A Verdadeira (está em todo lugar)

domingo, 20 março 2011 - postado por fabiocascadura

Quando postei o texto “A Mulher de Roxo”, pedi que me cobrassem um post sobre “A Verdadeira”. Cobrança feita, eis que venho cumprir a promessa… Mas exatamente o quê uma coisa tem a ver com a outra?

Nessa história de tratar da Cidade do Salvador no disco Aleluia, confrontando seus contrastes, suas disparidades, emergiram duas canções: “A Mulher de Roxo”, que, pelos motivos que expliquei no post específico, fala da repressão ao feminino, e “A Verdadeira”, que explicarei agora.

Há uma música muito famosa, que ganhou notoriedade na voz de João Gilberto: “Falsa Baiana”. Essa canção, curiosamente, não foi escrita pelo “pai da bossa nova”, e sim por um compositor chamado Geraldo Pereira.

Geraldo era um motorista de caminhão de coleta de lixo que viveu por entre a boemia carioca nos anos 1930 e 40. Morador da região do Morro da Mangueira, amigo do ilustre Cartola, participou ativamente da construção do que ficou conhecido como samba sincopado, apontado como um dos alicerces da própria bossa nova dos anos 50. Geraldo teve um punhado de sambas seus conhecidos: “Acertei no Milhar”, “Bolinha de Papel” e “Ministério da Economia” (em que exaltava as medidas trabalhistas/populistas do Governo Vargas). Porém, sua música mais conhecida é mesmo “Falsa Baiana”, onde descreve a discrepância de atitude entra a “falsa” e a “verdadeira” baianas diante de uma roda de samba.

Tão categórica é a sua explanação que tais características acabaram sendo absorvidas pelo folclore da “Terra de São Salvador”: “Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/ Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca…”. Apesar desse sucesso todo, Geraldo morreu pobre e de forma trágica: morto numa briga de bar, supostamente pela faca do legendário Madame Satã. Mas sua obra contribuiu muito com o que se chama de samba hoje em dia e, em especial, “Falsa Baiana” entrou para o imaginário do que é a “típica soteropolitana”. O detalhe: ele era mineiro.

Ouvindo esse samba famoso, na voz de João Gilberto, pensei: essa baiana realmente existiu? Se sim, será que ainda está aqui, hoje?! Generalizar é uma merda…

Em “Falsa Baiana”, o foco central é aquela que não mexe as cadeiras e que não deixa a moçada com água na boca em contraponto à que vira os olhinhos e diz: ‘Eu sou filha de São Salvador!’ enquanto samba… Se é assim, então, a “verdadeira baiana” nada mais é do que a hoje identificada como PIRIGUETE! Acompanhou o meu raciocínio, Geraldo?!

A piriguete não totaliza todas as baianas, mas está presente no cotidiano da cidade. A despeito do estereótipo sobre o qual o termo foi gerado, quando era representado pela moça de origem pobre, suburbana, usando trajes mínimos e de cabelos sempre molhados (fruto do uso de cremes específicos para esse fim e de baixo custo, como o famoso Kolene), ela está hoje em todos os lugares: nas ruas do centro, nos shopping centers, nas praias, nos salões de beleza, nos mercados (populares ou nem tanto), atrás dos balcões, nas recepções dos consultórios e não se enganem: estão nos consultórios, nos anúncios na TV, canteiros de obras, agências publicitárias, tribunais, fóruns, no Carnaval (em cima e embaixo dos trios elétricos), sobre os palcos… Elas estão em todos os lugares, são de todas as origens, com todos os tons de pele, já aderiram à chapinha e tudo mais…

Vulgares? Outrora chamadas de “ninjas” (gíria muito popular em Salvador entre o final dos anos 1990 e começo dos 2000), as piriguetes reafirmam a independência feminina, a voluntariedade no fazer o que se quer, sem pensar em consequências ou opiniões alheias… A piriguete é o “agente antirepressivo” da mulher. Em geral tratado com humor, piriguete acabou por se tornar um termo depreciativo. Ok… Mas não há como negar: as piriguetes estão em todo lugar.

