Posts em 'Banda no estúdio'

Dá-lhe, Robeeertooooo!!!

quarta-feira, 08 junho 2011 - postado por fabiocascadura

Hummm… Faz um tempo que não escrevo um texto pra esse blog, né? Pois é, muitas coisas! Coisas e coisas… Do disco e da vida cotidiana de gente que vive a vida cotidiana…

No meio disso tudo, tínhamos que decidir como faríamos para ter a participação de nosso amigo Beto Bruno, cantor da banda igualmente amiga Cachorro Grande. Beto foi um dos primeiros nomes em que pensamos para participar do Aleluia. Amigo de primeira hora, de quem somos fãs, não poderia ficar de fora desse processo, já que esta é uma vontade antiga: dividirmos uma faixa, Cascadura e Cachorro Grande, juntos.

Deixe-me contar o episódio em que nos conhecemos: nos idos de 2003, quando estávamos chegando à cidade de São Paulo, fomos tomados pelo lançamento do disco “As próximas horas serão muito boas”, o segundo da discografia dos gaúchos. Já os havíamos visto na MTV, com o clipe “Lunático”, tirado do seu álbum de estreia. O conceito era tão bom (a música, o visual, a performance) que chegamos a pensar, inicialmente, que se tratava de um tipo de campanha publicitária! “Existe uma banda assim no Brasil?!”. Existe: Cachorro Grande.

Soubemos que eles tocariam na Outs, casa de show que, naquele instante, era nossa referência em Sampa. Já havíamos tocado lá e iniciado uma amizade/parceria com os donos do lugar. Fomos vê-los…

O lugar estava cheio, na medida de estar agradável. Era um dia como quarta ou quinta-feira, meio de semana, e muita gente foi conferir os caras no palco. Já na chegada, soubemos que eles estavam lançando um disco novo. Nosso amigo Luiz Pimentel (então chefe de redação da saudosa revista Zero) foi quem nos contou.

Assistimos ao show entre o entusiasmo contagiante que eles emanam quando estão em ação e o mais completo espanto de estar diante de uma banda tão verdadeira no que pensamos ser seu “auge”. Engano nosso: eles estavam apenas começando o seu “auge”. Terminada a apresentação, fomos falar com eles e foi quase impossível cumprimentá-los, tamanho o assédio. Mas, enfim, conseguimos e falamos do nosso trabalho e da nossa admiração.

No dia seguinte, o mesmo Luiz que havia falado do lançamento do disco nos ligou dizendo que queria nos juntar a eles numa conversa em um barzinho: topamos na hora. Nos encontramos na Augusta e, de lá, rumamos conversando até o bairro do Bexiga, sentamos em um bar próximo ao Café Aurora, onde deveríamos prestigiar o show de outra banda amiga: Velhas Virgens. Em nossa mesa, também sentaram os parceiros da Tomada, banda paulistana de rock.

Foram muitos assuntos e muitas risadas. Ali, nasceu uma amizade que corre até hoje, sempre pautada na admiração e na colaboração mútua. “Os Cachorro” desde então cresceram no cenário e se tornaram uma banda muito conhecida. No entanto, se mantiveram os caras naturalmente alegres e engraçados que sempre foram.

Na ocasião desse papo, entregamos a eles um CD contendo o nosso “Vivendo em Grande Estilo”, ainda inédito. Lembro que o Beto perguntou: “Vocês estão dando um disco de vocês que ainda não saiu pra gente ouvir?! Que confiança! Valeu!”.

Vimos quando o disco deles chegou pela revista Outracoisa, do Lobão, e tomou de assalto o mercado. Por meses em São Paulo só se falava nesse lançamento. Não por acaso, o nosso disco seguinte, “Bogary”, também sairia por esse projeto: a Cachorro Grande foi uma grande advogada nossa nesse processo.

De lá pra cá foram muitos episódios, em muitos encontros: fui roadie deles numa viagem pelo Sul, eles viajaram em nossa van para uma apresentação nossa, junto com os Astronautas, de Recife, no festival Demosul, em Londrina/PR, tocamos juntos em Salvador, fiz um caruru no apartamento em que morávamos em Sampa e eles saíram falando do “bicho caruru que era bom demais”, fizemos uma dobradinha de shows para uma edição do programa Bem Brasil, da TV Cultura, gravado em junho de 2007 no palco do Sesc Pompeia… Vivíamos andando juntos, para cima e para baixo, como uma gangue só.

Certa vez, Beto me perguntou: “ô, Negão… Quando é que vamos fazer essa parceria, Bruno/Magalhães?!”… Só faltava isso. Será?… Daí a ideia de chamá-lo para esse disco.

Apresentei uma canção a andré t e falei que o queria cantando junto. Mais que isso: queria que ele escrevesse a letra daquela música para cantar.

O problema é que ele é do Rio Grande do Sul, onde cumpre extensa agenda de apresentações com a banda, mora em São Paulo e está em pleno processo de construção de mais um disco. Beto não usa celular e e-mail é um troço que ele realmente não faz ideia de como funcione. A comunicação é muito específica. Assim, o tempo escasso era nosso censor. Tentamos trazê-lo para gravar em Salvador, como fizemos com outros convidados, em três oportunidades distintas, sem sucesso. Desse modo, como Maomé não veio à montanha, a montanha teve de ir a Maomé.

Chegamos a São Paulo, eu e Thiago Trad, depois de três horas de atraso do avião. Descemos em Guarulhos ao invés de Congonhas, como havíamos planejado. Ficamos na casa do amigo Rodrigo “Minha Pedra” Santos e marcamos para encontrar a “fera” no estúdio onde eles estavam preparando seu disco.

Uma alegria imensa entrar num ambiente e encontrar esses caras: Beto, Coruja (Rodolfo Kieger, baixista da Cachorro Grande), Gross… É sempre um evento feliz e cheio de camaradagem. Acho que o termo “camarada” é o que nos acolhe melhor.

Falei a ele do conceito do disco, da relação do álbum com Salvador, que ele teria de escrever a letra (e ele disse que teríamos de escrevê-la juntos) e que melodia e harmonia foram construídas pensando nele… Beto se encheu de alegria e, com a confiança que lhe é intrínseca, chamou-nos a um boteco, em frente ao estúdio da Trama, e disse que depois de “umas” cervejas iríamos ao estúdio de Duda Machado (o Madeira II), com quem havíamos combinado de gravar essa voz, e lá mandaríamos ver.

Fomos para o estúdio/casa de Duda e encontramos outros tantos amigos lá: Ricardo Spencer, Rafael Spencer (chef, agora morando lá e com um ótimo restaurante de comida baiana chamado Sotero), Rodrigo “Minha Pedra”, Martin… Clima de festa!

Havia somente um porém nisso: estou acostumado a gravar em meio à tranquilidade do estúdio t, sem muitas interferências, concentrado e em silêncio. Mas esse é o Aleluia, cheio de imprevistos e novas experiências. Ok… Vamos ver no que vai dar…

Sentamos e escutamos a base que havia levado: bateria, baixo, guitarra de 12 cordas e violão. Pronto! Era o que precisávamos. Em quinze minutos, uma letra brotou: “Sonho de Garoto”. Um discurso bem simples, uma brincadeirinha/homenagem a nosso amigo Lobão ali, e ficou bacana.

