O Rei do Olhar

terça-feira, 22 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Marcamos às 9 horas. Eu cheguei 9h15, mesma hora que Jô Estrada: andré t nos esperava para começarmos o dia de gravação. Sexta-feira, 18 de junho.

Tínhamos algumas baterias que foram registradas no “esquema teste” e que, de tão boas, acabaram sendo adotadas como oficiais para trabalharmos: deu-se o start no Aleluia!

Sugeri a gravação de um tema bem pesado: então, vamos começar pelo peso… Tive a ideia dessa música a partir de um instrumento em especial: uma baritone guitar.

O que é uma baritone guitar?
Trata-se de uma guitarra barítono, ou seja, uma guitarra mais grave que as normais. Tem seis cordas, seu aspecto é bem similar ao das guitarras convencionais. Mas ao invés de afinada em E (mi), ela é afinada em B (si), três tons e meio abaixo. Tem gente que confunde com a famigerada guitarra de sete cordas ou ainda com guitarras convencionais afinadas em tons mais baixos. Mas uma guitarra assim pode ter sua afinação abaixada até C (dó), no máximo. Aqui estamos falando de mais um semitom… e com segurança (sem as variações/ desafinações que ocorrem com cordas folgadas). A tensão nela é perfeita.

Esses detalhes talvez não façam tanto sentido para quem não é músico. Mas, como disse, foi a partir desse instrumento que me veio a ideia da canção…

andré havia feito uma viagem de passeio à Europa. E quando andré vai a algum lugar, ele precisa, muito, conhecer as lojas de instrumentos musicais da localidade. Tanto faz se estiver em Paris ou Boquira! Ele irá pesquisar se há algum apetrecho de uso musical que ainda não tenha e que precise conhecer… e levar consigo. Sua esposa que o diga.

Antes de ele fazer essa citada viagem, conversamos justamente sobre baritone guitar. Na volta, ele apareceu com uma, modelo Danelectro, que comprou na França… sei lá… Me emprestou por uns dias para que eu conhecesse o instrumento, já que eu nunca havia tocado um. Pimba! Veio o riff!

Depois, percebi que é meio “filho” da linha de baixo daquele sucesso do U2: “New Years Day”. Danelectro baritone guitar + pedal Rat Proco + amplificador Fender Bassman valvulado! Vixe! Riff em C (dó), música em G (sol). Certeiro!

Mostrei a andré e foi essa música que tocamos para Thiago Trad “acertar o som de uma bateria”. Ele apareceu com uma célula rítmica totalmente diferente da que eu havia imaginado, ainda que, devido a nosso entrosamento, desenvolvesse o que chamamos de bridge (ponte) e o refrão de forma muito similar ao que pensava. Mas a condução e a dinâmica da parte A (aquela onde desenvolvemos a historinha das letras) veio com muitas novidades e, ao mesmo tempo, impregnada de referências que curtimos.

Na sexta, fomos completar esse arranjo.
O baixo foi executado por Jô, coisa que ele fez em canções como “Senhor das Moscas”. Sugeri uma marcação com jeito de bolero… É! Be-o-Bó-lê-é-Le-rê-o-Ro! Bolero!

Se ligue: rock e bolero andam juntos, all the time! De “P.S. I Love You”, do 1° disco dos Beatles, a “Mesmo Eu Estando do Outro Lado”, tudo é bolero! O bolero é a grande força rítmica que ocupa o ocidente. Herança africana, muito bem desenvolvida no Caribe a partir de um toque dos cultos yorubanos trazidos pelos escravos dessa etnia (alguns chamam esse toque “tanimobé”, aqui na Bahia também chamado “arrebate”), sua presença no rock deu-se via Rhythm’n Blues dos anos 50, em exemplos como “You Better Move On”, do grande Arthur Alexander (regravada pelos Rolling Stones no começo da carreira; aliás, os Beatles também interpretaram coisas desse cara genial, como “Anna (Go to Him)”, também bolero) e “Stand By Me”, sucesso de Ben E. King.

Não esquecer que isso que chamam de “arrocha” nada mais é que uma leitura própria e peculiar sobre esse mesmo ritmo: bolero! Um exemplo massa que acho é o da música “Shama Lama Ding Dong”, incluída na trilha sonora do filme “Animal House” (em português, “Clube dos Cafajestes”), constante presença nas programações vespertina das TVs, interpretada pelo grupo Otis Day and The Knights.

Reproduzimos o baritone guitar, também executado por Jô Estrada, com a mesma filosofia que usei na demo que registrei no meu celular (é isso mesmo: assim que tenho uma ideia, registro-a de imediato no celular e depois vejo se vale a pena ser trabalhada ou não).

Ainda como reforço e somente para termos como alternativa no momento da mixagem, foram gravadas algumas dobras de guitarra, usando distorção bem convencional, mas num timbre todo especial descolado por andré t: ficou pesadíssimo! Em tempo, conta muito o fato de quem executa e quem grava: Jô Estrada e andré t.

Terminamos o dia de sexta bem satisfeitos, às 16 horas, porquê Jô e andré precisavam ensaiar com Messias, com quem tocam e com o qual farão o show de lançamento do excelente disco da estreia solo do líder da brincando de deus. O show acontecerá dia 30 de junho, na Igreja da Barroquinha (templo que, aliás, tem muito a ver com o projeto desse disco do CASCADURA… depois eu conto). E lá se foram: continuaríamos no sábado.

