Izolag & Ananda Nahu!

terça-feira, 01 fevereiro 2011 - postado por fabiocascadura

Virei a esquina entre a Rua São Raimundo e a Rua Direita da Piedade, no Centro, e percebi que alguém me olhava fixamente… Senti esse olhar com a visão periférica e, de chofre, me virei, num reflexo de defesa muito comum.

Aí, saquei que não era alguém de carne e osso, mas uma imagem grafitada num muro esquecido logo ali. Era a figura de uma mulher negra, usando um penteado black power, agachada, de olhos fixos para o infinito (o que dá a impressão de que ela está olhando quem passa diante dela).

De imediato, fiquei pasmo com a expressão daquele desenho e com o realismo impregnado pela técnica do artista. Nunca tinha visto algo assim na rua!

Eu gosto muito da arte do grafite. Quando ando pela cidade, fico particularmente atraído pelas impressões em muros e paredes, analisando as formas e cores. Sempre achei de uma destreza imensa quem consegue dominar jatos de spray a ponto de criar desenhos intricados e multicoloridos.

Ao lado do desenho dessa mulher, havia também um outro, de um cara com um megafone, um pouco mais colorido e com efeito de volume, como se em três dimensões…

Fiquei uns minutos admirando e me perguntando: “Quem teria feito isso?!”.

Depois de observar os muitos detalhes da imagem, percebi uma pequena assinatura e um e-mail impressos na base da figura. Notei: Ananda_Nahu! Guardei essa informação e saí…

Passados uns dias, sem que eu tomasse iniciativa para pesquisar sobre aquela assinatura, num trajeto que cruzava a Rua Lucaia, onde essa se encontra com a Avenida Juracy Magalhães Jr., próximo ao Rio Vermelho, passei rapidamente (não lembro se vinha de carro ou ônibus) por outro desenho com o mesmo realismo da figura que havia visto antes no centro de Salvador: “Deve ser do mesmo artista…”, pensei. Tinha o desenho de uma Billie Holliday, muito bonito e igualmente realista (talvez, mais realista ainda que o que eu vira anteriormente).

Daí, fui notando outras impressões, com aqueles traços, espalhadas pela cidade: Avenida Contorno, Viaduto da Graça, Politeama… Num desses, achei outra assinatura: Izolag. Então, decidi tentar contato pelo veiculo disponível: o e-mail.

Escrevi para aquele endereço eletrônico um texto falando de como as gravuras por eles feitas nas paredes de Salvador haviam me impressionado e etc e tal… Esperei uma resposta que não veio.

Numa visita que fiz ao estúdio de tatuagem do amigo Álvaro Medrado, encontrei seu colega Robson, também tatuador e conhecido artisticamente como Finho. Sabia que Robson Finho, além de grande talento da tatuagem, era grafiteiro, conhecia das artes de controlar os jatos de spray. Comentei com ele das figuras, da impressão que aquilo havia me causado. Citei os nomes que havia colhido nas assinaturas das obras e ele disse que os conhecia! Pedi que ele me pusesse em contato com os artistas, pois queria conhecê-los. Ele disse que tentaria, mas que eles viviam viajando.

Esse caminho mostrou-se pouco eficaz também: apesar do esforço de Robson em me ajudar a chegar aos dois artistas, fiquei ainda sem encontrá-los… Mas continuava a ver algumas de suas gravuras pela cidade. Aos poucos, infelizmente, elas foram sendo apagadas, por vândalos ou pela própria ordem pública que, cega ao valor do que eles criaram, passava uma triste tinta cinza por cima delas.

Passaram-se alguns meses desde o primeiro contato com esse legado deles e acabei procurando registros sobre os autores na internet: não achei muita coisa. Basicamente, Fotologs das duas personas, mas ainda sem muitos registros fotográficos do que eles faziam.

Soube pelo amigo Finho que eles haviam saído da cidade e agora moravam em outro lugar: ora diziam que eles estavam no Rio de Janeiro (que fiquei sabendo ser a cidade natal de Izolag) e, em outros momentos, que estariam em Petrolina/PE, cidade onde vive a família de Ananda Nahu.

Outro grande amigo, Ricardo Ferro, me falou que cursaram a Escola de Belas Artes da UFBA. Que tinha conversado com eles e que os admirava. Segui admirando-os também, pela internet. A cada vez que visitava seus canais de exposição na rede virtual, achava mais obras e fotos de ações e intervenções urbanas de sua autoria. Mas muito pouca informação sobre como falar com eles. Pelo Fotolog, eles não aceitavam comentários.

Durante essa busca, me perguntei do porque d’eu estar tão interessado em conhecê-los. Estava para além de 2006, portanto o disco Bogary já havia sido lançado, sua capa já estava pronta e não tínhamos nenhum motivo para contatá-los para alguma ação visual no entorno da obra do CASCADURA, naquele instante. A resposta me veio na inquietude provocada em mim pela expressão do que eles registraram nas ruas.

Havia em suas gravuras uma conexão com o moderno e o tradicional. Além de uma identificação imediata com o referencial musical: a obra de Ananda Nahu e Izolag é recheada de citações à música negra americana: o jazz, a soul music, o blues… tudo isso está em mim, tanto quanto no CASCADURA… E neles, obviamente.

Também, tinha nisso tudo uma afirmação da força do desdobramento da Diáspora Africana, o surgimento de uma nova cultura, híbrida, que se tornou, ao longo do Século XX, hegemônica por meio do viés conhecido como Cultura POP! Mas o que eles fazem não pode ser simplesmente rotulado de Pop Art, ainda que sofra, consciente ou inconscientemente, uma grande influencia desse movimento.

Meu encantamento só cresceu…

O tempo seguiu em anos e, durante o processo de composição das canções que farão parte do disco que agora estamos gravando, o “Aleluia”, encontrei-me por diversas vezes recorrendo às imagens disponíveis na internet para ganhar algum tipo de centelha criativa nesse ou naquele detalhe melódico ou lírico. A partir daí, sentia que estava sofrendo realmente uma interferência da arte de ambos, uma influência.

Chegou a hora de realizar uma nova obra e todo o conceito do “Aleluia” veio à tona. Numa reunião, sugeri que as ilustrações para a capa do disco fossem feitas por eles: Izolag e Ananda. Mas como encontrá-los? Por meio das redes sociais, Orkut e Facebook, acabei encontrando seus perfis e propondo um contato mais constante. Fui aceito e logo estava me comunicando com eles. Fiz-lhes o convite para participarem do projeto do nosso novo álbum e eles assentiram, o que me deixou feliz.

Por meio da internet também passei a ter noção do alcance da arte dos dois: citados no livro “The Stencil History X” (publicação que através de critérios rígidos e bem definidos aponta as grandes expressões da técnica do estêncil), Ananda e Izolag representam o que há de melhor em sua arte no mundo! Obras deles estão espalhadas pelas galerias do planeta, com trabalhos expostos em Amsterdam, Nova York, Paris, Londres, Vancouver, São Paulo, Rio de Janeiro… Foi ótimo perceber que, além de competentes e talentosos, eles são bem sucedidos, de modo honesto e com reconhecimento irrepreensível.

A despeito de sua competência, Izolag e Ananda são de uma simplicidade cativante. Me conquistaram por sua objetividade, sua competência e sobretudo pela vasta cultura musical. Eles ouvem muito do que amo e ainda trouxeram novas referências para a minha dieta musical.

Recentemente, Izolag foi matéria da conceituada revista + Soma. Dentre outras coisas, a publicação dá muita ênfase à importância da música na obra deles e a carga emocional, que caracteriza tanto o trabalho da dupla.

Vê-los em ação foi um deleite, um espanto: a lona bege foi ganhando cor, insinuando formas e, de repente, eis que surgem as figuras, uma a uma, que vão então formando um painel suntuoso e que, visualmente, traduzem o sentimento do que será o disco: “Aleluia!”.

