A Verdadeira (está em todo lugar)

domingo, 20 março 2011 - postado por fabiocascadura

Quando postei o texto “A Mulher de Roxo”, pedi que me cobrassem um post sobre “A Verdadeira”. Cobrança feita, eis que venho cumprir a promessa… Mas exatamente o quê uma coisa tem a ver com a outra?

Nessa história de tratar da Cidade do Salvador no disco Aleluia, confrontando seus contrastes, suas disparidades, emergiram duas canções: “A Mulher de Roxo”, que, pelos motivos que expliquei no post específico, fala da repressão ao feminino, e “A Verdadeira”, que explicarei agora.

Há uma música muito famosa, que ganhou notoriedade na voz de João Gilberto: “Falsa Baiana”. Essa canção, curiosamente, não foi escrita pelo “pai da bossa nova”, e sim por um compositor chamado Geraldo Pereira.

Geraldo era um motorista de caminhão de coleta de lixo que viveu por entre a boemia carioca nos anos 1930 e 40. Morador da região do Morro da Mangueira, amigo do ilustre Cartola, participou ativamente da construção do que ficou conhecido como samba sincopado, apontado como um dos alicerces da própria bossa nova dos anos 50. Geraldo teve um punhado de sambas seus conhecidos: “Acertei no Milhar”, “Bolinha de Papel” e “Ministério da Economia” (em que exaltava as medidas trabalhistas/populistas do Governo Vargas). Porém, sua música mais conhecida é mesmo “Falsa Baiana”, onde descreve a discrepância de atitude entra a “falsa” e a “verdadeira” baianas diante de uma roda de samba.

Tão categórica é a sua explanação que tais características acabaram sendo absorvidas pelo folclore da “Terra de São Salvador”: “Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/ Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca…”. Apesar desse sucesso todo, Geraldo morreu pobre e de forma trágica: morto numa briga de bar, supostamente pela faca do legendário Madame Satã. Mas sua obra contribuiu muito com o que se chama de samba hoje em dia e, em especial, “Falsa Baiana” entrou para o imaginário do que é a “típica soteropolitana”. O detalhe: ele era mineiro.

Ouvindo esse samba famoso, na voz de João Gilberto, pensei: essa baiana realmente existiu? Se sim, será que ainda está aqui, hoje?! Generalizar é uma merda…

Em “Falsa Baiana”, o foco central é aquela que não mexe as cadeiras e que não deixa a moçada com água na boca em contraponto à que vira os olhinhos e diz: ‘Eu sou filha de São Salvador!’ enquanto samba… Se é assim, então, a “verdadeira baiana” nada mais é do que a hoje identificada como PIRIGUETE! Acompanhou o meu raciocínio, Geraldo?!

A piriguete não totaliza todas as baianas, mas está presente no cotidiano da cidade. A despeito do estereótipo sobre o qual o termo foi gerado, quando era representado pela moça de origem pobre, suburbana, usando trajes mínimos e de cabelos sempre molhados (fruto do uso de cremes específicos para esse fim e de baixo custo, como o famoso Kolene), ela está hoje em todos os lugares: nas ruas do centro, nos shopping centers, nas praias, nos salões de beleza, nos mercados (populares ou nem tanto), atrás dos balcões, nas recepções dos consultórios e não se enganem: estão nos consultórios, nos anúncios na TV, canteiros de obras, agências publicitárias, tribunais, fóruns, no Carnaval (em cima e embaixo dos trios elétricos), sobre os palcos… Elas estão em todos os lugares, são de todas as origens, com todos os tons de pele, já aderiram à chapinha e tudo mais…

Vulgares? Outrora chamadas de “ninjas” (gíria muito popular em Salvador entre o final dos anos 1990 e começo dos 2000), as piriguetes reafirmam a independência feminina, a voluntariedade no fazer o que se quer, sem pensar em consequências ou opiniões alheias… A piriguete é o “agente antirepressivo” da mulher. Em geral tratado com humor, piriguete acabou por se tornar um termo depreciativo. Ok… Mas não há como negar: as piriguetes estão em todo lugar.

Assim, para contrapor a repressão ao feminino, tão frugal na Cidade da Bahia, que eclode em “A Mulher de Roxo”, escrevi “A Verdadeira”. Se a “Falsa Baiana” não entra na roda, “A Verdadeira” vai! “A Verdadeira”, porque a “Falsa Baiana” o mineirinho Geraldo Azevedo já havia escrito.

A letra diz:

A Verdadeira
Revira os olhinhos, deixa colar
Já foi Rosa de Ouro, hoje é estrela vulgar
Jeito de corpo, ela vai até o chão
Já foi coisa de louco – hoje, chamam, ela vai

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou no escuro
Ai de quem seja seu par

É verdadeira até não poder mais
Veio dessa maneira e não pode mudar
Chega na hora e só sai no final
Ela é dessas mulheres que só dizem “Mais!”