Beto fez questão de acertar a afinação, respiração, divisão, dicção, interpretação no cantar. Foi um exercício que exigiu muito dele: havíamos acabado de fazer a letra, que, por mais simples que seja, ainda estava muito fresca e não tínhamos nos familiarizado com ela, não houve esse timing. Talvez por isso, o grande charme que ela adquiriu. Ele repetiu algumas vezes até dar-se por satisfeito e me perguntar: “E aí?”.

Em meio a toda atenção, tensão e movimentação em torno da gravação (e da festa lá fora), esquecemos de registrar imagens desse momento… Entre uma bisbilhotada e outra dos que estavam de fora do estúdio, Beto gravou a voz. Ao final do último take, ainda com Beto Bruno de fone, cantando no microfone, Ricardo Spencer comenta: “Dá-lhe, Robeeertoooooo!!!”. Beto responde: “Roberto, corta essa!”…

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Gravação “Aleluia”: percussão e piano (EMUS)

quinta-feira, 28 abril 2011 - postado por assessoria de imprensa

Na Sexta-feira Santa, o Cascadura estava aí…

Filmado e editado por Léo Monteiro.

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Ronei Jorge II

segunda-feira, 25 abril 2011 - postado por fabiocascadura

A curiosidade

No começo dos anos 1990, em Salvador, um disco lançado pelo Bazar Musical Discos, selo da loja de instrumentos musicais de mesmo nome, localizada no Orixás Center (Politeama, Centro de Salvador), trazia os primeiros registros de algumas das bandas mais atuantes na cidade naquele período.

Kama Sutra e Meio Homem, com sua sonoridade particular, me causaram estranheza e espanto no primeiro momento. Os Úteros em Fúria fizeram jus à fama que os precedia e me conquistaram sem grandes esforços com seu hard rock suingado e sua atitude rock’n’roll. Já a quarta banda me causou curiosidade…

A Mutter Marie fazia um som bem diferente e tinha letras que identifiquei como “dadaístas”. Havia pouco, tinha lido “O que é Dadaísmo” (eu acho que era esse o nome do livreto) e o rótulo foi o que melhor se encaixou, a meu ver, àquelas composições. “Biombo Falante” ficou em minha memória e decidi não perdê-los de vista. A interpretação “desesperada” do cantor daquele grupo, que ainda vi em um show, no Clube Cruz Vermelha, em 1993, só fez a curiosidade aumentar.

A constatação

Tempos depois, em 1998, soube que uma banda chamada Saci Tric se apresentaria no então recém-fundado Theatro XVIII, no Pelourinho. Combinei comigo mesmo de ir assistir ao show.

Morava perto do Centro Histórico, onde fica o Pelourinho, e, lá chegando, acabei indo com outros amigos para um bar onde acabou acontecendo um outro show e acabei perdendo a entrada para a apresentação do Saci Tric. Não lembro direito como isso tudo aconteceu, só sei que não fui e deixei pra lá: outras oportunidades viriam.

O grupo lançou um disco, gravado naquele show. Adquiri um exemplar e constatei que ali havia boas canções e um compositor inspirado em estágio de maturação. A música “Canal 100” era a mais atraente pra mim, pelo tema, pela estrutura. Ainda hoje, é uma das minhas favoritas do legado de bandas de rock forjadas na Bahia. Mesmo algum tempo depois, já em 2003, cantarolava essa canção e, em São Paulo, morando com o CASCADURA do “Vivendo em Grande Estilo”, ouvia o disco “Saci Tric Ao Vivo no Theatro XVIII”, e Martin sempre chegava perto de mim e gritava: “Mas eu vou torcer até o fim!”.

O disco foi gravado por andré t.

A redenção

Voltei de São Paulo para Salvador em 2006, para gravar o “Bogary” e certo de que o CASCADURA se dissolveria logo depois disso… Encontrei na cidade uma banda atraindo a atenção das pessoas com um som meio jazz, meio rock e com muito de música brasileira. O cantor era o mesmo que formara aqueles outros dois grupos que conhecera nos anos 1990.

Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta entraram direto para o topo das bandas mais bacanas que conheci. Num show que eles fizeram na Boomerangue (extinta casa do Rio Vermelho), eles apresentaram uma música chamada “Aquela Dança”, um ijexá tocado com formação de rock que me fez os aplaudir. Ganhei um CD (a música fora lançada como single), com uma capa bem bolada (simulando um manual de passos de dança), e o toquei em casa e em outras oportunidades para que as pessoas os conhecessem.

Porém, me rendi de vez e irremediavelmente ao talento do grupo e de seu compositor quando eles lançaram o álbum “Frascos Comprimidos Compressas” (disponível para download lá no site deles), uma obra prima! Um disco mais que notável e que me fez pensar para bem mais além da música que estava emulando. O trabalho é completo, bem cuidado e tem dispositivo anticaretice sem ser pretensioso. Um exemplo que quero seguir.

A parceria

No comecinho da estruturação das composições para o “Aleluia”, pensei em chamar Ronei Jorge para colaborar conosco. Chamei! Já amigos, tivemos uma aproximação muito cuidadosa e crescente. Fiquei imensamente feliz quando ele topou construir a música que havia pensado em parceria.

Apresentei a ele uma canção baseada nos meus argumentos de Soul Music americana, mas explicitei que ela se comunicaria, via origem comum (assim, falando a grosso modo), com o samba. Queria essa ponte e de modo diferente do que outros (Jorge Ben?) já fizeram… As vozes seriam o link. Mandei-lhe a melodia e pedi uma letra.

Havia nas bases um quê de apaixonamento, um romantismo. Mas lhe sugeri que podíamos viajar em algo menos constante. Por conta de um solfejo meu, balbuciando umas poucas palavras, chegamos à ideia de uma narrativa catastrófica, apocalíptica… Decidimos que seria sobre o fim do mundo. Um fim do mundo com cores soteropolitanas, de muito som, desamparo e desespero, confusão… Como o Carnaval! Esse arremate veio dele, o que ficou muito bem resolvido, em minha opinião.

Depois de dois encontros, a estrutura da letra estava pronta, tendo nela não somente minhas impressões, mas, enfim, a marca diletante de Ronei, agora e enfim, meu parceiro!

Marcamos, com algum atraso, uma sessão para deixarmos essa combinação registrada em “Aleluia”. Não poderia fazê-lo sozinho: chamamos Ronei para também cantar no disco.

Numa sexta-feira (olha ela aí!), nos juntamos: eu, Thiago Trad, andré t, Jô Estrada e nosso convidado, Ronei Jorge. Depois de mostrar o que tínhamos preparado no álbum até ali (tendo dele um retorno muito carinhoso sobre o trabalho em curso), escutamos a canção que já chamávamos de “Dava pra Ver”. Combinamos o que faríamos, a parte reservada a cada um de nós, e partimos para a ação.

O que vem à tona é o clima de alegria em juntarmos essas peças da música, esse time. O ambiente descontraído, leve, animado. Ronei, acho que já citei, é dos melhores contadores de histórias. Se nos encontramos, sempre fazemos aquela revisão dos anos passados, lembramos de fatos que vimos em comum, de lugares diferentes, cada qual em sua ótica. Ele sempre conta disso de um modo muito especial, de novo, engraçado, divertido. É um mestre na retórica. Os Trapalhões lhe fizeram muito bem!