Sobre o processo de construção das ilustrações, da oportunidade única que foi vê-los trabalhar e a observação sobre o seu método criativo, falarei num novo texto. Izolag e Ananda são demais para um texto só…

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Sanguinho Novo 2011: SUCESSO!

segunda-feira, 31 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Pensamos num projeto que reunisse um público médio de 1000 pessoas por apresentação. Nos surpreendemos com a procura: foram mais de 5 mil pessoas que viram os shows do Sanguinho Novo, nos quatro domingos em que ele aconteceu, durante o mês de janeiro de 2011, no Largo Tereza Batista (Pelourinho. Salvador/BA). Sendo que muita gente ficou do lado de fora.

Na noite de encerramento, a fila alcançava a Catedral Basílica, no terreiro de Jesus. Para quem não conhece o sítio do Centro Histórico de Salvador, isso corresponde a quase 1 quilometro de fila serpenteando pelas ladeiras de pedra do Pelourinho!

Gente de toda origem, de toda cor, de todas as “tendências”… Um público fantástico, não somente por seu numero, mas especialmente por seu comportamento.
Ver toda essa multidão se juntar para ver as bandas “da terra”, cantar suas canções (as vezes, dançar mais que cantar, como foi o caso do show da banda instrumental Vendo 147), foi um ponto muito especial dessa realização.

O CASCADURA procurou unir pessoas em torno da produção cultural alternativa (roqueira ou não) soteropolitana para lembrar essas mesmas pessoas de suas responsabilidades civis. O tema escolhido foi a doação voluntária de sangue.

Mas existem intenções que excedem essas duas abordagens. O que pretendemos de verdade é fazer com que a cidade tome conta da cidade: demos essa pequena contribuição e esperamos que outros se disponham a fazê-lo também.

Cremos que, para além do entretenimento, o artista pode trazer outras provocações úteis para as platéias. Foi uma felicidade receber o retorno positivo de quem foi, ao menos uma única das quatro etapas do Sanguinho Novo, quanto a proposta que fizemos.

A disposição das bandas convidadas em colaborar foi algo espetacular.

Além de subirem ao palco com grande profissionalismo, proporcionando ainda mais brilho a todo evento com apresentações acima da média, Velotroz, Maglore, Dubstereo e a já citada Vendo 147, mostraram a força de uma nova geração do rock soteropolitano. Trouxeram novas canções, novas propostas, novo vigor e reafirmando o dinamismo de um panorama que não cessa em produzir. Aliás, a escolha dessas bandas teve como critério principal a produção desses jovens artistas. Todos arregaçam as mangas e se põem a trabalhar para divulgar a sua arte, sem esperar qualquer solução cair do céu ou reclamar das dificuldades no caminho.
Dificuldades existem para serem suplantadas. É possível! O Sanguinho Novo mostrou isso. Nos identificamos com essa atitudes e por isso decidimos convidá-los e reuni-los nesse evento. A despeito do velho questionamento sobre o “espaço” do rock em Salvador, o Sanguinho também mostrou onde ele está: no coração das pessoas!

As pessoas! As pessoas que estavam na platéia deram um outro show à Salvador.

Quatro fins de tarde de domingo, entrando pela noite! Todas com a praça lotada, em sua capacidade máxima. Duas delas, a primeira e a última, com uma fila enorme a espera de uma chance para entrar, com os shows já em andamento. Nenhum incidente. Nada! Nenhuma briga, nenhum caso de violência… Nada! Somente a convivência pacifica. Certo que, alguns se assustam quando a galera mais “vigorosa” dança seu pogo no centro da platéia, parecendo estar brigando, numa dança que já é tradição no seio do mundo do rock. No meio daquele bolo afoito, só entra quem tem disposição. Como se diz na Bahia: “Se não agüenta a vara, peça cacetinho!”. No mais, todos a seu modo e de uma maneira muito democrática, se divertiram. Tenho muito orgulho do público que segue o CASCADURA e não canso de dizer isso. É uma grande conquista!
Assim, concluímos o Projeto Sanguinho Novo, lavados de alegria, emoção e êxito. Esse é um mérito nosso, da nossa equipe (reunimos um time fantástico que com grande competência soube lidar com cada detalhe para que o resultado fosse o que foi: um sucesso), dos parceiros, do público e dos que apostaram na possibilidade de um evento diferente, novo. Sanguinho Novo! Porque a música circula e se renova…

foto por Léo Monteiro (Projeto Sanguinho Novo. 30.01.2011)

Tenho muito que agradecer, em nome do CASCADURA, pelos momentos de alegria que dividimos lá no Largo Tereza Batista. Tudo isso nos fortalece e nos trás ainda mais disposição para por em prática os novos projetos que temos.
Muito obrigado a todos!

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A Mulher de Roxo

quarta-feira, 26 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Lembra quando comentei aqui, no post “Na Ruy Barbosa”, sobre a região que compreende a Rua Chile, Rua da Ajuda, a própria Rua Ruy Barbosa, Praça Castro Alves, no Centro de Salvador? É… Falei naquele texto sobre a minha história com aquele pedaço da cidade. Que costumava ir lá, quando ali ainda havia lojas bem cuidadas, consultórios médicos e um comércio mais aquecido. Muito antes daquele trecho cair em abandono pelas autoridades devido ao deslocamento das atividades comerciais para outras regiões da cidade, deixando-o sem nenhum plano estratégico de manutenção e conservação. É um daqueles “precedentes dos absurdos”, do qual falava o Governador Mangabeira…

Pois bem… Criança, quando eu passava pela Rua Chile, descendo de mãos dadas com algum adulto da minha família, costumava me deparar com a figura exótica conhecida na Bahia como “A Mulher de Roxo”. Ela surgia, velha de face muito enrugada, vestindo um hábito, ou suposto hábito, de freira de uma ordem desconhecida. Seu traje era marcadamente roxo. Contavam que tinha aparecido ali, do nada, vestida desse modo, vinda sabe-se lá de onde, por ter sido abandonada pelo noivo no altar. Outras versões dão que ela teria sido forçada a casar com alguém indesejável em detrimento de um amor verdadeiro… Muitas histórias de sua procedência rondavam as calçadas das antiga rua mais chique de Salvador.

Existe quem conte que ela chamava-se Florinda Santos, que era vinda de família outrora abastada da zona caucaueira, no sul do estado. Com certeza, sabia-se que ela apareceria, todos os dias, entre a Praça Municipal e a Praça Castro Alves, caminhando bem cedinho pela Rua Chile. Passava o dia mendigando, pedindo colaborações para seu almoço, seu lanche da tarde. Conversando fiado com habitués da região. Por vezes, aparecia com um batom e se maquiava diante de uma vitrine. A extinta Loja Slopper era seu ponto referencial. Tantas vezes acompanhei minha tia Amandina, que chamo carinhosamente de Dindinha (apesar de ela ser a madrinha do meu irmão mais velho), a essa famosa loja de departamentos, onde as senhoras das famílias de classe média iam comprar “presente bom” pra agradar alguém (e nem da classe média nos éramos…), e lá na porta encontrava aquela pessoa sombria aos meus olhos infantis, que, dizem, tinha voz meiga e doce, e hábitos inocentes.

Uma certa vez, essa mulher me olhou, comentou “Que menino bonito!” e veio passar a mão pela minha cabeça. Me escondi atrás de quem me portava e esbocei aquele choro… Na verdade, a Mulher de Roxo servia como ameaça para qualquer falta cometida pelas crianças: “Se não ficar quieto, a Mulher de Roxo vem e te pega, ouviu?!”, “A Mulher de Roxo gosta de pegar menino que chora a toa…”, “Menino, se não comer eu vou deixar a Mulher de Roxo te pegar!”. E assim era… Passados os anos, com o avanço da sua velhice, ela acabou ganhando notoriedade de lenda viva, habitando entre o real e o imaginário da cidade do Salvador. Tão famosa ficou que jornais dos anos 1970 e 80 costumavam editar matérias sobre a misteriosa. Há até uma em PDF, do extinto Jornal da Bahia, à disposição na internet. Este inclusive cita e destaca um suposto encontro entre o famoso compositor Caetano Veloso e a Mulher de Roxo.

