Ronei Jorge II

segunda-feira, 25 abril 2011 - postado por fabiocascadura

A curiosidade

No começo dos anos 1990, em Salvador, um disco lançado pelo Bazar Musical Discos, selo da loja de instrumentos musicais de mesmo nome, localizada no Orixás Center (Politeama, Centro de Salvador), trazia os primeiros registros de algumas das bandas mais atuantes na cidade naquele período.

Kama Sutra e Meio Homem, com sua sonoridade particular, me causaram estranheza e espanto no primeiro momento. Os Úteros em Fúria fizeram jus à fama que os precedia e me conquistaram sem grandes esforços com seu hard rock suingado e sua atitude rock’n’roll. Já a quarta banda me causou curiosidade…

A Mutter Marie fazia um som bem diferente e tinha letras que identifiquei como “dadaístas”. Havia pouco, tinha lido “O que é Dadaísmo” (eu acho que era esse o nome do livreto) e o rótulo foi o que melhor se encaixou, a meu ver, àquelas composições. “Biombo Falante” ficou em minha memória e decidi não perdê-los de vista. A interpretação “desesperada” do cantor daquele grupo, que ainda vi em um show, no Clube Cruz Vermelha, em 1993, só fez a curiosidade aumentar.

A constatação

Tempos depois, em 1998, soube que uma banda chamada Saci Tric se apresentaria no então recém-fundado Theatro XVIII, no Pelourinho. Combinei comigo mesmo de ir assistir ao show.

Morava perto do Centro Histórico, onde fica o Pelourinho, e, lá chegando, acabei indo com outros amigos para um bar onde acabou acontecendo um outro show e acabei perdendo a entrada para a apresentação do Saci Tric. Não lembro direito como isso tudo aconteceu, só sei que não fui e deixei pra lá: outras oportunidades viriam.

O grupo lançou um disco, gravado naquele show. Adquiri um exemplar e constatei que ali havia boas canções e um compositor inspirado em estágio de maturação. A música “Canal 100” era a mais atraente pra mim, pelo tema, pela estrutura. Ainda hoje, é uma das minhas favoritas do legado de bandas de rock forjadas na Bahia. Mesmo algum tempo depois, já em 2003, cantarolava essa canção e, em São Paulo, morando com o CASCADURA do “Vivendo em Grande Estilo”, ouvia o disco “Saci Tric Ao Vivo no Theatro XVIII”, e Martin sempre chegava perto de mim e gritava: “Mas eu vou torcer até o fim!”.

O disco foi gravado por andré t.

A redenção

Voltei de São Paulo para Salvador em 2006, para gravar o “Bogary” e certo de que o CASCADURA se dissolveria logo depois disso… Encontrei na cidade uma banda atraindo a atenção das pessoas com um som meio jazz, meio rock e com muito de música brasileira. O cantor era o mesmo que formara aqueles outros dois grupos que conhecera nos anos 1990.

Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta entraram direto para o topo das bandas mais bacanas que conheci. Num show que eles fizeram na Boomerangue (extinta casa do Rio Vermelho), eles apresentaram uma música chamada “Aquela Dança”, um ijexá tocado com formação de rock que me fez os aplaudir. Ganhei um CD (a música fora lançada como single), com uma capa bem bolada (simulando um manual de passos de dança), e o toquei em casa e em outras oportunidades para que as pessoas os conhecessem.

Porém, me rendi de vez e irremediavelmente ao talento do grupo e de seu compositor quando eles lançaram o álbum “Frascos Comprimidos Compressas” (disponível para download lá no site deles), uma obra prima! Um disco mais que notável e que me fez pensar para bem mais além da música que estava emulando. O trabalho é completo, bem cuidado e tem dispositivo anticaretice sem ser pretensioso. Um exemplo que quero seguir.

