(Re)Começo

domingo, 13 maio 2012 - postado por fabiocascadura

Faz alguns poucos dias que compartilhamos o Aleluia, álbum sobre o qual, tão cuidadosamente, trabalhamos ao longo de quase dois anos. Esse momento é muito especial porque é de fato a razão de toda a dedicação que tivemos. O disco, em si, é o objeto principal que tem motivado a existência desse blog. Aqui, viemos compartilhando um processo meticuloso, denso, extensivo, simples, mas sofisticado, intenso e prazeroso. Agora que essa fase de construção e todo o discurso relacionado ao álbum Aleluia, enquanto obra fonográfica, já passou, ainda não sabemos exatamente o que será desta plataforma que é o “A Ponte”, mas sabemos que ela tem sido muito importante na comunicação com as pessoas que acompanham o trabalho do CASCADURA.

Acho que já explicamos aqui mesmo como veio a ideia de compartilhar o processo de partilharmos detalhes da formação desta obra. Não creio que seja necessário repetir. No entanto, é fundamental para mim dizer que foi ótimo estar expondo cada momento, cada lance dessa verdadeira aventura que foi (e é) realizar o Aleluia. Falar para as pessoas e ouvi-las. Rever conceitos a partir da experiência de troca ou confirmar convicções artísticas: foi um verdadeiro teste para mim e uma grande lição que guardo para daqui pra frente. Estar em contato direto com todos que vieram cá, ler e opinar, representou a abertura de uma nova janela para o CASCADURA nesse ambiente de tantas contradições e diversidade constante que é a internet. Sou realizado com isso!

Esse trajeto, que parece se encerrar por esses dias, poderá ser rememorado graças às postagens deixadas aqui. E tivemos que experimentar muita coisa para tentar achar uma fórmula certinha de comunicação. Mas existe fórmula? Não. Não existe, gente. À medida que íamos avançando no tempo, as possibilidades se apresentavam e íamos dando vazão aqui no blog, como acontecia também durante a pesquisa relacionada ao disco ou no estúdio, durante as gravações. A surpresa foi senhora de nossos dias. Nenhuma previsibilidade vingava.

Para chegarmos até as pessoas, a partir daqui, nos dispusemos a criar alternativas discursivas: textos, vídeos, fotos, ilustrações… Cada um ia colaborando do jeito que dava. Em especial, contávamos com o apoio de nossa parceira Paula Berbert, que se encarregava de organizar essa plataforma e o fez com maestria. A ela sou muito grato, pela maneira tão tranquila de lidar com todas as postagens. Ela se tornou um elo fundamental nesse processo.

Não quero fazer deste texto um momento de despedida. Isso faremos mais adiante, quando dermos mais alguns passos em direção a outro momento em nossa carreira. Nem mesmo é a hora de um balanço de toda caminhada em direção ao Aleluia. Aqui está somente uma reflexão, já que o disco, enfim, chegou e está disponível para quem quiser, motivando-nos a lembrar das coisas que foram feitas para que ele ganhasse existência.

Disse isso porque agora há pouco estava fuçando em umas gavetas e achei um material que foi sendo juntado num cantinho dela. São folhas de papéis rascunhadas, bilhetes, desenhos, CDs e DVDs contendo ideias que foram parar no novo disco. Isso me colocou sob uma perspectiva tão mais precisa do que foi estar envolvido nesse trabalho. Comparar a rudeza do que está nesse material seminal com o resultado final do Aleluia denota que foi um processo riquíssimo. O bruto é bem bacana, não fosse não teria sido levado ao estúdio para um processo de lapidação, mas o diante do resultado final fica evidente a sofisticação da elaboração constituída por todos nós. Eu, Thiago, andré t, Jô, Du Txai, Paula Berbert, Jorginho Falcão, Ricardo Ferro, cada artista convidado e parceiro… Um envolvimento total, sem reservas. Estivemos abertos às interferências e o retorno não poderia ser mais legal.

Há uns CDs com rascunhos de canções, registradas muitas vezes no instante em que uma ideia surgia. Ou ainda há uma sequência de gravações precárias, feitas a partir de um celular, onde se vê o desenrolar da criação da canção. Para mim, como compositor, esse material tem função de registro e de material didático também, já que ao escutá-lo novamente vou reaprendendo como é compor.

Tem uma gravação que mostra como surgiu a melodia de “Sonho de Garoto”, ainda bem esboçada. Estava esperando Ticiana sair de uma aula de dança e veio a linha marcante de uma melodia. Guardei-a no celular e a trouxe para casa, onde exercitei algumas novas partes e harmonia.

Também há uma sequência de cinco ou seis arquivos de áudio com a experiência relacionada a “Resumindo (Steviana)” e, escutando-a, pude lembrar bem do momento em que comecei a pensar na possibilidade dessa canção: primeiro o esboço do riff que acabou formando o refrão, depois esse mesmo riff, mais seguro de sua organização, daí uma nova gravação com uma versão melhor dele, quase como está no disco. Só então há uma outra gravação, com um salto, e o esqueleto da música aparece. Isso tudo aconteceu no espaço de dois dias. Começou num domingo: estávamos nos preparando para um almoço na casa de pessoas da família e eu, já pronto, esperava Tici terminar a meticulosa e sempre bem feita maquiagem que ela costuma usar (isso leva tempo, gente!). Passava alguma coisa de esportes na TV e eu estava com o violão na mão. Daí, entrei no lance de tocar um riff com uma métrica “quebrada”, uma divisão pouco comum (vinda de mim). A estranheza e o prazer com aquilo me motivaram a gravar rapidinho também ao celular, já que ligar o computador e preparar uma sessão no estúdio caseiro levaria algum tempo (e ela já estava terminando de passar o rímel). Gravei no aparelho celular e fomos embora.

Passei o almoço inteiro sem me concentrar em uma única frase que me era dita. Só pensava em voltar pra casa e continuar a música. Mas, depois do almoço, ainda visitamos amigos, fomos não lembro aonde, vimos um filme. Chegamos em casa e ainda tinha que cuidar de Bruce, “le terrible bouledogue” etc… Tici foi dormir e eu, enfim, voltei à canção… As gravações são bem precárias, mas mostram o que se desenrolou a partir daí. No dia seguinte, ainda mudava coisas de ligar dentro do rascunho que ia “melhorando”. Até que, plenamente insatisfeito, guardei tudo e resolvi esquece a ideia por uns tempos, o que foi ótimo.

