Uma viagem no meio

quarta-feira, 14 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Bem no meio do processo de entrar no estúdio, dei-me o luxo de viajar, em férias, com minha noiva… Mas bem no meio das gravações?

É que a viagem estava planejada antes de pensarmos em marcar as datas de estúdio e na vida é assim: prioridade é o que vem primeiro. Mantive os planos com a amada (ai de mim tentar demovê-la disso!) e fomos: break nas gravações.

Buenos Aires orgulha-se de sua tradição europeia, considera-se europeia, mas tem uma afirmação imensa em ser latino-americana. Às vezes, nos confundem em sua confusão. Fábio "Magallanes" Tanto mais, chegando lá em tempos de Mundial de Futebol (aquilo que outrora chamávamos de Copa do Mundo, termo, agora, de uso proibido, sob pena de pagamento de royaltes ao dono: a FIFA). Ora eles afirmam torcer por todos “los hermanos sudamericanos”, ora afirmam preferir torcer para o “english team” ao Brasil. Acho que todos sabem da histórica rivalidade entre a Inglaterra e a Argentina, com caso de invasão inglesa a nossos vizinhos e tudo o mais… Fato é que Buenos Aires é autêntica, mesmo sendo uma réplica. Suas caras são, em geral, ibéricas e/ou caucasianas. Um índio de Tucumán (norte do país) aqui e outro ali. A colônia oriental é crescente e já opera interferência em alguns costumes da cidade: tinturaria e culinária (no agradável Bar 6, experimentamos um troço chamado “wok de carne”, um tipo de yakisoba adaptado ao modo argentino de ser). Negros? Em dez dias, lembro de ter visto quatro e somente um, suspeito eu, tenha nascido lá. Os demais eram imigrantes ou turistas.

Cemitério da Recoleta

A tradição europeia é tão forte que um dos pontos turísticos mais celebrados de lá é um cemitério. Tem algo mais europeu que o culto à morte? O cemitério da Recoleta é realmente muito rico em suas esculturas lúgubres, seus mármores, testemunhas de um tempo que a cidade contava com uma classe alta mais opulenta e influente. Confesso que, apesar de ter curtido ir lá, tirado foto em pose de coreografia de “Thriller” de MJ, fiquei um pouco chocado com o lance das visitas ao túmulo de Eva Perón: havia uma fila de gente para tirar foto ao lado da catacumba da criatura! Em um momento, um par de gêmeas, na casa dos nove anos de idade, posou sorrindo enquanto a mãe que, acho, era colombiana, dizia: “Um momento…”, e tirou a foto com as duas com rostos angelicais. Mais um pouco e chegariam a mulher-barbada, o atirador de facas e a mula-sem-cabeça…

Porém, ao lado desse cemitério fica um centro comercial moderno chamado Buenos Aires Design. O design, a forma, as artes visuais são outros exemplos de orgulho dos portenhos. E eles têm todo motivo para sentirem orgulho disso. A cidade é extremamente visual: nos monumentos antigos, no “rosáceo” do palácio presidencial, mundialmente conhecido como “A Casa Rosada”, no grafite às ruas, nas vitrines sempre muito caprichadas de qualquer estabelecimento comercial, no filatelista (aquele cara que cria placas floreadas em cores vibrantes)… No que diz respeito a ver, BsAs dá um show.

Lembro que sentamos num restaurante bem modesto em Villa Crespo, do tipo que amo ir em qualquer cidade que vá. Aquele lugar frequentado pelos locais. Era um lugar como o Risca Faca, da Rua Visconde de Ouro Preto, no Centro de São Paulo, ou a Ceasinha do Rio Vermelho, em Salvador: culinária popular. Lá, a vitrine era ornada com uma marca estampando o nome do lugar (Salgado Alimentos), o balcão surrado com uma balança antiga e bem conservada, uma “adega” com diversos vinhos expostos, cuidadosamente organizados. As mesas seguiam uma linha organizada em pares e os garçons e garçonetes, todos jovens, vestiam avental longo por cima do jeans/camiseta/all star. A comida desse lugar é um caso à parte: massa fresca de primeira qualidade.

Alias, comida não é problema numa cidade cosmopolita como a capital argentina. Come-se bem e come-se de tudo: massas, carnes, frutos do mar, empanadas… Para não falar nas sorveterias, rotisserias e padarias: doces, sorvetes, suspiros gigantes, alfajores (os imbatíveis Cachafaz e La Bizantina, ainda que o melhor tenha sido um gigante da Panaderia Las Famílias, na Calle Armenia), bolos, caldas… Açúcar!

