada música de uma maneira particular, muitas vezes com instrumentação muito diferente entre uma e outra.
Thiago, por exemplo, está experimentando gravar com vários kits de bateria diferentes, com afinações e técnicas de gravação que nunca tentamos antes. E não é que ele está tocando melhor do que nunca? Acho que esse desafio, entre os quais tocar algumas coisas de uma maneira muito suave, o está fazendo buscar qualidades que ele nem sabia que tinha! Além do mais, agora vemos nosso baterista tocando percussão erudita. Ao mesmo tempo, ele, um paulistano-soteropolitano, é um dos primeiros a falar do tal do sotaque de Salvador.
Num próximo texto, falarei um pouco mais sobre o processo de gravação e suas peculiaridades. Agora estou ansioso pela próxima sessão, onde deveremos ter uma visita ilustríssima!
Ah, Ray Charles…
Trinta anos atrás, quando começava a tocar piano, chegava da escola e procurava algo diferente para ouvir, dentre os discos do meu pai. Descobri um disco duplo com uma capa escura com um perfil de uma pessoa. Era um disco ao vivo do Ray Charles. Pronto! Depois disso, todos os dias chegava correndo em casa, punha o disco no “três-em-um” e tentava tocar que nem ele. Ainda não consegui…