Vamos lembrar o que já disse: no fim dos anos 70, apesar de uma certa depressão haver se abatido sobre aquele trecho, a Chile ainda gozava de um status de ponto elegante de compras em Soterópolis. Lá estavam, além da Slopper, a casa O Adamastor (que foi de propriedade do pai do cineasta conquistense Glauber Rocha), o elegante Hotel Palace e outros… Remexendo nas gavetas da memória, encontrei essa personagem e ela me remeteu a uma situação muito comum na nossa sociedade: a repressão ao feminino! Como? Repressão na Bahia? “Vai descendo na boquinha da garrafa…”, “Segure o Tchan! Amarre o Tchan…” Não tem nada mais machista que a sensualização exarcebada da mulher. E eu não estou aqui criticando a conduta e a abordagem das bandas de pagode, estou só constatando um fato. A freira e a piriguete são faces da mesma moeda: a repressão ao feminino. E teremos oportunidade de discutir esses dois lados, aqui no A Ponte e no próprio disco “Aleluia” (me cobrem um post sobre “A Verdadeira”).

E a Mulher de Roxo?
Quando lembrei dela, em carreata pela minha mente, surgiram outras peças que compuseram o cotidiano da minha infância, de um modo POP baiano/brazuca: o jornalista França Teixeira (com seu bordão “Minha cara, minha nobre família baiana), “A Escrava Isaura”, o falecido radialista-populista Fernando José (que narrava o gol dizendo ao goleiro “Vai buscar [a bola] no fundo, fulano-de-tal…” e que, depois, numa estratégia sórdida dos caciques da terra, foi irresponsavelmente conduzido ao gabinete da Prefeitura de Salvador, e lembrado como o pior administrador que essa cidade já teve, até que esta atual gestão ocupasse o Palácio Tomé de Souza)…

A religiosidade e a profanação estavam encarnados na Mulher de Roxo. Quer algo mais baiano? Em quem ela teria se inspirado para vestir-se de freira? Irmã Dulce? Uma Irmã Dulce do mundo bizarro? Ou do mundo real?… Do nosso mundo… Apesar de nunca tê-la visto trajando outra coisa senão aquela veste modorrenta, ela também se vestiu de rainha, com coroa e tudo, e ainda de noiva. Um relato que me foi prestado sobre ela veio do amigo Álvaro Medrado, famoso tatuador que ainda rapaz veio da Ilha de Itaparica trabalhar em Salvador: “Eu lembro de passar por ali, na Rua Chile, porque era meu trajeto da casa para o trabalho, e me deparar com ela, de saias levantadas, fazendo… as suas necessidades…”. Incomodava também…

O diabo é que para mim foi passado que ela era incômoda. Pesquisando, encontro um monte de textos falando dela com certa ternura. Então, por que não fomos com ela? Não fomos por ela… Poucos se compadeceram e buscaram cuidar de algum modo do bem-estar da Mulher de Roxo – certamente o pessoal do também extinto Albergue Municipal, que ficava localizado da Av. J.J. Seabra, popularmente conhecida como Baixa dos Sapateiros (onde Ary Barroso encontrou a morena mais frajola da Bahia), era exceção. Lá era onde ela pernoitava.

Florinda dos Santos morreu em 1997. A Mulher de Roxo seguiu no imaginário dos que tomaram contato com a sua existência… Enfim, veio à tona uma canção. Uma algaravia de sons em riffs pesados: A Mulher de Roxo! Mais surpreendente é que é um rock dos mais rocks que já fiz… Levei ao estúdio e já pusemos a gravar. Assim, a Mulher de Roxo retorna…

Outros relatos sobre A Mulher de Roxo e sua história aqui na internet:
No Blog do Gutemberg
No Recanto das Letras
No 15 Mistérios

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Enfim, de volta ao palco!

sexta-feira, 21 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Como se diz na gíria: 2011 chegou chegando! Veio com o projeto Sanguinho Novo, onde apresentamos um novo show, inserindo músicas inéditas que farão parte do Aleluia, numa proposta de dividir o palco com bandas mais novas e de trabalho relevante no cenário musical soteropolitano, e ainda chamar atenção para a necessidade da doação voluntária de sangue.

As duas primeiras etapas das quatro do projeto foram de grande sucesso. Na primeira, fomos surpreendidos por um número muito maior do que imaginávamos de pessoas interessadas em participar dessa ação: algo em torno de 2 mil pessoas ficaram de fora da estreia no Largo Tereza Batista, sendo que a lotação oficial do espaço do pelourinho é de 1.200.

Como as acomodações do camarim da praça são bem pequenas, decidimos nos aquartelar numa pousada que fica ali perto. E de lá vimos e ouvimos a Dubstereo agitar a massa numa proporção que ainda nos era desconhecida. Claro que somos admiradores da trajetória e da obra desse jovem projeto, que dá uma identidade ultracontemporânea ao painel musical de Salvador. Claro que acompanhamos suas ações e que conhecemos seu potencial. Mas eles se superaram. Um monte de gente cantava boa parte das músicas por eles apresentadas, a plenos pulmões, com toda empolgação. Memorável! Somos agradecidos à Dubstereo por sua adesão ao Sanguinho Novo. Queremos muito reviver essa parceria. Aguardem!

E chegou a nossa hora! A multidão ainda esperava a chance de entrar. Atravessamos a rua estreita e muito cheia até chegarmos ao portão de entrada. Subimos as escadas e esperamos ser chamados pelo mestre de cerimônias Tiago Moura (também conhecido como Tiago “Curto Circuito”, nome do seu programa de rádio). Ao som de “Hooked on a feeling”, do Blue Swede, entramos para tocar.

O show foi, antes de tudo, uma catarse. Um desabafo da saudade! Nossa e dos nossos fãs. Estamos falando de exatos 12 meses de ausência dos palcos. Corremos com canções do Bogary, do Vivendo em Grande Estilo e quatro das tantas que virão compor o Aleluia, dentre as quais a própria canção título, “O Rei do Olhar”, “O Delator” (da qual já falamos aqui e que no disco contará com a participação especial de Jajá Cardoso, da Vivendo do Ócio) e “O Tempo Pode Virar”, que encerra parte importante da apresentação.

Além das novas canções, o novo show vem com os novos colaboradores, andré t, Jô Estrada e Du Txai, e com eles um novo comportamento, onde nos revezamos por entre guitarras, baixo e teclados, para suprir as necessidades dos arranjos que desenvolvemos. Isso trouxe nova cara e vitalidade para canções antigas como “Wendy”, onde passei a tocar baixo, além de cantar, e andré toca teclado.

A praça estava realmente lotada. O público empolgado. Dançava, agitava, cantava emociandamente conosco, emocionando-me! Mas com todas as coisas que fez, comportou-se de modo exemplar! Ali, não houve um único incidente. E que siga assim. Saímos de alma lavada pela espera, pelo trabalho executado, pelo esforço, nosso e de nossos parceiros e equipe.

Porém, ainda tínhamos muito o que fazer nos dias seguintes. Como falei: 2011 chegou chegando! E ao passo que vamos desenvolvendo o Sanguinho Novo, nos pusemos de volta ao Aleluia.

Enquanto nos preparávamos para realizar o segundo show, dessa vez dividindo o palco com a excelente Vendo 147 na abertura, recebemos duas figuras que vieram para contribuir com toda a abordagem que pretendemos em nosso novo álbum: os artistas plásticos Izolag e Ananda Nahu. Com eles, embarcamos num tipo de aventura pela arte visual: produção frenética, injeção de cores e muitas surpresas saltando aos nossos olhos. Eles vieram conceber e produzir as ilustrações da capa do disco e essa é uma matéria que trataremos com o cuidado devido aqui.

Não bastando, ainda em paralelo, realizamos um encontro no estúdio com outro artista que trouxe sua incisiva colaboração. Essa pessoa veio ajudar-nos a contar uma das histórias mais importantes do Aleluia e que, sem ela, talvez não teríamos como fazer… Aguardem mais novidades.

