A Mulher de Roxo

quarta-feira, 26 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Lembra quando comentei aqui, no post “Na Ruy Barbosa”, sobre a região que compreende a Rua Chile, Rua da Ajuda, a própria Rua Ruy Barbosa, Praça Castro Alves, no Centro de Salvador? É… Falei naquele texto sobre a minha história com aquele pedaço da cidade. Que costumava ir lá, quando ali ainda havia lojas bem cuidadas, consultórios médicos e um comércio mais aquecido. Muito antes daquele trecho cair em abandono pelas autoridades devido ao deslocamento das atividades comerciais para outras regiões da cidade, deixando-o sem nenhum plano estratégico de manutenção e conservação. É um daqueles “precedentes dos absurdos”, do qual falava o Governador Mangabeira…

Pois bem… Criança, quando eu passava pela Rua Chile, descendo de mãos dadas com algum adulto da minha família, costumava me deparar com a figura exótica conhecida na Bahia como “A Mulher de Roxo”. Ela surgia, velha de face muito enrugada, vestindo um hábito, ou suposto hábito, de freira de uma ordem desconhecida. Seu traje era marcadamente roxo. Contavam que tinha aparecido ali, do nada, vestida desse modo, vinda sabe-se lá de onde, por ter sido abandonada pelo noivo no altar. Outras versões dão que ela teria sido forçada a casar com alguém indesejável em detrimento de um amor verdadeiro… Muitas histórias de sua procedência rondavam as calçadas das antiga rua mais chique de Salvador.

Existe quem conte que ela chamava-se Florinda Santos, que era vinda de família outrora abastada da zona caucaueira, no sul do estado. Com certeza, sabia-se que ela apareceria, todos os dias, entre a Praça Municipal e a Praça Castro Alves, caminhando bem cedinho pela Rua Chile. Passava o dia mendigando, pedindo colaborações para seu almoço, seu lanche da tarde. Conversando fiado com habitués da região. Por vezes, aparecia com um batom e se maquiava diante de uma vitrine. A extinta Loja Slopper era seu ponto referencial. Tantas vezes acompanhei minha tia Amandina, que chamo carinhosamente de Dindinha (apesar de ela ser a madrinha do meu irmão mais velho), a essa famosa loja de departamentos, onde as senhoras das famílias de classe média iam comprar “presente bom” pra agradar alguém (e nem da classe média nos éramos…), e lá na porta encontrava aquela pessoa sombria aos meus olhos infantis, que, dizem, tinha voz meiga e doce, e hábitos inocentes.

Uma certa vez, essa mulher me olhou, comentou “Que menino bonito!” e veio passar a mão pela minha cabeça. Me escondi atrás de quem me portava e esbocei aquele choro… Na verdade, a Mulher de Roxo servia como ameaça para qualquer falta cometida pelas crianças: “Se não ficar quieto, a Mulher de Roxo vem e te pega, ouviu?!”, “A Mulher de Roxo gosta de pegar menino que chora a toa…”, “Menino, se não comer eu vou deixar a Mulher de Roxo te pegar!”. E assim era… Passados os anos, com o avanço da sua velhice, ela acabou ganhando notoriedade de lenda viva, habitando entre o real e o imaginário da cidade do Salvador. Tão famosa ficou que jornais dos anos 1970 e 80 costumavam editar matérias sobre a misteriosa. Há até uma em PDF, do extinto Jornal da Bahia, à disposição na internet. Este inclusive cita e destaca um suposto encontro entre o famoso compositor Caetano Veloso e a Mulher de Roxo.

Vamos lembrar o que já disse: no fim dos anos 70, apesar de uma certa depressão haver se abatido sobre aquele trecho, a Chile ainda gozava de um status de ponto elegante de compras em Soterópolis. Lá estavam, além da Slopper, a casa O Adamastor (que foi de propriedade do pai do cineasta conquistense Glauber Rocha), o elegante Hotel Palace e outros… Remexendo nas gavetas da memória, encontrei essa personagem e ela me remeteu a uma situação muito comum na nossa sociedade: a repressão ao feminino! Como? Repressão na Bahia? “Vai descendo na boquinha da garrafa…”, “Segure o Tchan! Amarre o Tchan…” Não tem nada mais machista que a sensualização exarcebada da mulher. E eu não estou aqui criticando a conduta e a abordagem das bandas de pagode, estou só constatando um fato. A freira e a piriguete são faces da mesma moeda: a repressão ao feminino. E teremos oportunidade de discutir esses dois lados, aqui no A Ponte e no próprio disco “Aleluia” (me cobrem um post sobre “A Verdadeira”).