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou sozinho
Ai de quem seja seu par

Coração!
Coração!

Veio como uma valsinha, em ¾ (lógico, Cascadura!). Pensei que nada de samba haveria nela: seria o óbvio fazer isso! E quisemos posicioná-la mais como modinha romântica que qualquer outra coisa. Um argumento que nos remetesse a Machado de Assis, José de Alencar, Brasil do século XIX (lembremos que os movimentos literários/artísticos vindos da Europa chegavam aqui para ser propagados com muito mais tempo de atraso que hoje… Mas, ainda hoje, sofremos dessa influência… C’est la mondialisation!). E pensamos no nome do nosso amigo, compositor, arranjador Paulo Rios Filho.

Paulo Rios é formado em composição pela Escola de Música da UFBA. Destaca-se por uma profusa produção, marcada por intercâmbio com criadores de outros continentes como Europa e África. Membro do grupo OCA (Oficina de Composição Agora), que realiza um interessante e instigante trabalho de repensar e renovar as abordagens dentro da composição para Música de Concerto e Orquestra (como eles, humildemente, preferem chamar o que muitos se referem como “Música Erudita”…). O Grupo OCA é um caso à parte nesse extenso panorama criativo da Bahia (e submerso pela “grande mídia”) que recomendo: procurem conhecer. Ainda neste semestre, estarão lançando uma série de concertos gratuitos no Teatro Vila Velha, aqui mesmo em Salvador. Informem-se!

Num papo, expus um esboço da canção a Paulinho. Expliquei-lhe tudo isso que abordei acima. Discorri sobre a falsa e a verdadeira, o contraponto entre as duas e a oposição que essa música significaria diante de “A Mulher de Roxo”: ele entendeu! Sugeriu um arranjo baseado em uma orquestrinha de câmara, com ênfase em instrumentos do grupo de (sopro) madeiras: oboé, fagote, clarineta… Fiquei exultante e curioso.

Ele elaborou o arranjo baseado em uma demo caseira que fiz com a voz e sampler de trechos instrumentais (dos Beatles, inclusive, especificamente a canção “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, do disco Sgt. Peppers), e de uma outra que fizemos apenas com voz e violão no estúdio t, gravada por sugestão de andré t.

Algumas semanas passadas e ele nos traz sua abordagem para o tema… Ali, Paulo Rios Filho brindou-nos com sua grande inteligência musical, sua sensibilidade apurada e sua cultura. O arranjo primoroso abordava um clima romântico, como queríamos, mas com um algo mais. Por vezes o fagote, instrumento tão lindo, profundamente grave e solene, brincava com os “pi ri rim pom pom” dos arrochas e pagodes da vida!

Num lance de muita beleza, oboé, flauta transversa, violino e clarineta passeiam lado a lado, fugindo uns dos outros por vezes, agrupando-se num instante de comunhão… Eita, que ficou bonito! Deixamos um pouco disso para que você veja e escute por si mesmo o que foi essa sessão…

Diana Bakardjieva (Oboé)
Cláudia Sales (Fagote)
Flávio Hamaoka (Flauta)
Pedro Robatto (Clarinete)
Mário Britto (Violino)

Ao final, ficamos todos muito satisfeitos.
Acreditamos que, mesmo antes da gravação das vozes, ainda há o que ser feito. E vamos fazê-lo! Ainda não sabemos o quê…

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1, 2, 3… Rumpilezz no Aleluia!

segunda-feira, 14 março 2011 - postado por fabiocascadura

No texto “Um instante, Maestro”, postado aqui em A Ponte há algum tempo, falei do convite que fizemos ao maestro Letieres Leite para escrever o arranjo de uma das canções do Aleluia. Na ocasião, aconteceu uma visita dele ao estúdio t para escutar o que tínhamos do disco, absorver a atmosfera que estamos criando e, principalmente, conhecer a composição que escrevi pensando justamente em ter a sua Orkestra Rumpilezz como convidada.

Foi muito bom perceber que ele entendeu e curtiu nossa intenção. Antes dele, somente os membros envolvidos diretamente na construção desse projeto e um grande amigo haviam escutado uma demo caseira que gravei com a “intenção” da música em questão. Aliás, esse grande amigo, o guitarrista e compositor Graco Vieira (membro fundador da banda Scambo, ex-guitarrista do Inkoma e parceiro de Thiago Trad no projeto carnavalesco Bailinho de Quinta), foi um grande incentivador dessa ação. Quando escutou a demo aqui em minha casa, de primeira, falou: “Isso me remete a duas fontes: White Stripes e Rumpilezz!”.

Fiquei feliz e intrigado com o que ele disse. Primeiro, porque ele falou de duas coisas que eu realmente curto ouvir e, depois, pelo fato de que, talvez, inconscientemente, eu tenha direcionado a composição para isso mesmo… E o disco todo!