Daqui a uns meses, quando estiver escutando o “Aleluia” e passar pela canção “Dava pra Ver”, saiba que aquilo foi feito com muito humor, muito bom humor. Numa sexta-feira de descontração, em que estávamos muito à vontade, felizes, e em que Ronei nos brindou com sua incrível presença, seu talento inconteste e suas histórias ricas e coloridas, que, de tão bem narradas, quase davam pra se ver… Como lá nos 90, no show do Clube Cruz Vermelha, já dava pra ver…

P.S.: Não sei se as pessoas sabem, mas Ronei Jorge tem o mesmo nome que seu pai. Assim, quando ele morava com os pais e alguém ligava pra lá perguntando por ele, ouvia-se: “O pai ou o filho?”. Por isso o título.

Vale também dizer que Ronei Jorge agora está produzindo um trabalho solo, e já tem uma música nova disponível no MySpace dele.

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Solove e Maurão

terça-feira, 19 abril 2011 - postado por fabiocascadura

De grão em grão, o Aleluia vai ganhando cada vez mais cara de disco, de obra completa. Para tanto, além de mim, Thiago Trad, andré t, Jô Estrada e Dudu Txai, que, no estúdio, em sessões esparsas, vamos dando nossa contribuição à sua existência, contamos com colaborações inestimáveis a esse processo.

Já citamos aqui: Letieres Leite e a sua Orkestra Rumpilezz, o arranjador Paulo Rios Filho, Siba, dentre outros. Nesta semana que se foi, tivemos a presença de dois outros caras que são marca e presença da música da Bahia. Por viés diversos, chegaram ao Aleluia, a onda que o CASCADURA vem empurrando.

O primeiro é o multi-instrumentista, compositor, produtor e arranjador Jorge Salas Solovera. Alguns carinhosamente o chamam de Solove! Somos amigos de muito tempo. Admiro o cara na guitarra, e não tem quem não o admire por isso – e pelo muito mais que faz na música e na vida.

Tímido e muito reservado, Solovera é dono também de um timbre de voz único. Havíamos o convidado para escrever dois arranjos para o disco, e sobre isso falaremos em outro post aqui. Desta vez, o que ele trouxe foi algo muito especial: para “Os Reis Católicos”, nos cedeu sua voz inconfundível e seu sotaque (Solovera é baiano de adoção, mas nasceu no Chile e domina, logicamente, sua língua pátria). Numa sentença breve e que se repete algumas vezes na canção, ele fez o arremate final. Nas palavras de Jô: “Era o que faltava pra música… E veio como eu imaginava!”. Eu concordo.

Na mesma noite, recebemos a presença de um dos maiores expoentes do ato de cantar rock: Mauro Pithon. Com um currículo extraordinário, fundador da legendária banda Úteros em Fúria (grupo que foi ponto de partida para um rock que hoje pode existir na Bahia), tendo depois do fim dessa formado a Sangria e atualmente com a Bestiário, que está com um disco em gestação, Maurão canta com as tripas, sabe? Não sabe? Procure saber… Deixa cantor malvado qualquer ficar pequenininho.

Em uma música-desafio que decidimos pôr no “Aleluia”, que trata do “intrometido”, do “piru” (como costumam chamar aqui), ele mandou sua interpretação gutural (ainda se usa esse termo?) com tamanha facilidade que cheguei a lhe perguntar: “E aí, man?! Como é que faz depois de cantar assim?!”. Ao que ele respondeu: “Toma uma cerveja, man!”.

Um brinde a esses caras!

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Um guia na rabeca

domingo, 10 abril 2011 - postado por fabiocascadura

Já falamos aqui da música “Colombo” (inclusive postamos um vídeo da gravação), das implicações dela fazer parte do Aleluia e do diálogo que ela estabelece com outras músicas, como “Os Reis Católicos”.

Bom, há pouco recebemos no estúdio a colaboração de um músico que muito admiramos e que veio a Salvador única e exclusivamente para deixar sua contribuição e sua marca em “Colombo”: Siba Veloso!

Siba é pernambucano, de Recife. Apareceu para a música brasileira através de seu antigo grupo, Mestre Ambrósio. Em paralelo a outros expoentes (como o também pernambucano Antonio Nóbrega), trouxe à baila um instrumento muito antigo, seminal, que estava, vamos dizer, relegado a uma discrição um tanto maior do que ele realmente merecia: a rabeca.

O Mestre Ambrósio conquistou espaço por seu modo particular de articular cultura popular nordestina e elementos da música pop moderna, numa dose equilibrada e mostrando novas possibilidades para ambos os recursos. Os vi tocar ao vivo no Abril pro Rock, lá em Recife, em 1995, quando da participação do (Dr.) CASCADURA nesse famoso festival. Excursionaram o mundo e, mais adiante, interromperam sua trajetória. Siba então foi morar na Zona da Mata de Pernambuco, e lá formou o grupo Siba e a Fuloresta, com o qual, até bem pouco tempo, vinha trabalhando. Na companhia de verdadeiros mestres da cultura popular da região, ele cantava e dava vazão a recitais de poemas populares.

Hoje ele prepara um novo projeto, em que retorna ao seu instrumento de origem: a guitarra. Bom, mas ele veio para tocar a rabeca! Logo em sua chegada, o cercamos transbordando de curiosidade sobre o instrumento, sua tecnologia, sua execução e sobre aquele que o executaria… Siba nos deu uma noção ampla sobre todos esses detalhes e mais: tocou!

Tocando, ele mostra a tamanha intimidade com aquele instrumento medieval, desenvolvido na Europa (mais ainda na Península ibérica) a partir da influência moura (islâmica): eram os tempos das Cruzadas. “Vixe! Faz tempo que não toco rabeca… Tenho me dedicado mais ao estudo da guitarra para o meu novo projeto…”, disse isso em contraposição àquela demonstração de destreza com a rabeca no colo.

Falamos da canção e ele, em um lance só, entendeu. Discorremos sobre isso ou aquilo que ela poderia ser, mas Siba é preciso e culto, inteligente. Num espaço muito breve de tempo, deu à música muito mais do que imaginávamos que seria. Ficou sensacional!

Nordeste brasileiro, Península Ibérica, Norte da África, Salvador Medieval… Pelas mãos de Siba, através dos sons que tirava da rabeca, tínhamos uma aula de geografia histórica… Nos perdemos e nos achamos naqueles instantes dentro do estúdio! O guia era Siba Veloso.

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Os Reis Católicos

segunda-feira, 04 abril 2011 - postado por fabiocascadura

Há uns dias, escrevi um texto chamado “Os Reis Católicos”, falando da música que tem este título e que estará no repertório do Aleluia. Depois de escrito, numa madrugada de insônia, guardei-o. Cheguei a enviá-lo depois para ser postado aqui no A Ponte, mas, relendo, desgostei dele… Assim, confesso, abandonei a abordagem e retomei o tema nesse texto que você lê agora. Vamos lá.

OS REIS CATÓLICOS
É somente uma canção do amor romântico. Ambientada no momento de namoro entre duas figuras que tomei emprestada da história das Grandes Navegações: os Reis de Espanha, Isabel de Castela e Ferdinando de Aragão.

Foi esse casal que, em seu reinado, possibilitou a partida do navegador Cristovão Colombo em direção ao oeste, por via marítima, para tentar alcançar as Índias, numa corrida disputada com o rival Reino de Portugal. Essa corrida, Portugal venceria circunavegando a África (todo mundo aprendeu isso no ginásio). Mas a Espanha não ficaria por baixo e chegaria às Américas! (Que tem esse nome, e não Colômbia, por conta de um joguete do destino… “Procure saber…”)

Dispus-me a, através da liberdade poética, falar pela boca de um apaixonado Ferdinando (que não sei se o era. Casamentos dentro da monarquia serviam para formar laços políticos. Amor é coisa de livro…) das “novas” trazidas por mensageiros, que contavam que o “genovês ruivo” haveria chegado a um “jardim”, que era deles agora e do qual eles poderiam desfrutar “sem que lá tenhamos que por os pés”.