E a Mulher de Roxo?
Quando lembrei dela, em carreata pela minha mente, surgiram outras peças que compuseram o cotidiano da minha infância, de um modo POP baiano/brazuca: o jornalista França Teixeira (com seu bordão “Minha cara, minha nobre família baiana), “A Escrava Isaura”, o falecido radialista-populista Fernando José (que narrava o gol dizendo ao goleiro “Vai buscar [a bola] no fundo, fulano-de-tal…” e que, depois, numa estratégia sórdida dos caciques da terra, foi irresponsavelmente conduzido ao gabinete da Prefeitura de Salvador, e lembrado como o pior administrador que essa cidade já teve, até que esta atual gestão ocupasse o Palácio Tomé de Souza)…

A religiosidade e a profanação estavam encarnados na Mulher de Roxo. Quer algo mais baiano? Em quem ela teria se inspirado para vestir-se de freira? Irmã Dulce? Uma Irmã Dulce do mundo bizarro? Ou do mundo real?… Do nosso mundo… Apesar de nunca tê-la visto trajando outra coisa senão aquela veste modorrenta, ela também se vestiu de rainha, com coroa e tudo, e ainda de noiva. Um relato que me foi prestado sobre ela veio do amigo Álvaro Medrado, famoso tatuador que ainda rapaz veio da Ilha de Itaparica trabalhar em Salvador: “Eu lembro de passar por ali, na Rua Chile, porque era meu trajeto da casa para o trabalho, e me deparar com ela, de saias levantadas, fazendo… as suas necessidades…”. Incomodava também…

O diabo é que para mim foi passado que ela era incômoda. Pesquisando, encontro um monte de textos falando dela com certa ternura. Então, por que não fomos com ela? Não fomos por ela… Poucos se compadeceram e buscaram cuidar de algum modo do bem-estar da Mulher de Roxo – certamente o pessoal do também extinto Albergue Municipal, que ficava localizado da Av. J.J. Seabra, popularmente conhecida como Baixa dos Sapateiros (onde Ary Barroso encontrou a morena mais frajola da Bahia), era exceção. Lá era onde ela pernoitava.

Florinda dos Santos morreu em 1997. A Mulher de Roxo seguiu no imaginário dos que tomaram contato com a sua existência… Enfim, veio à tona uma canção. Uma algaravia de sons em riffs pesados: A Mulher de Roxo! Mais surpreendente é que é um rock dos mais rocks que já fiz… Levei ao estúdio e já pusemos a gravar. Assim, a Mulher de Roxo retorna…

Outros relatos sobre A Mulher de Roxo e sua história aqui na internet:
No Blog do Gutemberg
No Recanto das Letras
No 15 Mistérios

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16 comentários

  • “A Verdadeira” é também uma música nova?

  • Fabão,
    Cada vez mais surpreendendo a todos como a verdadeira história de Salvador.
    Creio eu ter visto essa Mulher de Roxo,quando aportei pela primeira vez em Salvador,andava muito pela Rua Chile,Praça Castro Alves,nessa época ainda existia uma lanchonete Paes Mendonça em cada esquina.Isto falo de 1978.
    De lá prá cá,considero Salvador minha segunda cidade,devo ter alguma ligação ancestral com ela,e ainda pretendo descobrir o que é.
    O que importa,é que como deixei registrado no tópico anterior,é sem dúvida nenhuma a importância que você através de suas pesquisas,vêm trazendo pra galera,todos esses questionamentos sobre a história dessa cidade e o que podemos fazer por ela.
    Parabéns Fabão!

    Abraço.

  • Fábio, tive a experiência assustadora de ter conhecido (aliás, visto) a mulher de roxo. Ela era meio esquisita e, como você, se ela tivesse vindo tentar me tocar eu teria me escondido da mesma forma, atrás do adulto que estivesse comigo (tb era criança nesta época).
    Será que somos cruéis por ter deixado o mito existir, ou a nossa necessidade pela existência de mitos remedia a nossa omissão? Hoje a mulher de roxo é um mito na cidade… Mas ontem, ela sujava a rua fazendo suas necessidades na porta da Sloper, cheirava mal, mas era uma mulher tranquila. Uma voz fininha e baixinha… Nunca a vi dizendo palavrões, ou sendo grosseira.
    Mas agora “Inês é morta”, ao mesmo tempo que mais viva do que nunca.

  • Pô, Fábio, que resgate… Me vi guri no final dos anos 70 e início dos 80 passeando com minha mãe e minha avó de mãos dadas do colégio Mercês até a casa Sloper. Era o centro comercial da época e quase todo mundo comprava lá… Prá mim e meu irmão era uma via crucis, mas sempre tinha a promessa da recompensa do sanduíche misto com guaraná da lanchonete das Lojas Brasileiras e do cinema no final da tarde (vi muito filme dos trapalhões por lá…) . Vi muitas vezes a mulher de roxo e um misto de fascinação e medo nos dominava na época. Lembro-me que ela carregava às vezes um saco enorme e minha mãe nos dizia que era prá levar menino teimoso … Enfim, doces lembranças de uma cidade que não é mais tão doce assim.
    Valeu!
    Abração!

