Violência a la carte!

quinta-feira, 26 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

É impossível não estar ansioso depois de quase um mês sem mexer em nada no disco. Nesse tempo, andré t foi a São Paulo mixar o disco de uma banda que o Duda Machado produziu: Apolônio, e que tem um amigo nosso, Pablo Marques, tocando acordeom.

Thiago Trad deu início ao seu trabalho como orientador de um projeto de formação básica em percussão para jovens: o “Toque Cidadão”, no bairro de Itapuã, aqui mesmo em Salvador. Essa iniciativa, que foi concebida e agora está sendo implantada por ele, tem como objetivo levar noções básicas sobre os diversos tipos de percussão para jovens de uma das áreas mais carentes da capital baiana, com aulas práticas e teóricas, distribuição de material didático, além da contribuição na formação cultural dessa moçada através de palestras e exibições de documentários, que os situarão diante da produção cultural e da história de sua cidade. (Vamos esperar agora um texto do Trad com detalhes sobre o assunto.)

Jô Estrada foi tocar com seu projeto, Lacme (que teve um disco lançado, produzido por ele e o próprio andré), também na capital paulista. Apesar de, para nossa sorte, ele ter voltado a morar em Salvador e os demais componentes do Lacme terem ficado em Sampa, a banda continua a existir, só que com atividades espaçadas: pintou um show, ele foi.

Eu estive, por duas semanas, envolvido com a Exposição Revolution – Beatles, do meu amigo Marco Mallagoli, que aconteceu num shopping center daqui da cidade. Foi uma experiência ótima, aprendendo um pouco mais sobre a história dos Fab Four com um cara que os conheceu de fato: Mallagoli foi um dos dois únicos brasileiros que conhecerem os quatro Beatles e George Martin, o mítico produtor da banda (a outra foi a carioca Lizzy Bravo – que participou da gravação da canção “Across the Universe”). Um brinde à nossa maior inspiração em todos os momentos.

Mas, com agosto chegando a seu final, o disco nos chamou de volta.
Nem bem retornou, andré me procurou para retomarmos o Aleluia.

Decidimos dar sequência ao trabalho iniciado com o stomp, que gravamos no Teatro Sitorne. Sobre a construção da parte musical (melodia, harmonia e ritmo), já escrevi aqui… então queria agora falar sobre o tema que escolhi para esta canção.

A experiência com esse novo trabalho tem nos exigido um “algo mais” para além do que já realizamos. Temos sido provocados a sair da nossa zona de conforto, do espaço que já conquistamos com álbuns como “Vivendo em Grande Estilo” (2004) e “Bogary” (2006). Apesar da temática “pessoal”, do olhar sobre nós mesmos ainda nos interessar, temos dado maior vazão a uma produção em torno daquilo que nos cerca… De preferência, de forma tão direta quanto possível.

Confesso que poucas coisas me incomodam tanto hoje como o tratamento que vem sendo dado à violência pela mídia. Parece que os casos de crimes vão para a mídia embalados com requinte de reality show. Seja na cobertura nacional de um caso envolvendo “celebridades” ou no horário do almoço, com gente desvalida, marginalizada, expondo seus podres em nome da audiência local.

A violência alimenta um mercado imenso. Nos filmes, nos livros, nos brinquedos (nos jogos de videogame, então, nem se fala) e, sim, na música. Ela se apresenta, nos excitando, como elemento que, como o sexo, nos coloca novamente dentro da perspectiva de uma natureza selvagem, como se o homem ainda fosse parte da natureza “lá fora”!

Isso é assim, desde sempre.
“Bebida é água, comida é pasto… Você tem fome de quê?”.

Numa conversa, meu amigo Álvaro Tattoo lembrou: “Os romanos jogavam cristãos aos leões!”. E era casa cheia! Fonte Nova em tarde de BaVi! Assistindo à série “Band of Brothers”, sobre a famosa Easy Company, companhia de batedores do exército dos Estados Unidos da América que desembarcaram na Normandia no Dia D, vi um trecho, com depoimento de um ex-combatente, personagem real da trama encenada naquele episódio: “Na minha cidade, alguns jovens, dispensados do serviço na guerra, acabaram se suicidando! Eram outros tempos…”. Eram mesmo…

A violência bate à nossa porta, laureada em glória. Sempre…
Até que ela vem embalada em laço de realidade, com a cara de desespero ou os olhos embotados em alguma substância capaz de fazer o cérebro perder noção de limites. Aí, é hora de exclamar: fudeu!