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Supernovos!

quinta-feira, 06 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Esse é mais texto de apresentação. Parece que estamos de fato começando uma nova fase porque tenho abordado, por diversos motivos e de diversas formas, apresentações sobre tudo que cerca a carreira do CASCADURA.

Antes de apresentar quem devo, aqui, queria falar sobre um aspecto muito particular da banda: sua formação. Começamos há quase 19 anos e quando se inicia um projeto sempre pensamos e desejamos ter a permanência dos que contribuem com ele. Desejamos seguir fazendo música com aquele mesmo grupo… Pelo resto dos dias. Quase nunca isso é possível.

Se você me pedir para falar o nome de bandas de sucesso que atravessaram carreiras duradouras com as mesmas formações, juro que não me lembrarei de muitas. Na verdade, só me vem à memória o ZZ Top!
“E o The Police?” – Acabou!
“Paralamas do Sucesso!” – Vital comprou uma moto…
Enfim, nem os Rolling Stones… Nem os Beatles conseguiram manter o mesmo séquito durante toda a sua existência como grupo (Pete Best e Stu Stutcliff que o diga).

“Ah! Nesses casos sai um, sai outro… Mas com o Cascadura é demais!”…
Pois é… Já fui grilado com isso e não sou mais. E parece que grande parte dos que acompanham a nossa carreira também.

A alternância de colaboradores na formação do CASCADURA acabou por tornar-se uma característica da banda. Tivemos a oportunidade de ter conosco gente de toda origem, formação, com as mais diversas perspectivas e ambições artísticas. E creia: isso é bom! Esse processo nos faz reinventarmos! Nos faz reaprendermos a ser nós mesmos em diversas possibilidades… Entendeu?… Bom, vou seguir…

Mas esse preâmbulo todo vem para justamente apresentar aqueles que subirão ao palco do Largo Tereza Batista conosco, na programação do projeto Sanguinho Novo. Apresentar é forma de dizer, porque você certamente já os conhece:

andré t

Quem acompanha o CASCADURA sabe da relação estreita entre nós e o nosso produtor, que, por sinal, também faz parte do NÓS! Trabalhamos juntos desde 2002, quando realizamos um EP Promo, comemorativo de 10 anos de carreira (naquele disquinho estavam canções como “Não Posso Julgar Ninguém”, “Retribuição” e “Queda Livre”), e, a partir desse passo, começamos a trilhar uma parceria que já conta com os discos “Vivendo em Grande Estilo” e “Bogary”, além do DVD “Efeito Bogary”.

andré estuda piano desde os sete anos de idade, é músico por vocação, quase um sacerdote da canção! Amante do bom rock (Queen, Beatles, Genesis…), ele já trabalhou com gente de todas as orientações estéticas possíveis: de Carlinhos Brown a Bestiário, passando por Retrofoguetes, Messias, Nancyta e os Grazzers.

No estúdio t, estamos nos desafiando, juntos, na construção do “Aleluia”, próximo álbum do CASCADURA. E foi lá que surgiu a proposta de experimentarmos tocar juntos, em palco. Algo que ainda não havíamos feito.

O Professor t, como o chamamos, é chegado a um desafio e, em geral, os domina com seu talento e bom gosto. Temos a sorte de contar com ele para o Sanguinho Novo tocando baixo e teclados.

Jô Estrada

Eu conheci esse cara como o virtuoso guitarrista da lendária banda soteropolitana de hard rock Dead Easy, no começinho dos anos 1990. Logo depois de tê-lo visto em ação nos palcos da cidade com esse trio, que fez parte do nascimento de todo o circuito que se construiu naquela década, eles partiram para novas experiências no Rio.

Na capital fluminense, a banda encerrou as atividades e Jô seguiu se apresentando como músico de apoio e session man dos estúdios de lá. Na virada para a década passada, ele voltou a morar na Bahia e nos reencontramos. Jô me influenciou naquele momento me apresentando coisas como Queens of the Stone Age e o disco “Shangrila-Dee-Da” (Stone Temple Pilots). Beatlemaníaco, chegamos a tocar juntos em alguns projetos para homenagear nossa banda favorita, também com Thiago Trad na bateria.

Mas nossa parceria mais bem sucedida até aqui foi mesmo a sua participação como guitarrista e coprodutor no “Bogary”. Sabe as guitarras e baixo de “Senhor das Moscas”? É ele quem toca! Sabe o solo de guitarra 12 cordas em “Juntos Somos Nós”? É a mesma criança tocando! O corinho em “O Centro do Universo”? Ele ta lá também. Sua contribuição ao “Bogary” foi definitiva. E de tão espontânea e prazerosa que foi a sua presença no estúdio, decidimos repetir a dose nesse novo trabalho, o “Aleluia”!

Recentemente ele esteve morando em São Paulo e lá deu seguimento ao seu projeto pessoal Lacme, com quem lançou um disco, também produzido por andré t, chamado “Reverse”. Agora, ele vem trazer ao show do CASCADURA algumas das suas qualidades: maestria na guitarra, voz precisa e carisma. Jô é, acima de tudo, um cara muito divertido e bom amigo.

Du Txai

Ele veio da Índia! Mentira! Ele veio de Porto Seguro mesmo. E quem o trouxe foi Jô.

Du é um cara tímido que conhecemos muito recentemente. Somente depois que ele estava ensaiando conosco, há algumas semanas, é que o ligamos à banda Suinga, que tanta atenção vem conquistando das pessoas nessa temporada. Du é o baterista desse grupo.

O fato é que, pianinho, o cara nos conquistou, por sua discrição musical e sua precisão no instrumento. Ainda de quebra ele canta muito bem: afinadíssimo! Filho de músico, ele tem muito que mostrar ainda. Sua trajetória está só no começo. Logo todos constatarão o que digo: Du Txai tem tudo para se destacar como o músico mais completo de sua geração! Quem for ao Sanguinho Novo terá a oportunidade de tomar contato com as qualidades desse guitarrista.

No mais, estaremos eu e Thiago Trad, no impulso de sempre!

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E é Verão…

quarta-feira, 05 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Quando pisarmos no palco do Largo Tereza Batista, no Pelourinho, na estreia do projeto Sanguinho Novo, estaremos dando início a uma nova etapa em nossa carreira. Será a abertura de um novo processo com novos colaboradores no palco, novo repertório, nova abordagem artística… Não sei se tudo isso estará tão evidente para os que a nós assistirem. Mas, certamente, esse momento trará novas emoções a todos.

Ainda não posso definir muito bem que emoção é essa que nos toma agora. Há uma ansiedade pairando no ar. Temos tomado cuidados com detalhes dentro do show que estamos montando e ensaiando arduamente em estúdio. Mas tem também uma curiosidade imensa em saber a opinião daqueles que realmente importam para o CASCADURA: os fãs!

Somos conscientes de que esse é um reencontro aguardado, por nós e pelos fãs, há um ano. O show mais recente do CASCADURA deu-se em 30 de janeiro de 2010! Foi a despedida da turnê do Bogary. Depois disso, como todos já sabem, entramos em estúdio para a gravação do Aleluia. Como o disco ainda não foi lançado, essa não é a turnê referente a ele. É sim a realização de um dos projetos que temos e pelo qual nutrimos grande carinho, por sua motivação social e artística.

Não quero entregar o jogo antes da hora. A surpresa é ingrediente fundamental no sucesso do que nos propomos a fazer. Mas todos podem ir à apresentação de estreia do Sanguinho Novo certos de que uma história inteira será contada ali e a aurora de um novo CASCADURA também lhes será apresentada. Também é da nossa vontade mostrar um repertório diferente a cada apresentação, que ocorrerá na programação do projeto, a cada domingo até o final do mês de janeiro.

Em paralelo à realização do Sanguinho Novo, estaremos dando continuidade à parte mais aguda das gravações do Aleluia. Nesse mês, entraremos em estúdio com muitas novidades: gravações de arranjos, participações especiais de amigos… Acabamento! Tudo isso será detalhado aqui ao passo que for acontecendo e quem vier aqui acompanhará essa história.

