Música de Trabalho

segunda-feira, 26 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Uma nova experiência nasceu da nossa reunião, numa segunda-feira à noite, no Teatro Sitorne. Faz um tempo, durante os testes de bateria, antes da gravação propriamente dita, eu havia mostrado a andré t um trecho melódico que me ocorreu em uma tarde, diante de uma vitrine num shopping center de Salvador, enquanto esperava minha amada. Era um trecho de 16 compassos de blues ou, se preferir, encharcado de “blue notes”. A ideia me agradava, ainda que eu não tenha a menor pretensão em gravar um blues, nem falso, muito menos autêntico – deixo essa tarefa para os que dele realmente são. Mas mostrei a melodia a andré e ele também curtiu.

Contei a ele do excelente documentário/show a que assisti certa vez, quando trabalhava vendendo discos numa loja aqui de Salvador. Tratava-se do DVD “Down From The Mountain”, com artistas interpretando ao vivo a trilha sonora do aclamado filme “O Brother, Where Art Thou?” (com título em português “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”), dos Irmãos Cohen. Nele, o grupo The Fairfield Four (curiosamente um quinteto, a despeito do “quatro” no nome) reproduz uma canção chamada “Po’ Lazarus”. Esse grupo nasceu dentro do ambiente da música Gospel do Tennessee (EUA) e está até hoje na ativa, desde 1921 (!).

“Po’ Lazarus” é uma canção tradicional, de tema bíblico, e por eles executada no esquema stomp (com o bater dos pés sobre o tablado do palco) e palmas, imitando a sensação gerada pelo evento daquilo que os norte-americanos denominam “work song” – música de trabalho. Em geral, estamos acostumados a ouvir o gospel americano (o gospel de verdade, não esse treco que embala o polpudo mercado de música evangélica atualmente e de péssimo gosto estético/harmônico/melódico. A mensagem pode ser a mais bonita, mas a música fica em décimo plano) com acompanhamento de coral (sempre de efusivas possibilidades) e set instrumental guitarra-baixo-bateria-órgão hammond B3 (a base do que seria utilizado na instrumentação do blues elétrico, do jazz e do rock). Na “work song”, a cadência dos versos ritmava o trabalho nas lavouras, na construção de estradas e ferrovias, EUA afora, no correr do século XIX. Também nesse contexto, estão as mais profundas raízes da música norte-americana e, por consequência, muito do que chamamos universalmente de Música Pop.

Baseados nessa história de apenas o bater dos pés sobre um assoalho de madeira acompanhar o cantor, partimos para a tentativa de gerar uma base convincente para essa ideia. Falamos com a direção da Escola de Artes Sitorne, que gentilmente nos cedeu um horário para que gravássemos na sala do seu teatro. Chegamos na segunda-feira à noite: eu, Jô Estrada e Thiago Trad, antes, e encontramos com o amigo Paulinho Oliveira, ex-CASCADURA, que hoje trabalha lá mesmo. Depois, vieram nosso andré t e seu assistente Mark Mesquita.

andré dispôs seus microfones, montou seu set up, subimos ao tablado e testamos o som. Uns poucos ajustes e ele disse: “Podemos começar!”. Esse grupo de seis pessoas passou a circular pelo palco do teatro buscando o espaço onde o som ficaria melhor: confesso que esse foi o detalhe mais demorado de todo o processo. Mas, enfim, achamos um lugar no fundo do tablado onde a madeira parece ter sido ajustada para tal finalidade. Vamos gravar!

Pausa: bem, não tenho impressora em casa, assim, gravei um esboço da letra para essa música em um pen drive, onde estavam outras que pretendo aproveitar nesse processo do álbum. Não encontrei um lugar que pudesse imprimir pelo caminho e pensei: “Estou indo a uma escola! Lá tem impressora!”. Chegando lá, pus a mão no bolso para pedir a alguém para imprimir o bendito esboço e o pen drive não estava! No trajeto entre casa e escola, ele deve ter caído… Lamentei, mas seguimos sem letra mesmo. Afinal, o que iria valer, se iria realmente valer, eram os stomps e as palmas… Acaba a pausa…

Cantarolei a melodia num andamento que imaginava ser o mais natural. Marcamos com os pés o ritmo. Tentamos uma sequência de uma batida de pé a cada compasso. Depois, duas batidas, alternadas no segundo e no quarto tempo. Com palmas, sem palmas… Em vinte minutos, já tínhamos quatro ou cinco takes que nos deixaram satisfeitos.

andré t pôs os fones e ficou escutando… “Do caralho! Sonzão! Por mim, fica esse, como está!”. Ouvimos todos e compartilhamos da opinião de andré. Primeiro Thiago, depois Jô, assim por diante, ouvimos todos: eu, Paulinho, Mark… E nos cumprimentamos em saudação ao sucesso de algo que parecia ser mais complexo executar do que realmente foi.

Torno a chamar a atenção para o fato de que queremos apenas usar a alegoria desenvolvida do mundo do espetáculo americano, desde o começo do século XX, para contextualizá-lo à nossa necessidade de emoldurar uma obra atual. Não queremos ser grupo de blues, nem “macaquiar” coisa de gringo! Muito pelo contrário; a ideia é dar um novo direcionamento àquilo que já sabemos, conhecemos: reciclar!