Combinar influências díspares tem sido um exercício dentro da realidade do Aleluia. O novo, o antigo, o tradicional e o inovador. O local e o gringo… O disco tem seguido assim, sem forçar a barra e “sem querer reinventar a roda”, como costuma dizer Thiagão.

Pois então: Letieres sugeriu que o arranjo fosse executado por oito músicos de sua orquestra, sendo que um deles já tinha vindo participar em outras faixas (e já teve um post dedicado inteiramente a ele aqui no blog): o indispensável mestre dos atabaques do candomblé Gabi Guedes! O maestro Letieres trouxe partituras para um set maravilhoso de sopros. No mínimo inusitado. E convidou alguns dos seus melhores músicos para executar esse arranjo durante a sessão que marcamos.

Devido à agenda concorridíssima dele, tivemos que esperar algumas semanas. Mas a espera valeu demais a pena. Letieres foi muito sensível em nossa proposta estética. Usou a base daquela demo que falei, mantendo alguns pontos que caracterizam a composição e subvertendo outros para sua forma de perceber harmonia e ritmo.

Para escrever essa música, que chamo de “To your head” (tradução: “Para sua cabeça”), usei como lastro de condução rítmica um trecho de um toque cerimonial do candomblé. Veja bem: andré t, em uma de suas muitas pesquisas, havia registrado em um terreiro desse culto afrobrasileiro um número de toques litúrgicos cujas apresentação “aos de fora” e gravação são permitidas (sendo uma religião pautada em preceitos misteriosos, nem sempre o que há no seio do culto pode ser livremente mostrado).

Essa gravação parece ter sido feita há mais de 15 anos e ele a guardou para alguma utilização futura. andré fez e faz essas pesquisas para enriquecer seu arsenal de timbres, texturas, ritmos e composições melódicas. O faz como exercício artístico e cerca-se sempre dos cuidados requeridos por cada experiência. Conheço uma outra pesquisa sua que diz respeito a gravação de sons de equipamentos industriais (molas, bigornas, chapas de diversas ligas metálicas, caixas de pregos e assim por diante), mas a essa não tive acesso.

Criterioso, em sua pesquisa, andré solicitou ao alabê (músico responsável pela execução dos toques nas cerimônias do candomblé) que liderava o “naipe” de percussão no instante em que ele gravava que, antes de cada toque apresentado, pronunciasse o nome deste e, se possível, para qual finalidade ou orixá ele costuma ser apresentado. Daí, era mostrada a célula rítmica do gã (agogô), depois a célula concernente aos dois tambores menores (rumpí e lé) e, finalmente, toda a “orquestra” tocando junta (com a adição do tambor maior, geralmente sob a execução do mestre: o rum). Dessa experiência, extraiu um registro extraordinário de parte do coloridíssimo universo rítmico dos cultos afrodescendentes: fidedigno e claro!

Ouvindo essa coleção, me deparei com células que, depois, de alguma forma que cabe à historiografia musical contar, se desdobrariam para o jazz, o blues, o samba, o rhythm’n’blues, o funk, a soul music, o bolero, o tango, o rock e obviamente toda gama rítmica que povoa a música feita na Bahia. E foi em cima de um trecho de um toque que a voz na gravação denominava como “ibí” (segundo ela mesma, toque cerimonial em honra de Oxalá) que desenvolvi o esboço de “To your head”.

Mas por que em inglês? Não sei exatamente! Eu cantarolei uma melodia a partir de partes de samplers que fiz de algumas gravações de pop, jazz e música de teatro de revista (se é que posso denominar assim). Construí uma trilha de sons, bem a “grosso modo”, sobre a qual poderia cantar. E me veio à boca alguns fonemas em inglês (isso costuma me ocorrer quando estou cantando, depois me viro para conjugar o som daquelas palavras, que textualmente entre si não fazem qualquer sentido, para o português e ainda, contar uma história plausível. Um exemplo dessa prática é a música “Não posso julgar ninguém”, dentre outras da obra do CASCADURA). Fui ouvindo e deixando aqueles sílabas ali. Quando percebi os versos, para meu espanto, combinavam-se entre si e resolvi que essa seria minha primeira composição no idioma da velha ilha da Bretanha, e assim vai ficando…

Tudo isso é para situar o que veio com a chegada do sensacional (ao menos para nós) arranjo do maestro Letieres. Numa segunda-feira pela tarde, nos encontramos no estúdio t. Estávamos todos lá: andré t, Thiago Trad, Jô Estrada… A equipe de sempre por trás do Aleluia. Logo chegaram Letieres e alguns dos músicos que havia convidado. Fazia um calor absurdo.

Para começar, o maestro convidou que sentassem os músicos dedicados à região do graves, os que leem a pauta sob a chave de fá: Adaílson Rodrigues no trombone baixo, Gilmar Santos na tuba, e sax barítono a cargo do sensacional Junior Maceió. Eles construíram o que serve de linha condutora na parte harmônica da música: um riff de sopros graves.

