1, 2, 3… Rumpilezz no Aleluia!

segunda-feira, 14 março 2011 - postado por fabiocascadura

No texto “Um instante, Maestro”, postado aqui em A Ponte há algum tempo, falei do convite que fizemos ao maestro Letieres Leite para escrever o arranjo de uma das canções do Aleluia. Na ocasião, aconteceu uma visita dele ao estúdio t para escutar o que tínhamos do disco, absorver a atmosfera que estamos criando e, principalmente, conhecer a composição que escrevi pensando justamente em ter a sua Orkestra Rumpilezz como convidada.

Foi muito bom perceber que ele entendeu e curtiu nossa intenção. Antes dele, somente os membros envolvidos diretamente na construção desse projeto e um grande amigo haviam escutado uma demo caseira que gravei com a “intenção” da música em questão. Aliás, esse grande amigo, o guitarrista e compositor Graco Vieira (membro fundador da banda Scambo, ex-guitarrista do Inkoma e parceiro de Thiago Trad no projeto carnavalesco Bailinho de Quinta), foi um grande incentivador dessa ação. Quando escutou a demo aqui em minha casa, de primeira, falou: “Isso me remete a duas fontes: White Stripes e Rumpilezz!”.

Fiquei feliz e intrigado com o que ele disse. Primeiro, porque ele falou de duas coisas que eu realmente curto ouvir e, depois, pelo fato de que, talvez, inconscientemente, eu tenha direcionado a composição para isso mesmo… E o disco todo!

Combinar influências díspares tem sido um exercício dentro da realidade do Aleluia. O novo, o antigo, o tradicional e o inovador. O local e o gringo… O disco tem seguido assim, sem forçar a barra e “sem querer reinventar a roda”, como costuma dizer Thiagão.

Pois então: Letieres sugeriu que o arranjo fosse executado por oito músicos de sua orquestra, sendo que um deles já tinha vindo participar em outras faixas (e já teve um post dedicado inteiramente a ele aqui no blog): o indispensável mestre dos atabaques do candomblé Gabi Guedes! O maestro Letieres trouxe partituras para um set maravilhoso de sopros. No mínimo inusitado. E convidou alguns dos seus melhores músicos para executar esse arranjo durante a sessão que marcamos.

Devido à agenda concorridíssima dele, tivemos que esperar algumas semanas. Mas a espera valeu demais a pena. Letieres foi muito sensível em nossa proposta estética. Usou a base daquela demo que falei, mantendo alguns pontos que caracterizam a composição e subvertendo outros para sua forma de perceber harmonia e ritmo.

Para escrever essa música, que chamo de “To your head” (tradução: “Para sua cabeça”), usei como lastro de condução rítmica um trecho de um toque cerimonial do candomblé. Veja bem: andré t, em uma de suas muitas pesquisas, havia registrado em um terreiro desse culto afrobrasileiro um número de toques litúrgicos cujas apresentação “aos de fora” e gravação são permitidas (sendo uma religião pautada em preceitos misteriosos, nem sempre o que há no seio do culto pode ser livremente mostrado).

Essa gravação parece ter sido feita há mais de 15 anos e ele a guardou para alguma utilização futura. andré fez e faz essas pesquisas para enriquecer seu arsenal de timbres, texturas, ritmos e composições melódicas. O faz como exercício artístico e cerca-se sempre dos cuidados requeridos por cada experiência. Conheço uma outra pesquisa sua que diz respeito a gravação de sons de equipamentos industriais (molas, bigornas, chapas de diversas ligas metálicas, caixas de pregos e assim por diante), mas a essa não tive acesso.

Criterioso, em sua pesquisa, andré solicitou ao alabê (músico responsável pela execução dos toques nas cerimônias do candomblé) que liderava o “naipe” de percussão no instante em que ele gravava que, antes de cada toque apresentado, pronunciasse o nome deste e, se possível, para qual finalidade ou orixá ele costuma ser apresentado. Daí, era mostrada a célula rítmica do gã (agogô), depois a célula concernente aos dois tambores menores (rumpí e lé) e, finalmente, toda a “orquestra” tocando junta (com a adição do tambor maior, geralmente sob a execução do mestre: o rum). Dessa experiência, extraiu um registro extraordinário de parte do coloridíssimo universo rítmico dos cultos afrodescendentes: fidedigno e claro!

