“Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”

terça-feira, 08 fevereiro 2011 - postado por assessoria de imprensa

Este é o texto na íntegra da matéria “Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”, assinada pelo jornalista Chico Castro Jr., publicada na edição de hoje, 8 de fevereiro de 2011, do jornal A Tarde (Caderno 2+, página 4).

Não importa quantas presepadas e onomatopeias infantis ainda sejam inventadas daqui até o Carnaval: o verão de 2011 ainda será lembrado como o momento em que o “ensaio” de uma banda do rock local concorreu de igual para igual com os dos artistas do mainstream. No mês de janeiro, as quatro datas da temporada 2011 do projeto Sanguinho Novo, do Cascadura, tiveram excesso de público.

No último domingo do projeto, no dia 30, milhares de pessoas compareceram ao Pelourinho. Claro, depois que entraram 1,2 mil, lotação oficial do Largo Teresa Batista, os portões foram fechados e a multidão que não entrou, foi para casa, com fome de Cascadura.

“Foi muito legal ver toda aquela mobilização em torno de bandas que supostamente não têm público”, observa Fábio Cascadura. “Deu muito mais gente do que imaginávamos. O que acontece é que existe uma orientação cultural em Salvador de que o rock não tem público, que é a ‘terra do axé’. Aí, o que aconteceu? A própria grande mídia, que tá assim de gente ‘do rock’, não foi lá cobrir. Só o jornal A TARDE e a TVE”, constata.

Estereótipo do “baiano feliz”
Passado o furacão de quatro domingos no Pelourinho, a banda volta a se concentrar no estúdio t para concluir as gravações do 5º álbum de carreira, Aleluia!.

É um projeto ambicioso. Será um álbum duplo, com cerca de 30 faixas, muita percussão de terreiro de candomblé (Fábio é devoto) e participações muito especiais: Pitty, Jajá (Vivendo do Ócio), Orkestra Rumpilezz, Siba (rabequeiro, ex-Mestre Ambrósio) e Gabi Guedes (mestre de percussão, tocou dez anos com Jimmy Cliff, entre outros).

Na quinta-feira passada, a banda e seus produtores (e membros honorários) andré t. e Jô Estrada receberam A TARDE no estúdio, para proceder às gravações do dia e também mostrar um pequeno preview do que vem por aí no álbum Aleluia!.

“O disco gira em torno de Salvador”, diz Fábio. Se o último disco, Bogary (2006) foi criado com um olhar um pouco mais distante, durante um período que a banda passou em São Paulo, neste, o processo foi inverso. “Você está aqui, curtindo a praia, mas também sentindo o cheiro de mijo”, avisa.

A ideia é que o disco seja uma espécie de documento, uma tradução do momento (tétrico, diga-se de passagem) por que passa esta cidade: “Salvador está precisando urgentemente de uma virada histórica. É uma cidade de 500 anos que ainda mantém hábitos medievais. Você tem os senhores feudais encastelados, o populacho e lixo, muito lixo nas ruas”, vê.

“Se você pegar aqueles livros de Jorge Amado escritos nos anos 1930, 40, você percebe que os problemas de Salvador que ele aponta estão a mesma coisa, senão pior”, acrescenta o guitarrista e co-produtor Jô.

Uma coisa parece bem clara: a banda (e não só eles) está de saco cheio do estereótipo do “baiano feliz”. “As pessoas aqui se contentam com migalhas”, opina Thiago Trad, bateria.

“A gente não vende fitinha do Senhor do Bonfim”, acrescenta Jô. Já Fábio acha que é hora de “questionar qual é o papel do artista neste momento. Essa coisa de reis, rainhas, gênios. Todo mundo é gênio aqui? Mas para que serve isso? Qual o benefício que isso traz para a cidade? Qual o benefício que esse modelo de Carnaval trouxe”?, questiona.

Stones da Cidade Baixa: disco tem som de concepção bem ambiciosa
Em termos sonoros, pelo que foi mostrado na audição exclusiva para A TARDE, o quinto álbum do Cascadura deverá ter uma das concepções mais ousadas dos últimos tempos em termos de fusão sonora na música popular brasileira.

Imagine que Mick Jagger e Keith Richards são baianos e nasceram na Cidade Baixa. Agora, imagine que, formados os Rolling Stones soteropolitanos, eles estão no estúdio, ensaiando seu rock‘n’roll encharcado de rhythm‘n’blues.

Ao fundo, ouve-se a percussão pesada e cheia de espiritualidade de um terreiro de candomblé ali perto.

Surpreendentemente, as duas instâncias sonoras (a banda de R&B e a percussão afrobaiana) se entrelaçam em perfeita harmonia. É como se uma luz se acendesse, e de repente, esses elementos começassem a fazer total sentido juntos.

Pé no primeiro disco
“Algumas músicas têm um pé lá no primeiro disco (Dr. Cascadura, 1995). Aquela coisa meio Stones, só que, agora, misturada com essa percussão que a gente quer mostrar”, descreve Thiago Trad.

Claro, rock com percussão existe não é de hoje. Do guitarrista Santana, passando por Barão Vermelho à Nação Zumbi, existem muitos exemplos. O negócio é ver como o Cascadura fez sua própria versão do estilo.