Sábado, 19 de junho, 9 horas: chegamos ao estúdio t.
Fomos recebidos por um entusiasmado andré t, que desde as 8 horas (!) mexia em um módulo de sintetizador – uma intervenção que a princípio me causou estranheza, confesso, mas que logo foi assimilada, apoiada e aplaudida! Uns arremates de guitarra e só restava gravar a voz.

Parêntese: ainda que saiba sobre o que a música irá falar, o tema, ainda não tenho uma letra completa. Somente o esboço do que virá a ser o texto dessa que já é a primeira música pronta do Aleluia. Sei que a canção tratará de uma analogia entre um ilusionista/ charlatão/ mágico e a mídia. Fala sobre o fato de “o truque do mágico só funciona se a plateia quiser acreditar nele”. Seu título: “O Rei do Olhar”.

P.S.: Depois da gravação de sábado, fomos os três nos recolher e descansar para um compromisso muito importante que teríamos naquela noite e que aponta para o motivo pelo qual Thiago Trad esteve ausente dessas duas sessões: sua união com a sua amada! Agora, Thiago é um homem casado! Tudo de melhor para ele.

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18 comentários

  • Que música delícia é essa “Shama Lama Ding Dong”? Adorei.
    Só realmente não tenho capacidade de abstração suficiente para conceber (nem talento musical para decifrar) como bolero + genética de “New Years Day” pode ser igual a música pesadíssima.
    Bom: estou curiosíssima.

  • Adorei “You Better Move On”
    Misturas heim, sempre buscando por isso, e sempre acertando!
    Ancioso? Sim, e muito.

  • Muito interessante o lance de poder acompanhar o processo construtivo do novo CD, interessante demais pra mim, como músico (tocador) e fã do trabalho e da história do Casca. Então vc’s gravam a canção sem letra definida, apenas com o tema em mente!?! achei arriscado por um lado, no entanto, facilita o encaixe da metrica na letra, na verdade da letra na metrica da canção.

  • li a 1ª postagem, vou acompanhando.. até do que não entendo nadinha (a parte que os músicos sacam) eu gosto, aliás, geralmente gosto muito das coisas que eu não entendo! e adoro bastidores, o cheiro da comida ainda no forno, vou estar sempre lendo aqui.. boa sorte, Aleluia!

  • Caramba, sensacional este blog, já li tudo “num tapa”! Estarei firme e forte aqui acompanhando a maior banda da atualidade. Não há como mensurar a contribuição do Casca para o rock´n roll. Que Aleluia chegue logo aos nossos ouvidos!

  • Pois é, moçada! Costumo dizer que não existe música como o Rhythm’n Blues dos anos 50. Realmente, é algo que me emociona.
    Ali nasceu a tradição da música pop como a conhecemos hoje. Todos os arquétipos e estereótipos do panorama pop foram instituídos a partir dali.
    O próprio Elvis é uma variação do estilo de cantor de Rhythm’n'Blues. Em seu estilo, ele “reproduzia” a marca de gente como Ivory Joe Hunter (no canto) e Lloyd Price (na marra).
    Enfim, esse é um universo muito rico…

  • Post espetacular! Muito bem escrito. Fabão, meu velho, vo cobrar o convite de Jô! eheheh

  • Muito massa esse post!
    Grande privilégio poder acompanhar todo esse processo.
    Os detalhes, as influências, as interações. Tudo em “tempo real”. Viajei no efeito dessa guitarra na música do U2. Já não lembrava. Valeu. E parabéns Trad!

    Aleluia!

  • Gosto muito do som do cascadura, mas entendo pouco de música. Para mim está sendo uma aula acompanhar todo o processo do novo CD. Parabéns ao Thiago! Tive a satisfação de conhecê-lo em um show do cascadura no Groove (o show em que o Fábio quase arrebenta a bateria de Trad e este quase estoura os ouvidos da platéia quando pegou a guitarra do Fábio! Rs!) Temos um amigo em comum (Aron). Xará, parabéns pelo texto.

  • Parece que o aleluia será uma obra-prima. Que tal um “kit” com o CD, DVD e um livro (A ponte). abs!

  • Com essa variação sonora e a competência de vocês, posso imaginar o que está por vir… ALELUIA!!!!!!!

  • Rapaz, só tenho uma coisa a dizer: gente que de fato conhece seu ofício e sua arte me dá gosto. Muito.

  • Adorei essa idéia de postar os acontecimentos nos bastidores da produção de seu novo álbum. Boa maneira de estreitar o relacionamento com fãs e parceiros.
    Parabéns.

  • Lembre meu bara, antes de mexer com a cabeça, tem que mexer com a cintura.

    Abraços e boa sorte, o resto vocês sabem!!

  • [...] mais sobre o processo de criação de “O Rei do Olhar” aqui. [...]

  • DR.CASCADURA VIDEO RARISSIMO DO FUNDO DA CANECA!!!!!!
    http://www.youtube.com/watch?v=4b58T5yXldU

    BOA SORTE NESTA NOVA CAMINHADA!

  • IMPERDIVEL DR.CASCADURA VIDEO RARISSIMO DO FUNDO DA CANECA!!!!!!
    http://www.youtube.com/watch?v=4b58T5yXldU

    BOA SORTE NESTA NOVA CAMINHADA!

  • ortega@exaggerate.beheading” rel=”nofollow”>.…

    thank you!!…

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