Em Buenos Aires, pode-se encontrar desde a famosa parrilla (recomendo o Lo de Jesus, em Palermo) à comida armênia (fomos ao Sarkis, também em Villa Crespo). Villa Crespo e Palermo: bairros bem situados, cheios de charme, lojas, gente interessante e bares. Pode-se andar em plena madrugada tranquilamente que é seguro. Ainda que, em Palermo, haja um tanto mais de barulho à noite (o cruzamento Serrano/Cabrera é carro e gente passando e falando a noite inteira), tanto mais é se perto da pequena e movimentada Plaza Cortazar, com bares/restaurantes/cafés 24 horas!

Foi bem próximo a essa praça que, num começo de noite, voltando para o hotel, paramos à porta de uma loja de roupas e percebemos que lá tocava o disco “Zii e Zie“, de Caetano. Como brasileiros, baianos, achamos massa, mas achamos normal: Caetano é mundialmente famoso.

No dia seguinte, indo para um passeio mais ao centro da cidade, passamos na frente da mesma loja e tocava Tom Zé: “Poxa! O cara gosta de música brasileira! Vou deixar um disco do CASCADURA que trouxe comigo com eles”.

À noite, voltamos pelo mesmo trajeto, justamente para deixar o disco na loja e, de repente, bater um papo com o pessoal de lá. Para nossa surpresa, ao chegarmos tocava um disco com música de capoeira! Pensei: “Esse é daqueles que sonha com a Bahia toda noite!”. Fazia frio. Chamei o camarada que devia ser o dono e entreguei o disco, me apresentei. O camarada ficou felizão: “Você é da Bahia?! Que legal… Que lindo, cara!”. Achar a Bahia “que lindo, cara!” é lugar comum para quem é de lá.

Lembro do domingo, quando íamos à tradicional Feira de San Telmo e, parados numa esquina, ponderávamos se estávamos seguindo na direção correta. Uma senhora de baixa estatura, no alto dos seus setenta e tantos anos, trajando um lindo e antigo abrigo vermelho, nos perguntou se queríamos ajuda. Aceitamos e ela nos orientou. Seguimos na mesma direção, ela perguntando se éramos do Brasil, de que cidade vínhamos… Quando dissemos Salvador, ela exclamou: “Hmmmm… Hay, llá, muchas iglesias, no?! Muy tradicional!”. Simpática! Disse que seu sonho era vir à Bahia e a Ouro Preto. Agradam-lhes as cidades com história, tradições verdadeiras… Essa senhorinha de amáveis olhos azuis foi uma das amostras do que se pode ter de simpatia dos argentinos. Sim! Não são de todo antipáticos. São carrancudos, em geral. Sempre sérios e apressados.

Posso citar também o tiozinho do kiosko Milagritos (no cruzamento das calles Thames/J. Ramires Velasco). Kiosko é um tipo de “barraquinha-vende-tudo” e, lá, vende-se de tudo mesmo: refrigerante, cigarros, canetas, alfajores, figurinhas da copa… Num dos últimos dias, tínhamos que pegar o “omnibus” e não tínhamos dinheiro em moedas. E para pegar “omnibus, ou bus, como gostam de falar os portenhos, tem que se ter “monedas”. Por isso, as moedas são escassas nas ruas de Buenos Aires: quem as tem, guarda para usar no transporte urbano (esse sistema é, aliás, algo que realmente nos faz sentir inveja. Quem dera essa administração que aí está, na cidade do Salvador, pudesse enxergar alternativas a serem copiadas de lá. Mas a visão é estreita, a mente, pequena e a ganância, grande…).

Como não tínhamos os 1,10 pesos argentinos trocados para cada passagem, tínhamos que trocar e ninguém troca. Entramos no kiosko Milagro e, para nosso espanto, o “tiozinho” meio índio, meio “chino” trocou nossas moedas e deu-nos a indicação de onde pegaríamos o ônibus certo para o nosso destino, falando pausadamente, para que entendêssemos, preocupação menor para quem vive em Buenos Aires.

Outros exemplos de simpatia da cidade vieram de duas pessoas ligadas ao universo da música. O primeiro foi o produtor independente Martín Ramicone, atuante na cidade com seu selo/produtora Da Chance Music, com quem vinha me correspondendo. Figura única, conhecedor do Brasil (já morou em Maceió/AL), da música de cá e dos organismos do mercado musical de lá. Conversamos sobre história da América Latina, futebol e rock! Ganhei um bom amigo e parceiro para projetos futuros.