Faixa com Orkestra Rumpilezz ganha riff de guitarra e deixa Letieres Leite feliz
Em uma das faixas, To Your Head, ouve-se um majestoso arranjo de sopros e percussão: é a Orkestra Rumpilezz, do maestro Letieres Leite. Na tarde da visita ao estúdio, a banda se preparava para adicionar um riff de guitarra à faixa. Jô, empunhando uma Danelectro barítono (instrumento de braço mais longo e afinação mais grave), toca o riff várias vezes. Diz para andré: “Eu quero aquele veneninho”. Qual um cientista, ele começa a mexer nos botões dos compressores de áudio. “Tente de novo”, diz andré. Jô toca o riff novamente e entra em êxtase. Depois, toca o riff de Back in Black (AC/DC) e cai na risada. “Velho, já foi”, encerra o produtor. “No dia que Letieres veio aqui, ele entrou direto, nem falou nada. Foi lá e gravou. Quando saiu, tava todo mundo de cara aqui”, lembra andré. “Depois que a gente gravou, tava todo mundo calado. Aconteceu alguma coisa” lembra Letieres. “Fiquei feliz com o resultado”.

1ª AUDIÇÃO: ALGUMAS FAIXAS DE ALELUIA!
Colombo Introdução lembra o clássico White Rabbit (da banda Jefferson Airplane). Linda faixa, terá solo de rabeca de Siba.

Peru de Fora (título provisório) “A maioria das coisas que você acha que é teclado, na verdade, é guitarra”, diz Jô. Ao timbre cavernoso, logo se adicionam percussões infernais. “É o pagode do inferno”, avisa Fábio.

O Delator Na linha Senhor das Moscas (do Bogary): pesada, acelerada, com participação excelente de Jajá (Vivendo do Ócio).

Soteropolitana Um tratado sobre a cidade e seu povo, já nasceu com jeito de hino. Letra épica e histórica para uma pegada stoneana (se Jagger & Richards fossem nativos do Bonfim). Inacreditavelmente bela.

Cordeiro Com percussão monstra de Gabi Guedes e o dedo na ferida: “Ninguém me convidou / mas aqui é minha casa / sou eu que levo soco / e você que vai no meio”.

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Supernovos!

quinta-feira, 06 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Esse é mais texto de apresentação. Parece que estamos de fato começando uma nova fase porque tenho abordado, por diversos motivos e de diversas formas, apresentações sobre tudo que cerca a carreira do CASCADURA.

Antes de apresentar quem devo, aqui, queria falar sobre um aspecto muito particular da banda: sua formação. Começamos há quase 19 anos e quando se inicia um projeto sempre pensamos e desejamos ter a permanência dos que contribuem com ele. Desejamos seguir fazendo música com aquele mesmo grupo… Pelo resto dos dias. Quase nunca isso é possível.

Se você me pedir para falar o nome de bandas de sucesso que atravessaram carreiras duradouras com as mesmas formações, juro que não me lembrarei de muitas. Na verdade, só me vem à memória o ZZ Top!
“E o The Police?” – Acabou!
“Paralamas do Sucesso!” – Vital comprou uma moto…
Enfim, nem os Rolling Stones… Nem os Beatles conseguiram manter o mesmo séquito durante toda a sua existência como grupo (Pete Best e Stu Stutcliff que o diga).

“Ah! Nesses casos sai um, sai outro… Mas com o Cascadura é demais!”…
Pois é… Já fui grilado com isso e não sou mais. E parece que grande parte dos que acompanham a nossa carreira também.

A alternância de colaboradores na formação do CASCADURA acabou por tornar-se uma característica da banda. Tivemos a oportunidade de ter conosco gente de toda origem, formação, com as mais diversas perspectivas e ambições artísticas. E creia: isso é bom! Esse processo nos faz reinventarmos! Nos faz reaprendermos a ser nós mesmos em diversas possibilidades… Entendeu?… Bom, vou seguir…

Mas esse preâmbulo todo vem para justamente apresentar aqueles que subirão ao palco do Largo Tereza Batista conosco, na programação do projeto Sanguinho Novo. Apresentar é forma de dizer, porque você certamente já os conhece:

andré t

Quem acompanha o CASCADURA sabe da relação estreita entre nós e o nosso produtor, que, por sinal, também faz parte do NÓS! Trabalhamos juntos desde 2002, quando realizamos um EP Promo, comemorativo de 10 anos de carreira (naquele disquinho estavam canções como “Não Posso Julgar Ninguém”, “Retribuição” e “Queda Livre”), e, a partir desse passo, começamos a trilhar uma parceria que já conta com os discos “Vivendo em Grande Estilo” e “Bogary”, além do DVD “Efeito Bogary”.

andré estuda piano desde os sete anos de idade, é músico por vocação, quase um sacerdote da canção! Amante do bom rock (Queen, Beatles, Genesis…), ele já trabalhou com gente de todas as orientações estéticas possíveis: de Carlinhos Brown a Bestiário, passando por Retrofoguetes, Messias, Nancyta e os Grazzers.

No estúdio t, estamos nos desafiando, juntos, na construção do “Aleluia”, próximo álbum do CASCADURA. E foi lá que surgiu a proposta de experimentarmos tocar juntos, em palco. Algo que ainda não havíamos feito.

O Professor t, como o chamamos, é chegado a um desafio e, em geral, os domina com seu talento e bom gosto. Temos a sorte de contar com ele para o Sanguinho Novo tocando baixo e teclados.