Assim, o Verão, que agora se faz imponente em seu calor sobre a Cidade da Bahia, será muito atarefado para nós, do CASCADURA.

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2010… 2011!

sexta-feira, 31 dezembro 2010 - postado por fabiocascadura

2010 vai chegando ao fim e eu não estou aqui para fazer retrospectiva. Quero pensar para frente!

Nesse ano, demos um tempo dos palcos e voltamos ao estúdio, para realizar uma nova obra: o Aleluia! Ainda estamos no processo de construção dessa nova história, com novas abordagens e novas perspectivas dentro do som que fazemos. Entraremos em 2011 buscando sua conclusão, porém, antes mesmo de chegarmos ao final desse trabalho, já tornamos a abraçar a nossa profissão de fé: tocar ao vivo.

2011 vem com promessas de renovação e com o nosso projeto Sanguinho Novo, logo de cara, em seu ventre. Já estamos ansiosos com a possibilidade de mostrar nosso novo show, com um novo CASCADURA. Mas o CASCADURA de sempre também estará lá, motivado pela comunhão que se manifesta em nossas apresentações, com a participação da gente que nos acompanha e pela qual seguimos produzindo. Não fosse essa moçada, nenhum sentido haveria em escrever canções, ensaiá-las, pensá-las, gravá-las e tocá-las. É o turbilhão de emoções da experiência do show que nos dá combustível para continuar e isso só é possível porque há quem acredite no valor do que oferecemos.

Por isso, só posso agradecer a todos que se mantiveram atentos, nos incentivando e nos cobrando, nesse ano de 2010. Agradecer aos fãs, ao fã-site Portal Cascadura, à nossa equipe, aos nossos parceiros,… Enfim, aos que nos auxiliam de toda forma. Percebemos a força do que temos criado através do interesse de quem observa e aguarda o desenrolar da nossa carreira. Nesse 2010, mesmo sem termos lançado nada, sem o CASCADURA ter feito apresentações, aparentemente o número de nossos “seguidores” parece ter aumentado. Com a honra que isso nos traz, vem também o aumento da responsabilidade com o que fazemos e com o que faremos. Podem crer que lembramos disso a cada instante e só posso agradecer a confiança. 2011 vem para fazer-nos testemunhar um novo passo.

Ao subirmos no palco do Largo Tereza Batista, no Pelourinho, em alguns dias, retomaremos um encontro há muito esperado e estaremos também presenciando um novo encontro de novos artistas que estão fazendo muito pela música em nossa cidade e para o resto do país: Vendo 147, Velotroz, Maglore e Dubstereo correspondem a uma parte do que há de mais novo nesse panorama atual da música feita em Salvador. Entre si e com o CASCADURA, elas têm em comum a característica de buscar interagir com o cotidiano e a realidade da Soterópolis, não satisfeitas em descansar após qualquer conquista, seguindo sempre em movimento… Por isso nos identificamos com elas, por isso elas estarão conosco no Sanguinho Novo.

Há uns dias tivemos um encontro, lá mesmo no Pelourinho, entre representantes de todos os grupos participantes e o que se viu foi uma troca de ideias e informações, uma comunhão geral e uma disposição de fazer desse momento algo único para os que lá estiverem. Lembrando que, ao lado da música e da festa, o Sanguinho Novo propõe também chamar atenção para a necessidade da doação voluntária de sangue, para a importância de oferecer uma oportunidade de vida a quem precisa, nas horas mais críticas…

Que esse instrumento, que o blog A Ponte, siga nos conectando, até quando ele nos servir nesse propósito. Desejamos aprimorar ainda mais nossos canais de comunicação. Isso é enriquecedor!

Então, venha 2011! Venha cheio de possibilidades e certo que te enfrentaremos, confiantes e plenos de coragem, como temos feito sempre.

Feliz Ano Novo!

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#DVDPittynoCirco

segunda-feira, 20 dezembro 2010 - postado por fabiocascadura

Foi uma experiência única! Fazer parte da gravação do novo DVD da amiga Pitty, com toda galera que a acompanha, todos amigos de longa data, foi realmente um prazer enorme.

Os ensaios já traziam a carga emocional daquilo que vivenciaríamos no palco. Sob a direção de Rafael Ramos, que faz a produção musical de toda a obra da Pitty, foi desenvolvida a estrutura da música com a minha participação. Ficou muito legal. As dicas de Rafael foram bastante precisas e todas deram certo.

Não bastando estar com os amigos da banda tradicional (Pitty, Martin, Duda e Joe), ainda conheci o tecladista Bruno Cunha, que passa a excursionar como membro da trupe, e também o grande Hique Gomez, violinista/cantor/performer conhecido por todos por seu projeto Tangos & Tragédias, que já correu o Brasil levando humor e música, e ali também para fazer uma participação no DVD, na canção “Água Contida”.

Iria somente apresentar “Sob o Sol”, parceria minha com a Pitty, gravada nas sessões do álbum Chiaroscuro e que acaba de ser lançada no Lado B de um lindo compacto de vinil preto e branco, que também conta com o sucesso “Me Adora” no Lado A. Mas, lá mesmo, nos ensaios, foi sugerido que tocássemos, em regime de experiência, a música “Senhor das Moscas”, do Bogary. O resultado foi tão bacana que acabaram levando-a para o show também. Não acredito que faça parte do DVD, mas a reação de todos foi tão positiva que já valeu!

A viagem entre São Paulo (onde ensaiamos) e o Rio de Janeiro, onde rolaria o show, no histórico Circo Voador, foi feita de ônibus com boa parte da equipe a bordo. Apesar de toda camaradagem e bom papo que acabou fluindo e da alegria de todos em participar desse projeto, o trajeto não foi nada fácil: é que a saída de São Paulo é realmente movimentada (ainda mais num fim de tarde de sexta-feira) e um engarrafamento nos atrasou em mais de quatro horas. Resultado: só chegamos ao Rio na madrugada do dia do show, quando deveríamos estar lá ainda no começo da noite do dia anterior! Ok…

Ainda cedo, acordei e fui dar um giro pela vizinhança do hotel, que ficava no tradicional bairro da Glória. Já conhecia aquele trecho do Rio e aproveitei somente para caminhar, andar por entre a gente carioca, rever alguns lugares que acho bacanas: Largo do Machado, Catete, Jardim do Museu da República… Na volta, encontrei Duda disposto a um banho de mar antes de ir para o Circo Voador e começar os preparativos para a grande noite. Topei!

Fomos à praia do Leme, eu, Duda e Léo Leone. Demos um mergulho naquelas águas geladas, tão características das praias cariocas. Não demoramos muito: ainda havia muito o que fazer. Fiquei no hotel enquanto, aos grupos, quase todos foram dar sua contribuição à montagem do espetáculo e de toda a estrutura para sua captura em audiovisual. Uma equipe de cinegrafistas (dentre eles o amigo Rafael Kent, aqui de Salvador, além do grande Ricardo Spencer, diretor da empreitada) circulava a caminho do local do show/filmagem enquanto outros da equipe técnica preparavam o som, o cenário (desenvolvido pelo Renan, que já conhecia pela internet por ser fã da Pitty), camarim e tudo mais que envolve a produção de um show.

Acabei chegando ao Circo Voador por volta das 17h30 e tudo já estava praticamente pronto. Aguardei somente que o som fosse acertado e subi para ensaiar minha parte, agora, no palco, com tudo que aconteceria na hora do show. E como não poderia ser diferente, tudo deu muito certo… Aliás, parece que tudo que foi planejado correu como deveria. Isso deu mais confiança a todos e a satisfação estava muito evidente nos sorrisos e cumprimentos entre os envolvidos.

Encontrei com o amigo Fred (Supergalo, ex-Raimundos) que não via há um tempo, acho que desde que ele veio com a Supergalo tocar em Salvador, no Carnaval de 2008, a nosso convite, num trio. Além dele, outras figuras do Rio de Janeiro fizeram questão de levar seu abraço a Pitty e equipe pela realização desse DVD, dentre eles Marcelo D2: muito tranquilo e simpático. Muito legal perceber o carinho que todos têm com o trabalho de Pitty. Não somente com ela, que, por seu carisma, sempre cativa a todos, mas especialmente pelas coisas que ela fala e expõe em suas canções e em sua atitude, levando em uma nova argumentação uma série de temas à discussão por muita gente (jovem) que, sem essa iniciativa, estaria à margem de qualquer oportunidade de debate.