A parceria

No comecinho da estruturação das composições para o “Aleluia”, pensei em chamar Ronei Jorge para colaborar conosco. Chamei! Já amigos, tivemos uma aproximação muito cuidadosa e crescente. Fiquei imensamente feliz quando ele topou construir a música que havia pensado em parceria.

Apresentei a ele uma canção baseada nos meus argumentos de Soul Music americana, mas explicitei que ela se comunicaria, via origem comum (assim, falando a grosso modo), com o samba. Queria essa ponte e de modo diferente do que outros (Jorge Ben?) já fizeram… As vozes seriam o link. Mandei-lhe a melodia e pedi uma letra.

Havia nas bases um quê de apaixonamento, um romantismo. Mas lhe sugeri que podíamos viajar em algo menos constante. Por conta de um solfejo meu, balbuciando umas poucas palavras, chegamos à ideia de uma narrativa catastrófica, apocalíptica… Decidimos que seria sobre o fim do mundo. Um fim do mundo com cores soteropolitanas, de muito som, desamparo e desespero, confusão… Como o Carnaval! Esse arremate veio dele, o que ficou muito bem resolvido, em minha opinião.

Depois de dois encontros, a estrutura da letra estava pronta, tendo nela não somente minhas impressões, mas, enfim, a marca diletante de Ronei, agora e enfim, meu parceiro!

Marcamos, com algum atraso, uma sessão para deixarmos essa combinação registrada em “Aleluia”. Não poderia fazê-lo sozinho: chamamos Ronei para também cantar no disco.

Numa sexta-feira (olha ela aí!), nos juntamos: eu, Thiago Trad, andré t, Jô Estrada e nosso convidado, Ronei Jorge. Depois de mostrar o que tínhamos preparado no álbum até ali (tendo dele um retorno muito carinhoso sobre o trabalho em curso), escutamos a canção que já chamávamos de “Dava pra Ver”. Combinamos o que faríamos, a parte reservada a cada um de nós, e partimos para a ação.

O que vem à tona é o clima de alegria em juntarmos essas peças da música, esse time. O ambiente descontraído, leve, animado. Ronei, acho que já citei, é dos melhores contadores de histórias. Se nos encontramos, sempre fazemos aquela revisão dos anos passados, lembramos de fatos que vimos em comum, de lugares diferentes, cada qual em sua ótica. Ele sempre conta disso de um modo muito especial, de novo, engraçado, divertido. É um mestre na retórica. Os Trapalhões lhe fizeram muito bem!

Daqui a uns meses, quando estiver escutando o “Aleluia” e passar pela canção “Dava pra Ver”, saiba que aquilo foi feito com muito humor, muito bom humor. Numa sexta-feira de descontração, em que estávamos muito à vontade, felizes, e em que Ronei nos brindou com sua incrível presença, seu talento inconteste e suas histórias ricas e coloridas, que, de tão bem narradas, quase davam pra se ver… Como lá nos 90, no show do Clube Cruz Vermelha, já dava pra ver…

P.S.: Não sei se as pessoas sabem, mas Ronei Jorge tem o mesmo nome que seu pai. Assim, quando ele morava com os pais e alguém ligava pra lá perguntando por ele, ouvia-se: “O pai ou o filho?”. Por isso o título.

Vale também dizer que Ronei Jorge agora está produzindo um trabalho solo, e já tem uma música nova disponível no MySpace dele.

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Um instante, Maestro!

quinta-feira, 21 outubro 2010 - postado por fabiocascadura

Nos encontramos no estúdio t: eu, andré t, Thiago Trad, Jô Estrada e o maestro Letieres Leite. Ainda que muito tenha se falado dele nos últimos meses, vamos contar um pouco sobre de quem se trata: Letieres Leite é um saxofonista experimentado, já estudou na Europa e lá também trabalhou como arranjador, professor e músico.