Ouvindo essa coleção, me deparei com células que, depois, de alguma forma que cabe à historiografia musical contar, se desdobrariam para o jazz, o blues, o samba, o rhythm’n’blues, o funk, a soul music, o bolero, o tango, o rock e obviamente toda gama rítmica que povoa a música feita na Bahia. E foi em cima de um trecho de um toque que a voz na gravação denominava como “ibí” (segundo ela mesma, toque cerimonial em honra de Oxalá) que desenvolvi o esboço de “To your head”.

Mas por que em inglês? Não sei exatamente! Eu cantarolei uma melodia a partir de partes de samplers que fiz de algumas gravações de pop, jazz e música de teatro de revista (se é que posso denominar assim). Construí uma trilha de sons, bem a “grosso modo”, sobre a qual poderia cantar. E me veio à boca alguns fonemas em inglês (isso costuma me ocorrer quando estou cantando, depois me viro para conjugar o som daquelas palavras, que textualmente entre si não fazem qualquer sentido, para o português e ainda, contar uma história plausível. Um exemplo dessa prática é a música “Não posso julgar ninguém”, dentre outras da obra do CASCADURA). Fui ouvindo e deixando aqueles sílabas ali. Quando percebi os versos, para meu espanto, combinavam-se entre si e resolvi que essa seria minha primeira composição no idioma da velha ilha da Bretanha, e assim vai ficando…

Tudo isso é para situar o que veio com a chegada do sensacional (ao menos para nós) arranjo do maestro Letieres. Numa segunda-feira pela tarde, nos encontramos no estúdio t. Estávamos todos lá: andré t, Thiago Trad, Jô Estrada… A equipe de sempre por trás do Aleluia. Logo chegaram Letieres e alguns dos músicos que havia convidado. Fazia um calor absurdo.

Para começar, o maestro convidou que sentassem os músicos dedicados à região do graves, os que leem a pauta sob a chave de fá: Adaílson Rodrigues no trombone baixo, Gilmar Santos na tuba, e sax barítono a cargo do sensacional Junior Maceió. Eles construíram o que serve de linha condutora na parte harmônica da música: um riff de sopros graves.

Sob a regência de Letieres e experientes como são, deram conta de tudo em poucos minutos. A interferência de andré t, sempre oportuna e certeira, também deu fluidez a todo o processo. Ele é experimentado na arte da microfonação, sabe o que quer atingir quando expõe esse ou aquele elemento. Pode parecer supérfluo, mas ele sabe, como poucos, mostrar o porquê da distância desse microfone para aquele instrumento. Sabe como poucos o quer, do equipamento e do músico.

A simbiose gerada entre Letieres (o maestro) e andré t (o produtor musical) é um caso à parte e merecia um texto único para tratar do tema… O diálogo encontrou viés para se desenvolver e a música foi surgindo, mansa e vigorosamente.

Terminada essa parte, Letieres sugeriu que outra sessão dos sopros fosse gravada imediatamente: “Não vamos perder essa energia que ainda está pairando na sala!”, disse. Assumiram seus postos os músicos encarregados do set de sopros das regiões mais acima dos anteriores (na clave de sol): sax tenor, que foi executado por Kiko Souza (amigo que conheci por meio do exímio baixista e também amigo Ivan Oliveira, ex-CASCADURA), trombone e trompete. Além dele, gravaram esse take: Marcílio Santana (trompete), João Teoria (trompete) e, novamente, Gilmar Santos (trombone), Júnior Maceió (dessa vez no sax alto) e Adaílson Rodrigues (trombone).

As partes dialogaram também. O set grave ditava o riff, o grupo seguinte, então, respondia em texturizações inteligentemente intricadas pelo autor da partitura. Ficou uma joia!