É a visualização desse processo em retrospectiva que me emocionou, nessa semana que passou e em que o disco foi compartilhado na rede de computadores. Perceber a distância percorrida por meio das pegadas deixadas tem sido fantástico também. Espero um dia poder compartilhar dessa experiência com quem vem acompanhando isso aqui. Mas acho que a hora é de curtir o resultado final e ver o que vem pela frente, porque a vida do Aleluia está só começando, gente. Vamos adiante.

Para ouvir e fazer download do Aleluia, basta clicar na imagem, é de vocês:

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Você tem que ouvir isso!

quinta-feira, 10 novembro 2011 - postado por fabiocascadura

Faz um tempo, numa ligação, o amigo Luiz César Pimentel me fez um pedido um tanto curioso. Ele contou que estava solicitando a alguns amigos uma mixtape, para guardar e entregar às suas duas filhas, ainda com 3 e 2 anos de idade, quando elas chegarem à adolescência.

Só um parênteses:
Luiz César Pimentel é um jornalista, paulistano, são-paulino, que conheci em 2003, por meio de Joe (baixista de Pitty), assim que cheguei com o CASCADURA em São Paulo. Ali nasceu uma amizade incrível, muito pautada na admiração mútua e sincera pelas atuações que temos em nossas carreiras.

À época, ele era chefe de redação da Revista Zero, um projeto editorial que deixou tanta saudade quanto marcas no setor. Como morávamos perto da redação, costumávamos, eu, Thiago, além de Martin e LF – que estavam na banda naquele tempo -, ir até lá para conversar com a “turma da Zero” (que também tinha o editor Marco Bezzi e o grande designer Daniel Motta, que fez a capa do Bogary).

Os papos giravam em torno de tudo: Metal, Rock, Metal, a falta de “noção” dos gringos, Metal, guitarras, Metal, os poptogramas de Daniel, Metal, Thin Lizzy, Metal, “… e ‘não-sei-o-quê-mais’ é uma bosta, mano!” (fala do Bezzi), Metal, Os Trapalhões, Metal, Salvador, Metal e por aí vai… Papo variado, né?…

Foi por meio de Luiz Pimentel que conhecemos os Cachorro Grande, nossos grandes amigos e parceiros. E costumávamos levar todo tipo de produção de rock de Salvador para ele e a turma da Zero escutarem. Uma simbiose muito proveitosa.

Mas a Zero fechou. Entretanto, dada a sua competência, Luiz seguiu uma carreira brilhante, sempre participando de bons projetos editoriais. Em 2006 (acho), ele lançou um livro chamado “Sem Pauta”, que tem textos narrando sua viagem por países como Vietnã, Nepal, Russia (“- 40°, mano!”),Tibet, Índia e outros. Ele também criou uma linha de camisetas chamada “Cuma?”, com estampas bem humoradas e muito originais. Passou pela implantação do MySpace no Brasil, pelo Portal UOL e hoje é chefe de redação do Portal R7.

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Mixtape é um termo moderno para uma sequência de canções. Eu mesmo não fazia essa associação ou usava essa nominação até ele me explicar isso. Chamava isso de “listinha” mesmo.

Bom, eu aprendi o que era a tal de mixtape e, em se tratando de uma listinha para meninas que cresceriam e se tornariam moças, resolvi achar algo que estivesse escutando naquela semana e que pudesse agradar a pessoas do gênero/faixa-etária, mas surpreendendo-as.

Daí, selecionei coisas de muitas épocas, em geral cantadas em muitas línguas, mas com apelo pop. Por exemplo: incluí a canção “Love Me, Please, Love Me”, do Michel Polnareff, que, a despeito do título em inglês, é cantada em francês, língua mater do autor/intérprete, e foi um estouro mundial no meado dos anos 1960.

Também tem “Pata Pata”, da Miriam Makeba, sul-africana cantando num idioma ou dialeto da terra dela (não, a letra não é “tá com pulga na cueca…”). Tem “Sapori de Sali”, do “genovese” Gino Paoli, com um dos arranjos (de Enio Morricone) mais legais e doidos que conheço na música pop. Caymmi com “Tia Nastácia”, “Caravan”, de Duke Ellington, “Alegria, Alegria”, do Caetano tropicalista, e lá vai: “Ya ya”, de Lee Dorsey; “Ana no Duerme”, dos queridos argentinos do Almendra; Robertão e a sua infalível “Quando”; “Rescue Me”, com a linda Fontella Bass… Variar, sacou? E era o que estava escutando naquele momento, com gostinho de “pensar menos barato”. Pop menos óbvio. O exercício da surpresa…

Mandei a listinha e ele retornou agradecendo…

Eis que hoje, dia 10 de novembro de 2011, às 18h, Luiz César Pimentel lança na FNAC – Av. Paulista (São Paulo) o seu novo livro: “Você tem que ouvir isso!”, contendo “listinhas” coletadas junto a muitos amigos com sugestões de sequências de canções (mixtapes) para escutar. A brincadeira ficou tão boa que acabou ganhando asas em forma de lançamento editorial e pode ser adquirido por todo mundo. Para minha grande honra, a minha seleção está lá no meio… Tomara que ela sirva para entreter quem a ouvir e, principalmente, daqui a alguns anos, surpreenda Nina e Lola, as filhas do autor.

Para saber mais sobre a obra de Luiz César Pimentel: http://luizcesar.com

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Já era hora: CAPA!

terça-feira, 11 outubro 2011 - postado por fabiocascadura

Hummm… Quanto tempo sem vir postar algo aqui! Pois é… Mas não é por falta de assunto, e sim de tempo! Nesse período, foi uma viagem de descanso com a amada, alguns shows do CASCADURA retornando aos palcos e muita coisa do “Aleluia”. Fora o corre-corre de sempre…

Chego agora para falar do trabalho que vem sendo realizado por algumas pessoas muito talentosas e que, apesar de não demandarem diretamente um fazer musical, darão muito para a identidade do nosso novo disco: a capa!

Já falei aqui que a ilustração dessa parte do “Aleluia” foi feita pela talentosíssima dupla de artistas visuais Izolag e Ananda Nahu. Mais especificamente disse de como chegamos até eles e como eles se dispuseram a vir a Salvador construir um painel onde estaria estampada a imagem que constará na capa do álbum.

Citei apenas, mas não descrevi o que de fato foi feito por eles. Então! Eles pintaram um belo painel de lona (a ideia inicial era reciclarmos lona de caminhão usada, o que mostrou-se pouco eficiente, devido ao peso do material e indisponibilidade dos profissionais da estrada em se desfazer de certas quantidades dessas lonas) com a técnica que os notabilizou mundo afora: o stencil.