Jô Estrada

Eu conheci esse cara como o virtuoso guitarrista da lendária banda soteropolitana de hard rock Dead Easy, no começinho dos anos 1990. Logo depois de tê-lo visto em ação nos palcos da cidade com esse trio, que fez parte do nascimento de todo o circuito que se construiu naquela década, eles partiram para novas experiências no Rio.

Na capital fluminense, a banda encerrou as atividades e Jô seguiu se apresentando como músico de apoio e session man dos estúdios de lá. Na virada para a década passada, ele voltou a morar na Bahia e nos reencontramos. Jô me influenciou naquele momento me apresentando coisas como Queens of the Stone Age e o disco “Shangrila-Dee-Da” (Stone Temple Pilots). Beatlemaníaco, chegamos a tocar juntos em alguns projetos para homenagear nossa banda favorita, também com Thiago Trad na bateria.

Mas nossa parceria mais bem sucedida até aqui foi mesmo a sua participação como guitarrista e coprodutor no “Bogary”. Sabe as guitarras e baixo de “Senhor das Moscas”? É ele quem toca! Sabe o solo de guitarra 12 cordas em “Juntos Somos Nós”? É a mesma criança tocando! O corinho em “O Centro do Universo”? Ele ta lá também. Sua contribuição ao “Bogary” foi definitiva. E de tão espontânea e prazerosa que foi a sua presença no estúdio, decidimos repetir a dose nesse novo trabalho, o “Aleluia”!

Recentemente ele esteve morando em São Paulo e lá deu seguimento ao seu projeto pessoal Lacme, com quem lançou um disco, também produzido por andré t, chamado “Reverse”. Agora, ele vem trazer ao show do CASCADURA algumas das suas qualidades: maestria na guitarra, voz precisa e carisma. Jô é, acima de tudo, um cara muito divertido e bom amigo.

Du Txai

Ele veio da Índia! Mentira! Ele veio de Porto Seguro mesmo. E quem o trouxe foi Jô.

Du é um cara tímido que conhecemos muito recentemente. Somente depois que ele estava ensaiando conosco, há algumas semanas, é que o ligamos à banda Suinga, que tanta atenção vem conquistando das pessoas nessa temporada. Du é o baterista desse grupo.

O fato é que, pianinho, o cara nos conquistou, por sua discrição musical e sua precisão no instrumento. Ainda de quebra ele canta muito bem: afinadíssimo! Filho de músico, ele tem muito que mostrar ainda. Sua trajetória está só no começo. Logo todos constatarão o que digo: Du Txai tem tudo para se destacar como o músico mais completo de sua geração! Quem for ao Sanguinho Novo terá a oportunidade de tomar contato com as qualidades desse guitarrista.

No mais, estaremos eu e Thiago Trad, no impulso de sempre!

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“Valeu, tio!”

sexta-feira, 19 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Falei em um post anterior sobre alguns álbuns recém-lançados que nos forneceram combustível para pensar num conceito para nosso próximo disco de estúdio, o Aleluia, esse mesmo, matéria-prima e razão de ser desse blog.

Falei do “Chá Chá Chá” (Retrofoguetes), “Frascos, Comprimidos, Compressas” (Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta), “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” (homônimo) e “Maçalê” (Tiganá Santana). Óbvio que não só disso vive o Aleluia, mas esses marcaram por serem obras contemporâneas, de artistas que estão num patamar de ascensão dentro do panorama musical brasileiro e que, acima de tudo, representam a inquietude diante da própria música.

Mas deixei de citar um outro disco, lançado há pouco tempo e que, tanto quanto ou mais que estes, interfere na produção que estamos fazendo em estúdio e nos ensina algumas coisas para além da música que pretendemos criar: “Zii e Zie”, de Caetano Veloso.

Escutei esse disco pela primeira vez na casa do próprio num período em que nos aproximamos, exatamente porque ele nos citou no blog que criou para expor o processo de criação desse álbum, exatamente como estamos fazendo com o Aleluia, aqui, em A Ponte.

Mas nossa relação com Caetano vem de antes: uma vez, nos idos de 1999, encontrei um amigo no Largo de Santana (Rio Vermelho). Era um começo de noite de uma sexta-feira e eu estava ali para encontrar com Martin e Jorginho (o famoso King Cobra). Éramos parceiros num evento que vinha acontecendo havia alguns meses: o Rock Nights! Toda semana, (Dr.) CASCADURA e King Cobra (banda da qual, então, Martin era guitarrista) revezavam-se no palco do Havana Sushi Bar, exatamente naquela praça. Eram noites bem concorridas e que nos custaram muito trabalho para tornarem-se assim, prestigiadas. As edições do Rock Nights aconteciam nas quintas e o combinado com a direção da casa era recebemos o cachê da noite anterior no começo da noite de sexta. Eu sempre ia acompanhado do então Cascadura Paulinho Oliveira, e encontrávamos com os dois “Cobras”.

Nessa noite, porém, me encontrei com esse camarada, o lendário Alexandre “Polho” Torres, que nos disse: “Você viu? Caetano falou de vocês na MTV! Foi no Jornal da MTV, agora há pouco…”.