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Recentemente, alcançou notoriedade como o idealizador do projeto Orkestra Rumpilezz, trabalho onde reconduz o jazz às estruturas rítmicas do candomblé, de onde originalmente o primeiro veio. Com esse trabalho, tem conquistado reconhecimento de crítica e público, além de prêmios relevantes, como o Prêmio de Música Brasileira (um dos quatro já conquistados nesse ano de 2010, pelo lançamento do álbum de estreia: “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz”. Ainda esse mês, concorre ao Prêmio Bravo). Além disso, ele é membro da banda da cantora Ivete Sangalo.

Ano passado, ele participou da gravação da faixa “Maldito Mambo”, do disco “Chá Chá Chá”, dos nossos amigos Retrofoguetes. Essa associação gerou uma verdadeira obra de arte. “Maldito Mambo”, de cara, conquistou o IV Festival Educadora FM de Música, na categoria Melhor Arranjo, e com todos os méritos.

Poucas semanas depois da premiação, encontrei-o na porta da Boomerangue (casa de shows do Rio Vermelho, recentemente fechada), era um show dos Retrofoguetes. Dei-lhe os parabéns pela conquista do prêmio e mais ainda pelo resultado atingido naquele mambo. Ele efusivamente agradeceu e disse: “Vocês estão na minha ‘lista negra’!”. Ou seja, éramos os próximos…

O trabalho da Rumpilezz me pegou em cheio, como o fez com a maioria das pessoas que conheço, interessadas em boa música. As texturas dos sopros, metais e palhetas, inseridos na flutuação rítmica dos toques cerimoniais do candomblé, afirmavam o óbvio de uma forma completamente nova, para nós brasileiros e para o resto do mundo. Assim como “Frascos, Comprimidos e Compressas”, de Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta; “Maçalê”, de Tiganá Santana; além do já citado “Chá Chá Chá”, dos Retrofoguetes, “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” é um disco que muito inspira a concepção e o desenrolar desse “Aleluia”, que ora estamos construindo. É um verdadeiro desenrolar de um novelo.

Sabendo do desejo do maestro Letieres em trabalhar dentro da nossa realidade e realmente enamorado do conceito da Rumpilezz, estudando os arquétipos da cultura afro-brasileira, manifestados como orixás/voduns/iquices, debrucei-me sobre uma composição baseada em um dos toques litúrgicos do culto afro. Ela, na verdade, faz parte de um bloco de canções, que foram desenvolvidas a partir do mesmo sistema de audição de determinado toque, observação de seu uso no processo cerimonial (dança, arquétipo, movimento, elemento natural ao qual é associado etc.) e aplicação dentro do conceito ao qual o “Aleluia” está atrelado. Tudo está muito ligado. Ao menos para mim, tudo faz muito sentido. Saberei o quanto funcionará e se todo o esforço valeu a pena quando vocês as escutarem…

Foi para mostrar essa composição ao maestro que nos reunimos. Ele chegou acompanhado de seu filho, Lucas, com 14 anos e já introduzido no mundo da música. Escutamos meia dúzia das bases que já temos, para que ele tivesse uma percepção da nossa pretensão com o disco que estamos a fazer. Ele parece ter aprovado o que lhe mostramos.

Daí, o apresentamos à canção a ele destinada para arranjar. Letieres sacou tudo de chofre quais as emoções a serem provocadas. Traduziu-nos inclusive alguns pontos que não havíamos percebidos. Entendidos, estabelecemos prazos e ficamos de nos reencontrar para mais uma rodada de ideias e histórias.

Inteligente e culto, Letieres interpretou todas as intenções estrategicamente dispostas na canção, que será a primeira experiência do CASCADURA em outra língua que não o português, justamente porque a palavra será mero acessório para o entendimento do que nela estará contido, mas esse é outro assunto… Será uma grande aventura artística trafegar nesse terreno ao lado desse cara.

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

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Vivendo no Aleluia

terça-feira, 14 setembro 2010 - postado por fabiocascadura

Já falei sobre a Vivendo do Ócio aqui antes. Comentei sobre a amizade que existe entre nós e sobre minha sincera adesão à proposta da banda dentro do rock, sobretudo no panorama que temos no Brasil.