São formas e expressões que pulam em cores, dando uma mensagem significativa daqui que, através da música, buscamos apresentar nesse novo lançamento. Para nós, o “Aleluia” está para além de uma obra musical e eles entenderam isso. Tomara que nosso objetivo maior seja atingido e os que se dispuserem a escutar e debater com o resultado final entendam isso.

Feita a ilustração, chamamos para dirigir a construção do que será a embalagem do disco aquele em quem confiamos mais no que diz respeito à arte visual: o designer Ricardo Ferro. Ferro é mais que designer. Parece um clichê, mas não é. E deixe-me explicar.

Minha relação, de amizade e artística, com ele, começou no final dos anos 1980. Éramos estudantes da antiga Escola Técnica (no Barbalho) e com amigos comuns que nos apresentaram. Dividíamos o gosto pelo rock dos anos 50, pela poesia, pelo cinema juvenil daquela época e pelo cinema de todos os tempos. Ricardo é de um humor constante e uma alma rica com inteligência ligeira. Nos tempos da nossa adolescência, chegamos a tentar reunir isso tudo num fanzine que naufragou no seu primeiro número. Chamava-se BOP e seu maior mérito era que quem desenhava era o Ricardo Ferro. Nunca escondi que o achava um dos meus desenhistas favoritos. Mas, ao menos naquele tempo, ele rejeitava esses louros, que sempre julgou excessivos: modesto! Sou e sempre fui fã dele.

Nesse momento, chegamos a ter uma convivência cotidiana (por conta da escola também) e nominamos o grupo do qual fazíamos parte, com outros tantos colegas, como Joe (ex-CASCADURA e hoje com a Pitty), de Ugly Boys and The Moondogs. Queríamos ter uma espécie de “gang cultural”. Daí a criação de um fanzine, de uma banda (Os Feios) e tudo o mais.

Ferro se encanta pela música. Está sempre com a música. Quis cantar e não deu, quis a guitarra e ela ficou num canto qualquer de seu depósito. Ficaram uma ou duas canções que escrevemos em parceria, das quais nem lembro direito como são e que o próprio Joe deve lembrar melhor que qualquer um de nós.

Bem, nossa amizade seguiu, mesmo quando ele foi morar em outro estado por quase dez anos. Muito por conta dele, que sempre procurou me manter em contato. Amável, Ricardo Ferro é um amigo que sabe ser amigo. Eu tenho sorte. Pois é esse cara, que na verdade tem muitas outras qualidades e talentos, que vem dirigir a arte para capa do “Aleluia”.

No que tange as suas múltiplas habilidades, lembro de quando ele me contou que estava fotografando e me mostrou seus primeiros estudos nessa matéria: era coisa de gente grande! Sabe a capa do DVD Efeito Bogary? Foi ele quem fotografou e dirigiu. Aquilo é uma construção inteira do cara, com uma ou outra sugestão minha… Sabe o “galinho” do Bogary?… Ricardo Ferro Design! Agora, você que conhece, diga que nunca ficou espantando com a qualidade do desenho…

Demos a ele a lona pintada por Izolag e Ananda. Convidamos, com a aprovação dele, o renomado fotógrafo Ricardo Prado. Numa tarde, os dois, assessorados pelo produtor Jorginho Falcão, que faz a assistência geral de produção executiva desse trabalho, fotografaram as “chapas” para a confecção da capa do “Aleluia”. E tenho tudo documentado pelo habilidoso Léo Monteiro para um making of.

Ainda não vi nada, não sei muito… Mas sei que mãos valiosas, corações apaixonados pelas artes e mentes brilhantes farão jus à nossa intenção de dar beleza e reflexão a quem se deparar com esse disco.

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Discursos do rock and roll

quarta-feira, 13 julho 2011 - postado por fabiocascadura

Li este texto que segue abaixo no blog da minha amiga Paula Berbert. De tão bem escrito, sensato e pertinente, resolvi divulgá-lo com mais afinco e pedi permissão a ela para replicá-lo aqui.

É uma excelente reflexão sobre Salvador, a Bahia, a música, o rock e as diversas gerações que transitam nesse contexto todo. Com cuidado e respeito, Paula trata de uma série de questões que creio relevantes e nos traz uma luz bacana… Porque, como disse Ronei Jorge, precisamos sair da caverna…

Boa leitura!

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O Dia Mundial do Rock está chegando.
As entrevistas e perguntas de como é fazer rock em Salvador também.
Esta é minha homenagem ao momento em que a mídia baiana nos dá mais esmola.

Depois da cerimônia de entrega de troféus da 2ª edição do Prêmio Bahia de Todos os Rocks, em novembro passado, cujo palco reproduzia algo similar a um ambiente de furna, Ronei Jorge, entre os diversos e merecidos elogios feitos ao evento, comentou algo assim: “Eu mexeria no cenário. Precisamos sair da caverna”.

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Recentemente, uma aluna do curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia solicitou uma entrevista com o Cascadura – no caso, Fábio Cascadura e eu – para integrar a grande reportagem que iria fazer como Trabalho de Conclusão de Curso. O tema: a relação das bandas underground de rock de Salvador com redes e mídias sociais, comparando as estratégias de divulgação na década de 1990 com as de hoje, com o uso da internet.

O pedido, por e-mail, era evidentemente lúcido, respaldado, bem escrito, seguro. Inclusive, ela indicou uma lista de outras pessoas a quem também entrevistaria – lista que demonstrava que ela estava sabendo muito bem quem podia dar depoimentos importantes sobre a pauta. Messias Bandeira e Ednilson Sacramento, por exemplo. Uma proposta bacana, de onde deve sair (ou já ter saído) boa coisa.

Eu e Fábio nos disponibilizamos prontamente – mas, em minha resposta afirmativa, eu me intrometi e falei de um ponto primário do trabalho dela: que a definição “bandas underground” tem em si uma carga preconceituosa delicada. Disse que achava que partir do princípio de que estaria falando de “undergrounds” já tendenciaria o desenvolvimento da pesquisa para uma avaliação “menor”. Esta não deveria ser uma definição a priori, creio eu. Pedi que ela reavaliasse o rótulo, especialmente por se tratar de um projeto de comunicação – e, ainda que haja uma definição formal e acadêmica para “underground” que não tenha este caráter, fato é que a representação social desta expressão é negativa. Não se pode escapar do senso comum quando a pauta está na comunicação. Não se pode descuidar do discurso num caso assim. Eu justamente questionaria o termo referido pelas fontes. Por que underground? Precisamos deixar de ser subterrâneos.