Foram mais repetições. Havia nessa parte alguns pormenores a serem posicionados, devidamente colocados: dinâmica, ataque e duração de notas. Tudo isso, Letieres dá conta aos músicos com um gesto das mãos, enquanto eles executam. Por vezes para e pede que repitam. Pede: “andré, retorne ao ponto ‘tal’ para que essa linha seja refeita…”. andré prontamente o atendia. E sugeria também: “Mais forte, Maestro? Pode ser?”.

Houve um momento em que, no meio do naipe de sax tenor/trombone/trompete, os músicos queriam ouvir determinado detalhe de um glissando (expressão originada da língua italiana utilizada na terminologia da música, que denomina uma passagem suave de uma altura a outra na escala) feito pelo trombone durante a sua execução. andré se dirigiu a Letieres: “Maestro, teremos algum ‘fortíssimo’ por parte do trombone nesse pedaço? É que a extensão do trompete é muito ampla…”. Com a negativa sobre a presença do “fortíssimo”, ele girou o botão de um dos seus compressores, com aquela volúpia que tínhamos com os antigos seletores de canal das TVs antigas, para numa volta chegarmos a determinado programa em outra emissora, e o som do trompete surgiu “gordo”! Todos içaram mais confortáveis.

A dinâmica estabelecida nessa gravação foi outro show à parte. A beleza de uma orquestra de sopro, aliás, está justamente aí: os músicos tocam juntos, como um corpo só, insinuando-se a cada movimento, crescendo e amainando a execução de acordo com a intenção proposta pelo autor/arranjador. E por falar em autor: me fiz de espectador. Nada falei…

A sessão foi concluída em seis horas e, para finalizá-la, mais alguns detalhes de trompetes e flauta. Todos estavam felizes com o resultado atingido. Mais um tempo de conversa em torno de uma pizza providenciada por nosso Jorginho Falcão, que cuida com zelo da parte funcional de todo processo da gravação do Aleluia: nosso assistente de produção! Combinamos que não demoraríamos para seguir com a gravação da sessão rítmica: seria dali a dois dias, numa quarta-feira.

Nesse dia, Salvador amanheceu sob forte temporal: uma chuva calamitosa despencava sobre a cidade. Havíamos marcado para chegar às dez da manhã. Como Jorginho teria que dar apoio aos dois percussionistas chamados por Letieres para realizar a gravação, eu não teria carona. Assim, deveria me virar para chegar ao estúdio no horário. Depois de esperar a chuva diminuir (porque passar, ela não passaria tão cedo), fui até o ponto e peguei o ônibus. São cinco minutos nessa condução até o estúdio, tempo suficiente para a chuva, que já estava bem fininha, tornar a ser um dilúvio. Desci próximo à rua onde fica o estúdio t, mas tão eficiente era o temporal que, depois de dois passos na direção que deveria seguir, retrocedi, atravessei a rua e me abriguei sob a marquise de uma lojinha. Me abriguei, mas já estava totalmente encharcado…

Foram 25 minutos contando os pingos que caíam no chão… “A chuva veio forte… Não para agora, não…”, comentou um senhor que saía da loja com um cigarro em uma mão e uma cerveja em outra (numa quarta-feira, 10h30 da manhã!…). Quando já pensava em enfrentar o temporal, ele decide por acalmar-se. Vejo chegar pela calçada Mark Mesquita, que trabalha como assistente do estúdio de andré e é baterista de uma das bandas mais legais de Salvador: Os Irmãos da Bailarina. “Vou pegar a sua carona!”, gritei para ele, que vinha a pé; “Então, vamo logo, que a chuva vai ca…”, ele respondia quando o aguaceiro tornou a carga… Já era tarde para retroceder. Seguimos correndo – eu, tentando correr, dentro da minha alpercata de couro, molhada e escorregadia, literalmente todo molhado.

Chego à porta do estúdio e encontro um andré t igualmente ensopado, irritado com operários da obra do edifício ao lado que, justo naquela manhã, haviam decidido instalar alguns andares de andaimes bem na frente de sua garagem, inviabilizando a entrada de qualquer veículo… Sob seu olhar feroz, dois funcionários da obra desmontavam em regime “operação tartaruga” a armação metálica. Nisso, já estavam lá Letieres Leite e Jô Estrada: “Jô, o professor (como carinhosamente chamamos andré t) tá ensopado, nesse ar condicionado polar dele, vai acabar ficando gripado e eu também. Vamos lá em casa pegar umas toalhas, umas camisetas e nos recompor…” – falei. De um só movimento, Jô Estrada se levantou e foi até o carro, o segui e fomos buscar com o que nos secar.