Sob a regência de Letieres e experientes como são, deram conta de tudo em poucos minutos. A interferência de andré t, sempre oportuna e certeira, também deu fluidez a todo o processo. Ele é experimentado na arte da microfonação, sabe o que quer atingir quando expõe esse ou aquele elemento. Pode parecer supérfluo, mas ele sabe, como poucos, mostrar o porquê da distância desse microfone para aquele instrumento. Sabe como poucos o quer, do equipamento e do músico.

A simbiose gerada entre Letieres (o maestro) e andré t (o produtor musical) é um caso à parte e merecia um texto único para tratar do tema… O diálogo encontrou viés para se desenvolver e a música foi surgindo, mansa e vigorosamente.

Terminada essa parte, Letieres sugeriu que outra sessão dos sopros fosse gravada imediatamente: “Não vamos perder essa energia que ainda está pairando na sala!”, disse. Assumiram seus postos os músicos encarregados do set de sopros das regiões mais acima dos anteriores (na clave de sol): sax tenor, que foi executado por Kiko Souza (amigo que conheci por meio do exímio baixista e também amigo Ivan Oliveira, ex-CASCADURA), trombone e trompete. Além dele, gravaram esse take: Marcílio Santana (trompete), João Teoria (trompete) e, novamente, Gilmar Santos (trombone), Júnior Maceió (dessa vez no sax alto) e Adaílson Rodrigues (trombone).

As partes dialogaram também. O set grave ditava o riff, o grupo seguinte, então, respondia em texturizações inteligentemente intricadas pelo autor da partitura. Ficou uma joia!

Foram mais repetições. Havia nessa parte alguns pormenores a serem posicionados, devidamente colocados: dinâmica, ataque e duração de notas. Tudo isso, Letieres dá conta aos músicos com um gesto das mãos, enquanto eles executam. Por vezes para e pede que repitam. Pede: “andré, retorne ao ponto ‘tal’ para que essa linha seja refeita…”. andré prontamente o atendia. E sugeria também: “Mais forte, Maestro? Pode ser?”.

Houve um momento em que, no meio do naipe de sax tenor/trombone/trompete, os músicos queriam ouvir determinado detalhe de um glissando (expressão originada da língua italiana utilizada na terminologia da música, que denomina uma passagem suave de uma altura a outra na escala) feito pelo trombone durante a sua execução. andré se dirigiu a Letieres: “Maestro, teremos algum ‘fortíssimo’ por parte do trombone nesse pedaço? É que a extensão do trompete é muito ampla…”. Com a negativa sobre a presença do “fortíssimo”, ele girou o botão de um dos seus compressores, com aquela volúpia que tínhamos com os antigos seletores de canal das TVs antigas, para numa volta chegarmos a determinado programa em outra emissora, e o som do trompete surgiu “gordo”! Todos içaram mais confortáveis.

A dinâmica estabelecida nessa gravação foi outro show à parte. A beleza de uma orquestra de sopro, aliás, está justamente aí: os músicos tocam juntos, como um corpo só, insinuando-se a cada movimento, crescendo e amainando a execução de acordo com a intenção proposta pelo autor/arranjador. E por falar em autor: me fiz de espectador. Nada falei…

A sessão foi concluída em seis horas e, para finalizá-la, mais alguns detalhes de trompetes e flauta. Todos estavam felizes com o resultado atingido. Mais um tempo de conversa em torno de uma pizza providenciada por nosso Jorginho Falcão, que cuida com zelo da parte funcional de todo processo da gravação do Aleluia: nosso assistente de produção! Combinamos que não demoraríamos para seguir com a gravação da sessão rítmica: seria dali a dois dias, numa quarta-feira.

Nesse dia, Salvador amanheceu sob forte temporal: uma chuva calamitosa despencava sobre a cidade. Havíamos marcado para chegar às dez da manhã. Como Jorginho teria que dar apoio aos dois percussionistas chamados por Letieres para realizar a gravação, eu não teria carona. Assim, deveria me virar para chegar ao estúdio no horário. Depois de esperar a chuva diminuir (porque passar, ela não passaria tão cedo), fui até o ponto e peguei o ônibus. São cinco minutos nessa condução até o estúdio, tempo suficiente para a chuva, que já estava bem fininha, tornar a ser um dilúvio. Desci próximo à rua onde fica o estúdio t, mas tão eficiente era o temporal que, depois de dois passos na direção que deveria seguir, retrocedi, atravessei a rua e me abriguei sob a marquise de uma lojinha. Me abriguei, mas já estava totalmente encharcado…

Foram 25 minutos contando os pingos que caíam no chão… “A chuva veio forte… Não para agora, não…”, comentou um senhor que saía da loja com um cigarro em uma mão e uma cerveja em outra (numa quarta-feira, 10h30 da manhã!…). Quando já pensava em enfrentar o temporal, ele decide por acalmar-se. Vejo chegar pela calçada Mark Mesquita, que trabalha como assistente do estúdio de andré e é baterista de uma das bandas mais legais de Salvador: Os Irmãos da Bailarina. “Vou pegar a sua carona!”, gritei para ele, que vinha a pé; “Então, vamo logo, que a chuva vai ca…”, ele respondia quando o aguaceiro tornou a carga… Já era tarde para retroceder. Seguimos correndo – eu, tentando correr, dentro da minha alpercata de couro, molhada e escorregadia, literalmente todo molhado.