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15 comentários

  • Não tinha noção da complexidade e criatividade que envolvem a gravação do CD de uma banda séria. Agora que não compro CD pirata mesmo! Mais um texto muito legal! Parabéns Xará!

  • Fabão,

    o texto está, como sempre, magnífico. Você é o melhor contador de histórias que conheço. Poucas pessoas conseguem concatenar os fatos numa narrativa tão fluida. Tudo está no lugar certo, não há excessos nem faltas. Todos os detalhes se encaixam perfeitamente sem deixar arestas.
    Fiquei encantadíssimo com a idéia de utilizar um recurso nascido num contexto tão específico, no outro hemisfério, não como uma cópia mas como elemtento a ser digerido e transformado. A antropofagia da semana de arte moderna perdura através da história, ora aqui, ora ali.
    Mais uma vez, você se destaca por ser um dos poucos artistas (incluo ronei e os retro, por exemplo) com coragem (e serenidade) de incorporar elementos universais, subvertê-los e brincar com seus significados os tornando familiares.

    Parabéns.

    ps.: a performance do fairfield four, além de contar a belíssima história de Lazaro através de uma metáfora usando a figura de um xerife e seu ajudante, demonstra como em música, assim como em outras áreas da vida, menos é mais. Todos aqueles exageros de Mariahs, Celines, Whitneys, Christinas que dizem ter bebido da fonte do gospel soam exagerados diante de tamanha simplicidade e beleza que estes cinco homens nos oferecem com suas notas e pausas… fabão, precisamos de mais pausas e menos notas…

  • Obrigado, amigos, pelos elogios. Fico satisfeito em ver gente inteligente acompanhando essa história aqui.
    Lubisco, um elogio desses, vindo de você, é prêmio! Afinal, sou fã das suas narrativas e já comentei isso.
    Continuem acompanhando e convidando outros que se interessem pelo assunto.
    Estou correndo essa semana, justamente para postar aqui um vídeo dessa sessão sobre a qual falo nesse texto “Música de Trabalho”. Aguardem…
    Detalhe é que esse termo, “música de trabalho”, tornou-se uma piada. Em toda entrevista de “artista”, está lá a bendita expressão… A minha intenção foi justamente criar esse “espelho” com ela…
    Abraço.

  • que jóia, velho. po’ lazarus é sensacional, eu adoro o filme e a trilha que tenho aqui. sempre tive vontade de gravar algo assim, worksongs…um dia inda faço. só os pés e voz. lowd, have mercy…

  • E esse aí, do comentário acima, sabe do que está falando… Abraço, chapa!

  • Sensacional! Não entendo muito de música, mas o processo de criação e a essencia do trabalho realmente estão aumentando minhas expectativas para ouvir o resultado dessa trama… Afinal, do que fala a música?

  • Elementos como esse trazem riqueza pra “música” do Cascadura!
    Acompanhando esse processo sempre!
    No aguardo do vídeo!
    ABraço!

  • Cacete, Fabão. Do caralho o texto – me senti um pouco na gravação.
    abs
    Luiz

  • [...] mais sobre esta gravação aqui. [...]

  • Grande banda cascadura , de grande sucesso e cada dia que passa cresce um pouco + , nunca vi uma banda crescer tanto em tão pouco tempo , o CD bogary de vocês , saio geral , quebrando a banca >> :P << continuem assim , com esse entusiasmo , que é isso que faz uma banda crescer e evoluir ao máximo !!

    By : Dunck rock

  • Rapaz, pela declaração nesse texto da pra ver o carinho e o compromisso que essa banda tem com a musica, a boa musica bahiana, porque pra mim a melhor musica bahiana não sai do som dos tambores e sim do Cascadura. Musicas critaivas, agradaveis e muito bem tocadas, sempre na mesma linha, esses são os atributos que fazem o Cascadura ser quem é hoje, e nesse ritmo o amanhã não terá limites. Sucesso pra vocês!!

  • Tiago, fica atento porque essa é uma cidade de muitas possibilidades. Da mesma forma, e por ela, queremos que este disco represente a variedade de caminhos que podemos seguir… Sempre procurando prestigiar a beleza… sempre!

  • [...] que gravamos no Teatro Sitorne. Sobre a construção da parte musical (melodia, harmonia e ritmo), já escrevi aqui… então queria agora falar sobre o tema que escolhi para esta [...]

  • Mto bom!! Não foi à toa quando fui ao Alambique do Rio Vermelho, se não me engano em 95 algo assim, ver uma banda q não conhecia, mas que o sugestivo nome me atraiu, fiquei apaixonada.
    Parabéns, sucesso e vamos ao Aleluia!

  • Pra lá de interessante o texto.
    Em tempo, adoro a trilha sonora desse filme. O próprio filme é delicioso.

    Claro que vou ter que procurar o documentário. Quero falar do #ALELUIA no @caractags.

    Querendo ou não soar fake ou verdadeiro, vocês são autênticos e me orgulho de ouvir Cascadura.

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