Seguimos pela Avenida Cardeal da Silva, Federação, inundada, com cerca de 50 centímetros de água. Carros parando, uns com motores comprometidos, outros por haverem inadvertidamente caído em buracos. E nada da chuva quietar… Depois do trajeto feito, dos apetrechos para secagem resgatados e de eu ter trocado a roupa toda, voltamos pelo mesmo caminho, e já sem chuva… A rua estava sem água, mas repleta de novos buracos e velhos bem mais alargados e aprofundados. “Que asfalto ‘mingau’ é esse, mermão?!”… Aos poucos as nuvens que nos assombravam foram se dispersando. “Quer ver? Vai estar todo mundo ‘foguetado’ nessa gravação, exceto mestre Gabi Guedes… Conhece Gabi Guedes, Jô?!”, perguntei. “Só de nome. De vocês falarem… Nunca encontrei com ele, não…”, Jô respondeu. “Pode crer… O cara tem um astral, uma calma que chega no lugar e contamina… Hoje você vai ver”.

Descemos do carro secos, porém ainda no esquema correria. Chegando ao estúdio, achamos um andré t a toda, no trabalho, microfonando isso, comprimindo aquilo… Lá na sala de gravação, Gabi posicionando seus tambores. Ofereci toalha e camiseta enxuta a andré, e ele nem viu ou ouviu, concentrado que já estava. Passados uns minutos, o próprio Guedes veio nos cumprimentar, com seu sorriso e sua gentileza. Logo chegou Jorginho na companhia de outro percussionista: Kainã. Deve ter uns 18 anos, no máximo. Mas é dono da mesma tranquilidade do outro alabê e, de certa forma, apesar da pouca idade, de parte de sua elegância no tocar e portar-se. Vai ver o treinamento inclui esse tipo de etiqueta. Brincadeira: é de berço mesmo.

Eles se puseram na sala de gravação e começaram a tocar orientados pelo Maestro Letieres e andré t. Nesse instante, para que corresse tudo bem, aproveitei a estiagem para ir com Jorginho cuidar de alguns detalhes burocráticos referentes à gravação. Quando retornamos, cerca de meia hora depois, as partes estavam praticamente prontas. Num piscar de olhos, a turma revelou-se dentro da canção e estava toda a contribuição ali, diante de nós.

Pedi a Letieres que fosse dada ênfase a um pequenino detalhe estilístico, já que não se tratava da gravação de algo sacro, mas baseado nisso. Não era e nem é um toque de candomblé, mas um ritmo extraído de um dos toques que sustenta a canção. Ele me atendeu e os dois “ases dos tambores” ainda gravaram o detalhe tocando darbuka (tambores tunisianos) com agdavi (baquetas para atabaque). Foi o link de todo o jazz de Letieres com o pop possível do CASCADURA.

Saímos do estúdio e batemos um papo rápido enquanto Marcelo Zimmermann, incubido da captura das imagens do que vem acontecendo nas gravações do Aleluia, colhia impressões em vídeo dos que estavam ali, sobre o que presenciaram. Fazia nessa hora o mesmo calor da segunda-feira passada, quando gravamos os sopros. Todos do lado de fora conversávamos sobre o temporal: chuva, relâmpago, “hoje é quarta-feira, não se esqueça…”, lama, “muita água nas ruas e as ruas com buracos…”, caos… Caos! Até que Gabi Guedes sai da sala e, num silêncio oportunamente feito por todos, pronuncia: “Mas o céu se abriu, ó…”

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Um instante, Maestro!

quinta-feira, 21 outubro 2010 - postado por fabiocascadura

Nos encontramos no estúdio t: eu, andré t, Thiago Trad, Jô Estrada e o maestro Letieres Leite. Ainda que muito tenha se falado dele nos últimos meses, vamos contar um pouco sobre de quem se trata: Letieres Leite é um saxofonista experimentado, já estudou na Europa e lá também trabalhou como arranjador, professor e músico.