Como não bastasse estar na arte, migra em tons de crueza para o noticiário, fazendo sucesso a ponto de ganhar especificidade: os programas “pinga-sangue”! A modalidade já era conhecida, impressa com tinta e sangue: jornais sensacionalistas que estampam manchetes sobre assassinatos, extermínios, estupros e demais crimes cruéis. Lembro que, nos anos de 1980, numa tentativa de imitar o modelo de sucesso no Rio de Janeiro, houve um que se arriscasse aqui na Bahia: naufragou em um quadriênio…

E chegamos, com velhos e novos personagens, aos programas “pinga-sangue” do horário do almoço. É o fim! É a degradação ao máximo. Em nada contribui. Eu, nascido e criado na Bahia, estou de saco cheio disso. Não acredito que isso contribua em nada para uma melhoria na condição de vida das pessoas desse estado. E tudo parece ficar muito claro quando depois do aviso de “não mude de canal, meu amigo… Que nós vamos mostrar aquele facínora, aquele escroque que fez isso e fez aquilo… Mas antes, vamos mostrar essa maravilha que é o ‘creme de ervilha’ para massagem facial e você precisa comprar ele… e etc… etc… Apenas por ‘uma fortuna que seu salário-mínimo não pode comprar’, mas você vai comprar, não é?”. É a tal da neurolinguística!

Bem, eu não tô aqui para analisar essa situação, isso devem fazer os sociólogos, cientistas políticos e jornalistas. Eu sou poeta, um compositor de rock. Extraio da vida o que me dá caminho para a criação artística. Por isso, pela necessidade de exclamar sobre esse “fenômeno” do degrado, que envergonha quem tem o mínimo de bom senso, em rejeição a essa manifestação da mais hedionda forma de exploração, que resolvi usar aquele espaço vago a um texto, dentro daquela ideia de cantar um blues sobre os passos e palmas gravados no Teatro Sitorne.

Já que o blues nasceu pelo lamento, eu lamento…

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Stomp (Música de Trabalho)

terça-feira, 03 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Um vídeo sobre a experiência com stomp, no Café Teatro Sitorne.
Participaram: eu e Thiago Trad (baterista), nós dois membros do CASCADURA, andré t (produtor do disco), Jô Estrada (coprodutor), Mark Mesquita (baterista d’Os Irmãos da Bailarina e assistente do estúdio t) e Paulinho Oliveira (ex-CASCADURA e, hoje, diretor do teatro).

Leia mais sobre esta gravação aqui.

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Música de Trabalho

segunda-feira, 26 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Uma nova experiência nasceu da nossa reunião, numa segunda-feira à noite, no Teatro Sitorne. Faz um tempo, durante os testes de bateria, antes da gravação propriamente dita, eu havia mostrado a andré t um trecho melódico que me ocorreu em uma tarde, diante de uma vitrine num shopping center de Salvador, enquanto esperava minha amada. Era um trecho de 16 compassos de blues ou, se preferir, encharcado de “blue notes”. A ideia me agradava, ainda que eu não tenha a menor pretensão em gravar um blues, nem falso, muito menos autêntico – deixo essa tarefa para os que dele realmente são. Mas mostrei a melodia a andré e ele também curtiu.

Contei a ele do excelente documentário/show a que assisti certa vez, quando trabalhava vendendo discos numa loja aqui de Salvador. Tratava-se do DVD “Down From The Mountain”, com artistas interpretando ao vivo a trilha sonora do aclamado filme “O Brother, Where Art Thou?” (com título em português “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”), dos Irmãos Cohen. Nele, o grupo The Fairfield Four (curiosamente um quinteto, a despeito do “quatro” no nome) reproduz uma canção chamada “Po’ Lazarus”. Esse grupo nasceu dentro do ambiente da música Gospel do Tennessee (EUA) e está até hoje na ativa, desde 1921 (!).