  • Aleluia vai entra pra historia da musica baiana.

  • Adoro a mulher de roxo. Tinha um post sobre ela no meu blog: http://docafundo.blogspot.com/2007/03/mulher-de-roxo.html

  • Li este texto sem desgrudar os olhos. Estou muuuito ansiosa para ouvir o “Aleluia” e também estou curiosa sobre a mulher de roxo, darei uma lida a mais!

    ah, e “A verdadeira” tô com a mesma dúvida de Ícaro!

  • Estou emocionado cara. A sua narrativa foi excelente. Meu irmão com os seus quase 50 anos de idade e 35 anos de rock já me falava sobre ela e me assustava também “Se não ficar quieto, a Mulher de Roxo vem e te pega, ouviu?!” eheheheheh. Estou curioso para ouvir a canção.

    Abraço!

  • Valeu a todos pelos comentários. Obrigado pelos elogios.
    “A Verdadeira” é uma das canções do “Aleluia”, sim, e fará contraponto justamente à canção “A Mulher de Roxo”. Aliás, muita gente se surpreenderá com o que estamos aprontando nessas músicas… Mas o disco todo será uma surpresa. Assim esperamos…
    Obrigado e continuem divulgando nosso blog aqui.
    Beijão.

  • Muito legal seu artigo,sou paulista apaixonada por Salvador,e casada com um baiano que conheci no carnaval da praça CASTRO ALVES.Que tristeza ,encontrar o coração da cidade tão degradado,quando aí estive o ano passado.Muito triste!
    É, a esfiha do chines era a melhor de Salvador!

  • Obrigado, Paula. Não sei se vc leu, mas há um outro texto aqui chamado “Na Ruy Barbosa”, que fala específicamente da degradação do Centrão de Salavdor.
    Estamos tristes e desejosos de uma grande virada. mas creio que, para essa virada acontecer, seja necessária a participação e o comprometimento popular.
    As hostes do poder seguem manipulando, ainda que seja cada vez mais visível o descontrole para com a cidade. A imprensa popularesca faz jogo de manchetes para ganhar audiência e afastam o povo da discussão. Foram eles, os grandes aliados da atual administração…
    Enfim, será preciso muito para podermos colocar Salvador no trilho do real desenvolvimento.

  • [...] postei o texto “A Mulher de Roxo”, pedi que me cobrassem um post sobre “A Verdadeira”. Cobrança feita, eis que venho cumprir a [...]

  • Sou Sandra Mamede, professora, escritora, poeta e cordelista daqui de Salvador, já há algum tempo escrevi sobre a Mulher de Roxo e para minha surpresa encontrei o seu blog que achei bastante interessante. Vou enviar-lhe o meu artigo sobre A Mulher de Roxo, espero que goste.