Pouco antes de subir ao palco, no camarim, fui convidado a fazer parte da “roda”: Pitty, Duda, Martin, Joe, Bruno, Hique, Rafael Ramos, eu… nenhuma palavra dita. Um “Hey!” pronunciado por ela e a magia estava feita! Subiram ao palco para uma sequência de canções que, segundo eles, eram “lados B”. Na verdade, as mais de 2 mil pessoas que lá estavam conheciam todas as músicas e participaram de cada uma delas com toda força, toda vontade, toda vibração. Bonito de ver.

Teve um outro momento significativo, ainda no começo, que ficou marcado: enquanto tocavam “Desconstruindo Amélia”, a banda via um monte de garotas, nos ombros de amigos(as), ficarem somente de sutiã! Algumas tentaram até ir além, mas não rolou…

A participação de Hique Gomez foi fantástica. Além de grande musicista, ele também é um cara ligado às performances teatrais e trouxe ao show um toque muito especial: sendo um tango, ele e Pitty acabaram arriscando uns passos durante a música “Água Contida”.

Depois da primeira metade da apresentação, chegou o momento da minha participação. Foi muito emocionante entrar no palco do Circo Voador (onde só havia pisado uma vez, num show com Cascadura e Cachorro Grande) e partilhar essa canção. A resposta da galera não poderia ter sido mais bacana: muito carinhosos, todos! Para a surpresa da assistência, ainda emendamos “Senhor das Moscas” que, aí para a minha surpresa, muitos conheciam.

Já na coxia, após o término, fomos convidados a repetir a performance a pedido de Ricardo Spencer, e Rafael foi muito enfático: “Olha, gente… Ficou ótimo! A performance e a interpretação estão prontas. Mas o pessoal da captura de vídeo (Spencer) pediu para repetir porque faltou filmar alguma coisa. Pode ser?” Não é algo que seja muito confortável… Pitty muito sensivelmente me perguntou se tudo bem pra mim e eu disse que “sim”… Lá vamos nós outra vez.

Eles voltaram como num bis, mandaram uma para reaquecer e então viria mais uma versão de “Sob o Sol”: Pitty canta a primeira estrofe, eu entro no refrão e… alguma coisa acontece no meu coração e nós dois erramos os nossos trechos da letra e essa nova tentativa ficou na tentativa mesmo… Pena! Fiquei pensando se aquilo comprometeria o resultado final.

Logo todos estavam confraternizando numa festa improvisada no camarim. Todos celebrando o êxito na realização desse projeto. Ao final, chamei Spencer e ele disse: “Cara a sua participação arrepiou! Ficou muito bom! As vozes de vocês dois… Blá, blá, blá…”. Aí, eu falei: “Legal, man… pena que não capturou direito, né? Foram poucas tomadas?”. Ele respondeu meio espantado: “Oxe… capturamos direito, sim! Filmamos tudo! Peguei todos os closes que imaginei…”. E eu: “Ô?! E por que você pediu para refazermos a minha parte?!”. Aí, ele arremessou: “Foi tão bonito que eu queria ver de novo!…”

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Bahia de Todos os Rocks 2010!

segunda-feira, 29 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Dia 23 de novembro, uma terça à noite, fui à cerimônia de entrega do Prêmio Bahia de Todos os Rocks 2010. Na edição anterior, de 2008, o Cascadura recebeu os prêmios de Banda do Ano e Melhor Clipe, por “Mesmo Eu Estando do Outro Lado”, dirigido por Zeca de Souza e Luis “Mingau” Guilherme.

O Prêmio é uma ideia muito legal do pessoal da PutzGrillo!, jovem produtora local, e visa a premiar a produção do rock baiano, além de criar uma oportunidade de congraçamento entre todos que participam desse mercado.

Esse ano, não tivemos indicação, não concorremos em nenhuma categoria. Nosso lançamento dentro do período julgado (2009-2010) foi o DVD Efeito Bogary e não há categoria em que ele se enquadre (além de o conteúdo dessa obra já ter sido avaliado). Porém, além de vários amigos estarem participando como concorrentes, acho de grande relevância prestigiar a festa.

Aconteceu no Teatro Casa do Comércio, mesmo lugar da cerimônia da primeira edição. Foi uma premiação justa com muitos trabalhos importantes sendo apontados aos troféus (que é uma brincadeira bem sacada com uma “figa”) e com a participação de boa parte dos que circulam pelos espaços da chamada cena alternativa soteropolitana. A falta, na minha opinião, está justamente aí: é preciso chegar ao interior da Bahia, onde há boa produção também.

Do mesmo modo, gostaria de ver ali outras possibilidades para além do rock, como o reggae e a música eletrônica, que, se não estão alinhados esteticamente, têm muito que contribuir para o crescimento e a circulação dessa orientação cultural. Enfim, o Prêmio Bahia de Todos os Rocks pode, daqui para frente, dar uma contribuição ainda maior ao panorama artístico da cidade e do estado, chamando à adesão uma gama maior de artistas e estilos.

No mais, foi uma felicidade ver o reconhecimento e o carinho de todos que estavam lá com gente como Messias, que recebeu o prêmio de “Música do Ano” por sua “Resilience”; como Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta (houve um pequeno incidente que acabou dando mais charme à apresentação deles, que também concorriam à “Música do Ano”: a guitarra de Edinho não funcionou e ele, como não podia tocar, cantou e dançou. Foi sensacional!); bacana o prêmio de “Músico Destaque” para Morotó, que, ao meu ver, sempre será indicado (na ausência do premiado, quem acabou indo buscar o troféu foi seu parceiro de Retrofoguetes, Rex, que também concorria na categoria. Foi engraçadíssimo vê-lo lá! Rex é um cara muito espirituoso e inteligente. Deveria inclusive ser cotado para apresentar as próximas edições).

A banda Quarteto de Cinco levou o prêmio “iBahia Garage Band”, o que a credencia a participar do Festival de Verão 2011; o videoclipe vencedor foi o da Teclas Pretas (talvez a concorrência mais acirrada do Prêmio); Silvis Rodrigues ganhou como “Designer do Ano” e Luciano Matos, pelo blog El Cabong, levou “Mídia do Ano”. Merecidíssimo o prêmio para “Frascos, Comprimidos e Compressas”, de Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta: “Disco do Ano”! Bem como para “Banda do Ano”, que foi a Vivendo do Ócio (eles fizeram um 2010 fantástico, trazendo adimiração e orgulho a todos nós que curtimos o som deles), e o “Show do Ano”: Paulinho Oliveira, que aniversariava naquela noite.

Na 1ª edição, o prêmio mais aplaudido foi o que foi oferecido ao pessoal d’Os Panteras, batizado de “Dinossauro Referência” (parêntese: acho o nome desse prêmio muito feio. Poderiam escolher um título melhor, menos pseudopomposo. Talvez bastasse “Referência Rock”… Mas Dinossauro Referência é feio demais…). Nessa edição, este prêmio coube ao comunicador, radialista e agitador cultural Valdir Serrão, o Big Ben!

Antes de mais nada, a homenagem é mais que merecida: Valdir Serrão é um cara que tem sua marca na história do rock local. Com cinco ou seis anos de idade, lembro do programa que ele tinha na TV Itapoan, o “Som do Big Ben”, e depois escutei mil outras histórias de suas iniciativas para divulgar o rock’n’roll, o reggae e outros estilos por aqui (tem aquela famosa lenda de que, em 1969 ou 70, ele teria colocado “Voodoo Chile”, de Jimi Hendrix, para tocar em seu programa na rádio e durante a execução choveram telefonemas perguntando por que a estação estava fora do ar…). Enfim, o prêmio é mais que merecido. Só achei que a produção do vídeo de apresentação não foi a contento. Tem que ter mais cuidado ao expor uma figura pública, tanto mais quando vamos homenageá-la.