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Recentemente, alcançou notoriedade como o idealizador do projeto Orkestra Rumpilezz, trabalho onde reconduz o jazz às estruturas rítmicas do candomblé, de onde originalmente o primeiro veio. Com esse trabalho, tem conquistado reconhecimento de crítica e público, além de prêmios relevantes, como o Prêmio de Música Brasileira (um dos quatro já conquistados nesse ano de 2010, pelo lançamento do álbum de estreia: “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz”. Ainda esse mês, concorre ao Prêmio Bravo). Além disso, ele é membro da banda da cantora Ivete Sangalo.

Ano passado, ele participou da gravação da faixa “Maldito Mambo”, do disco “Chá Chá Chá”, dos nossos amigos Retrofoguetes. Essa associação gerou uma verdadeira obra de arte. “Maldito Mambo”, de cara, conquistou o IV Festival Educadora FM de Música, na categoria Melhor Arranjo, e com todos os méritos.

Poucas semanas depois da premiação, encontrei-o na porta da Boomerangue (casa de shows do Rio Vermelho, recentemente fechada), era um show dos Retrofoguetes. Dei-lhe os parabéns pela conquista do prêmio e mais ainda pelo resultado atingido naquele mambo. Ele efusivamente agradeceu e disse: “Vocês estão na minha ‘lista negra’!”. Ou seja, éramos os próximos…

O trabalho da Rumpilezz me pegou em cheio, como o fez com a maioria das pessoas que conheço, interessadas em boa música. As texturas dos sopros, metais e palhetas, inseridos na flutuação rítmica dos toques cerimoniais do candomblé, afirmavam o óbvio de uma forma completamente nova, para nós brasileiros e para o resto do mundo. Assim como “Frascos, Comprimidos e Compressas”, de Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta; “Maçalê”, de Tiganá Santana; além do já citado “Chá Chá Chá”, dos Retrofoguetes, “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” é um disco que muito inspira a concepção e o desenrolar desse “Aleluia”, que ora estamos construindo. É um verdadeiro desenrolar de um novelo.

Sabendo do desejo do maestro Letieres em trabalhar dentro da nossa realidade e realmente enamorado do conceito da Rumpilezz, estudando os arquétipos da cultura afro-brasileira, manifestados como orixás/voduns/iquices, debrucei-me sobre uma composição baseada em um dos toques litúrgicos do culto afro. Ela, na verdade, faz parte de um bloco de canções, que foram desenvolvidas a partir do mesmo sistema de audição de determinado toque, observação de seu uso no processo cerimonial (dança, arquétipo, movimento, elemento natural ao qual é associado etc.) e aplicação dentro do conceito ao qual o “Aleluia” está atrelado. Tudo está muito ligado. Ao menos para mim, tudo faz muito sentido. Saberei o quanto funcionará e se todo o esforço valeu a pena quando vocês as escutarem…

Foi para mostrar essa composição ao maestro que nos reunimos. Ele chegou acompanhado de seu filho, Lucas, com 14 anos e já introduzido no mundo da música. Escutamos meia dúzia das bases que já temos, para que ele tivesse uma percepção da nossa pretensão com o disco que estamos a fazer. Ele parece ter aprovado o que lhe mostramos.

Daí, o apresentamos à canção a ele destinada para arranjar. Letieres sacou tudo de chofre quais as emoções a serem provocadas. Traduziu-nos inclusive alguns pontos que não havíamos percebidos. Entendidos, estabelecemos prazos e ficamos de nos reencontrar para mais uma rodada de ideias e histórias.

Inteligente e culto, Letieres interpretou todas as intenções estrategicamente dispostas na canção, que será a primeira experiência do CASCADURA em outra língua que não o português, justamente porque a palavra será mero acessório para o entendimento do que nela estará contido, mas esse é outro assunto… Será uma grande aventura artística trafegar nesse terreno ao lado desse cara.

