A caligrafia do Aleluia
sexta-feira, 18 maio 2012 - postado por assessoria de imprensa
Este texto foi escrito pelo designer Ricardo Ferro, o diretor de arte da capa e encarte do Aleluia – que, aliás, estão também disponíveis no download do disco (é só baixar que você leva as músicas e tudo mais junto).
A imagem acima é mais do que simbólica. É a minha versão da obra Aleluia da banda Cascadura.
Vou explicar. Quando Fábio Cascadura veio me contar do novo disco (duplo) que estava gravando e me convidou para fazer a direção de arte, eu vi nas palavras dele a realização de uma ideia que já vinha sendo maturada há tempos. Mas não sabia como ela estava sendo realizada. Então, eu não tinha muita referência a não ser o painel grafitado por Izolag e Ananda e algumas incursões minhas ao estúdio de andré t, quando presenciei algumas sessões de gravação. Mas a ideia toda era para mim um grande rascunho.
Tempos depois, a banda publicou a primeira música do disco, Colombo. Aquela rabeca (espécie de violino rústico medieval) que abre a canção foi o mote necessário para guiar parte do meu trabalho. O disco fala da cidade de Salvador, suas origens, suas idiossincrasias. E assim seria difícil deixar de relatar a convivência entre o velho e o novo, a cidade histórica e a cidade moderna. Decidi, então, que trataria todo o texto do disco, incluindo letras e fichas técnicas, da forma mais antiga que eu possuía: tinta e pena caligráfica de metal. Transcreveria todo o texto à mão. Os ajustes de imagem, a parte digital (não se pode mais fugir dela) e arte-final seriam feitas com outra caneta: a da minha mesa digitalizadora.
E é isso: fiz a foto para mostrar a pena caligráfica de metal, de raízes medievais (*), e a caneta digital, lado a lado. Ambas conviveram muito bem durante todo o trabalho. Nem sempre exatamente como eu queria. Nem sempre exatamente como (eu achava que) deveria ser, mas sempre deixando uma sensação de dever cumprido, de realização. E, confesso, apaixonei-me ao final. Assim como Salvador. Assim como o Aleluia.
(*) A pena feita de pena de animal mesmo data dos séculos 600-1700. As penas que usei, de metal, evoluídas a partir das primeiras, com pontas quadradas ou não, ganharam relevância no começo do século 19, com ranhuras e saliências que facilitaram o acúmulo de tinta em seus corpos metálicos, aumentando a duração e o comprimento do traço.