No mais, espero que daqui pra frente o Prêmio Bahia de Todos os Rocks só cresça, contribuindo para tornar ainda mais visível o resultado do esforço de quem trabalha pela música na Bahia.
Parabéns aos indicados, aos premiados, aos organizadores… Enfim: Parabéns!

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“Valeu, tio!”

sexta-feira, 19 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Falei em um post anterior sobre alguns álbuns recém-lançados que nos forneceram combustível para pensar num conceito para nosso próximo disco de estúdio, o Aleluia, esse mesmo, matéria-prima e razão de ser desse blog.

Falei do “Chá Chá Chá” (Retrofoguetes), “Frascos, Comprimidos, Compressas” (Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta), “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” (homônimo) e “Maçalê” (Tiganá Santana). Óbvio que não só disso vive o Aleluia, mas esses marcaram por serem obras contemporâneas, de artistas que estão num patamar de ascensão dentro do panorama musical brasileiro e que, acima de tudo, representam a inquietude diante da própria música.

Mas deixei de citar um outro disco, lançado há pouco tempo e que, tanto quanto ou mais que estes, interfere na produção que estamos fazendo em estúdio e nos ensina algumas coisas para além da música que pretendemos criar: “Zii e Zie”, de Caetano Veloso.

Escutei esse disco pela primeira vez na casa do próprio num período em que nos aproximamos, exatamente porque ele nos citou no blog que criou para expor o processo de criação desse álbum, exatamente como estamos fazendo com o Aleluia, aqui, em A Ponte.

Mas nossa relação com Caetano vem de antes: uma vez, nos idos de 1999, encontrei um amigo no Largo de Santana (Rio Vermelho). Era um começo de noite de uma sexta-feira e eu estava ali para encontrar com Martin e Jorginho (o famoso King Cobra). Éramos parceiros num evento que vinha acontecendo havia alguns meses: o Rock Nights! Toda semana, (Dr.) CASCADURA e King Cobra (banda da qual, então, Martin era guitarrista) revezavam-se no palco do Havana Sushi Bar, exatamente naquela praça. Eram noites bem concorridas e que nos custaram muito trabalho para tornarem-se assim, prestigiadas. As edições do Rock Nights aconteciam nas quintas e o combinado com a direção da casa era recebemos o cachê da noite anterior no começo da noite de sexta. Eu sempre ia acompanhado do então Cascadura Paulinho Oliveira, e encontrávamos com os dois “Cobras”.

Nessa noite, porém, me encontrei com esse camarada, o lendário Alexandre “Polho” Torres, que nos disse: “Você viu? Caetano falou de vocês na MTV! Foi no Jornal da MTV, agora há pouco…”.

“Cuma?”
Tanto eu quanto Paulinho achamos que havia um engano aí: Caetano é famoso e nós somos uma banda de rock soteropolitana suando para sobreviver localmente! Ele confirmou e, sabendo que nos encontraria ali (na época, nenhum de nós tinha telefone celular), veio nos encontrar para comentar o fato (e de quebra sentar para uma rodada de cerveja e papo). Ele repetiu umas três vezes que Caetano tinha dito no programa da MTV que estava escutando “uma banda de Salvador que fazia um rock assim… bem Stones: Dr. Cascadura!”.

Seguimos descrentes, até que chegou um outro amigo: Wallace (hoje guitarrista da banda de rock ultrapauleira Bestiário). E qual foi a primeira frase dele? “Poxa! Caetano falou que está escutando vocês!”… “Porra, véi… Foi mesmo?”. Polho não perdeu a deixa: “Viu aí, mané?! Eu tô maluco?!”.

Aquilo repercutiu por um tempo e nos trouxe satisfação: era sinal de que estávamos trabalhando bastante e fazendo nossa obra chegar ao maior número de pessoas possível, dentro da nossa limitação (sobretudo, orçamentária). Mas logo demos sequência e seguimos.

Ficamos sabendo que Caetano, que costuma passar temporadas de verão em Salvador e, nestes períodos, habitualmente, frequenta o Rio Vermelho, foi a uma loja de discos do bairro, a extinta Na Mosca, e pediu ao Tony Lopes, proprietário do estabelecimento, algumas “novidades” da Bahia. Acabou caindo-lhe as mãos nossos dois primeiros discos: “Dr. Cascadura #1” (1997) e “Entre!” (1999). E pronto…

Esse lance de “Caetano falou de vocês”, virava e mexia, vinha à baila. Só que, com o tempo, fomos dando cada vez menos ênfase a isso. Não tenho certeza, mas acho que ele acabou fazendo esse comentário de estar escutando CASCADURA em mais alguns outros veículos, sendo que eu mesmo jamais havia lido, ouvido ou o visto falar de nós.

Passa um tempo, a banda muda, a música muda, “pererê-parará-pão-duro”, como dizia minha mãe… Eis o Verão de 2008/09. Quando chegam as festas de fim de ano, é tradição em Salvador o baile “O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes”. É praticamente uma festa de confraternização entre os que frequentam e trabalham no circuito de música alternativa da cidade. E sempre que dá, eles me chamam para uma canja. Eu adoro participar.

Os Retrofoguetes são organizados em suas diversas ações, não dão ponto sem nó. Para esses shows com convidados, fazem questão de armar um ensaio antes da apresentação. Para a festa do Natal de 2008, além de mim, do maestro Letieres e o pessoal da Anacê, eles convidaram nosso amigo Glauber Guimarães.

Glauber é primo de Rex (baterista dos Retro), foi ele quem me substituiu quando saí d’Os Feios, banda de rock 50’s da qual fazia parte, juntamente com Joe (hoje baixista de Pitty), Morotó (guitarra) e o próprio Rex Crotus, na bateria. Depois, como todos sabem, eles se tornariam os The Dead Billies e Glauber mudaria seu nome para Moskabilly. Ok…

Passadas essas aventuras, Glauber acabou desenvolvendo-se como compositor e cantor (dando ênfase ao seu projeto Teclas Pretas) e, naquele instante, estava muito ligado ao universo virtual dos blogs. Ele chegou ao ensaio, onde eu já estava (foi no estúdio de Bola, ex-guitarrista da Dinky Dau e Sangria, na região do Largo 2 de Julho, Centro de Salvador), e me cumprimentou dizendo: “Caetano falou de vocês…”. “De novo essa conversa?!”, pensei. “Mas foi essa semana! Você viu?!”, ele completou, e ainda afirmou que “está escrito na internet…”.

Glauber vinha acompanhando uma estratégia inovadora de Caetano para divulgar seu disco. “Pois é, bicho! O cara tá gravando um disco novo e decidiu expor todo o processo de construção em um blog na internet, onde, quem quiser, fica sabendo o que tá rolando no estúdio, nos shows de preparação e desenvolvimento desse trabalho… Chama-se: ‘Obra em Progresso’ e lá ele disse que curte o som do Cascadura e que vem acompanhando vocês!”, contou.

“Pera aê, Glauber!.. Ele tá gravando um disco e mostrando o que tá fazendo antes de lançar?”, me assustei com a informação. Caetano é um “medalhão”. Se essa estratégia fosse implementada por alguém do universo alternativo, eu até compreenderia, acharia natural, pois a necessidade de lançar mão de algumas ferramentas mais radicais para divulgação dos projetos dessa fatia do mercado é sempre eminente. Mas um cara que trabalha num patamar como o dele?…
“Vá lá ver, rapaz!”, sugeriu.
Eu fui…

Li o texto em que ele nos cita, li o texto em que ele falava da música do disco, da abordagem, do conceito do álbum, dos shows que faria/fizera no Canecão, no Rio, onde testaria possibilidades e arranjos e li mais: os comentários dos que visitavam o blog “Obra em Progresso”.

