Colombo

segunda-feira, 09 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Foi o engenho de um homem, que soube vender sua ideia para quem detinha os meios de produção, ou melhor, de navegação! Os reis católicos, de olho na corrida para a chegada à Costa do Malabar, que tinha na dianteira o reino de Portugal, investindo pesado na tecnologia de amarração… Como? É isso aí! A diferença na capacidade de se navegar grandes distâncias no século XV da era cristã era a forma de se dispor (amarrar) as velas. Aí, Portugal criou a nau! Não anal.

ColomboTodo mundo sabe da história de Colombo (genovês e não espanhol) chegar até o rei lusitano para vender o peixe e sair com as mãos abanando e depois expor seu projeto a Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os reis católicos do novo reino da Espanha, que, com o apoio dos banqueiros florentinos, patrocinaram a viagem rumo ao oeste pelo “mar tenebroso”: abriu-se o Atlântico.

Ele não chegou às Índias, ao menos às que achava, até a morte, ter chegado. Chegou a outras, trazendo a dominação, a peste, novas formas de preconceito, exploração e escravidão: o feito histórico sofisticou a crueldade.

Por um lado, o bem; pelo mesmo, o mal! As Américas (o nome do continente nos leva a uma história de “plágio” à parte; o genovês teve que se contentar em batizar o país da Shakira) foram achadas e pronto! Colombo passou o resto da vida muito mais preocupado em provar para o mundo e para si mesmo que não estava enganado e tinha realmente chagado às Índias, das especiarias, e não a outro lugar (prestação de serviço é um negócio é foda!); sequer pensou se o povo que estava naquele pedaço de chão gostou da chegada dos europeus, se curtiu a ideia de ser forçado a mudar de costumes, perder as possessões, ver suas tradições serem “elevadas” à categoria de bestialidades… Enfim! Ele não deve ter pensado no “bom selvagem”… Muito menos no verdadeiro homem americano, hoje chamado pré-colombiano.

O legado disso ta aí… Os descendentes dos donos dessa terra não são reconhecidos como tal e quando há uma proposta da sociedade em posicioná-los numa reserva, tem quem grite: “Mas é muita terra pra plantar o que comer! Isso é latifúndio”. E geralmente quem dá esse grito é o latifundiário, que, geralmente contamina os setores conservadores ou desinformados da sociedade.

Bom… Colombo… (Putz…)
Mesmo imaginando que não passou em qualquer segundo o pensamento de ter, via seu engenho e sua soberba, “fudido” com a vida dos que hoje chamamos índios, imaginei um ato de contrição de Cristóvão Colombo, à véspera de descer à praia que batizaria São Salvador (antes da nossa cidade), nas Bahamas.

Nesse ato em que vê o Novo Mundo como espelho do próprio destino, ele diz:

Antes que eu pise o chão
O que farei amanhã
Penso no quanto longe cheguei
Pra outros tantos isso nem existe

Todo resto que herdei
Soberbo, doutor me fez
Sem papel novo, só ambição
De chegar onde somente eu quis ir

Agora qualquer sensação fajuta me faz chorar de emoção
Agora qualquer sensação fajuta nos faz chorar de emoção

Loucos para cá virão
Aventureiro, ladrão
Sermões e servos, escravidão
Os daqui saberão o que é ser triste

Agora qualquer sensação fajuta me faz chorar de emoção
Agora qualquer sensação fajuta nos faz chorar…

Mas se há um risco que eu deva correr
Pode crer que eu correrei
Se há ali na praia o que ainda não sei bem
É pra lá que eu irei
Como um rio, com um riso, como quem crê
De lá eu gritarei:
Nós somos isso, nós somos risco, somos mal e bem
Só não somos Deus

Logo, onde há o que comer
Restará nada a dizer…
Será só corpo e solidão
Pros que hoje se acham livres

Agora qualquer sensação fajuta me faz chorar de emoção
Agora qualquer sensação fajuta nos faz chorar de emoção

“Colombo” (Fábio Cascadura)

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