Izolag & Ananda Nahu!
terça-feira, 01 fevereiro 2011 - postado por fabiocascadura
Virei a esquina entre a Rua São Raimundo e a Rua Direita da Piedade, no Centro, e percebi que alguém me olhava fixamente… Senti esse olhar com a visão periférica e, de chofre, me virei, num reflexo de defesa muito comum.
Aí, saquei que não era alguém de carne e osso, mas uma imagem grafitada num muro esquecido logo ali. Era a figura de uma mulher negra, usando um penteado black power, agachada, de olhos fixos para o infinito (o que dá a impressão de que ela está olhando quem passa diante dela).
De imediato, fiquei pasmo com a expressão daquele desenho e com o realismo impregnado pela técnica do artista. Nunca tinha visto algo assim na rua!
Eu gosto muito da arte do grafite. Quando ando pela cidade, fico particularmente atraído pelas impressões em muros e paredes, analisando as formas e cores. Sempre achei de uma destreza imensa quem consegue dominar jatos de spray a ponto de criar desenhos intricados e multicoloridos.
Ao lado do desenho dessa mulher, havia também um outro, de um cara com um megafone, um pouco mais colorido e com efeito de volume, como se em três dimensões…
Fiquei uns minutos admirando e me perguntando: “Quem teria feito isso?!”.
Depois de observar os muitos detalhes da imagem, percebi uma pequena assinatura e um e-mail impressos na base da figura. Notei: Ananda_Nahu! Guardei essa informação e saí…
Passados uns dias, sem que eu tomasse iniciativa para pesquisar sobre aquela assinatura, num trajeto que cruzava a Rua Lucaia, onde essa se encontra com a Avenida Juracy Magalhães Jr., próximo ao Rio Vermelho, passei rapidamente (não lembro se vinha de carro ou ônibus) por outro desenho com o mesmo realismo da figura que havia visto antes no centro de Salvador: “Deve ser do mesmo artista…”, pensei. Tinha o desenho de uma Billie Holliday, muito bonito e igualmente realista (talvez, mais realista ainda que o que eu vira anteriormente).
Daí, fui notando outras impressões, com aqueles traços, espalhadas pela cidade: Avenida Contorno, Viaduto da Graça, Politeama… Num desses, achei outra assinatura: Izolag. Então, decidi tentar contato pelo veiculo disponível: o e-mail.
Escrevi para aquele endereço eletrônico um texto falando de como as gravuras por eles feitas nas paredes de Salvador haviam me impressionado e etc e tal… Esperei uma resposta que não veio.
Numa visita que fiz ao estúdio de tatuagem do amigo Álvaro Medrado, encontrei seu colega Robson, também tatuador e conhecido artisticamente como Finho. Sabia que Robson Finho, além de grande talento da tatuagem, era grafiteiro, conhecia das artes de controlar os jatos de spray. Comentei com ele das figuras, da impressão que aquilo havia me causado. Citei os nomes que havia colhido nas assinaturas das obras e ele disse que os conhecia! Pedi que ele me pusesse em contato com os artistas, pois queria conhecê-los. Ele disse que tentaria, mas que eles viviam viajando.
Esse caminho mostrou-se pouco eficaz também: apesar do esforço de Robson em me ajudar a chegar aos dois artistas, fiquei ainda sem encontrá-los… Mas continuava a ver algumas de suas gravuras pela cidade. Aos poucos, infelizmente, elas foram sendo apagadas, por vândalos ou pela própria ordem pública que, cega ao valor do que eles criaram, passava uma triste tinta cinza por cima delas.
Passaram-se alguns meses desde o primeiro contato com esse legado deles e acabei procurando registros sobre os autores na internet: não achei muita coisa. Basicamente, Fotologs das duas personas, mas ainda sem muitos registros fotográficos do que eles faziam.
Soube pelo amigo Finho que eles haviam saído da cidade e agora moravam em outro lugar: ora diziam que eles estavam no Rio de Janeiro (que fiquei sabendo ser a cidade natal de Izolag) e, em outros momentos, que estariam em Petrolina/PE, cidade onde vive a família de Ananda Nahu.