Assim, para contrapor a repressão ao feminino, tão frugal na Cidade da Bahia, que eclode em “A Mulher de Roxo”, escrevi “A Verdadeira”. Se a “Falsa Baiana” não entra na roda, “A Verdadeira” vai! “A Verdadeira”, porque a “Falsa Baiana” o mineirinho Geraldo Azevedo já havia escrito.

A letra diz:

A Verdadeira
Revira os olhinhos, deixa colar
Já foi Rosa de Ouro, hoje é estrela vulgar
Jeito de corpo, ela vai até o chão
Já foi coisa de louco – hoje, chamam, ela vai

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou no escuro
Ai de quem seja seu par

É verdadeira até não poder mais
Veio dessa maneira e não pode mudar
Chega na hora e só sai no final
Ela é dessas mulheres que só dizem “Mais!”

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou sozinho
Ai de quem seja seu par

Coração!
Coração!

Veio como uma valsinha, em ¾ (lógico, Cascadura!). Pensei que nada de samba haveria nela: seria o óbvio fazer isso! E quisemos posicioná-la mais como modinha romântica que qualquer outra coisa. Um argumento que nos remetesse a Machado de Assis, José de Alencar, Brasil do século XIX (lembremos que os movimentos literários/artísticos vindos da Europa chegavam aqui para ser propagados com muito mais tempo de atraso que hoje… Mas, ainda hoje, sofremos dessa influência… C’est la mondialisation!). E pensamos no nome do nosso amigo, compositor, arranjador Paulo Rios Filho.

Paulo Rios é formado em composição pela Escola de Música da UFBA. Destaca-se por uma profusa produção, marcada por intercâmbio com criadores de outros continentes como Europa e África. Membro do grupo OCA (Oficina de Composição Agora), que realiza um interessante e instigante trabalho de repensar e renovar as abordagens dentro da composição para Música de Concerto e Orquestra (como eles, humildemente, preferem chamar o que muitos se referem como “Música Erudita”…). O Grupo OCA é um caso à parte nesse extenso panorama criativo da Bahia (e submerso pela “grande mídia”) que recomendo: procurem conhecer. Ainda neste semestre, estarão lançando uma série de concertos gratuitos no Teatro Vila Velha, aqui mesmo em Salvador. Informem-se!

Num papo, expus um esboço da canção a Paulinho. Expliquei-lhe tudo isso que abordei acima. Discorri sobre a falsa e a verdadeira, o contraponto entre as duas e a oposição que essa música significaria diante de “A Mulher de Roxo”: ele entendeu! Sugeriu um arranjo baseado em uma orquestrinha de câmara, com ênfase em instrumentos do grupo de (sopro) madeiras: oboé, fagote, clarineta… Fiquei exultante e curioso.

Ele elaborou o arranjo baseado em uma demo caseira que fiz com a voz e sampler de trechos instrumentais (dos Beatles, inclusive, especificamente a canção “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, do disco Sgt. Peppers), e de uma outra que fizemos apenas com voz e violão no estúdio t, gravada por sugestão de andré t.

Algumas semanas passadas e ele nos traz sua abordagem para o tema… Ali, Paulo Rios Filho brindou-nos com sua grande inteligência musical, sua sensibilidade apurada e sua cultura. O arranjo primoroso abordava um clima romântico, como queríamos, mas com um algo mais. Por vezes o fagote, instrumento tão lindo, profundamente grave e solene, brincava com os “pi ri rim pom pom” dos arrochas e pagodes da vida!

Num lance de muita beleza, oboé, flauta transversa, violino e clarineta passeiam lado a lado, fugindo uns dos outros por vezes, agrupando-se num instante de comunhão… Eita, que ficou bonito! Deixamos um pouco disso para que você veja e escute por si mesmo o que foi essa sessão…

Diana Bakardjieva (Oboé)
Cláudia Sales (Fagote)
Flávio Hamaoka (Flauta)
Pedro Robatto (Clarinete)
Mário Britto (Violino)

Ao final, ficamos todos muito satisfeitos.
Acreditamos que, mesmo antes da gravação das vozes, ainda há o que ser feito. E vamos fazê-lo! Ainda não sabemos o quê…

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