“Cuma?”
Tanto eu quanto Paulinho achamos que havia um engano aí: Caetano é famoso e nós somos uma banda de rock soteropolitana suando para sobreviver localmente! Ele confirmou e, sabendo que nos encontraria ali (na época, nenhum de nós tinha telefone celular), veio nos encontrar para comentar o fato (e de quebra sentar para uma rodada de cerveja e papo). Ele repetiu umas três vezes que Caetano tinha dito no programa da MTV que estava escutando “uma banda de Salvador que fazia um rock assim… bem Stones: Dr. Cascadura!”.

Seguimos descrentes, até que chegou um outro amigo: Wallace (hoje guitarrista da banda de rock ultrapauleira Bestiário). E qual foi a primeira frase dele? “Poxa! Caetano falou que está escutando vocês!”… “Porra, véi… Foi mesmo?”. Polho não perdeu a deixa: “Viu aí, mané?! Eu tô maluco?!”.

Aquilo repercutiu por um tempo e nos trouxe satisfação: era sinal de que estávamos trabalhando bastante e fazendo nossa obra chegar ao maior número de pessoas possível, dentro da nossa limitação (sobretudo, orçamentária). Mas logo demos sequência e seguimos.

Ficamos sabendo que Caetano, que costuma passar temporadas de verão em Salvador e, nestes períodos, habitualmente, frequenta o Rio Vermelho, foi a uma loja de discos do bairro, a extinta Na Mosca, e pediu ao Tony Lopes, proprietário do estabelecimento, algumas “novidades” da Bahia. Acabou caindo-lhe as mãos nossos dois primeiros discos: “Dr. Cascadura #1” (1997) e “Entre!” (1999). E pronto…

Esse lance de “Caetano falou de vocês”, virava e mexia, vinha à baila. Só que, com o tempo, fomos dando cada vez menos ênfase a isso. Não tenho certeza, mas acho que ele acabou fazendo esse comentário de estar escutando CASCADURA em mais alguns outros veículos, sendo que eu mesmo jamais havia lido, ouvido ou o visto falar de nós.

Passa um tempo, a banda muda, a música muda, “pererê-parará-pão-duro”, como dizia minha mãe… Eis o Verão de 2008/09. Quando chegam as festas de fim de ano, é tradição em Salvador o baile “O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes”. É praticamente uma festa de confraternização entre os que frequentam e trabalham no circuito de música alternativa da cidade. E sempre que dá, eles me chamam para uma canja. Eu adoro participar.

Os Retrofoguetes são organizados em suas diversas ações, não dão ponto sem nó. Para esses shows com convidados, fazem questão de armar um ensaio antes da apresentação. Para a festa do Natal de 2008, além de mim, do maestro Letieres e o pessoal da Anacê, eles convidaram nosso amigo Glauber Guimarães.

Glauber é primo de Rex (baterista dos Retro), foi ele quem me substituiu quando saí d’Os Feios, banda de rock 50’s da qual fazia parte, juntamente com Joe (hoje baixista de Pitty), Morotó (guitarra) e o próprio Rex Crotus, na bateria. Depois, como todos sabem, eles se tornariam os The Dead Billies e Glauber mudaria seu nome para Moskabilly. Ok…

Passadas essas aventuras, Glauber acabou desenvolvendo-se como compositor e cantor (dando ênfase ao seu projeto Teclas Pretas) e, naquele instante, estava muito ligado ao universo virtual dos blogs. Ele chegou ao ensaio, onde eu já estava (foi no estúdio de Bola, ex-guitarrista da Dinky Dau e Sangria, na região do Largo 2 de Julho, Centro de Salvador), e me cumprimentou dizendo: “Caetano falou de vocês…”. “De novo essa conversa?!”, pensei. “Mas foi essa semana! Você viu?!”, ele completou, e ainda afirmou que “está escrito na internet…”.

Glauber vinha acompanhando uma estratégia inovadora de Caetano para divulgar seu disco. “Pois é, bicho! O cara tá gravando um disco novo e decidiu expor todo o processo de construção em um blog na internet, onde, quem quiser, fica sabendo o que tá rolando no estúdio, nos shows de preparação e desenvolvimento desse trabalho… Chama-se: ‘Obra em Progresso’ e lá ele disse que curte o som do Cascadura e que vem acompanhando vocês!”, contou.

“Pera aê, Glauber!.. Ele tá gravando um disco e mostrando o que tá fazendo antes de lançar?”, me assustei com a informação. Caetano é um “medalhão”. Se essa estratégia fosse implementada por alguém do universo alternativo, eu até compreenderia, acharia natural, pois a necessidade de lançar mão de algumas ferramentas mais radicais para divulgação dos projetos dessa fatia do mercado é sempre eminente. Mas um cara que trabalha num patamar como o dele?…
“Vá lá ver, rapaz!”, sugeriu.
Eu fui…

Li o texto em que ele nos cita, li o texto em que ele falava da música do disco, da abordagem, do conceito do álbum, dos shows que faria/fizera no Canecão, no Rio, onde testaria possibilidades e arranjos e li mais: os comentários dos que visitavam o blog “Obra em Progresso”.

Centenas de comentários por post. Havia uma legião de fãs, curiosos e detratores ali, prontos para debater, bater papo, comentar somente, mandar um alô, um beijinho, fazer uma graça ou xingar o Caetano. E ele estava lá, nu! Exposto, debatendo o quer que fosse, contra-argumentando, concordando… O legal ali era que quem lesse poderia comentar. Não era, como de costume em casos de artistas de grande alcance, uma via de mão única. Podia-se “responder”, com grandes possibilidades de réplica por parte do autor.