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Fico feliz de ver a música independente ser pautada na Academia. Tem sido frequente. Vira e mexe, me aparece um trabalho centrado em temas relacionados a isso. Sempre na área de comunicação. Me parece ótimo que estejam discutindo. Que proponham entender como funciona esta engrenagem, que problematizem. Tenho impressão de que se forem formados comunicólogos com visão menos folclorizada do que é “fazer rock na Bahia” poderemos esperar uma atuação mais competente dos profissionais em relação à diversidade das mais diversas linguagens artísticas.

Também recentemente, alunos de jornalismo da Faculdade Social me enviaram umas questões para uma matéria. As perguntas todas giravam em torno das mazelas. Por exemplo, algo assim: “Quais as maiores dificuldades das bandas do cenário alternativo? Como assessora de imprensa destas bandas, quais as suas principais dificuldades?”.

E eu respondi que a produção artística é uma atividade que, como todas as outras, tem suas dificuldades. E as dificuldades são diversas, não localizadas em um ponto específico. E isto não tem a ver só com as bandas independentes, mas com um contexto social como um todo. Assim como é difícil abrir uma empresa e fazê-la tomar seu espaço no mercado, é também difícil engatar uma carreira na música. E no teatro. E na dança. E no circo. E nas artes visuais. E no cinema. Enfim. Não é privilégio nosso. Acho que insistir no discurso de “como é difícil!” é complicado. Não são só os roqueiros baianos que têm desafios na vida. Precisamos abandonar nosso complexo de vira-lata.

Também disse que, aliás, estas próprias questões poderiam ser por mim apresentadas como uma das principais dificuldades que encontro como assessora de imprensa de bandas independentes: este tratamento de que se trata de um trabalho exótico, heróico, inusitado. A grande mídia não consegue fazer uma entrevista com uma banda de rock aqui sem perguntar “como é fazer rock na Bahia?”, como se isto fosse impressionante, uma escolha desconexa, rebelde, improvisada, desajustada. Não é: é um trabalho sério, executado por pessoas competentes, respeitado pela crítica nacional e por um público crescente. Espero que um dia a grande mídia deixe de reforçar certos estereótipos e ignorar determinadas produções. Espero um dia ver um personagem de novela que goste de rock não estar sempre usando roupa preta e sendo a figura esquisita do folhetim. Espero não ver mais o Fantástico fazer uma matéria de roqueiros (devidamente excêntricos) versus pagodeiros (devidamente felizes) – e chamando Nando Reis, uma das fontes entrevistadas, de ex-roqueiro (ele não é mais mau, não canta mais Bichos Escrotos, é ex-roqueiro, óbvio). Este estranhamento sem reflexão devida é um desserviço.

É claro que sei que a Bahia tem suas limitações para todas as expressões de arte e para todos os estilos de música. E que é também um estado que por muitos anos investiu na consagração de uma monocultura musical, relacionada ao sistema do Axé, e que isto se reflete na dimensão do espaço midiático e na possibilidade de atingir públicos mais diversos. Mas também acho que tudo isto, no entanto, tem, a olhos vistos, sido paulatinamente superado por ações de fomento à diversidade cultural e, especialmente, pelo trabalho incessante de artistas comprometidos com a arte que produzem.

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Mês passado, participei de uma banca avaliadora de um Trabalho de Conclusão de Curso que se propunha a realizar uma grande reportagem sobre a música independente da cidade: um trabalho de pesquisa visivelmente exaustiva, que, com certeza, arrancou muito suor de suas autoras. Teria sido excelente se não fosse um detalhe: a delimitação do tema. “Música independente de Salvador”, na prática, virou “rock consumido pela classe média jovem frequentadora do Rio Vermelho”. Sim: elas indicaram que iriam falar da música independente da cidade e ignoraram as periferias, os outros universos soteropolitanos, o arrocha, o samba, o rap, o heavy metal… Música independente é um conceito grande demais. Salvador é um espaço enorme (e até o Rio Vermelho também: todo mundo já viu os sambões que acontecem em Dinha? O chorinho do São Jorge? Os shows de MPB e bossa nova que rolam no Sesi? E o que está dentro do Twist, da Padaria, do Salvador Dali?). A ambição de abarcar toda a realidade deste tema só poderia ter sido frustrada.

É óbvio que demarcar um estilo musical, um espaço geográfico e um público seria não apenas mais eficiente, como também recomendável – claro, pesquisas precisam de focos bem definidos. Não haveria mal nenhum em adentrar só neste cenário se esta tivesse sido uma escolha consciente, ponderada, descrita, justificada. O problema era achar que retratar a história de 20 e poucas bandas do rock riovermelhense era dar conta da proposta.

Também é comum rotularem este pedaço da cidade e da produção musical soteropolitana como a representação do “cenário alternativo”. Alternativo a quê? Para quem? No meu entendimento, há duas variáveis bastante relevantes no uso desta expressão. Vejamos:

1) Dizer-se “alternativo” é se colocar num lugar menor. Há uma via principal e há a alternativa? Não corroboraria isso. Até porque, considerando que assim seja, não haveria uma alternativa, e sim várias. O rock, sozinho, não é cena alternativa de um lugar.

2) Dizer-se “alternativo” é se colocar num lugar maior. É dar-se um título de poder indevido, pretensioso, que conota uma ideia de caminho da salvação. “Somos a alternativa” soa como “somos diferenciados”: vocês, do mainstream – pobres mortais alienados –, lá; nós, alternativos – espertos conhecedores do mundo –, cá.

À pergunta final de um dos trabalhos acadêmicos citados, “Como você define o público axé e o público rock?”, eu respondi: “Nego-me aos estereótipos. Há gente de todo tipo nestes dois públicos, e há muita gente que faz parte de ambos. Não reforçamos as secções”. É caduca esta conduta. Caduca e pedante. Não há público melhor ou pior; não há mérito ou alienação intrínseca a público algum. Precisamos parar de nos sentir diferentes – no bom ou no mau sentido – e querer dar prateleiras pra todas as coisas da vida.

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Estou ficando velha e chata, não tenho mais a mesma paciência de estar em ambientes com pessoas de quem eu quase poderia ser mãe, serelepes na descoberta do mundo e das noitadas roqueiras de classe média. Talvez por isso mesmo – por estar velha e chata –, não tenho gosto pela maioria dos trabalhos da chamada “nova geração” do rock de Salvador. (Lembremos que a música independente e até mesmo o rock da capital baiana estão bem além dos shows do Rio Vermelho e da Barra. A nova cena destes bairros não é uma nova cena da cidade.) Não que sejam ruins. Não tenho nenhum superpoder atômico que me dê o direito de dizer o que é bom, o que não é. Mas eles não “falam” comigo. É, de fato, um processo protagonizado e consumido por gente mais jovem, que está chegando nos palcos e nas plateias para ocupar seus merecidos espaços. A fila anda.