Vou seguir:
A Vivendo do Ócio propõe rock de verdade – não é banda Ki-Suco, toda colorida. E rock bom assim é coisa da Bahia! E a Bahia deve se orgulhar deles! E outros devem respeitar a Bahia por isso… Assim, guardei uma música buscando a interferência do som deles.

Eu escrevi uma canção tendo como tema o famoso dedo-duro. Tem em todo lugar: pra dar com a língua nos dentes, pra difamar e caguetar (conhece esse verbo? Vem do substantivo alcaguete – delator). Estou falando do fofoqueiro. Quem não conhece um grande fofoqueiro? Quem não é fofoqueiro que atire a primeira pedra. Na Bahia, então… Quase uma instituição onipresente. Jorge Amado, João Ubaldo, Gregório de Mattos… Todos trataram do assunto, que por sinal é riquíssimo e pode inspirar comédia e tragédia.

Veja bem: não estou falando do olho-gordo, o que deseja o que não lhe pertence (ainda que um pecado possa estar impelindo o outro), para esse tema teremos um espaço específico no Aleluia. Eu falo do próprio: o delator!

Veio um riff, uma insinuação de soul music, rhythm’n’blues. Pusemos tudo aos cuidados do rock. “O Delator” é uma música assim: muito pop! E Lady Gaga é o fim do mundo, música pop vem dos Beatles, dos Beach Boys…

Eu tive a ideia de contar com a voz de nosso amigo Jajá Cardoso, da Vivendo do Ócio. O timbre do Jajá é muito peculiar. Você escuta e imediatamente identifica que é ele quem canta. Não sei como, mas ele canta numa região de “médios” que consegue se sobressair em qualquer volume, sob qualquer mixagem. Além disso, ele sabe cantar.

Por coincidência, Vivendo do Ócio estava de passagem pela Bahia. Fizeram um belo show na capital, no Pelourinho (Largo Tereza Batista), e uma apresentação, que soube, memorável num festival em Morro de São Paulo. Seria uma oportunidade e tanto para termos a presença dele gravando a sua voz… Porém, não o tínhamos convidado ainda e nem tínhamos gravado a base da dita canção.

Perguntei a andré t o que faríamos. Ele:
“Simples! Gravamos a voz dele antes da base da música!”… Simples?

Ele lembrou que durante o período de pré-produção e testes do Aleluia, havíamos registrado um beat de bateria para essa música. Foi num esquema teste mesmo e, escutando depois de um certo tempo, percebemos que estava um pouco lento. andré propôs que acelerássemos esse andamento. Ok… Como?

Ele mexeu em seu equipamento, fez umas mágicas tecnológicas lá e, tal qual seu cargo propõe, produziu uma bateria para servir de referência na gravação da voz. Mas entenda: não se trata de uma bateria mecânica, eletrônica, tocada pelo computador. É uma bateria de verdade, que foi executada por Thiago Trad, que somente teve de ser “acelerada”. Você pode pensar: “Ah, com computador, qualquer um faz isso”… Em algum tempo, te mostrarei a dita bateria e farei a proposta: “Faça uma igual…”.

Bom, tínhamos a bateria… Restava saber se teríamos o nosso cantor.

Aí, você, que não é menino nem nada, pensa: “Poxa! Se o Fábio Cascadura se deu ao trabalho de chegar até aqui com esse texto, é porque eles conseguiram o Jajá. Lógico!”.

Ok… Conseguimos, sim.
O convidei por telefone e ele, sangue bom que é, aceitou numa boa. Marquei com andré para a sexta-feira (as sextas-feiras estão definindo muita coisa nesse disco. Não à toa, ele se chama Aleluia!). Seria um dia após o show da banda do Jajá. Gravar num dia seguinte a um show não é brincadeira. Mas aí é que tá: existem os artistas de verdade e os frescos maquiados… Jajá mostrou que é artista e sabe do ofício de cantar.