Chego à porta do estúdio e encontro um andré t igualmente ensopado, irritado com operários da obra do edifício ao lado que, justo naquela manhã, haviam decidido instalar alguns andares de andaimes bem na frente de sua garagem, inviabilizando a entrada de qualquer veículo… Sob seu olhar feroz, dois funcionários da obra desmontavam em regime “operação tartaruga” a armação metálica. Nisso, já estavam lá Letieres Leite e Jô Estrada: “Jô, o professor (como carinhosamente chamamos andré t) tá ensopado, nesse ar condicionado polar dele, vai acabar ficando gripado e eu também. Vamos lá em casa pegar umas toalhas, umas camisetas e nos recompor…” – falei. De um só movimento, Jô Estrada se levantou e foi até o carro, o segui e fomos buscar com o que nos secar.

Seguimos pela Avenida Cardeal da Silva, Federação, inundada, com cerca de 50 centímetros de água. Carros parando, uns com motores comprometidos, outros por haverem inadvertidamente caído em buracos. E nada da chuva quietar… Depois do trajeto feito, dos apetrechos para secagem resgatados e de eu ter trocado a roupa toda, voltamos pelo mesmo caminho, e já sem chuva… A rua estava sem água, mas repleta de novos buracos e velhos bem mais alargados e aprofundados. “Que asfalto ‘mingau’ é esse, mermão?!”… Aos poucos as nuvens que nos assombravam foram se dispersando. “Quer ver? Vai estar todo mundo ‘foguetado’ nessa gravação, exceto mestre Gabi Guedes… Conhece Gabi Guedes, Jô?!”, perguntei. “Só de nome. De vocês falarem… Nunca encontrei com ele, não…”, Jô respondeu. “Pode crer… O cara tem um astral, uma calma que chega no lugar e contamina… Hoje você vai ver”.

Descemos do carro secos, porém ainda no esquema correria. Chegando ao estúdio, achamos um andré t a toda, no trabalho, microfonando isso, comprimindo aquilo… Lá na sala de gravação, Gabi posicionando seus tambores. Ofereci toalha e camiseta enxuta a andré, e ele nem viu ou ouviu, concentrado que já estava. Passados uns minutos, o próprio Guedes veio nos cumprimentar, com seu sorriso e sua gentileza. Logo chegou Jorginho na companhia de outro percussionista: Kainã. Deve ter uns 18 anos, no máximo. Mas é dono da mesma tranquilidade do outro alabê e, de certa forma, apesar da pouca idade, de parte de sua elegância no tocar e portar-se. Vai ver o treinamento inclui esse tipo de etiqueta. Brincadeira: é de berço mesmo.

Eles se puseram na sala de gravação e começaram a tocar orientados pelo Maestro Letieres e andré t. Nesse instante, para que corresse tudo bem, aproveitei a estiagem para ir com Jorginho cuidar de alguns detalhes burocráticos referentes à gravação. Quando retornamos, cerca de meia hora depois, as partes estavam praticamente prontas. Num piscar de olhos, a turma revelou-se dentro da canção e estava toda a contribuição ali, diante de nós.

Pedi a Letieres que fosse dada ênfase a um pequenino detalhe estilístico, já que não se tratava da gravação de algo sacro, mas baseado nisso. Não era e nem é um toque de candomblé, mas um ritmo extraído de um dos toques que sustenta a canção. Ele me atendeu e os dois “ases dos tambores” ainda gravaram o detalhe tocando darbuka (tambores tunisianos) com agdavi (baquetas para atabaque). Foi o link de todo o jazz de Letieres com o pop possível do CASCADURA.

Saímos do estúdio e batemos um papo rápido enquanto Marcelo Zimmermann, incubido da captura das imagens do que vem acontecendo nas gravações do Aleluia, colhia impressões em vídeo dos que estavam ali, sobre o que presenciaram. Fazia nessa hora o mesmo calor da segunda-feira passada, quando gravamos os sopros. Todos do lado de fora conversávamos sobre o temporal: chuva, relâmpago, “hoje é quarta-feira, não se esqueça…”, lama, “muita água nas ruas e as ruas com buracos…”, caos… Caos! Até que Gabi Guedes sai da sala e, num silêncio oportunamente feito por todos, pronuncia: “Mas o céu se abriu, ó…”

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“Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”

terça-feira, 08 fevereiro 2011 - postado por assessoria de imprensa

Este é o texto na íntegra da matéria “Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”, assinada pelo jornalista Chico Castro Jr., publicada na edição de hoje, 8 de fevereiro de 2011, do jornal A Tarde (Caderno 2+, página 4).