Me vale dizer, porém, que respeito o que esta galera anda fazendo: o mérito da união de forças, da programação superativa, dos eventos promovidos, do público por eles conquistado, do profissionalismo. Estão fazendo barulho, chamando atenção, aparecendo na mídia, formando novos técnicos (as bandas estão criando equipes de trabalho de verdade), produzindo o tempo todo. E tudo isto, até onde sei, é novidade: sair do limbo da reclamação, de que na Bahia não tem isso e aquilo, para a ação; interromper o discurso de que, no dito limitado espaço existente, é impossível concorrer com “os grandes”; ignorar as perseguições e encarar com dignidade as patrulhas. Sem medo de errar, de amadurecer, de construir uma história. Fazendo mais que falando. Precisamos aplaudir o que é de merecimento, reconhecer o novo e ver isso se refletir nos discursos sociais e midiáticos.

Bora nessa.

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Dá-lhe, Robeeertooooo!!!

quarta-feira, 08 junho 2011 - postado por fabiocascadura

Hummm… Faz um tempo que não escrevo um texto pra esse blog, né? Pois é, muitas coisas! Coisas e coisas… Do disco e da vida cotidiana de gente que vive a vida cotidiana…

No meio disso tudo, tínhamos que decidir como faríamos para ter a participação de nosso amigo Beto Bruno, cantor da banda igualmente amiga Cachorro Grande. Beto foi um dos primeiros nomes em que pensamos para participar do Aleluia. Amigo de primeira hora, de quem somos fãs, não poderia ficar de fora desse processo, já que esta é uma vontade antiga: dividirmos uma faixa, Cascadura e Cachorro Grande, juntos.

Deixe-me contar o episódio em que nos conhecemos: nos idos de 2003, quando estávamos chegando à cidade de São Paulo, fomos tomados pelo lançamento do disco “As próximas horas serão muito boas”, o segundo da discografia dos gaúchos. Já os havíamos visto na MTV, com o clipe “Lunático”, tirado do seu álbum de estreia. O conceito era tão bom (a música, o visual, a performance) que chegamos a pensar, inicialmente, que se tratava de um tipo de campanha publicitária! “Existe uma banda assim no Brasil?!”. Existe: Cachorro Grande.

Soubemos que eles tocariam na Outs, casa de show que, naquele instante, era nossa referência em Sampa. Já havíamos tocado lá e iniciado uma amizade/parceria com os donos do lugar. Fomos vê-los…

O lugar estava cheio, na medida de estar agradável. Era um dia como quarta ou quinta-feira, meio de semana, e muita gente foi conferir os caras no palco. Já na chegada, soubemos que eles estavam lançando um disco novo. Nosso amigo Luiz Pimentel (então chefe de redação da saudosa revista Zero) foi quem nos contou.

Assistimos ao show entre o entusiasmo contagiante que eles emanam quando estão em ação e o mais completo espanto de estar diante de uma banda tão verdadeira no que pensamos ser seu “auge”. Engano nosso: eles estavam apenas começando o seu “auge”. Terminada a apresentação, fomos falar com eles e foi quase impossível cumprimentá-los, tamanho o assédio. Mas, enfim, conseguimos e falamos do nosso trabalho e da nossa admiração.

No dia seguinte, o mesmo Luiz que havia falado do lançamento do disco nos ligou dizendo que queria nos juntar a eles numa conversa em um barzinho: topamos na hora. Nos encontramos na Augusta e, de lá, rumamos conversando até o bairro do Bexiga, sentamos em um bar próximo ao Café Aurora, onde deveríamos prestigiar o show de outra banda amiga: Velhas Virgens. Em nossa mesa, também sentaram os parceiros da Tomada, banda paulistana de rock.

Foram muitos assuntos e muitas risadas. Ali, nasceu uma amizade que corre até hoje, sempre pautada na admiração e na colaboração mútua. “Os Cachorro” desde então cresceram no cenário e se tornaram uma banda muito conhecida. No entanto, se mantiveram os caras naturalmente alegres e engraçados que sempre foram.

Na ocasião desse papo, entregamos a eles um CD contendo o nosso “Vivendo em Grande Estilo”, ainda inédito. Lembro que o Beto perguntou: “Vocês estão dando um disco de vocês que ainda não saiu pra gente ouvir?! Que confiança! Valeu!”.

Vimos quando o disco deles chegou pela revista Outracoisa, do Lobão, e tomou de assalto o mercado. Por meses em São Paulo só se falava nesse lançamento. Não por acaso, o nosso disco seguinte, “Bogary”, também sairia por esse projeto: a Cachorro Grande foi uma grande advogada nossa nesse processo.

De lá pra cá foram muitos episódios, em muitos encontros: fui roadie deles numa viagem pelo Sul, eles viajaram em nossa van para uma apresentação nossa, junto com os Astronautas, de Recife, no festival Demosul, em Londrina/PR, tocamos juntos em Salvador, fiz um caruru no apartamento em que morávamos em Sampa e eles saíram falando do “bicho caruru que era bom demais”, fizemos uma dobradinha de shows para uma edição do programa Bem Brasil, da TV Cultura, gravado em junho de 2007 no palco do Sesc Pompeia… Vivíamos andando juntos, para cima e para baixo, como uma gangue só.

Certa vez, Beto me perguntou: “ô, Negão… Quando é que vamos fazer essa parceria, Bruno/Magalhães?!”… Só faltava isso. Será?… Daí a ideia de chamá-lo para esse disco.

Apresentei uma canção a andré t e falei que o queria cantando junto. Mais que isso: queria que ele escrevesse a letra daquela música para cantar.

O problema é que ele é do Rio Grande do Sul, onde cumpre extensa agenda de apresentações com a banda, mora em São Paulo e está em pleno processo de construção de mais um disco. Beto não usa celular e e-mail é um troço que ele realmente não faz ideia de como funcione. A comunicação é muito específica. Assim, o tempo escasso era nosso censor. Tentamos trazê-lo para gravar em Salvador, como fizemos com outros convidados, em três oportunidades distintas, sem sucesso. Desse modo, como Maomé não veio à montanha, a montanha teve de ir a Maomé.

Chegamos a São Paulo, eu e Thiago Trad, depois de três horas de atraso do avião. Descemos em Guarulhos ao invés de Congonhas, como havíamos planejado. Ficamos na casa do amigo Rodrigo “Minha Pedra” Santos e marcamos para encontrar a “fera” no estúdio onde eles estavam preparando seu disco.