Mas quem vivia nesse pedaço de chão? Esse jardim? Era deserto? Não. Não era… E ainda precisaria de muitos braços para erguer o que fosse necessário… Bom… É uma canção de amor e, nas palavras do amante à amada, tudo são flores!

Para gravar a base do seu arranjo, andré t concordou em elaborar uma formação básica e muito suave e, para completar, convidamos novamente nosso amigo Paulo Rios Filho, que já havia magistralmente elaborado o arranjo para uma pequena orquestra em “A Verdadeira”. A ideia era que ele nos trouxesse a trompa, instrumento sinfônico identificado com o clima monárquico, antigo, medieval… Sua abordagem nos surpreendeu novamente. Ele entendeu a temática e fez aquele som, nos transportando para a justa paisagem onde haver-se-ia acontecido essa imaginária “corte” de D. Ferdinando à sua Isabel…

Resta-nos mostrar um pouco disso aqui:

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A Verdadeira (está em todo lugar)

domingo, 20 março 2011 - postado por fabiocascadura

Quando postei o texto “A Mulher de Roxo”, pedi que me cobrassem um post sobre “A Verdadeira”. Cobrança feita, eis que venho cumprir a promessa… Mas exatamente o quê uma coisa tem a ver com a outra?

Nessa história de tratar da Cidade do Salvador no disco Aleluia, confrontando seus contrastes, suas disparidades, emergiram duas canções: “A Mulher de Roxo”, que, pelos motivos que expliquei no post específico, fala da repressão ao feminino, e “A Verdadeira”, que explicarei agora.

Há uma música muito famosa, que ganhou notoriedade na voz de João Gilberto: “Falsa Baiana”. Essa canção, curiosamente, não foi escrita pelo “pai da bossa nova”, e sim por um compositor chamado Geraldo Pereira.

Geraldo era um motorista de caminhão de coleta de lixo que viveu por entre a boemia carioca nos anos 1930 e 40. Morador da região do Morro da Mangueira, amigo do ilustre Cartola, participou ativamente da construção do que ficou conhecido como samba sincopado, apontado como um dos alicerces da própria bossa nova dos anos 50. Geraldo teve um punhado de sambas seus conhecidos: “Acertei no Milhar”, “Bolinha de Papel” e “Ministério da Economia” (em que exaltava as medidas trabalhistas/populistas do Governo Vargas). Porém, sua música mais conhecida é mesmo “Falsa Baiana”, onde descreve a discrepância de atitude entra a “falsa” e a “verdadeira” baianas diante de uma roda de samba.

Tão categórica é a sua explanação que tais características acabaram sendo absorvidas pelo folclore da “Terra de São Salvador”: “Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/ Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca…”. Apesar desse sucesso todo, Geraldo morreu pobre e de forma trágica: morto numa briga de bar, supostamente pela faca do legendário Madame Satã. Mas sua obra contribuiu muito com o que se chama de samba hoje em dia e, em especial, “Falsa Baiana” entrou para o imaginário do que é a “típica soteropolitana”. O detalhe: ele era mineiro.

Ouvindo esse samba famoso, na voz de João Gilberto, pensei: essa baiana realmente existiu? Se sim, será que ainda está aqui, hoje?! Generalizar é uma merda…

Em “Falsa Baiana”, o foco central é aquela que não mexe as cadeiras e que não deixa a moçada com água na boca em contraponto à que vira os olhinhos e diz: ‘Eu sou filha de São Salvador!’ enquanto samba… Se é assim, então, a “verdadeira baiana” nada mais é do que a hoje identificada como PIRIGUETE! Acompanhou o meu raciocínio, Geraldo?!

A piriguete não totaliza todas as baianas, mas está presente no cotidiano da cidade. A despeito do estereótipo sobre o qual o termo foi gerado, quando era representado pela moça de origem pobre, suburbana, usando trajes mínimos e de cabelos sempre molhados (fruto do uso de cremes específicos para esse fim e de baixo custo, como o famoso Kolene), ela está hoje em todos os lugares: nas ruas do centro, nos shopping centers, nas praias, nos salões de beleza, nos mercados (populares ou nem tanto), atrás dos balcões, nas recepções dos consultórios e não se enganem: estão nos consultórios, nos anúncios na TV, canteiros de obras, agências publicitárias, tribunais, fóruns, no Carnaval (em cima e embaixo dos trios elétricos), sobre os palcos… Elas estão em todos os lugares, são de todas as origens, com todos os tons de pele, já aderiram à chapinha e tudo mais…

Vulgares? Outrora chamadas de “ninjas” (gíria muito popular em Salvador entre o final dos anos 1990 e começo dos 2000), as piriguetes reafirmam a independência feminina, a voluntariedade no fazer o que se quer, sem pensar em consequências ou opiniões alheias… A piriguete é o “agente antirepressivo” da mulher. Em geral tratado com humor, piriguete acabou por se tornar um termo depreciativo. Ok… Mas não há como negar: as piriguetes estão em todo lugar.

Assim, para contrapor a repressão ao feminino, tão frugal na Cidade da Bahia, que eclode em “A Mulher de Roxo”, escrevi “A Verdadeira”. Se a “Falsa Baiana” não entra na roda, “A Verdadeira” vai! “A Verdadeira”, porque a “Falsa Baiana” o mineirinho Geraldo Azevedo já havia escrito.

A letra diz:

A Verdadeira
Revira os olhinhos, deixa colar
Já foi Rosa de Ouro, hoje é estrela vulgar
Jeito de corpo, ela vai até o chão
Já foi coisa de louco – hoje, chamam, ela vai

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou no escuro
Ai de quem seja seu par

É verdadeira até não poder mais
Veio dessa maneira e não pode mudar
Chega na hora e só sai no final
Ela é dessas mulheres que só dizem “Mais!”

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou sozinho
Ai de quem seja seu par

Coração!
Coração!

Veio como uma valsinha, em ¾ (lógico, Cascadura!). Pensei que nada de samba haveria nela: seria o óbvio fazer isso! E quisemos posicioná-la mais como modinha romântica que qualquer outra coisa. Um argumento que nos remetesse a Machado de Assis, José de Alencar, Brasil do século XIX (lembremos que os movimentos literários/artísticos vindos da Europa chegavam aqui para ser propagados com muito mais tempo de atraso que hoje… Mas, ainda hoje, sofremos dessa influência… C’est la mondialisation!). E pensamos no nome do nosso amigo, compositor, arranjador Paulo Rios Filho.

Paulo Rios é formado em composição pela Escola de Música da UFBA. Destaca-se por uma profusa produção, marcada por intercâmbio com criadores de outros continentes como Europa e África. Membro do grupo OCA (Oficina de Composição Agora), que realiza um interessante e instigante trabalho de repensar e renovar as abordagens dentro da composição para Música de Concerto e Orquestra (como eles, humildemente, preferem chamar o que muitos se referem como “Música Erudita”…). O Grupo OCA é um caso à parte nesse extenso panorama criativo da Bahia (e submerso pela “grande mídia”) que recomendo: procurem conhecer. Ainda neste semestre, estarão lançando uma série de concertos gratuitos no Teatro Vila Velha, aqui mesmo em Salvador. Informem-se!