Centenas de comentários por post. Havia uma legião de fãs, curiosos e detratores ali, prontos para debater, bater papo, comentar somente, mandar um alô, um beijinho, fazer uma graça ou xingar o Caetano. E ele estava lá, nu! Exposto, debatendo o quer que fosse, contra-argumentando, concordando… O legal ali era que quem lesse poderia comentar. Não era, como de costume em casos de artistas de grande alcance, uma via de mão única. Podia-se “responder”, com grandes possibilidades de réplica por parte do autor.

Tendo ele nos elogiado e chamado a atenção para o CASCADURA em seu texto, decidi deixar um comentário, agradecendo o carinho e tal… Não lembro se houve réplica, mas fiquei de boa com isso tudo e segui… Foi quando nosso produtor de então, Dimitri, foi ao Rio Vermelho e acabou encontrando com o próprio Caetano: “Oi, Caetano! Eu sou produtor do CASCADURA, sabe?! Os caras ficaram contentes com seu texto e tal… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Parece que Caetano falou que queria nos conhecer e Dimitri disse que iria me ligar para que pudéssemos falar.

“Alô, Fábio… É o Caetano!..”, era a voz do “Cinema Transcendental” mesmo. “Olha, vamos nos encontrar uma hora dessas… Acho o som de vocês demais… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Foram uns cinco minutos de papo e deixei uns telefones com ele, caso ele quisesse ligar e marcar algo.

Passaram-se algumas semanas e no meio de uma partida de buraco da qual eu participava somente para fazer número (minha sogra, meu cunhado e esposa sabem jogar. Eu, não), toca o telefone: “Oi, Fábio! É o Caetano… Vai fazer o quê hoje?!

O cara me convidou para ir a uma festa na casa dele aqui em Salvador e lá, enfim, nos conhecemos pessoalmente. Gente fina! Tava lá a galera do Grupo de Teatro Olodum, o produtor Arto Lindsey, o músico e arranjador Tuzé de Abreu e dentre outros tantos famosos David Byrne (ex-Talking Heads).

Caetano fez questão de nos apresentar a ele e não perdeu a chance de uma brincadeira (em inglês fluente): “David, esses são roqueiros daqui de Salvador… Eles odeiam pagode, axé e carnaval!..”, falou com um meio sorriso zombeteiro e tomando um drinque. Eu, de supetão, quis contradizê-lo, falando um “It’s not true…”, e me saí com um estúpido “Not too much!”. O círculo irrompeu em gargalhas (“Olha, David! Eu sou preconceituoso, mas NEM TANTO!”, seria a tradução da gafe que cometi).

O Mr. Byrne nem nos deu trela, mais simpático foi o Arto Lindsey. Mas estávamos ali para conhecer Caetano e era o que valia. Fomos eu, Thiago Trad, acompanhados das namoradas, e Dimitri. Conversamos um tempo sobre música. Ele falou muito bem da produção do Bogary, com propriedade de quem realmente ouviu. Citei a vontade de fazer um próximo disco mais diferente e arriscado, buscando diálogos com informações locais e cheguei a dizer que “tenho vontade de justapor Stones e samba-reggae”. Ele fez cara de “É…” (?).

Passadas algumas horas, fomos nos despedir. Ele pediu que voltássemos num dia qualquer, somente para trocar informações sobre música e arte. Esse retorno acabou acontecendo três semanas depois, e com a presença de Glauber, que ele pediu que eu levasse, e andré t, outro que pediu que convidasse, desde que munido de algumas coisas que vinha trabalhando em estúdio, além de Trad e Heitor, um amigo e parceiro de Glauber.

Passamos uma tarde conversando sobre histórias do passado (muitas das quais já conhecia de livros sobre a música brasileira), tiramos dúvidas sobre o rock em Salvador no período em que ele morou aqui (entre os 50 e 60 do século passado), o escutamos dizer algumas vezes “Caras, eu sou ‘tiozinho’! As vezes as pessoas se esquecem, mas sou ‘tiozinho’!”, e ele falou sobre o que deveria vir a ser seu próximo disco, o que estava expondo no blog “Obra em Progresso”.

Daí, ele convidou-nos a ouvir música na sala (antes estávamos num pátio na frente da casa). andré t levou um CD com uma compilação de produções dele: Messias (músicas do que depois viria a ser o sensacional álbum triplo “Escrever-me, Envelhecer-me, Esquecer-me”), que parece ter gostado muito, e uma demo de um projeto dub no qual eu e ele vínhamos trabalhando com uma dupla de baixo-bateria fenomenal. Quando tocou a primeira das faixas dessa experiência (que estava, como ainda está, inacabada), Caetano deu um sorriso e disse: “Esse é o som!”. Explicamos que era um projeto aberto e que não sabíamos exatamente o que fazer com aquilo. E ele mandou: “Quero participar também!”. Logo depois, numa entrevista coletiva aqui em Salvador, ele tornaria a comentar esse projeto e sua vontade de fazer parte dele.

Atenção, você que me lê agora: até aqui, escrevi a introdução do texto… O assunto vem agora!

Terminado o CD levado por andré, Caetano pegou um outro CD-R e disse: “Esse é o ‘Zii e Zie’, meu novo disco. Vou pôr para vocês ouvirem”. Entrou uma música extremamente diferente… Era guitarra e era samba. Mas não era guitarra e samba de Benjor ou Gil… Era outra parada! E era da boa! A sequência ia rolando e a gente meio espantado, para o visível deleite dele. Quando tocou uma que hoje sei chamar-se “Menina da Ria”, comentei que lembrava um frevo torto com suspiros McCartianos (sic!): “Um frevo-beatle!”.

Caetano explicou seu desejo de falar com o olho de sua geração, “de tios e tias”, sobre o Rio de Janeiro. Acendeu-se uma lâmpada sobre a minha cabeça! Na real, já estava acesa. Só ganhou alguns watts de potência.

Antes de escutar o “Zii e Zie”, ali e depois com mais calma, em casa, já queria um disco do CASCADURA todo DE Salvador, em contraponto ao Bogary, que foi feito em São Paulo, mas PARA Salvador. Porém o modo articulado apresentado nesse disco de Caetano, com sua banda formada sobre instrumentos identificados como “de rock”, com seu som mais vivo e claro que o “Cê”, supostamente o “disco roqueiro” de sua obra, levou-me a certeza de que teria que enfrentar esse desejo, desapegando-me de muito do que estava comigo em termos de crença e perspectiva, no que diz respeito à minha própria produção. Será que me fiz entender?…

Ao final da “audição”, ele nos perguntou o que havíamos achado. Visivelmente mexidos, elogiamos. andré emendou uma analise técnica mais apurada e lançou seu “Não gostei do som do ‘Cê’…”. Exato! Caetano arregalou os olhos e parece ter achado massa a sinceridade de andré, tanto mais quando ele explicou que o som do “Zii e Zie” era muito superior e a produção, que valorizava as “salas” de cada instrumento, dava a esse disco um som próprio e muito bem acabado. Ele explicou o porquê do nome, “Zii e Zie”, sendo reforçado pelos complementos de Glauber, bem mais interado naquele momento das intenções que ele havia exposto no “Obra em Progresso”.

Terminamos essa com abraços e promessas de breve reencontro. Com o passar dos meses, o “Zii e Zie” foi lançado, trazendo espanto, admiração de muitos e também certa rejeição da parte de quem não o assimilou. Segui ouvindo-o. Entendendo que, nele, Caetano busca tratar da sua territorialidade vigente: o Rio de Janeiro em seus diversos aspectos. Esse olhar, muito simples e objetivo, reforçou a trilha que buscava e que, somado aos outros discos, a alguns livros e filmes, ajuda a compor o mosaico de influências que adornam o Aleluia.

Ainda mais: a forma como o disco foi apresentado, com seus shows de teste no Canecão e o infalível blog “Obra em Progresso”. Não fosse aquela experiência, talvez não tivéssemos o impulso de fazer o mesmo com o nosso novo álbum de estúdio, abrindo o processo para que todos possam saber um pouco mais do caminho que estamos percorrendo. Não fosse assim, talvez eu não estivesse escrevendo essas linhas e você não as estaria lendo. Por isso, tenho que agradecer a Caetano Veloso: “Valeu, tio!”

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