Não importa quantas presepadas e onomatopeias infantis ainda sejam inventadas daqui até o Carnaval: o verão de 2011 ainda será lembrado como o momento em que o “ensaio” de uma banda do rock local concorreu de igual para igual com os dos artistas do mainstream. No mês de janeiro, as quatro datas da temporada 2011 do projeto Sanguinho Novo, do Cascadura, tiveram excesso de público.

No último domingo do projeto, no dia 30, milhares de pessoas compareceram ao Pelourinho. Claro, depois que entraram 1,2 mil, lotação oficial do Largo Teresa Batista, os portões foram fechados e a multidão que não entrou, foi para casa, com fome de Cascadura.

“Foi muito legal ver toda aquela mobilização em torno de bandas que supostamente não têm público”, observa Fábio Cascadura. “Deu muito mais gente do que imaginávamos. O que acontece é que existe uma orientação cultural em Salvador de que o rock não tem público, que é a ‘terra do axé’. Aí, o que aconteceu? A própria grande mídia, que tá assim de gente ‘do rock’, não foi lá cobrir. Só o jornal A TARDE e a TVE”, constata.

Estereótipo do “baiano feliz”
Passado o furacão de quatro domingos no Pelourinho, a banda volta a se concentrar no estúdio t para concluir as gravações do 5º álbum de carreira, Aleluia!.

É um projeto ambicioso. Será um álbum duplo, com cerca de 30 faixas, muita percussão de terreiro de candomblé (Fábio é devoto) e participações muito especiais: Pitty, Jajá (Vivendo do Ócio), Orkestra Rumpilezz, Siba (rabequeiro, ex-Mestre Ambrósio) e Gabi Guedes (mestre de percussão, tocou dez anos com Jimmy Cliff, entre outros).

Na quinta-feira passada, a banda e seus produtores (e membros honorários) andré t. e Jô Estrada receberam A TARDE no estúdio, para proceder às gravações do dia e também mostrar um pequeno preview do que vem por aí no álbum Aleluia!.

“O disco gira em torno de Salvador”, diz Fábio. Se o último disco, Bogary (2006) foi criado com um olhar um pouco mais distante, durante um período que a banda passou em São Paulo, neste, o processo foi inverso. “Você está aqui, curtindo a praia, mas também sentindo o cheiro de mijo”, avisa.

A ideia é que o disco seja uma espécie de documento, uma tradução do momento (tétrico, diga-se de passagem) por que passa esta cidade: “Salvador está precisando urgentemente de uma virada histórica. É uma cidade de 500 anos que ainda mantém hábitos medievais. Você tem os senhores feudais encastelados, o populacho e lixo, muito lixo nas ruas”, vê.

“Se você pegar aqueles livros de Jorge Amado escritos nos anos 1930, 40, você percebe que os problemas de Salvador que ele aponta estão a mesma coisa, senão pior”, acrescenta o guitarrista e co-produtor Jô.

Uma coisa parece bem clara: a banda (e não só eles) está de saco cheio do estereótipo do “baiano feliz”. “As pessoas aqui se contentam com migalhas”, opina Thiago Trad, bateria.

“A gente não vende fitinha do Senhor do Bonfim”, acrescenta Jô. Já Fábio acha que é hora de “questionar qual é o papel do artista neste momento. Essa coisa de reis, rainhas, gênios. Todo mundo é gênio aqui? Mas para que serve isso? Qual o benefício que isso traz para a cidade? Qual o benefício que esse modelo de Carnaval trouxe”?, questiona.

Stones da Cidade Baixa: disco tem som de concepção bem ambiciosa
Em termos sonoros, pelo que foi mostrado na audição exclusiva para A TARDE, o quinto álbum do Cascadura deverá ter uma das concepções mais ousadas dos últimos tempos em termos de fusão sonora na música popular brasileira.

Imagine que Mick Jagger e Keith Richards são baianos e nasceram na Cidade Baixa. Agora, imagine que, formados os Rolling Stones soteropolitanos, eles estão no estúdio, ensaiando seu rock‘n’roll encharcado de rhythm‘n’blues.

Ao fundo, ouve-se a percussão pesada e cheia de espiritualidade de um terreiro de candomblé ali perto.

Surpreendentemente, as duas instâncias sonoras (a banda de R&B e a percussão afrobaiana) se entrelaçam em perfeita harmonia. É como se uma luz se acendesse, e de repente, esses elementos começassem a fazer total sentido juntos.

Pé no primeiro disco
“Algumas músicas têm um pé lá no primeiro disco (Dr. Cascadura, 1995). Aquela coisa meio Stones, só que, agora, misturada com essa percussão que a gente quer mostrar”, descreve Thiago Trad.

Claro, rock com percussão existe não é de hoje. Do guitarrista Santana, passando por Barão Vermelho à Nação Zumbi, existem muitos exemplos. O negócio é ver como o Cascadura fez sua própria versão do estilo.