Num papo, expus um esboço da canção a Paulinho. Expliquei-lhe tudo isso que abordei acima. Discorri sobre a falsa e a verdadeira, o contraponto entre as duas e a oposição que essa música significaria diante de “A Mulher de Roxo”: ele entendeu! Sugeriu um arranjo baseado em uma orquestrinha de câmara, com ênfase em instrumentos do grupo de (sopro) madeiras: oboé, fagote, clarineta… Fiquei exultante e curioso.

Ele elaborou o arranjo baseado em uma demo caseira que fiz com a voz e sampler de trechos instrumentais (dos Beatles, inclusive, especificamente a canção “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, do disco Sgt. Peppers), e de uma outra que fizemos apenas com voz e violão no estúdio t, gravada por sugestão de andré t.

Algumas semanas passadas e ele nos traz sua abordagem para o tema… Ali, Paulo Rios Filho brindou-nos com sua grande inteligência musical, sua sensibilidade apurada e sua cultura. O arranjo primoroso abordava um clima romântico, como queríamos, mas com um algo mais. Por vezes o fagote, instrumento tão lindo, profundamente grave e solene, brincava com os “pi ri rim pom pom” dos arrochas e pagodes da vida!

Num lance de muita beleza, oboé, flauta transversa, violino e clarineta passeiam lado a lado, fugindo uns dos outros por vezes, agrupando-se num instante de comunhão… Eita, que ficou bonito! Deixamos um pouco disso para que você veja e escute por si mesmo o que foi essa sessão…

Diana Bakardjieva (Oboé)
Cláudia Sales (Fagote)
Flávio Hamaoka (Flauta)
Pedro Robatto (Clarinete)
Mário Britto (Violino)

Ao final, ficamos todos muito satisfeitos.
Acreditamos que, mesmo antes da gravação das vozes, ainda há o que ser feito. E vamos fazê-lo! Ainda não sabemos o quê…

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1, 2, 3… Rumpilezz no Aleluia!

segunda-feira, 14 março 2011 - postado por fabiocascadura

No texto “Um instante, Maestro”, postado aqui em A Ponte há algum tempo, falei do convite que fizemos ao maestro Letieres Leite para escrever o arranjo de uma das canções do Aleluia. Na ocasião, aconteceu uma visita dele ao estúdio t para escutar o que tínhamos do disco, absorver a atmosfera que estamos criando e, principalmente, conhecer a composição que escrevi pensando justamente em ter a sua Orkestra Rumpilezz como convidada.

Foi muito bom perceber que ele entendeu e curtiu nossa intenção. Antes dele, somente os membros envolvidos diretamente na construção desse projeto e um grande amigo haviam escutado uma demo caseira que gravei com a “intenção” da música em questão. Aliás, esse grande amigo, o guitarrista e compositor Graco Vieira (membro fundador da banda Scambo, ex-guitarrista do Inkoma e parceiro de Thiago Trad no projeto carnavalesco Bailinho de Quinta), foi um grande incentivador dessa ação. Quando escutou a demo aqui em minha casa, de primeira, falou: “Isso me remete a duas fontes: White Stripes e Rumpilezz!”.

Fiquei feliz e intrigado com o que ele disse. Primeiro, porque ele falou de duas coisas que eu realmente curto ouvir e, depois, pelo fato de que, talvez, inconscientemente, eu tenha direcionado a composição para isso mesmo… E o disco todo!

Combinar influências díspares tem sido um exercício dentro da realidade do Aleluia. O novo, o antigo, o tradicional e o inovador. O local e o gringo… O disco tem seguido assim, sem forçar a barra e “sem querer reinventar a roda”, como costuma dizer Thiagão.

Pois então: Letieres sugeriu que o arranjo fosse executado por oito músicos de sua orquestra, sendo que um deles já tinha vindo participar em outras faixas (e já teve um post dedicado inteiramente a ele aqui no blog): o indispensável mestre dos atabaques do candomblé Gabi Guedes! O maestro Letieres trouxe partituras para um set maravilhoso de sopros. No mínimo inusitado. E convidou alguns dos seus melhores músicos para executar esse arranjo durante a sessão que marcamos.

Devido à agenda concorridíssima dele, tivemos que esperar algumas semanas. Mas a espera valeu demais a pena. Letieres foi muito sensível em nossa proposta estética. Usou a base daquela demo que falei, mantendo alguns pontos que caracterizam a composição e subvertendo outros para sua forma de perceber harmonia e ritmo.

Para escrever essa música, que chamo de “To your head” (tradução: “Para sua cabeça”), usei como lastro de condução rítmica um trecho de um toque cerimonial do candomblé. Veja bem: andré t, em uma de suas muitas pesquisas, havia registrado em um terreiro desse culto afrobrasileiro um número de toques litúrgicos cujas apresentação “aos de fora” e gravação são permitidas (sendo uma religião pautada em preceitos misteriosos, nem sempre o que há no seio do culto pode ser livremente mostrado).

Essa gravação parece ter sido feita há mais de 15 anos e ele a guardou para alguma utilização futura. andré fez e faz essas pesquisas para enriquecer seu arsenal de timbres, texturas, ritmos e composições melódicas. O faz como exercício artístico e cerca-se sempre dos cuidados requeridos por cada experiência. Conheço uma outra pesquisa sua que diz respeito a gravação de sons de equipamentos industriais (molas, bigornas, chapas de diversas ligas metálicas, caixas de pregos e assim por diante), mas a essa não tive acesso.

Criterioso, em sua pesquisa, andré solicitou ao alabê (músico responsável pela execução dos toques nas cerimônias do candomblé) que liderava o “naipe” de percussão no instante em que ele gravava que, antes de cada toque apresentado, pronunciasse o nome deste e, se possível, para qual finalidade ou orixá ele costuma ser apresentado. Daí, era mostrada a célula rítmica do gã (agogô), depois a célula concernente aos dois tambores menores (rumpí e lé) e, finalmente, toda a “orquestra” tocando junta (com a adição do tambor maior, geralmente sob a execução do mestre: o rum). Dessa experiência, extraiu um registro extraordinário de parte do coloridíssimo universo rítmico dos cultos afrodescendentes: fidedigno e claro!

Ouvindo essa coleção, me deparei com células que, depois, de alguma forma que cabe à historiografia musical contar, se desdobrariam para o jazz, o blues, o samba, o rhythm’n’blues, o funk, a soul music, o bolero, o tango, o rock e obviamente toda gama rítmica que povoa a música feita na Bahia. E foi em cima de um trecho de um toque que a voz na gravação denominava como “ibí” (segundo ela mesma, toque cerimonial em honra de Oxalá) que desenvolvi o esboço de “To your head”.