Uma alegria imensa entrar num ambiente e encontrar esses caras: Beto, Coruja (Rodolfo Kieger, baixista da Cachorro Grande), Gross… É sempre um evento feliz e cheio de camaradagem. Acho que o termo “camarada” é o que nos acolhe melhor.

Falei a ele do conceito do disco, da relação do álbum com Salvador, que ele teria de escrever a letra (e ele disse que teríamos de escrevê-la juntos) e que melodia e harmonia foram construídas pensando nele… Beto se encheu de alegria e, com a confiança que lhe é intrínseca, chamou-nos a um boteco, em frente ao estúdio da Trama, e disse que depois de “umas” cervejas iríamos ao estúdio de Duda Machado (o Madeira II), com quem havíamos combinado de gravar essa voz, e lá mandaríamos ver.

Fomos para o estúdio/casa de Duda e encontramos outros tantos amigos lá: Ricardo Spencer, Rafael Spencer (chef, agora morando lá e com um ótimo restaurante de comida baiana chamado Sotero), Rodrigo “Minha Pedra”, Martin… Clima de festa!

Havia somente um porém nisso: estou acostumado a gravar em meio à tranquilidade do estúdio t, sem muitas interferências, concentrado e em silêncio. Mas esse é o Aleluia, cheio de imprevistos e novas experiências. Ok… Vamos ver no que vai dar…

Sentamos e escutamos a base que havia levado: bateria, baixo, guitarra de 12 cordas e violão. Pronto! Era o que precisávamos. Em quinze minutos, uma letra brotou: “Sonho de Garoto”. Um discurso bem simples, uma brincadeirinha/homenagem a nosso amigo Lobão ali, e ficou bacana.

Beto fez questão de acertar a afinação, respiração, divisão, dicção, interpretação no cantar. Foi um exercício que exigiu muito dele: havíamos acabado de fazer a letra, que, por mais simples que seja, ainda estava muito fresca e não tínhamos nos familiarizado com ela, não houve esse timing. Talvez por isso, o grande charme que ela adquiriu. Ele repetiu algumas vezes até dar-se por satisfeito e me perguntar: “E aí?”.

Em meio a toda atenção, tensão e movimentação em torno da gravação (e da festa lá fora), esquecemos de registrar imagens desse momento… Entre uma bisbilhotada e outra dos que estavam de fora do estúdio, Beto gravou a voz. Ao final do último take, ainda com Beto Bruno de fone, cantando no microfone, Ricardo Spencer comenta: “Dá-lhe, Robeeertoooooo!!!”. Beto responde: “Roberto, corta essa!”…

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Trad a rigor!

sexta-feira, 13 maio 2011 - postado por fabiocascadura

Os católicos comemoram o Dia de Nossa Senhora de Fátima. Os atentos à história do Brasil lembram da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, que ao menos legalmente pôs fim ao regime escravocrata no país, em 1888. E nós do CASCADURA, nesse 13 de maio, celebramos, com muito gosto, o aniversário do nosso baterista, Thiago Trad.

Desde 2001 na banda, Thiago chegou como fã e tomou lugar de liderança, trazendo vigor, ideias e atitude. Seu temperamento e sua persistência deram ao grupo mais que boa batida e harmonia.

Foi de sua mente que surgiram algumas das ações mais importantes. Foi seu apoio que me fez querer seguir realizando sob o nome da banda e que nos levou a realizar muitas coisas. Foi Thiago quem teve a ideia de juntarmos depoimentos dos amigos e parceiros que acompanharam a criação do Bogary em audiovisual e que acabou gerando o DVD “Efeito Bogary” (o título deste trabalho foi ele quem trouxe também).

Sua disposição em assumir responsabilidades, sua habilidade em lidar com situações adversas, seu bom humor e sua vontade de servir a uma música que se renova o fizeram crescer dentro da banda e diante de todos. Ele, que acredita nas energias, trouxe muito disso (e de caráter positivo) para tudo o que fizemos.

Agora, chegando ao 30° aniversário, maduro e certo de ter trilhado um caminho de conquistas, ele é um homem feito e pronto para construir ainda mais… Músico, homem, cidadão. Não mais aprendiz, agora mestre!

Foi por conta de sua palavra que voltamos a Salvador para gravar o Bogary. Quando em São Paulo, a incerteza nos rondava e tínhamos uma tênue ideia do que fazer, um punhado de canções e a sensação de que ainda faltava algo. Recebemos a visita de andré t e ele acenou com a vontade de voltarmos ao estúdio para mais um álbum. Eu não tinha a convicção de ter “fôlego” para tanto. Perguntei a Thiago o que ele achava que deveríamos fazer. Ele respondeu: “Vamos seguir em frente!”. Seguimos!

Gregário e carismático, trouxe muitas pessoas para o convívio comum. Seu talento musical está aliado às possibilidades de estar com muita gente, cada qual com as suas muitas formas de pensar. Ele as ouve!

Foi Thiago que, nascido em São Paulo, baiano de verdade, me chamou atenção para a conexão evidente entre o que eu mesmo produzia em canções e a Bahia, me apresentando tanta coisa de minha própria cidade, que meu preconceito banal e minha falta de percepção se ocupavam em não dar a devida conta do que aquilo era pra mim, estando em mim. Foram muitos lances corridos diante dos olhos, conosco no meio do furacão…

“Humble Pie”, Grand Funk, Don Brewer, Weezer e outras coisas… Só quem viu pode saber.

Dono de seu próprio estilo, Thiagão vai: músico, homem, cidadão. Não mais aprendiz, agora mestre!
Nós vamos com ele!
Por esse momento e sua importância para tantos: feliz aniversário, Thiago Trad!

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Ronei Jorge II

segunda-feira, 25 abril 2011 - postado por fabiocascadura

A curiosidade

No começo dos anos 1990, em Salvador, um disco lançado pelo Bazar Musical Discos, selo da loja de instrumentos musicais de mesmo nome, localizada no Orixás Center (Politeama, Centro de Salvador), trazia os primeiros registros de algumas das bandas mais atuantes na cidade naquele período.

Kama Sutra e Meio Homem, com sua sonoridade particular, me causaram estranheza e espanto no primeiro momento. Os Úteros em Fúria fizeram jus à fama que os precedia e me conquistaram sem grandes esforços com seu hard rock suingado e sua atitude rock’n’roll. Já a quarta banda me causou curiosidade…

A Mutter Marie fazia um som bem diferente e tinha letras que identifiquei como “dadaístas”. Havia pouco, tinha lido “O que é Dadaísmo” (eu acho que era esse o nome do livreto) e o rótulo foi o que melhor se encaixou, a meu ver, àquelas composições. “Biombo Falante” ficou em minha memória e decidi não perdê-los de vista. A interpretação “desesperada” do cantor daquele grupo, que ainda vi em um show, no Clube Cruz Vermelha, em 1993, só fez a curiosidade aumentar.