Tendo ele nos elogiado e chamado a atenção para o CASCADURA em seu texto, decidi deixar um comentário, agradecendo o carinho e tal… Não lembro se houve réplica, mas fiquei de boa com isso tudo e segui… Foi quando nosso produtor de então, Dimitri, foi ao Rio Vermelho e acabou encontrando com o próprio Caetano: “Oi, Caetano! Eu sou produtor do CASCADURA, sabe?! Os caras ficaram contentes com seu texto e tal… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Parece que Caetano falou que queria nos conhecer e Dimitri disse que iria me ligar para que pudéssemos falar.

“Alô, Fábio… É o Caetano!..”, era a voz do “Cinema Transcendental” mesmo. “Olha, vamos nos encontrar uma hora dessas… Acho o som de vocês demais… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Foram uns cinco minutos de papo e deixei uns telefones com ele, caso ele quisesse ligar e marcar algo.

Passaram-se algumas semanas e no meio de uma partida de buraco da qual eu participava somente para fazer número (minha sogra, meu cunhado e esposa sabem jogar. Eu, não), toca o telefone: “Oi, Fábio! É o Caetano… Vai fazer o quê hoje?!

O cara me convidou para ir a uma festa na casa dele aqui em Salvador e lá, enfim, nos conhecemos pessoalmente. Gente fina! Tava lá a galera do Grupo de Teatro Olodum, o produtor Arto Lindsey, o músico e arranjador Tuzé de Abreu e dentre outros tantos famosos David Byrne (ex-Talking Heads).

Caetano fez questão de nos apresentar a ele e não perdeu a chance de uma brincadeira (em inglês fluente): “David, esses são roqueiros daqui de Salvador… Eles odeiam pagode, axé e carnaval!..”, falou com um meio sorriso zombeteiro e tomando um drinque. Eu, de supetão, quis contradizê-lo, falando um “It’s not true…”, e me saí com um estúpido “Not too much!”. O círculo irrompeu em gargalhas (“Olha, David! Eu sou preconceituoso, mas NEM TANTO!”, seria a tradução da gafe que cometi).

O Mr. Byrne nem nos deu trela, mais simpático foi o Arto Lindsey. Mas estávamos ali para conhecer Caetano e era o que valia. Fomos eu, Thiago Trad, acompanhados das namoradas, e Dimitri. Conversamos um tempo sobre música. Ele falou muito bem da produção do Bogary, com propriedade de quem realmente ouviu. Citei a vontade de fazer um próximo disco mais diferente e arriscado, buscando diálogos com informações locais e cheguei a dizer que “tenho vontade de justapor Stones e samba-reggae”. Ele fez cara de “É…” (?).

Passadas algumas horas, fomos nos despedir. Ele pediu que voltássemos num dia qualquer, somente para trocar informações sobre música e arte. Esse retorno acabou acontecendo três semanas depois, e com a presença de Glauber, que ele pediu que eu levasse, e andré t, outro que pediu que convidasse, desde que munido de algumas coisas que vinha trabalhando em estúdio, além de Trad e Heitor, um amigo e parceiro de Glauber.

Passamos uma tarde conversando sobre histórias do passado (muitas das quais já conhecia de livros sobre a música brasileira), tiramos dúvidas sobre o rock em Salvador no período em que ele morou aqui (entre os 50 e 60 do século passado), o escutamos dizer algumas vezes “Caras, eu sou ‘tiozinho’! As vezes as pessoas se esquecem, mas sou ‘tiozinho’!”, e ele falou sobre o que deveria vir a ser seu próximo disco, o que estava expondo no blog “Obra em Progresso”.

Daí, ele convidou-nos a ouvir música na sala (antes estávamos num pátio na frente da casa). andré t levou um CD com uma compilação de produções dele: Messias (músicas do que depois viria a ser o sensacional álbum triplo “Escrever-me, Envelhecer-me, Esquecer-me”), que parece ter gostado muito, e uma demo de um projeto dub no qual eu e ele vínhamos trabalhando com uma dupla de baixo-bateria fenomenal. Quando tocou a primeira das faixas dessa experiência (que estava, como ainda está, inacabada), Caetano deu um sorriso e disse: “Esse é o som!”. Explicamos que era um projeto aberto e que não sabíamos exatamente o que fazer com aquilo. E ele mandou: “Quero participar também!”. Logo depois, numa entrevista coletiva aqui em Salvador, ele tornaria a comentar esse projeto e sua vontade de fazer parte dele.

Atenção, você que me lê agora: até aqui, escrevi a introdução do texto… O assunto vem agora!

Terminado o CD levado por andré, Caetano pegou um outro CD-R e disse: “Esse é o ‘Zii e Zie’, meu novo disco. Vou pôr para vocês ouvirem”. Entrou uma música extremamente diferente… Era guitarra e era samba. Mas não era guitarra e samba de Benjor ou Gil… Era outra parada! E era da boa! A sequência ia rolando e a gente meio espantado, para o visível deleite dele. Quando tocou uma que hoje sei chamar-se “Menina da Ria”, comentei que lembrava um frevo torto com suspiros McCartianos (sic!): “Um frevo-beatle!”.