“Po’ Lazarus” é uma canção tradicional, de tema bíblico, e por eles executada no esquema stomp (com o bater dos pés sobre o tablado do palco) e palmas, imitando a sensação gerada pelo evento daquilo que os norte-americanos denominam “work song” – música de trabalho. Em geral, estamos acostumados a ouvir o gospel americano (o gospel de verdade, não esse treco que embala o polpudo mercado de música evangélica atualmente e de péssimo gosto estético/harmônico/melódico. A mensagem pode ser a mais bonita, mas a música fica em décimo plano) com acompanhamento de coral (sempre de efusivas possibilidades) e set instrumental guitarra-baixo-bateria-órgão hammond B3 (a base do que seria utilizado na instrumentação do blues elétrico, do jazz e do rock). Na “work song”, a cadência dos versos ritmava o trabalho nas lavouras, na construção de estradas e ferrovias, EUA afora, no correr do século XIX. Também nesse contexto, estão as mais profundas raízes da música norte-americana e, por consequência, muito do que chamamos universalmente de Música Pop.

Baseados nessa história de apenas o bater dos pés sobre um assoalho de madeira acompanhar o cantor, partimos para a tentativa de gerar uma base convincente para essa ideia. Falamos com a direção da Escola de Artes Sitorne, que gentilmente nos cedeu um horário para que gravássemos na sala do seu teatro. Chegamos na segunda-feira à noite: eu, Jô Estrada e Thiago Trad, antes, e encontramos com o amigo Paulinho Oliveira, ex-CASCADURA, que hoje trabalha lá mesmo. Depois, vieram nosso andré t e seu assistente Mark Mesquita.

andré dispôs seus microfones, montou seu set up, subimos ao tablado e testamos o som. Uns poucos ajustes e ele disse: “Podemos começar!”. Esse grupo de seis pessoas passou a circular pelo palco do teatro buscando o espaço onde o som ficaria melhor: confesso que esse foi o detalhe mais demorado de todo o processo. Mas, enfim, achamos um lugar no fundo do tablado onde a madeira parece ter sido ajustada para tal finalidade. Vamos gravar!

Pausa: bem, não tenho impressora em casa, assim, gravei um esboço da letra para essa música em um pen drive, onde estavam outras que pretendo aproveitar nesse processo do álbum. Não encontrei um lugar que pudesse imprimir pelo caminho e pensei: “Estou indo a uma escola! Lá tem impressora!”. Chegando lá, pus a mão no bolso para pedir a alguém para imprimir o bendito esboço e o pen drive não estava! No trajeto entre casa e escola, ele deve ter caído… Lamentei, mas seguimos sem letra mesmo. Afinal, o que iria valer, se iria realmente valer, eram os stomps e as palmas… Acaba a pausa…

Cantarolei a melodia num andamento que imaginava ser o mais natural. Marcamos com os pés o ritmo. Tentamos uma sequência de uma batida de pé a cada compasso. Depois, duas batidas, alternadas no segundo e no quarto tempo. Com palmas, sem palmas… Em vinte minutos, já tínhamos quatro ou cinco takes que nos deixaram satisfeitos.

andré t pôs os fones e ficou escutando… “Do caralho! Sonzão! Por mim, fica esse, como está!”. Ouvimos todos e compartilhamos da opinião de andré. Primeiro Thiago, depois Jô, assim por diante, ouvimos todos: eu, Paulinho, Mark… E nos cumprimentamos em saudação ao sucesso de algo que parecia ser mais complexo executar do que realmente foi.

Torno a chamar a atenção para o fato de que queremos apenas usar a alegoria desenvolvida do mundo do espetáculo americano, desde o começo do século XX, para contextualizá-lo à nossa necessidade de emoldurar uma obra atual. Não queremos ser grupo de blues, nem “macaquiar” coisa de gringo! Muito pelo contrário; a ideia é dar um novo direcionamento àquilo que já sabemos, conhecemos: reciclar!

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