Faixa com Orkestra Rumpilezz ganha riff de guitarra e deixa Letieres Leite feliz
Em uma das faixas, To Your Head, ouve-se um majestoso arranjo de sopros e percussão: é a Orkestra Rumpilezz, do maestro Letieres Leite. Na tarde da visita ao estúdio, a banda se preparava para adicionar um riff de guitarra à faixa. Jô, empunhando uma Danelectro barítono (instrumento de braço mais longo e afinação mais grave), toca o riff várias vezes. Diz para andré: “Eu quero aquele veneninho”. Qual um cientista, ele começa a mexer nos botões dos compressores de áudio. “Tente de novo”, diz andré. Jô toca o riff novamente e entra em êxtase. Depois, toca o riff de Back in Black (AC/DC) e cai na risada. “Velho, já foi”, encerra o produtor. “No dia que Letieres veio aqui, ele entrou direto, nem falou nada. Foi lá e gravou. Quando saiu, tava todo mundo de cara aqui”, lembra andré. “Depois que a gente gravou, tava todo mundo calado. Aconteceu alguma coisa” lembra Letieres. “Fiquei feliz com o resultado”.

1ª AUDIÇÃO: ALGUMAS FAIXAS DE ALELUIA!
Colombo Introdução lembra o clássico White Rabbit (da banda Jefferson Airplane). Linda faixa, terá solo de rabeca de Siba.

Peru de Fora (título provisório) “A maioria das coisas que você acha que é teclado, na verdade, é guitarra”, diz Jô. Ao timbre cavernoso, logo se adicionam percussões infernais. “É o pagode do inferno”, avisa Fábio.

O Delator Na linha Senhor das Moscas (do Bogary): pesada, acelerada, com participação excelente de Jajá (Vivendo do Ócio).

Soteropolitana Um tratado sobre a cidade e seu povo, já nasceu com jeito de hino. Letra épica e histórica para uma pegada stoneana (se Jagger & Richards fossem nativos do Bonfim). Inacreditavelmente bela.

Cordeiro Com percussão monstra de Gabi Guedes e o dedo na ferida: “Ninguém me convidou / mas aqui é minha casa / sou eu que levo soco / e você que vai no meio”.

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Supernovos!

quinta-feira, 06 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Esse é mais texto de apresentação. Parece que estamos de fato começando uma nova fase porque tenho abordado, por diversos motivos e de diversas formas, apresentações sobre tudo que cerca a carreira do CASCADURA.

Antes de apresentar quem devo, aqui, queria falar sobre um aspecto muito particular da banda: sua formação. Começamos há quase 19 anos e quando se inicia um projeto sempre pensamos e desejamos ter a permanência dos que contribuem com ele. Desejamos seguir fazendo música com aquele mesmo grupo… Pelo resto dos dias. Quase nunca isso é possível.

Se você me pedir para falar o nome de bandas de sucesso que atravessaram carreiras duradouras com as mesmas formações, juro que não me lembrarei de muitas. Na verdade, só me vem à memória o ZZ Top!
“E o The Police?” – Acabou!
“Paralamas do Sucesso!” – Vital comprou uma moto…
Enfim, nem os Rolling Stones… Nem os Beatles conseguiram manter o mesmo séquito durante toda a sua existência como grupo (Pete Best e Stu Stutcliff que o diga).

“Ah! Nesses casos sai um, sai outro… Mas com o Cascadura é demais!”…
Pois é… Já fui grilado com isso e não sou mais. E parece que grande parte dos que acompanham a nossa carreira também.

A alternância de colaboradores na formação do CASCADURA acabou por tornar-se uma característica da banda. Tivemos a oportunidade de ter conosco gente de toda origem, formação, com as mais diversas perspectivas e ambições artísticas. E creia: isso é bom! Esse processo nos faz reinventarmos! Nos faz reaprendermos a ser nós mesmos em diversas possibilidades… Entendeu?… Bom, vou seguir…

Mas esse preâmbulo todo vem para justamente apresentar aqueles que subirão ao palco do Largo Tereza Batista conosco, na programação do projeto Sanguinho Novo. Apresentar é forma de dizer, porque você certamente já os conhece:

andré t

Quem acompanha o CASCADURA sabe da relação estreita entre nós e o nosso produtor, que, por sinal, também faz parte do NÓS! Trabalhamos juntos desde 2002, quando realizamos um EP Promo, comemorativo de 10 anos de carreira (naquele disquinho estavam canções como “Não Posso Julgar Ninguém”, “Retribuição” e “Queda Livre”), e, a partir desse passo, começamos a trilhar uma parceria que já conta com os discos “Vivendo em Grande Estilo” e “Bogary”, além do DVD “Efeito Bogary”.

andré estuda piano desde os sete anos de idade, é músico por vocação, quase um sacerdote da canção! Amante do bom rock (Queen, Beatles, Genesis…), ele já trabalhou com gente de todas as orientações estéticas possíveis: de Carlinhos Brown a Bestiário, passando por Retrofoguetes, Messias, Nancyta e os Grazzers.