Caetano explicou seu desejo de falar com o olho de sua geração, “de tios e tias”, sobre o Rio de Janeiro. Acendeu-se uma lâmpada sobre a minha cabeça! Na real, já estava acesa. Só ganhou alguns watts de potência.

Antes de escutar o “Zii e Zie”, ali e depois com mais calma, em casa, já queria um disco do CASCADURA todo DE Salvador, em contraponto ao Bogary, que foi feito em São Paulo, mas PARA Salvador. Porém o modo articulado apresentado nesse disco de Caetano, com sua banda formada sobre instrumentos identificados como “de rock”, com seu som mais vivo e claro que o “Cê”, supostamente o “disco roqueiro” de sua obra, levou-me a certeza de que teria que enfrentar esse desejo, desapegando-me de muito do que estava comigo em termos de crença e perspectiva, no que diz respeito à minha própria produção. Será que me fiz entender?…

Ao final da “audição”, ele nos perguntou o que havíamos achado. Visivelmente mexidos, elogiamos. andré emendou uma analise técnica mais apurada e lançou seu “Não gostei do som do ‘Cê’…”. Exato! Caetano arregalou os olhos e parece ter achado massa a sinceridade de andré, tanto mais quando ele explicou que o som do “Zii e Zie” era muito superior e a produção, que valorizava as “salas” de cada instrumento, dava a esse disco um som próprio e muito bem acabado. Ele explicou o porquê do nome, “Zii e Zie”, sendo reforçado pelos complementos de Glauber, bem mais interado naquele momento das intenções que ele havia exposto no “Obra em Progresso”.

Terminamos essa com abraços e promessas de breve reencontro. Com o passar dos meses, o “Zii e Zie” foi lançado, trazendo espanto, admiração de muitos e também certa rejeição da parte de quem não o assimilou. Segui ouvindo-o. Entendendo que, nele, Caetano busca tratar da sua territorialidade vigente: o Rio de Janeiro em seus diversos aspectos. Esse olhar, muito simples e objetivo, reforçou a trilha que buscava e que, somado aos outros discos, a alguns livros e filmes, ajuda a compor o mosaico de influências que adornam o Aleluia.

Ainda mais: a forma como o disco foi apresentado, com seus shows de teste no Canecão e o infalível blog “Obra em Progresso”. Não fosse aquela experiência, talvez não tivéssemos o impulso de fazer o mesmo com o nosso novo álbum de estúdio, abrindo o processo para que todos possam saber um pouco mais do caminho que estamos percorrendo. Não fosse assim, talvez eu não estivesse escrevendo essas linhas e você não as estaria lendo. Por isso, tenho que agradecer a Caetano Veloso: “Valeu, tio!”

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CASCADURA + produtor andré t

sexta-feira, 08 outubro 2010 - postado por andré t

Há bastante tempo temos conversado sobre o próximo disco do CASCADURA e o que ele deveria ser ou não ser. Curioso, pois nunca passamos tanto tempo desenvolvendo conceitos.

Um pouco da nossa história (CASCADURA + produtor andré t):
Começamos a trabalhar juntos quase dez anos atrás, com um EP que se transformou no disco “Vivendo em Grande Estilo” (lançado em 2004). Entramos no estúdio e fizemos o álbum: simples assim!

Alguns anos depois, com a banda reduzida a Fábio e Thiago, chamamos Jô Estrada para a função de coprodutor (acumulada à de guitarrista) e gravamos o “Bogary”. Nesse disco, tivemos um tempo de preparação de conceitos: dois ou três cafés na casa de Jô (onde lutávamos para convencer Fábio a deixar “Adeus, Solidão” no disco), divididos entre inúmeras discussões sobre a música dos Beatles, Beach Boys, os artistas da Atlantic e os causos do nosso grande amigo Alvaro Tattoo!

No estúdio, o trabalho foi muito simples: Fábio tocava a música no violão, nós conversávamos um pouco sobre o que fazer (bem pouco mesmo) e Thiago sentava na bateria, muitas vezes sem nem saber a estrutura completa da música! E o trabalho fluiu…

Resolvemos continuar com esse grupo para o Aleluia; além de trabalharmos bem juntos, ao ponto de muitas vezes não precisar falar absolutamente nada e todos entenderem, somos muito amigos fora do trabalho e conversamos sobre tudo.

Desta vez, as coisas estão um tanto diferentes. Uma coisa aconteceu paralela e coincidentemente a todos: uma “redescoberta” da nossa casa. Da minha parte, passei pouco mais de dois meses entre São Paulo e Rio no ano passado, gravando e mixando o disco “Chiaroscuro”, de Pitty, e, ao mesmo tempo que foi um trabalho recompensador, entre amigos muito queridos, não via a hora de voltar para casa, e ouvir o sotaque que é peculiar a Salvador.

Essa “redescoberta” fez muito desse conceito do Aleluia. Que tal olhar para a cidade em que vivemos e reinterpretar nossa música e nossa maneira de apresentá-la? Que tal quebrar alguns paradigmas e mudar quase que completamente nosso modus operandi? Que tal não fazer um “Bogary 2, A Volta”? Que tal fazer algo que nos estimule e nos desafie, para que possamos fazer algo melhor do que tudo que já fizemos antes?…

Ao mesmo tempo que olhamos para a nossa cidade e para as nossas raízes, olhamos também para as raízes desse tal de rock’n'roll, um certo rhythm’n'blues que veio justamente dos filhos e netos dos escravos (alguma coincidência aqui?). Voltamos a falar da Atlantic (ouçam Atlantic Rhythm’n'Blues, coletânea fantástica), como conversei com Fábio num dos nossos primeiros encontros, onde descobrimos nosso amor mútuo pela música de Ray Charles (aliás, eu poderia passar horas falando só dele), Aretha Franklin, Otis Redding etc.