O outro foi um cara chamado Juan Trasmonte. Ele produz um programa de rádio chamado Club Brasil, com grande sucesso na FM local, em que apresenta música brasileira de todos os tempos, e ainda produz apresentações de artistas brasileiros por lá. Encontrei com ele rapidamente, em uma rápida conversa, em que me apresentou seu total domínio do nosso idioma e mostrou realmente conhecer a música daqui. Chamou-me atenção ele saber da grandeza do som que faz o amigo Tiganá Santana: achei o máximo! Falou de muita coisa sobre a música do Brasil, de como ela atinge positivamente as pessoas na Argentina, de como vinha a divulgando, o alcance de seu programa, o êxito. Falei a ele da trajetória do CASCADURA, dos planos para o futuro e da vontade de fazer o nosso novo trabalho, Aleluia, chegar lá.

Na despedida, ele me perguntou como o encontrei. Disse-lhe que foi por indicação de uma amiga, Mariana, que havia trabalhado com ele e que hoje tem um hotel supercharmoso, onde nos hospedávamos: o Querido! Querido é o nome apropriado para esse lugar, que fica em Villa Crespo (Calle Juan Ramirez Velasco, n° 934), ao lado do fantástico bairro de Palermo. Se for a Buenos Aires, fique lá: vale muito a pena. Eu vou voltar e vou ficar lá.

P.S.: Agora, de volta a casa, retomo as gravações do Aleluia junto a Thiago, Jô e andré. Acumulei, nessa viagem, referências e comparações para trazer algo de novo ao álbum. Tomara que funcione…

Quando eu chegar a Nicarágua!...

Quando eu chegar a Nicarágua!...

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8 comentários

  • Ô Fábio,

    Imagino que a visita de vocês tenha sido apressada, mas teria gostado de encontrar com você e com Tici, e lhes apresentar meu namorido musical, rsrs, Gaba. Ele está mais em contato com a galera do jazz e do folclore, mas acho que vocês terão muito em comum.

    Que delícia ler as impressões dos conterrâneos sobre Baires. Eu realmente tenho muito a agradecer a esta cidade e seu povo, foram muito acolhedores comigo, e você tem razão: AMAM a Bahia, muita vezes sem nem conhecer. Sem dúvida, e na prática, Buenos Aires já é a minha segunda casa.

    Bjos e sucesso nos futuros projetos!

    Cla

  • Fabão,
    tudo bem que suas histórias são ótimas.
    Mas o jeito que você as conta é ainda melhor.

  • Muito bom saber que vocês voltaram pro estúdio pra gravar um novo trabalho…acompanho o trabalho de vocês desde 2004…Letras sensíveis e riffs muito bons…parabéns pelo talento de vocês…

  • Valeu, Luiz! Massa que vc vem acompanhando.
    Paula, “obrigadão” pelo carinho e pelo incentivo.
    Preciso muito contar as novas do estúdio. Temos feito algumas coisas e gravado alguns vídeos tb. Deixe-nos “ajeitar” que logo estará aqui.
    Segunda, vamos testar um lance muito diferente nas gravações. Estou muito ansioso por experimentar. Depois, eu conto, dando certo ou não… Torçam por nós.
    Abraços.

  • Nicarágua de Buenos Aires?
    ..huuuuuuumm….Paraguaia!

    Abraços ao casal!

    Obs: tinha lugar onde mandar um cartão postal?

  • buenos aires pra você e sua amada, fabión!

  • Que prazer de ler estas palavras Fábio! Muito obrigado mesmo! Grande abraço pra todos! Se cuida tá!? Falow!

  • Putz…memórias…
    Passei o melhor carnaval da minha vida em Buenos Aires – correndo longe de carnaval sem olhar pra trás.
    Buenos Aires é rock’n'roll. E Astor Piazzolla…
    Guitarra e bandoneon!
    (Eu posso ouvir ao fundo – Balada Para Un Loco, do supracitado Piazzolla:
    “Las tardecitas de Buenos Aires…”
    Alguem mais está ouvindo? Como não? Acho que tomei muita Amoxicilina!)

    Enfim…dá um alento saber que o Cascadura está em estúdio…Principalmente pra esse fã que se encontra no pós-operatório de cirurgia (eles chamam de procedimento não -eletivo) pra consertar três fraturas no queixo. Algumas pessoas precisam de motocicletas ou outros veículos para meterem a fuça no chão…Amadores! Eu caí de mim mesmo! Beijei o chão e me apaixonei! De novo Piazzolla:
    “Viva los locos que inventaron el amor…” (Agora deu pra ouvir, né? Nada? Cacete…)

    Abraço aí…Fabião e Thiago…!

    João Paulo ( lembram de mim? Técnico de som da OUTs em 2005 ou 2006 (sei lá!) e primo do professor Mauro…)

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