Nosso assistente de produção, Jorginho Falcão, foi buscá-lo, e eles chegaram ao estúdio t pontualmente no horário combinado. Mostramos a ele a demo que havíamos feito no andamento original. Depois, mostramos com o andamento alterado e ele abriu um sorriso dizendo: “É assim que vai ficar, né?!”. É!

Ainda tínhamos que gravar uma guitarra e um baixo-guia para essa “base”, ou playback, como queiram. andré, magistralmente, concluiu essa tarefa. Vá lá: não foi tão magistralmente, mas na velocidade que ele gravou os dois instrumentos podia até ter deixado mais alguns errinhos que estava plenamente perdoado.

Fomos para a sala de gravações: eu e Jajá. Cantamos juntos, numa experiência que raramente tenho. Passamos uma, duas, três vezes. andré observou algumas pronúncias inadequadas e algumas divisões a serem corrigidas. Foi.

Depois de uns seis takes, as vozes para a canção estavam prontas! Ouvimos todos: andré, eu, Jajá, Thiago Trad (que chegou bem no começo da gravação propriamente dita) e Jorginho Falcão.

Agora que temos a voz pronta, vamos partir para a construção do arranjo. Um caminho inverso. Nunca fiz isso, nunca vi ninguém fazer. Acho que vou adorar. Quem sabe a bateria, que geralmente é gravada primeiro, não fica para a última sessão? Nos faltará mixar antes da gravação… Será? Hahahaha!!!

Bem, mas além de sua voz fantástica e sua energia incrível, Jajá nos deixou mais duas coisas: a prova de que ele é um cara humilde e pronto para aprender – nos ensinando muito nesse seu modo tranquilo de ser, numa trilha onde fama e grana são consequência de um trabalho bem feito, como o que a Vivendo do Ócio faz – e a impressão de que já não é mais o moleque que cantava nas matinês da Boomerangue: Jajá é gente grande.

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Segue o baba!

terça-feira, 31 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Desde que os conheci, quando ainda disputavam as seletivas do Gas Sound, tipo de “battle of the bands” de alcance nacional, promovido por uma marca de refrigerante, fiquei entretido pelo estilo, pelo som e pelo carisma dos Vivendo do Ócio.

Foi Thiago Trad quem me falou deles a primeira vez. Mas o contato entre nós foi estabelecido por Luciano Matos, jornalista, quando trabalhávamos no programa Jam Session Rock, na rádio A Tarde FM – ele como redator e eu, como comentarista, aqui em Salvador.

O programa era semanal e era praxe haver uma entrevista com quem estivesse fazendo algo interessante. Esse papo rolava sempre por telefone. Justamente por terem passado da 1ª etapa do dito concurso, Luciano os recomendou como entrevistados daquela edição do JSR.

Foram três perguntas que fiz ao Jajá, cantor do grupo. Sinceramente, nem conhecia a música deles… Até ali. O cara (pra mim, um garoto) foi bem tranquilo em suas respostas. Depois, botamos no ar uma música de uma demo que o próprio Luciano nos trouxe. Não tava bem gravada, mas tava ali e dava pra tocar… Pela simpatia, acabei anotando o nome mentalmente e decide observar. Lembro que eles fizeram um show, numa matinê na Boomerangue (uma casa de shows daqui da cidade, que fechou recentemente), logo depois desse papo. Mas a agenda do CASCADURA nesse tempo e a minha preguiça me impediram de ir.

Pela imprensa, soube que eles seguiram bem no tal festival e chegaram à final. Fiquei sinceramente feliz.