Mas e o disco? Simplesmente estamos dando um tratamento único para cada música. O normal e mais rápido numa gravação, como Fábio já explicou, é montar a estrutura e fazer todas as baterias e baixos juntos, numa só sentada! No Aleluia, estamos fazendo questão de trabalhar cada música de uma maneira particular, muitas vezes com instrumentação muito diferente entre uma e outra.

Thiago, por exemplo, está experimentando gravar com vários kits de bateria diferentes, com afinações e técnicas de gravação que nunca tentamos antes. E não é que ele está tocando melhor do que nunca? Acho que esse desafio, entre os quais tocar algumas coisas de uma maneira muito suave, o está fazendo buscar qualidades que ele nem sabia que tinha! Além do mais, agora vemos nosso baterista tocando percussão erudita. Ao mesmo tempo, ele, um paulistano-soteropolitano, é um dos primeiros a falar do tal do sotaque de Salvador.

Num próximo texto, falarei um pouco mais sobre o processo de gravação e suas peculiaridades. Agora estou ansioso pela próxima sessão, onde deveremos ter uma visita ilustríssima!

Ah, Ray Charles…
Trinta anos atrás, quando começava a tocar piano, chegava da escola e procurava algo diferente para ouvir, dentre os discos do meu pai. Descobri um disco duplo com uma capa escura com um perfil de uma pessoa. Era um disco ao vivo do Ray Charles. Pronto! Depois disso, todos os dias chegava correndo em casa, punha o disco no “três-em-um” e tentava tocar que nem ele. Ainda não consegui…

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Violência a la carte!

quinta-feira, 26 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

É impossível não estar ansioso depois de quase um mês sem mexer em nada no disco. Nesse tempo, andré t foi a São Paulo mixar o disco de uma banda que o Duda Machado produziu: Apolônio, e que tem um amigo nosso, Pablo Marques, tocando acordeom.

Thiago Trad deu início ao seu trabalho como orientador de um projeto de formação básica em percussão para jovens: o “Toque Cidadão”, no bairro de Itapuã, aqui mesmo em Salvador. Essa iniciativa, que foi concebida e agora está sendo implantada por ele, tem como objetivo levar noções básicas sobre os diversos tipos de percussão para jovens de uma das áreas mais carentes da capital baiana, com aulas práticas e teóricas, distribuição de material didático, além da contribuição na formação cultural dessa moçada através de palestras e exibições de documentários, que os situarão diante da produção cultural e da história de sua cidade. (Vamos esperar agora um texto do Trad com detalhes sobre o assunto.)

Jô Estrada foi tocar com seu projeto, Lacme (que teve um disco lançado, produzido por ele e o próprio andré), também na capital paulista. Apesar de, para nossa sorte, ele ter voltado a morar em Salvador e os demais componentes do Lacme terem ficado em Sampa, a banda continua a existir, só que com atividades espaçadas: pintou um show, ele foi.

Eu estive, por duas semanas, envolvido com a Exposição Revolution – Beatles, do meu amigo Marco Mallagoli, que aconteceu num shopping center daqui da cidade. Foi uma experiência ótima, aprendendo um pouco mais sobre a história dos Fab Four com um cara que os conheceu de fato: Mallagoli foi um dos dois únicos brasileiros que conhecerem os quatro Beatles e George Martin, o mítico produtor da banda (a outra foi a carioca Lizzy Bravo – que participou da gravação da canção “Across the Universe”). Um brinde à nossa maior inspiração em todos os momentos.

Mas, com agosto chegando a seu final, o disco nos chamou de volta.
Nem bem retornou, andré me procurou para retomarmos o Aleluia.

Decidimos dar sequência ao trabalho iniciado com o stomp, que gravamos no Teatro Sitorne. Sobre a construção da parte musical (melodia, harmonia e ritmo), já escrevi aqui… então queria agora falar sobre o tema que escolhi para esta canção.

A experiência com esse novo trabalho tem nos exigido um “algo mais” para além do que já realizamos. Temos sido provocados a sair da nossa zona de conforto, do espaço que já conquistamos com álbuns como “Vivendo em Grande Estilo” (2004) e “Bogary” (2006). Apesar da temática “pessoal”, do olhar sobre nós mesmos ainda nos interessar, temos dado maior vazão a uma produção em torno daquilo que nos cerca… De preferência, de forma tão direta quanto possível.

Confesso que poucas coisas me incomodam tanto hoje como o tratamento que vem sendo dado à violência pela mídia. Parece que os casos de crimes vão para a mídia embalados com requinte de reality show. Seja na cobertura nacional de um caso envolvendo “celebridades” ou no horário do almoço, com gente desvalida, marginalizada, expondo seus podres em nome da audiência local.

A violência alimenta um mercado imenso. Nos filmes, nos livros, nos brinquedos (nos jogos de videogame, então, nem se fala) e, sim, na música. Ela se apresenta, nos excitando, como elemento que, como o sexo, nos coloca novamente dentro da perspectiva de uma natureza selvagem, como se o homem ainda fosse parte da natureza “lá fora”!