Mas por que em inglês? Não sei exatamente! Eu cantarolei uma melodia a partir de partes de samplers que fiz de algumas gravações de pop, jazz e música de teatro de revista (se é que posso denominar assim). Construí uma trilha de sons, bem a “grosso modo”, sobre a qual poderia cantar. E me veio à boca alguns fonemas em inglês (isso costuma me ocorrer quando estou cantando, depois me viro para conjugar o som daquelas palavras, que textualmente entre si não fazem qualquer sentido, para o português e ainda, contar uma história plausível. Um exemplo dessa prática é a música “Não posso julgar ninguém”, dentre outras da obra do CASCADURA). Fui ouvindo e deixando aqueles sílabas ali. Quando percebi os versos, para meu espanto, combinavam-se entre si e resolvi que essa seria minha primeira composição no idioma da velha ilha da Bretanha, e assim vai ficando…

Tudo isso é para situar o que veio com a chegada do sensacional (ao menos para nós) arranjo do maestro Letieres. Numa segunda-feira pela tarde, nos encontramos no estúdio t. Estávamos todos lá: andré t, Thiago Trad, Jô Estrada… A equipe de sempre por trás do Aleluia. Logo chegaram Letieres e alguns dos músicos que havia convidado. Fazia um calor absurdo.

Para começar, o maestro convidou que sentassem os músicos dedicados à região do graves, os que leem a pauta sob a chave de fá: Adaílson Rodrigues no trombone baixo, Gilmar Santos na tuba, e sax barítono a cargo do sensacional Junior Maceió. Eles construíram o que serve de linha condutora na parte harmônica da música: um riff de sopros graves.

Sob a regência de Letieres e experientes como são, deram conta de tudo em poucos minutos. A interferência de andré t, sempre oportuna e certeira, também deu fluidez a todo o processo. Ele é experimentado na arte da microfonação, sabe o que quer atingir quando expõe esse ou aquele elemento. Pode parecer supérfluo, mas ele sabe, como poucos, mostrar o porquê da distância desse microfone para aquele instrumento. Sabe como poucos o quer, do equipamento e do músico.

A simbiose gerada entre Letieres (o maestro) e andré t (o produtor musical) é um caso à parte e merecia um texto único para tratar do tema… O diálogo encontrou viés para se desenvolver e a música foi surgindo, mansa e vigorosamente.

Terminada essa parte, Letieres sugeriu que outra sessão dos sopros fosse gravada imediatamente: “Não vamos perder essa energia que ainda está pairando na sala!”, disse. Assumiram seus postos os músicos encarregados do set de sopros das regiões mais acima dos anteriores (na clave de sol): sax tenor, que foi executado por Kiko Souza (amigo que conheci por meio do exímio baixista e também amigo Ivan Oliveira, ex-CASCADURA), trombone e trompete. Além dele, gravaram esse take: Marcílio Santana (trompete), João Teoria (trompete) e, novamente, Gilmar Santos (trombone), Júnior Maceió (dessa vez no sax alto) e Adaílson Rodrigues (trombone).

As partes dialogaram também. O set grave ditava o riff, o grupo seguinte, então, respondia em texturizações inteligentemente intricadas pelo autor da partitura. Ficou uma joia!

Foram mais repetições. Havia nessa parte alguns pormenores a serem posicionados, devidamente colocados: dinâmica, ataque e duração de notas. Tudo isso, Letieres dá conta aos músicos com um gesto das mãos, enquanto eles executam. Por vezes para e pede que repitam. Pede: “andré, retorne ao ponto ‘tal’ para que essa linha seja refeita…”. andré prontamente o atendia. E sugeria também: “Mais forte, Maestro? Pode ser?”.

Houve um momento em que, no meio do naipe de sax tenor/trombone/trompete, os músicos queriam ouvir determinado detalhe de um glissando (expressão originada da língua italiana utilizada na terminologia da música, que denomina uma passagem suave de uma altura a outra na escala) feito pelo trombone durante a sua execução. andré se dirigiu a Letieres: “Maestro, teremos algum ‘fortíssimo’ por parte do trombone nesse pedaço? É que a extensão do trompete é muito ampla…”. Com a negativa sobre a presença do “fortíssimo”, ele girou o botão de um dos seus compressores, com aquela volúpia que tínhamos com os antigos seletores de canal das TVs antigas, para numa volta chegarmos a determinado programa em outra emissora, e o som do trompete surgiu “gordo”! Todos içaram mais confortáveis.

A dinâmica estabelecida nessa gravação foi outro show à parte. A beleza de uma orquestra de sopro, aliás, está justamente aí: os músicos tocam juntos, como um corpo só, insinuando-se a cada movimento, crescendo e amainando a execução de acordo com a intenção proposta pelo autor/arranjador. E por falar em autor: me fiz de espectador. Nada falei…

A sessão foi concluída em seis horas e, para finalizá-la, mais alguns detalhes de trompetes e flauta. Todos estavam felizes com o resultado atingido. Mais um tempo de conversa em torno de uma pizza providenciada por nosso Jorginho Falcão, que cuida com zelo da parte funcional de todo processo da gravação do Aleluia: nosso assistente de produção! Combinamos que não demoraríamos para seguir com a gravação da sessão rítmica: seria dali a dois dias, numa quarta-feira.

Nesse dia, Salvador amanheceu sob forte temporal: uma chuva calamitosa despencava sobre a cidade. Havíamos marcado para chegar às dez da manhã. Como Jorginho teria que dar apoio aos dois percussionistas chamados por Letieres para realizar a gravação, eu não teria carona. Assim, deveria me virar para chegar ao estúdio no horário. Depois de esperar a chuva diminuir (porque passar, ela não passaria tão cedo), fui até o ponto e peguei o ônibus. São cinco minutos nessa condução até o estúdio, tempo suficiente para a chuva, que já estava bem fininha, tornar a ser um dilúvio. Desci próximo à rua onde fica o estúdio t, mas tão eficiente era o temporal que, depois de dois passos na direção que deveria seguir, retrocedi, atravessei a rua e me abriguei sob a marquise de uma lojinha. Me abriguei, mas já estava totalmente encharcado…

Foram 25 minutos contando os pingos que caíam no chão… “A chuva veio forte… Não para agora, não…”, comentou um senhor que saía da loja com um cigarro em uma mão e uma cerveja em outra (numa quarta-feira, 10h30 da manhã!…). Quando já pensava em enfrentar o temporal, ele decide por acalmar-se. Vejo chegar pela calçada Mark Mesquita, que trabalha como assistente do estúdio de andré e é baterista de uma das bandas mais legais de Salvador: Os Irmãos da Bailarina. “Vou pegar a sua carona!”, gritei para ele, que vinha a pé; “Então, vamo logo, que a chuva vai ca…”, ele respondia quando o aguaceiro tornou a carga… Já era tarde para retroceder. Seguimos correndo – eu, tentando correr, dentro da minha alpercata de couro, molhada e escorregadia, literalmente todo molhado.

Chego à porta do estúdio e encontro um andré t igualmente ensopado, irritado com operários da obra do edifício ao lado que, justo naquela manhã, haviam decidido instalar alguns andares de andaimes bem na frente de sua garagem, inviabilizando a entrada de qualquer veículo… Sob seu olhar feroz, dois funcionários da obra desmontavam em regime “operação tartaruga” a armação metálica. Nisso, já estavam lá Letieres Leite e Jô Estrada: “Jô, o professor (como carinhosamente chamamos andré t) tá ensopado, nesse ar condicionado polar dele, vai acabar ficando gripado e eu também. Vamos lá em casa pegar umas toalhas, umas camisetas e nos recompor…” – falei. De um só movimento, Jô Estrada se levantou e foi até o carro, o segui e fomos buscar com o que nos secar.