A constatação

Tempos depois, em 1998, soube que uma banda chamada Saci Tric se apresentaria no então recém-fundado Theatro XVIII, no Pelourinho. Combinei comigo mesmo de ir assistir ao show.

Morava perto do Centro Histórico, onde fica o Pelourinho, e, lá chegando, acabei indo com outros amigos para um bar onde acabou acontecendo um outro show e acabei perdendo a entrada para a apresentação do Saci Tric. Não lembro direito como isso tudo aconteceu, só sei que não fui e deixei pra lá: outras oportunidades viriam.

O grupo lançou um disco, gravado naquele show. Adquiri um exemplar e constatei que ali havia boas canções e um compositor inspirado em estágio de maturação. A música “Canal 100” era a mais atraente pra mim, pelo tema, pela estrutura. Ainda hoje, é uma das minhas favoritas do legado de bandas de rock forjadas na Bahia. Mesmo algum tempo depois, já em 2003, cantarolava essa canção e, em São Paulo, morando com o CASCADURA do “Vivendo em Grande Estilo”, ouvia o disco “Saci Tric Ao Vivo no Theatro XVIII”, e Martin sempre chegava perto de mim e gritava: “Mas eu vou torcer até o fim!”.

O disco foi gravado por andré t.

A redenção

Voltei de São Paulo para Salvador em 2006, para gravar o “Bogary” e certo de que o CASCADURA se dissolveria logo depois disso… Encontrei na cidade uma banda atraindo a atenção das pessoas com um som meio jazz, meio rock e com muito de música brasileira. O cantor era o mesmo que formara aqueles outros dois grupos que conhecera nos anos 1990.

Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta entraram direto para o topo das bandas mais bacanas que conheci. Num show que eles fizeram na Boomerangue (extinta casa do Rio Vermelho), eles apresentaram uma música chamada “Aquela Dança”, um ijexá tocado com formação de rock que me fez os aplaudir. Ganhei um CD (a música fora lançada como single), com uma capa bem bolada (simulando um manual de passos de dança), e o toquei em casa e em outras oportunidades para que as pessoas os conhecessem.

Porém, me rendi de vez e irremediavelmente ao talento do grupo e de seu compositor quando eles lançaram o álbum “Frascos Comprimidos Compressas” (disponível para download lá no site deles), uma obra prima! Um disco mais que notável e que me fez pensar para bem mais além da música que estava emulando. O trabalho é completo, bem cuidado e tem dispositivo anticaretice sem ser pretensioso. Um exemplo que quero seguir.

A parceria

No comecinho da estruturação das composições para o “Aleluia”, pensei em chamar Ronei Jorge para colaborar conosco. Chamei! Já amigos, tivemos uma aproximação muito cuidadosa e crescente. Fiquei imensamente feliz quando ele topou construir a música que havia pensado em parceria.

Apresentei a ele uma canção baseada nos meus argumentos de Soul Music americana, mas explicitei que ela se comunicaria, via origem comum (assim, falando a grosso modo), com o samba. Queria essa ponte e de modo diferente do que outros (Jorge Ben?) já fizeram… As vozes seriam o link. Mandei-lhe a melodia e pedi uma letra.

Havia nas bases um quê de apaixonamento, um romantismo. Mas lhe sugeri que podíamos viajar em algo menos constante. Por conta de um solfejo meu, balbuciando umas poucas palavras, chegamos à ideia de uma narrativa catastrófica, apocalíptica… Decidimos que seria sobre o fim do mundo. Um fim do mundo com cores soteropolitanas, de muito som, desamparo e desespero, confusão… Como o Carnaval! Esse arremate veio dele, o que ficou muito bem resolvido, em minha opinião.

Depois de dois encontros, a estrutura da letra estava pronta, tendo nela não somente minhas impressões, mas, enfim, a marca diletante de Ronei, agora e enfim, meu parceiro!

Marcamos, com algum atraso, uma sessão para deixarmos essa combinação registrada em “Aleluia”. Não poderia fazê-lo sozinho: chamamos Ronei para também cantar no disco.

Numa sexta-feira (olha ela aí!), nos juntamos: eu, Thiago Trad, andré t, Jô Estrada e nosso convidado, Ronei Jorge. Depois de mostrar o que tínhamos preparado no álbum até ali (tendo dele um retorno muito carinhoso sobre o trabalho em curso), escutamos a canção que já chamávamos de “Dava pra Ver”. Combinamos o que faríamos, a parte reservada a cada um de nós, e partimos para a ação.

O que vem à tona é o clima de alegria em juntarmos essas peças da música, esse time. O ambiente descontraído, leve, animado. Ronei, acho que já citei, é dos melhores contadores de histórias. Se nos encontramos, sempre fazemos aquela revisão dos anos passados, lembramos de fatos que vimos em comum, de lugares diferentes, cada qual em sua ótica. Ele sempre conta disso de um modo muito especial, de novo, engraçado, divertido. É um mestre na retórica. Os Trapalhões lhe fizeram muito bem!

Daqui a uns meses, quando estiver escutando o “Aleluia” e passar pela canção “Dava pra Ver”, saiba que aquilo foi feito com muito humor, muito bom humor. Numa sexta-feira de descontração, em que estávamos muito à vontade, felizes, e em que Ronei nos brindou com sua incrível presença, seu talento inconteste e suas histórias ricas e coloridas, que, de tão bem narradas, quase davam pra se ver… Como lá nos 90, no show do Clube Cruz Vermelha, já dava pra ver…

P.S.: Não sei se as pessoas sabem, mas Ronei Jorge tem o mesmo nome que seu pai. Assim, quando ele morava com os pais e alguém ligava pra lá perguntando por ele, ouvia-se: “O pai ou o filho?”. Por isso o título.

Vale também dizer que Ronei Jorge agora está produzindo um trabalho solo, e já tem uma música nova disponível no MySpace dele.

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Passa em Volta – Martin e Eduardo

quarta-feira, 20 abril 2011 - postado por assessoria de imprensa

Eles vestem nossa camisa.
E nós sempre vestimos a deles.
Martin e Eduardo, em “Passa em Volta”.