Isso é assim, desde sempre.
“Bebida é água, comida é pasto… Você tem fome de quê?”.

Numa conversa, meu amigo Álvaro Tattoo lembrou: “Os romanos jogavam cristãos aos leões!”. E era casa cheia! Fonte Nova em tarde de BaVi! Assistindo à série “Band of Brothers”, sobre a famosa Easy Company, companhia de batedores do exército dos Estados Unidos da América que desembarcaram na Normandia no Dia D, vi um trecho, com depoimento de um ex-combatente, personagem real da trama encenada naquele episódio: “Na minha cidade, alguns jovens, dispensados do serviço na guerra, acabaram se suicidando! Eram outros tempos…”. Eram mesmo…

A violência bate à nossa porta, laureada em glória. Sempre…
Até que ela vem embalada em laço de realidade, com a cara de desespero ou os olhos embotados em alguma substância capaz de fazer o cérebro perder noção de limites. Aí, é hora de exclamar: fudeu!

Como não bastasse estar na arte, migra em tons de crueza para o noticiário, fazendo sucesso a ponto de ganhar especificidade: os programas “pinga-sangue”! A modalidade já era conhecida, impressa com tinta e sangue: jornais sensacionalistas que estampam manchetes sobre assassinatos, extermínios, estupros e demais crimes cruéis. Lembro que, nos anos de 1980, numa tentativa de imitar o modelo de sucesso no Rio de Janeiro, houve um que se arriscasse aqui na Bahia: naufragou em um quadriênio…

E chegamos, com velhos e novos personagens, aos programas “pinga-sangue” do horário do almoço. É o fim! É a degradação ao máximo. Em nada contribui. Eu, nascido e criado na Bahia, estou de saco cheio disso. Não acredito que isso contribua em nada para uma melhoria na condição de vida das pessoas desse estado. E tudo parece ficar muito claro quando depois do aviso de “não mude de canal, meu amigo… Que nós vamos mostrar aquele facínora, aquele escroque que fez isso e fez aquilo… Mas antes, vamos mostrar essa maravilha que é o ‘creme de ervilha’ para massagem facial e você precisa comprar ele… e etc… etc… Apenas por ‘uma fortuna que seu salário-mínimo não pode comprar’, mas você vai comprar, não é?”. É a tal da neurolinguística!

Bem, eu não tô aqui para analisar essa situação, isso devem fazer os sociólogos, cientistas políticos e jornalistas. Eu sou poeta, um compositor de rock. Extraio da vida o que me dá caminho para a criação artística. Por isso, pela necessidade de exclamar sobre esse “fenômeno” do degrado, que envergonha quem tem o mínimo de bom senso, em rejeição a essa manifestação da mais hedionda forma de exploração, que resolvi usar aquele espaço vago a um texto, dentro daquela ideia de cantar um blues sobre os passos e palmas gravados no Teatro Sitorne.

Já que o blues nasceu pelo lamento, eu lamento…

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A Ponte

quinta-feira, 17 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Abrimos aqui uma nova etapa na carreira do CASCADURA. Este blog vem para servir de canal de comunicação com quem nos acompanha. Pretendemos realizar uma experiência completamente nova em nossas vidas.

Eu, Fábio Cascadura, e Thiago Trad, membros da banda há 18 e 10 anos, respectivamente, decidimos seguir realizando a nossa música com a mesma moçada que trabalhou em nosso CD anterior, “Bogary”: andré t (produtor deste e também do “Vivendo em Grande Estilo”) e Jô Estrada (coprodutor do “Bogary”) – não só pelo êxito atingido pelo disco por nós lançado em 2006, mas mais pelo clima e pelo entendimento artístico que compartilhamos.

Talvez, uma coisa esteja diretamente ligada à outra: a harmonia que temos, a cumplicidade de ideias e tudo que é produzido em nossa parceria flui a ponto de desaguar em canções que atingem as pessoas de modo próprio e definitivo. Essa tem sido a nossa experiência a partir da resposta recebida.

Mas eu falei em “nova experiência”…

Bem, estamos entrando no estúdio t, onde gravamos nossos álbuns mais recentes, sem nem uma canção definitivamente pronta. Já realizamos trabalhos em que parte do repertório acabou sendo gerado no correr das gravações, como o “Vivendo em Grande Estilo”, e, em outro caso, o “Bogary”, que sequer havíamos ensaiado alguma coisa e o disco todo ficou pronto em 27 dias!

Dessa vez, entramos no estúdio “nus”… Sem nada mais que vontade, ideias, sensações. Trazendo percepções de cheiros e sons da rua, paixão e a busca de um olhar crítico sobre o que acreditamos ser. Chegamos aqui alimentados pelo cotidiano da cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos e cientes de que somos provocados de modo agudo por ela.

E assim vamos: sem uma linha escrita. Apenas esboços e muito desejo de desafiar o desconhecido.

Se o “Bogary” trazia a carga da nossa experiência paulista e a saudade do que deixamos na Soterópolis, essa nova história é plenamente pautada em Salvador, nossa cidade, onde retornamos a viver, sobre a qual temos tanto a dizer e com a qual necessitamos dialogar.

A ponte para esse diálogo está aberta.
Seja bem vindo.

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