Seguimos pela Avenida Cardeal da Silva, Federação, inundada, com cerca de 50 centímetros de água. Carros parando, uns com motores comprometidos, outros por haverem inadvertidamente caído em buracos. E nada da chuva quietar… Depois do trajeto feito, dos apetrechos para secagem resgatados e de eu ter trocado a roupa toda, voltamos pelo mesmo caminho, e já sem chuva… A rua estava sem água, mas repleta de novos buracos e velhos bem mais alargados e aprofundados. “Que asfalto ‘mingau’ é esse, mermão?!”… Aos poucos as nuvens que nos assombravam foram se dispersando. “Quer ver? Vai estar todo mundo ‘foguetado’ nessa gravação, exceto mestre Gabi Guedes… Conhece Gabi Guedes, Jô?!”, perguntei. “Só de nome. De vocês falarem… Nunca encontrei com ele, não…”, Jô respondeu. “Pode crer… O cara tem um astral, uma calma que chega no lugar e contamina… Hoje você vai ver”.

Descemos do carro secos, porém ainda no esquema correria. Chegando ao estúdio, achamos um andré t a toda, no trabalho, microfonando isso, comprimindo aquilo… Lá na sala de gravação, Gabi posicionando seus tambores. Ofereci toalha e camiseta enxuta a andré, e ele nem viu ou ouviu, concentrado que já estava. Passados uns minutos, o próprio Guedes veio nos cumprimentar, com seu sorriso e sua gentileza. Logo chegou Jorginho na companhia de outro percussionista: Kainã. Deve ter uns 18 anos, no máximo. Mas é dono da mesma tranquilidade do outro alabê e, de certa forma, apesar da pouca idade, de parte de sua elegância no tocar e portar-se. Vai ver o treinamento inclui esse tipo de etiqueta. Brincadeira: é de berço mesmo.

Eles se puseram na sala de gravação e começaram a tocar orientados pelo Maestro Letieres e andré t. Nesse instante, para que corresse tudo bem, aproveitei a estiagem para ir com Jorginho cuidar de alguns detalhes burocráticos referentes à gravação. Quando retornamos, cerca de meia hora depois, as partes estavam praticamente prontas. Num piscar de olhos, a turma revelou-se dentro da canção e estava toda a contribuição ali, diante de nós.

Pedi a Letieres que fosse dada ênfase a um pequenino detalhe estilístico, já que não se tratava da gravação de algo sacro, mas baseado nisso. Não era e nem é um toque de candomblé, mas um ritmo extraído de um dos toques que sustenta a canção. Ele me atendeu e os dois “ases dos tambores” ainda gravaram o detalhe tocando darbuka (tambores tunisianos) com agdavi (baquetas para atabaque). Foi o link de todo o jazz de Letieres com o pop possível do CASCADURA.

Saímos do estúdio e batemos um papo rápido enquanto Marcelo Zimmermann, incubido da captura das imagens do que vem acontecendo nas gravações do Aleluia, colhia impressões em vídeo dos que estavam ali, sobre o que presenciaram. Fazia nessa hora o mesmo calor da segunda-feira passada, quando gravamos os sopros. Todos do lado de fora conversávamos sobre o temporal: chuva, relâmpago, “hoje é quarta-feira, não se esqueça…”, lama, “muita água nas ruas e as ruas com buracos…”, caos… Caos! Até que Gabi Guedes sai da sala e, num silêncio oportunamente feito por todos, pronuncia: “Mas o céu se abriu, ó…”

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“Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”

terça-feira, 08 fevereiro 2011 - postado por assessoria de imprensa

Este é o texto na íntegra da matéria “Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”, assinada pelo jornalista Chico Castro Jr., publicada na edição de hoje, 8 de fevereiro de 2011, do jornal A Tarde (Caderno 2+, página 4).

Não importa quantas presepadas e onomatopeias infantis ainda sejam inventadas daqui até o Carnaval: o verão de 2011 ainda será lembrado como o momento em que o “ensaio” de uma banda do rock local concorreu de igual para igual com os dos artistas do mainstream. No mês de janeiro, as quatro datas da temporada 2011 do projeto Sanguinho Novo, do Cascadura, tiveram excesso de público.

No último domingo do projeto, no dia 30, milhares de pessoas compareceram ao Pelourinho. Claro, depois que entraram 1,2 mil, lotação oficial do Largo Teresa Batista, os portões foram fechados e a multidão que não entrou, foi para casa, com fome de Cascadura.

“Foi muito legal ver toda aquela mobilização em torno de bandas que supostamente não têm público”, observa Fábio Cascadura. “Deu muito mais gente do que imaginávamos. O que acontece é que existe uma orientação cultural em Salvador de que o rock não tem público, que é a ‘terra do axé’. Aí, o que aconteceu? A própria grande mídia, que tá assim de gente ‘do rock’, não foi lá cobrir. Só o jornal A TARDE e a TVE”, constata.

Estereótipo do “baiano feliz”
Passado o furacão de quatro domingos no Pelourinho, a banda volta a se concentrar no estúdio t para concluir as gravações do 5º álbum de carreira, Aleluia!.

É um projeto ambicioso. Será um álbum duplo, com cerca de 30 faixas, muita percussão de terreiro de candomblé (Fábio é devoto) e participações muito especiais: Pitty, Jajá (Vivendo do Ócio), Orkestra Rumpilezz, Siba (rabequeiro, ex-Mestre Ambrósio) e Gabi Guedes (mestre de percussão, tocou dez anos com Jimmy Cliff, entre outros).

Na quinta-feira passada, a banda e seus produtores (e membros honorários) andré t. e Jô Estrada receberam A TARDE no estúdio, para proceder às gravações do dia e também mostrar um pequeno preview do que vem por aí no álbum Aleluia!.

“O disco gira em torno de Salvador”, diz Fábio. Se o último disco, Bogary (2006) foi criado com um olhar um pouco mais distante, durante um período que a banda passou em São Paulo, neste, o processo foi inverso. “Você está aqui, curtindo a praia, mas também sentindo o cheiro de mijo”, avisa.

A ideia é que o disco seja uma espécie de documento, uma tradução do momento (tétrico, diga-se de passagem) por que passa esta cidade: “Salvador está precisando urgentemente de uma virada histórica. É uma cidade de 500 anos que ainda mantém hábitos medievais. Você tem os senhores feudais encastelados, o populacho e lixo, muito lixo nas ruas”, vê.

“Se você pegar aqueles livros de Jorge Amado escritos nos anos 1930, 40, você percebe que os problemas de Salvador que ele aponta estão a mesma coisa, senão pior”, acrescenta o guitarrista e co-produtor Jô.

Uma coisa parece bem clara: a banda (e não só eles) está de saco cheio do estereótipo do “baiano feliz”. “As pessoas aqui se contentam com migalhas”, opina Thiago Trad, bateria.

“A gente não vende fitinha do Senhor do Bonfim”, acrescenta Jô. Já Fábio acha que é hora de “questionar qual é o papel do artista neste momento. Essa coisa de reis, rainhas, gênios. Todo mundo é gênio aqui? Mas para que serve isso? Qual o benefício que isso traz para a cidade? Qual o benefício que esse modelo de Carnaval trouxe”?, questiona.

Stones da Cidade Baixa: disco tem som de concepção bem ambiciosa
Em termos sonoros, pelo que foi mostrado na audição exclusiva para A TARDE, o quinto álbum do Cascadura deverá ter uma das concepções mais ousadas dos últimos tempos em termos de fusão sonora na música popular brasileira.