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

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Um mestre entre nós!

quinta-feira, 14 outubro 2010 - postado por fabiocascadura

Tivemos a grande alegria de receber na gravação do Aleluia a participação de um músico excepcional: Gabi Guedes.

Gabi GuedesPercussionista experimentado, já tocou com gente como Jimmy Cliff, com quem excursionou pelo mundo, e hoje é considerado uma referência no que diz respeito aos toques cerimoniais do candomblé. Não por acaso, Mestre Gabi Guedes é membro da badalada Orkestra Rumpilezz, que tem no comando o maestro Letieres Leite.

Trazendo todo seu conhecimento e sua habilidade com atabaques, agogô e outros instrumentos de percussão, ele contribuiu em três faixas.

Essas composições foram pensadas e escritas para experimentar uma ligação mais íntima entre as influências do CASCADURA e toques originais do culto afrobrasileiro. Nelas, teremos ao mesmo tempo rock, blues, rhythm’n’blues, soul, reagge, jazz… Porque tudo isso na verdade vem de um lugar só. Uma mesma raiz.

Aqui, o CASCADURA agradece a contribuição ímpar de Gabi Guedes, que executou de modo magistral seus instrumentos e ajudou-nos, como um guia, a esclarecer certas nuances musicais daquilo pretendíamos.

andré t, Fábio Cascadura, Gabi Guedes e Thiago Trad

andré t, Fábio Cascadura, Gabi Guedes e Thiago Trad

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Vivaldo da Costa Lima

quarta-feira, 22 setembro 2010 - postado por fabiocascadura

Li uma nota no site Mundo Afro sobre o falecimento do antropólogo Vivaldo da Costa Lima, assinada por Cleidiana Ramos, que dizia: “Desculpem-me, mas o professor Vivaldo era daquelas pessoas que ao se encontrar uma vez não se esquece jamais”.

Tive uma única oportunidade de encontrá-lo: no casamento de dois grandes amigos, Paulinho Oliveira e Tuca – ela, sobrinha-neta do grande antropólogo. Nessa ocasião, em que troquei apenas meia dúzia de palavras com ele, fui testemunha desta afirmação de Cleidiana…

Vivaldo da Costa Lima trouxe o estudo da cultura dos descentes dos africanos trazidos para o Brasil como escravos a um novo patamar. Colaborou como poucos para que esta cultura fosse reconhecida em seu valor. Contribuiu através de sua obra literária e gestos cotidianos para que tudo que diz respeito à expressão vinda de África, ainda tão discriminada em nosso país, recebesse mais atenção do poder público e da sociedade. Buscou diminuir, através da ciência que abraçou (mesmo tendo diploma de odontologia), as distâncias, arrefecendo o preconceito antes vigente diante dos valores, da música, das práticas religiosas por ela produzidos.

Se não me engano, li em algum lugar (ou ouvi alguém contar) que foi através dele que a Bahia recebeu a visita dos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, tendo-os levado até a “roça de candomblé” de São Gonçalo do Retiro, o famoso Ilê Axé Opó Afonjá, casa da qual era membro. Deparei-me com muitos dos seus livros e atraí-me em especial pelo “Família de Santo nos Candomblés Jeje-Nagôs da Bahia”.

Pois é…
Naquele casamento, fui casualmente apresentado ao Professor Vivaldo pelo também sobrinho-neto dele, irmão de Tuca, Jô Estrada (coprodutor do Bogary e do Aleluia e guitarrista nesses dois projetos do CASCADURA), que disse: “Tio Vadinho, esse aqui é o Fábio Cascadura. Ele é músico! Gosta de ler sobre cultura africana, candomblé…”.
Ele respondeu: “É bom… Ajuda a pessoa a se conhecer…”.
Foi essa frase que ficou.

Vivaldo da Costa Lima faleceu nesta quarta-feira, 22 de setembro de 2010. Registro meu respeito e admiração à sua memória.

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Deep!

terça-feira, 07 setembro 2010 - postado por fabiocascadura

O amigo Lubisco trouxe esse vídeo e lembrou-nos que nada é tão novo assim e que tudo está interligado.
Vamos mais fundo?

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