Não lembro se antes ou depois disso, convidamos eles para o lançamento de um projeto que havíamos idealizado: o Sanguinho Novo! Como o CASCADURA sempre teve a política de tocar com outras bandas mais novas, num intercâmbio onde trocávamos tudo, e essa prática acabou gerando, para nossa honra, uma demanda de bandas querendo tocar com a gente, decidimos criar um momento, uma festa dedicada a essa atividade – da mesma forma que criamos o Cascadura’s Private Hell (para os essenciais shows em “inferninhos”) e o Laboratório Acústico do Dr. Cascadura (onde experimentamos possibilidades sem uso de tanta eletricidade/plug)…

O Sanguinho Novo é uma festa em que convidamos bandas/artistas mais novos, mas com uma trajetória bacana, e onde podemos chamar a atenção das pessoas para a necessidade da doação de sangue… Sim! Consideramos isso um verdadeiro ato cidadão! Mais adiante, abordaremos essa festa em especial, deixe-me voltar aos Vivendo do Ócio…

Para a primeira edição dessa festa, os convidamos. Ali os assistimos, os ouvimos e eu, ao menos, me tornei um grande fã da banda. A vibe foi tão boa que decidimos até fazer outro show juntos, o que ainda não aconteceu… Mas, dali, eles seguiram, ganharam o Gas Sound, gravaram um disco de estreia muito bom, foram morar em Sampa e enfim…

No momento que decidiram partir para São Paulo, resolveram fazer um show de despedida e me convidaram para cantar uma música nesse espetáculo. O palco seria o mesmo onde havíamos nos encontrado anteriormente: Boomerangue.

Para participar desse show, fui convidado a ensaiar no estúdio que a banda tinha, ou tem, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo. Estudei a vida inteira no Barbalho, bairro vizinho àquele lugar. Tudo ali me era muito familiar e foi uma viagem e tanto chegar ao estúdio passando por entre as ruas estreitas da região.

Bem recebido (lógico! Os caras são muito camaradas!), tivemos um ensaio fantástico! A minha participação foi passada umas três vezes: “Break on through”, dos Doors. Tudo foi muito fácil! Eles me contaram seus planos para a ida à nova experiência e me vi um pouco neles, quando cerca de cinco anos antes rumei com o CASCADURA para lá também… Me despedi e fui: de volta pra casa. “Até o domingo!”

Caminhava no fim de tarde pelas mesmas ruas estreitas que haviam me levado ao estúdio. Passei perto dos postes enferrujados (velhos, mas muito característicos do bairro) e percebi a chegada de uma centelha de ideia: um riff! Andei uns cinco minutos solfejando a sequência de notas que formava o riff e logo veio também a ideia da melodia a ser cantada… Uepa!

Tirei o celular (meu companheiro e salvaguarda! Quantas melodias deixei de perder, graças a ti?!) do bolso e pus a cantarolar, a meia voz: riff, melodia da voz… era tudo. Ainda tenho arquivado esse momento. Cheguei em casa e aprimorei o que tinha criado. Tinha uma carga ao mesmo tempo familiar e nova. Tinha rock, mas queria pular fora disso, ou chamar algo diferente para a roda.

“E se… Não, nããão!” – foi a primeira resposta à minha percepção de qual novidade aquele riff parecia propor… Pagodão?

Eu já havia pensado na maluquice que poderia ser justapor uma coisa e outra. Ok… O Fantasmão pôs guitarra no pagode… Achei sui generis. Não gostei por crer exagerado, apesar de aplaudir a tentativa e a busca de algo novo. Mas ficou feio, na minha opinião. Gostei mais do que fez o Sam Hop com seu “Ser negão é massa”.

Mas e se subvertermos o ritmo de lá? Se o trouxermos até cá e lhe dermos contornos daquilo que conhecemos? Vamos lá… Levei a ideia adiante em minha cabeça, depois em minhas demos caseiras, até que a apresentei ao Professor t. andré adorou o desafio.

Trouxe uma letra que desfazia do que desfaz: o famoso “olho gordo”:

“Segue o baba
Esse sonho é meu
São meus passos, meus freios
Peru-de-fora, olho gordo”

… e tá dando nisso:

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