Imagine que Mick Jagger e Keith Richards são baianos e nasceram na Cidade Baixa. Agora, imagine que, formados os Rolling Stones soteropolitanos, eles estão no estúdio, ensaiando seu rock‘n’roll encharcado de rhythm‘n’blues.

Ao fundo, ouve-se a percussão pesada e cheia de espiritualidade de um terreiro de candomblé ali perto.

Surpreendentemente, as duas instâncias sonoras (a banda de R&B e a percussão afrobaiana) se entrelaçam em perfeita harmonia. É como se uma luz se acendesse, e de repente, esses elementos começassem a fazer total sentido juntos.

Pé no primeiro disco
“Algumas músicas têm um pé lá no primeiro disco (Dr. Cascadura, 1995). Aquela coisa meio Stones, só que, agora, misturada com essa percussão que a gente quer mostrar”, descreve Thiago Trad.

Claro, rock com percussão existe não é de hoje. Do guitarrista Santana, passando por Barão Vermelho à Nação Zumbi, existem muitos exemplos. O negócio é ver como o Cascadura fez sua própria versão do estilo.

Faixa com Orkestra Rumpilezz ganha riff de guitarra e deixa Letieres Leite feliz
Em uma das faixas, To Your Head, ouve-se um majestoso arranjo de sopros e percussão: é a Orkestra Rumpilezz, do maestro Letieres Leite. Na tarde da visita ao estúdio, a banda se preparava para adicionar um riff de guitarra à faixa. Jô, empunhando uma Danelectro barítono (instrumento de braço mais longo e afinação mais grave), toca o riff várias vezes. Diz para andré: “Eu quero aquele veneninho”. Qual um cientista, ele começa a mexer nos botões dos compressores de áudio. “Tente de novo”, diz andré. Jô toca o riff novamente e entra em êxtase. Depois, toca o riff de Back in Black (AC/DC) e cai na risada. “Velho, já foi”, encerra o produtor. “No dia que Letieres veio aqui, ele entrou direto, nem falou nada. Foi lá e gravou. Quando saiu, tava todo mundo de cara aqui”, lembra andré. “Depois que a gente gravou, tava todo mundo calado. Aconteceu alguma coisa” lembra Letieres. “Fiquei feliz com o resultado”.

1ª AUDIÇÃO: ALGUMAS FAIXAS DE ALELUIA!
Colombo Introdução lembra o clássico White Rabbit (da banda Jefferson Airplane). Linda faixa, terá solo de rabeca de Siba.

Peru de Fora (título provisório) “A maioria das coisas que você acha que é teclado, na verdade, é guitarra”, diz Jô. Ao timbre cavernoso, logo se adicionam percussões infernais. “É o pagode do inferno”, avisa Fábio.

O Delator Na linha Senhor das Moscas (do Bogary): pesada, acelerada, com participação excelente de Jajá (Vivendo do Ócio).

Soteropolitana Um tratado sobre a cidade e seu povo, já nasceu com jeito de hino. Letra épica e histórica para uma pegada stoneana (se Jagger & Richards fossem nativos do Bonfim). Inacreditavelmente bela.

Cordeiro Com percussão monstra de Gabi Guedes e o dedo na ferida: “Ninguém me convidou / mas aqui é minha casa / sou eu que levo soco / e você que vai no meio”.

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Um instante, Maestro!

quinta-feira, 21 outubro 2010 - postado por fabiocascadura

Nos encontramos no estúdio t: eu, andré t, Thiago Trad, Jô Estrada e o maestro Letieres Leite. Ainda que muito tenha se falado dele nos últimos meses, vamos contar um pouco sobre de quem se trata: Letieres Leite é um saxofonista experimentado, já estudou na Europa e lá também trabalhou como arranjador, professor e músico.

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Recentemente, alcançou notoriedade como o idealizador do projeto Orkestra Rumpilezz, trabalho onde reconduz o jazz às estruturas rítmicas do candomblé, de onde originalmente o primeiro veio. Com esse trabalho, tem conquistado reconhecimento de crítica e público, além de prêmios relevantes, como o Prêmio de Música Brasileira (um dos quatro já conquistados nesse ano de 2010, pelo lançamento do álbum de estreia: “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz”. Ainda esse mês, concorre ao Prêmio Bravo). Além disso, ele é membro da banda da cantora Ivete Sangalo.

Ano passado, ele participou da gravação da faixa “Maldito Mambo”, do disco “Chá Chá Chá”, dos nossos amigos Retrofoguetes. Essa associação gerou uma verdadeira obra de arte. “Maldito Mambo”, de cara, conquistou o IV Festival Educadora FM de Música, na categoria Melhor Arranjo, e com todos os méritos.

Poucas semanas depois da premiação, encontrei-o na porta da Boomerangue (casa de shows do Rio Vermelho, recentemente fechada), era um show dos Retrofoguetes. Dei-lhe os parabéns pela conquista do prêmio e mais ainda pelo resultado atingido naquele mambo. Ele efusivamente agradeceu e disse: “Vocês estão na minha ‘lista negra’!”. Ou seja, éramos os próximos…

O trabalho da Rumpilezz me pegou em cheio, como o fez com a maioria das pessoas que conheço, interessadas em boa música. As texturas dos sopros, metais e palhetas, inseridos na flutuação rítmica dos toques cerimoniais do candomblé, afirmavam o óbvio de uma forma completamente nova, para nós brasileiros e para o resto do mundo. Assim como “Frascos, Comprimidos e Compressas”, de Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta; “Maçalê”, de Tiganá Santana; além do já citado “Chá Chá Chá”, dos Retrofoguetes, “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” é um disco que muito inspira a concepção e o desenrolar desse “Aleluia”, que ora estamos construindo. É um verdadeiro desenrolar de um novelo.

Sabendo do desejo do maestro Letieres em trabalhar dentro da nossa realidade e realmente enamorado do conceito da Rumpilezz, estudando os arquétipos da cultura afro-brasileira, manifestados como orixás/voduns/iquices, debrucei-me sobre uma composição baseada em um dos toques litúrgicos do culto afro. Ela, na verdade, faz parte de um bloco de canções, que foram desenvolvidas a partir do mesmo sistema de audição de determinado toque, observação de seu uso no processo cerimonial (dança, arquétipo, movimento, elemento natural ao qual é associado etc.) e aplicação dentro do conceito ao qual o “Aleluia” está atrelado. Tudo está muito ligado. Ao menos para mim, tudo faz muito sentido. Saberei o quanto funcionará e se todo o esforço valeu a pena quando vocês as escutarem…

Foi para mostrar essa composição ao maestro que nos reunimos. Ele chegou acompanhado de seu filho, Lucas, com 14 anos e já introduzido no mundo da música. Escutamos meia dúzia das bases que já temos, para que ele tivesse uma percepção da nossa pretensão com o disco que estamos a fazer. Ele parece ter aprovado o que lhe mostramos.

Daí, o apresentamos à canção a ele destinada para arranjar. Letieres sacou tudo de chofre quais as emoções a serem provocadas. Traduziu-nos inclusive alguns pontos que não havíamos percebidos. Entendidos, estabelecemos prazos e ficamos de nos reencontrar para mais uma rodada de ideias e histórias.

Inteligente e culto, Letieres interpretou todas as intenções estrategicamente dispostas na canção, que será a primeira experiência do CASCADURA em outra língua que não o português, justamente porque a palavra será mero acessório para o entendimento do que nela estará contido, mas esse é outro assunto… Será uma grande aventura artística trafegar nesse terreno ao lado desse cara.

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

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