Outro grande amigo, Ricardo Ferro, me falou que cursaram a Escola de Belas Artes da UFBA. Que tinha conversado com eles e que os admirava. Segui admirando-os também, pela internet. A cada vez que visitava seus canais de exposição na rede virtual, achava mais obras e fotos de ações e intervenções urbanas de sua autoria. Mas muito pouca informação sobre como falar com eles. Pelo Fotolog, eles não aceitavam comentários.
Durante essa busca, me perguntei do porque d’eu estar tão interessado em conhecê-los. Estava para além de 2006, portanto o disco Bogary já havia sido lançado, sua capa já estava pronta e não tínhamos nenhum motivo para contatá-los para alguma ação visual no entorno da obra do CASCADURA, naquele instante. A resposta me veio na inquietude provocada em mim pela expressão do que eles registraram nas ruas.
Havia em suas gravuras uma conexão com o moderno e o tradicional. Além de uma identificação imediata com o referencial musical: a obra de Ananda Nahu e Izolag é recheada de citações à música negra americana: o jazz, a soul music, o blues… tudo isso está em mim, tanto quanto no CASCADURA… E neles, obviamente.
Também, tinha nisso tudo uma afirmação da força do desdobramento da Diáspora Africana, o surgimento de uma nova cultura, híbrida, que se tornou, ao longo do Século XX, hegemônica por meio do viés conhecido como Cultura POP! Mas o que eles fazem não pode ser simplesmente rotulado de Pop Art, ainda que sofra, consciente ou inconscientemente, uma grande influencia desse movimento.
Meu encantamento só cresceu…
O tempo seguiu em anos e, durante o processo de composição das canções que farão parte do disco que agora estamos gravando, o “Aleluia”, encontrei-me por diversas vezes recorrendo às imagens disponíveis na internet para ganhar algum tipo de centelha criativa nesse ou naquele detalhe melódico ou lírico. A partir daí, sentia que estava sofrendo realmente uma interferência da arte de ambos, uma influência.
Chegou a hora de realizar uma nova obra e todo o conceito do “Aleluia” veio à tona. Numa reunião, sugeri que as ilustrações para a capa do disco fossem feitas por eles: Izolag e Ananda. Mas como encontrá-los? Por meio das redes sociais, Orkut e Facebook, acabei encontrando seus perfis e propondo um contato mais constante. Fui aceito e logo estava me comunicando com eles. Fiz-lhes o convite para participarem do projeto do nosso novo álbum e eles assentiram, o que me deixou feliz.
Por meio da internet também passei a ter noção do alcance da arte dos dois: citados no livro “The Stencil History X” (publicação que através de critérios rígidos e bem definidos aponta as grandes expressões da técnica do estêncil), Ananda e Izolag representam o que há de melhor em sua arte no mundo! Obras deles estão espalhadas pelas galerias do planeta, com trabalhos expostos em Amsterdam, Nova York, Paris, Londres, Vancouver, São Paulo, Rio de Janeiro… Foi ótimo perceber que, além de competentes e talentosos, eles são bem sucedidos, de modo honesto e com reconhecimento irrepreensível.
A despeito de sua competência, Izolag e Ananda são de uma simplicidade cativante. Me conquistaram por sua objetividade, sua competência e sobretudo pela vasta cultura musical. Eles ouvem muito do que amo e ainda trouxeram novas referências para a minha dieta musical.
Recentemente, Izolag foi matéria da conceituada revista + Soma. Dentre outras coisas, a publicação dá muita ênfase à importância da música na obra deles e a carga emocional, que caracteriza tanto o trabalho da dupla.
Vê-los em ação foi um deleite, um espanto: a lona bege foi ganhando cor, insinuando formas e, de repente, eis que surgem as figuras, uma a uma, que vão então formando um painel suntuoso e que, visualmente, traduzem o sentimento do que será o disco: “Aleluia!”.
Sobre o processo de construção das ilustrações, da oportunidade única que foi vê-los trabalhar e a observação sobre o seu método criativo, falarei num novo texto. Izolag e Ananda são demais para um texto só…







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