    A MULHER DE ROXO

    Sandra Mamede

    Nasci e cresci aqui nessa cidade maravilhosa que é Salvador, a primeira cidade do Brasil. Foi aqui que os portugueses desembarcaram, onde se rezou a primeira missa, a única cidade do Brasil que está dividida em Cidade Alta e Cidade Baixa, ligadas por um Elevador com 70 metros de altura, por nome , Elevador Lacerda, em homenagem ao seu construtor. As duas cidades também são ligadas por ladeiras centenárias ainda revestidas de pedras, e dois Planos Inclinados.
    O centro da cidade era uma pequena rua chamada de Rua Chile, de mais menos uns 500 metros, onde ficavam as melhores lojas de moda, como as Lojas Duas Américas, a primeira loja de Salvador que colocou escada rolante,o Palace Hotel, um hotel luxuoso onde funcionava um cassino freqüentado pela alta sociedade soteropolitana, a loja masculino mais famosa de Salvador, Adamastor. Na praça que dá início a essa rua estão situados o Palácio do Governo, a Prefeitura, e a Câmera de Vereadores, nessa praça também fica o acesso ao Elevador Lacerda, de onde se tem uma belíssima vista de uma grande parte da Comércio e da Baía de Todos os Santos onde se encontra o Forte de São Marcelo, um forte de formato arredondado construído em pleno mar, que era usado para defender a cidade de possíveis invasores.
    Enfim, a Rua Chile era considerada como o “Coração da Cidade”, pois todos os eventos importantes aconteciam ali.
    A “Loja Sloper” ( nunca acertava pronunciar este nome!!_), era uma Loja de departamentos situada na Rua Chile, próxima a loja Duas Américas. A Sloper era uma loja enorme e completa, direcionada para a casa, moda feminina, brinquedos etc…Sua entrada era bastante arrojada para a época ( mais ou menos há 35 anos atrás), uma vitrine tomava toda a frente da loja, e nessa entrada, entre as vitrines, acontecia uma coisa, se não estranha…bastante incomum…num canto, entre as vitrines, ficava uma mulher vestida de noiva ( ou freira), o vestido longo todo roxo, com véu e uma espécie de capa. Ela deveria ter em torno de 40 anos( quando a conheci!). Alta, morena, cabelos pretos, muito maquiada, sandália rasteira..
    . Falava muito bem, tinha uma voz suave e meiga, parecia a voz de uma menina, dirigia-se as pessoas pedindo dinheiro. Não incomodava ninguém. Ficava de pé na frente da loja, ou andando entre as vitrines, as vezes cantando, as vezes falando sozinha, ou pedindo dinheiro . Nunca saía dali, dormia e acordava ali. Ninguém conseguia afastá-la dali!!! A não ser para fazer a sua caminhada costumeira até a Praça Tomé de Sousa Nada se sabia sobre ela! Era uma lenda! Cresci, vendo-a ali, envelhecendo gradativamente. O vestido era substituído de vez em quando, mas conservava a mesma cor. Eram muitas as histórias a seu respeito. Falavam que pertencia a uma família tradicional daqui de Salvador, formada em magistério, falava várias línguas, rica , que enlouqueceu porque foi abandonada pelo noivo no altar, outra versão é que tinha sido criada num bordel que pegou fogo, mais outra é que sua mãe seguiu o seu pai encontrando-a com outra, deu um tiro nele e matou-se em seguida na presença dela. E assim, histórias eram contadas, mas nunca soubemos qual era a verdadeira.
    Com o passar dos anos e a criação dos shoppings, a Rua Chile deixou de ser o “Coração da Cidade”, aos pouquinhas foi sendo abandonada…suas lojas, na grande maioria fecharam as portas, também deixou de ser caminho obrigatório para alguns pontos da cidade, enfraquecendo ainda mais o comércio…
    Eu passava sempre por lá, mas com as mudanças, já não fazia esse caminho…com tristeza acompanhei o declínio da Rua Chile, primeiro foi a loja “Duas Américas” que fechou, algum tempo depois foi a vez da “Sloper”. Confesso que na época nem lembrei da “mulher de roxo”…
    alguns anos depois…li a manchete num jornal local; ‘ MULHER DE ROXO, ESTÁ MORRENDO A MÍNGUA ABANDONADA NUMA CALÇADA”. Nossa!!! foi um choque, uma surpresa muito grande, eu nem lembrava mais dela!!!
    A matéria do jornal continuava explicando a história dela, as suposições de quem ela poderia ter sido, e que depois do fechamento da “Sloper”, ela ficou vagando pelas ruas de Salvador sem destino, tinha perdido a sua identidade. Estava muito doente, jogada numa calçada qualquer da cidade, sem condições de alimentar-se ou de locomover-se. Tentaram encontrar algum parente, mas as tentativas foram inúteis. Com a divulgação do caso pela imprensa,e com a cobrança da população, ela foi removida para o Hospital Santo Antonio ( Hospital mantido pelas obras assistenciais de Irmã Dulce), para ser tratada, depois de algum tempo veio a falecer, e levou com ela o segredo da sua vida…até hoje aqui em Salvador, todos ( digo as pessoas mais antigas), já ouviram falar da “MULHER DE ROXO

  • cid lincoln de aragão santana
    terça-feira, 10 abril 2012 at 16:15

    Caramba Fábio!!!!
    Fiz uma viagem a minha infância agora.Eu era uma das crianças q morria de medo dessa senhora!!!
    Altamente coerente e enriquecedor o texto.Parabéns!!!
    Torcendo pelo sucesso de vcs. e ansioso pra conhecer as novas ”pancadas”!!!
    Abraços.

  • cid lincoln de aragão santana
    terça-feira, 10 abril 2012 at 16:17

    Professora Sandra,parabéns pra senhora também!!!
    Grande abraço!!!

  • Excelente texto. A parte que mais gostei: Ela seria “Uma Irmã Dulce do mundo bizarro?”

    Brincadeiras a parte me identifico com várias passagens do texto, eu também me deparei quando criança com ela e nunca soube aou certo porque se vestia daquela forma, se era louca… faz parte do meu imaginário até hoje. O brigado Fabio Cascadura. Agora estou curioso para ouvir a música.

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