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Solove e Maurão

terça-feira, 19 abril 2011 - postado por fabiocascadura

De grão em grão, o Aleluia vai ganhando cada vez mais cara de disco, de obra completa. Para tanto, além de mim, Thiago Trad, andré t, Jô Estrada e Dudu Txai, que, no estúdio, em sessões esparsas, vamos dando nossa contribuição à sua existência, contamos com colaborações inestimáveis a esse processo.

Já citamos aqui: Letieres Leite e a sua Orkestra Rumpilezz, o arranjador Paulo Rios Filho, Siba, dentre outros. Nesta semana que se foi, tivemos a presença de dois outros caras que são marca e presença da música da Bahia. Por viés diversos, chegaram ao Aleluia, a onda que o CASCADURA vem empurrando.

O primeiro é o multi-instrumentista, compositor, produtor e arranjador Jorge Salas Solovera. Alguns carinhosamente o chamam de Solove! Somos amigos de muito tempo. Admiro o cara na guitarra, e não tem quem não o admire por isso – e pelo muito mais que faz na música e na vida.

Tímido e muito reservado, Solovera é dono também de um timbre de voz único. Havíamos o convidado para escrever dois arranjos para o disco, e sobre isso falaremos em outro post aqui. Desta vez, o que ele trouxe foi algo muito especial: para “Os Reis Católicos”, nos cedeu sua voz inconfundível e seu sotaque (Solovera é baiano de adoção, mas nasceu no Chile e domina, logicamente, sua língua pátria). Numa sentença breve e que se repete algumas vezes na canção, ele fez o arremate final. Nas palavras de Jô: “Era o que faltava pra música… E veio como eu imaginava!”. Eu concordo.

Na mesma noite, recebemos a presença de um dos maiores expoentes do ato de cantar rock: Mauro Pithon. Com um currículo extraordinário, fundador da legendária banda Úteros em Fúria (grupo que foi ponto de partida para um rock que hoje pode existir na Bahia), tendo depois do fim dessa formado a Sangria e atualmente com a Bestiário, que está com um disco em gestação, Maurão canta com as tripas, sabe? Não sabe? Procure saber… Deixa cantor malvado qualquer ficar pequenininho.

Em uma música-desafio que decidimos pôr no “Aleluia”, que trata do “intrometido”, do “piru” (como costumam chamar aqui), ele mandou sua interpretação gutural (ainda se usa esse termo?) com tamanha facilidade que cheguei a lhe perguntar: “E aí, man?! Como é que faz depois de cantar assim?!”. Ao que ele respondeu: “Toma uma cerveja, man!”.

Um brinde a esses caras!

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19 anos de CASCADURA!

segunda-feira, 18 abril 2011 - postado por fabiocascadura

O tempo é implacável: segue e não para pra ninguém.
Nesse ano de 2011, o CASCADURA conclui a sua segunda década de existência; a partir daqui, será um novo momento…

Não tinha a convicção de chegar a tanto, lá em 1992, quando comecei com o grupo. Éramos, inicialmente, eu, Joe (que foi Tromondo e na época chamávamos de Silvano), Marcos “Paquinho” Oliveira e Marcelo Sarrafi. Exceto pelo primeiro, com quem tive a ideia de montar a banda, perdi o contato com eles… Mas, ao longo do percurso, outros tantos colaboradores vieram, escreveram seus nomes, construíram em conjunto uma obra e tanto dentro do panorama da música da Bahia e, posso dizer, do Brasil.

Somos um grupo que existe pela música e nada mais nos interessa de verdade. Nutrimos os mais diversos desejos no correr desse tempo e muitos objetivos foram alcançados. Poder contar com o apreço de gente que admiramos há muito, nos tornando amigos deles, poder contar com o interesse, o carinho de tantos fãs é um prêmio indelével: temos que agradecer…

Não há como não lembrar de gente como Ricardo “Flash” Alves (guitarrista que, dentre outras coisas, nos trouxe “Rodas nos Asfalto” e “Adeus, Solidão”), Paulinho Oliveira (de “Mesmo Sem Merecer”, meu grande parceiro), seu irmão Ivan Oliveira (tecladista e baixista), Toni Oliveira (que não é irmão dos dois anteriores, mas que conceituou muito do que fizemos nos primeiros 10 anos da história da banda), o inimitável Alex Pochat, Candido Sotto (que teve duas passagens pela banda, sempre deixando sua marca), Martin Mendonça (hoje é só “o Martin” e todo mundo na música sabe de quem se está falando… ele é único!), Jean-Louis Franco (batera do “#1”), Maurício Braga (batera do “Entre!”)… Lá se foram Yuri Bonebreaker, LF, Mauro Tahin… Um monte de gente que fez do CASCADURA um algo mais. Eu deixo aqui minha grande homenagem e meu agradecimento ao que cada um deles imprimiu nessa trajetória. São parte dessa história toda.

Muita gente passou pela banda, subindo aos palcos e tantos outros atuaram “atrás das cortinas”, fazendo o nome circular: Nestor Madrid, que acreditou num disco que queríamos e conduziu-nos aos nossos desejados primeiros registros fonográficos. Edson Rodrigues, o Ed Rey, que tanto tempo nos conduziu e nos fez seguir… Dimitri, Paula Berbert, Ricardo Ferro… Poxa! São muitos! Agradeço à todos.

Hoje, como ontem, eu e Thiago Trad contamos com a colaboração de andré t, Jô Estrada, Dudu Txai. Caras que, faz um tempo, são parte de uma colagem que vai dando forma a um capítulo à parte do CASCADURA. O “Aleluia” vem aí.

Um amigo me perguntou se poderia esperar mais um “grande disco”. Nossos discos são grandes? Pra mim também são… Só respondi a ele que esperava não decepcionar ninguém, não me esforçaria para decepcionar ninguém… Mas o “Aleluia” contará a sua própria história e terá a avaliação de quem quer que o escute.

Chegar aos 19 anos de carreira é uma façanha! Ainda mais no Brasil… na Bahia…
Não cansei e já não vejo a hora de abraçar os 20 anos!
21 de abril de 2011: feliz aniversário para o CASCADURA!

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E VAMOS COMEMORAR!

Para celebrar, nós vamos, em parceria com o Portal Cascadura, sortear 3 kits CASCADURA (DVD Efeito Bogary + CD Bogary + camiseta da banda).

Quem quiser participar, tem que seguir @CascaduraRock e @PortalCascadura no Twitter e dar um RT na seguinte frase: No aniversário do @CascaduraRock, o @PortalCascadura sorteará 3 kits com DVD + CD + Camiseta. http://kingo.to/yPo Dê RT e concorra!

O resultado sai no dia do aniversário da banda, 21 de abril.

Boa sorte!

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