No estúdio t, estamos nos desafiando, juntos, na construção do “Aleluia”, próximo álbum do CASCADURA. E foi lá que surgiu a proposta de experimentarmos tocar juntos, em palco. Algo que ainda não havíamos feito.

O Professor t, como o chamamos, é chegado a um desafio e, em geral, os domina com seu talento e bom gosto. Temos a sorte de contar com ele para o Sanguinho Novo tocando baixo e teclados.

Jô Estrada

Eu conheci esse cara como o virtuoso guitarrista da lendária banda soteropolitana de hard rock Dead Easy, no começinho dos anos 1990. Logo depois de tê-lo visto em ação nos palcos da cidade com esse trio, que fez parte do nascimento de todo o circuito que se construiu naquela década, eles partiram para novas experiências no Rio.

Na capital fluminense, a banda encerrou as atividades e Jô seguiu se apresentando como músico de apoio e session man dos estúdios de lá. Na virada para a década passada, ele voltou a morar na Bahia e nos reencontramos. Jô me influenciou naquele momento me apresentando coisas como Queens of the Stone Age e o disco “Shangrila-Dee-Da” (Stone Temple Pilots). Beatlemaníaco, chegamos a tocar juntos em alguns projetos para homenagear nossa banda favorita, também com Thiago Trad na bateria.

Mas nossa parceria mais bem sucedida até aqui foi mesmo a sua participação como guitarrista e coprodutor no “Bogary”. Sabe as guitarras e baixo de “Senhor das Moscas”? É ele quem toca! Sabe o solo de guitarra 12 cordas em “Juntos Somos Nós”? É a mesma criança tocando! O corinho em “O Centro do Universo”? Ele ta lá também. Sua contribuição ao “Bogary” foi definitiva. E de tão espontânea e prazerosa que foi a sua presença no estúdio, decidimos repetir a dose nesse novo trabalho, o “Aleluia”!

Recentemente ele esteve morando em São Paulo e lá deu seguimento ao seu projeto pessoal Lacme, com quem lançou um disco, também produzido por andré t, chamado “Reverse”. Agora, ele vem trazer ao show do CASCADURA algumas das suas qualidades: maestria na guitarra, voz precisa e carisma. Jô é, acima de tudo, um cara muito divertido e bom amigo.

Du Txai

Ele veio da Índia! Mentira! Ele veio de Porto Seguro mesmo. E quem o trouxe foi Jô.

Du é um cara tímido que conhecemos muito recentemente. Somente depois que ele estava ensaiando conosco, há algumas semanas, é que o ligamos à banda Suinga, que tanta atenção vem conquistando das pessoas nessa temporada. Du é o baterista desse grupo.

O fato é que, pianinho, o cara nos conquistou, por sua discrição musical e sua precisão no instrumento. Ainda de quebra ele canta muito bem: afinadíssimo! Filho de músico, ele tem muito que mostrar ainda. Sua trajetória está só no começo. Logo todos constatarão o que digo: Du Txai tem tudo para se destacar como o músico mais completo de sua geração! Quem for ao Sanguinho Novo terá a oportunidade de tomar contato com as qualidades desse guitarrista.

No mais, estaremos eu e Thiago Trad, no impulso de sempre!

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Um instante, Maestro!

quinta-feira, 21 outubro 2010 - postado por fabiocascadura

Nos encontramos no estúdio t: eu, andré t, Thiago Trad, Jô Estrada e o maestro Letieres Leite. Ainda que muito tenha se falado dele nos últimos meses, vamos contar um pouco sobre de quem se trata: Letieres Leite é um saxofonista experimentado, já estudou na Europa e lá também trabalhou como arranjador, professor e músico.

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Letieres Leite, Thiago Trad e Fábio Cascadura

Recentemente, alcançou notoriedade como o idealizador do projeto Orkestra Rumpilezz, trabalho onde reconduz o jazz às estruturas rítmicas do candomblé, de onde originalmente o primeiro veio. Com esse trabalho, tem conquistado reconhecimento de crítica e público, além de prêmios relevantes, como o Prêmio de Música Brasileira (um dos quatro já conquistados nesse ano de 2010, pelo lançamento do álbum de estreia: “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz”. Ainda esse mês, concorre ao Prêmio Bravo). Além disso, ele é membro da banda da cantora Ivete Sangalo.

Ano passado, ele participou da gravação da faixa “Maldito Mambo”, do disco “Chá Chá Chá”, dos nossos amigos Retrofoguetes. Essa associação gerou uma verdadeira obra de arte. “Maldito Mambo”, de cara, conquistou o IV Festival Educadora FM de Música, na categoria Melhor Arranjo, e com todos os méritos.

Poucas semanas depois da premiação, encontrei-o na porta da Boomerangue (casa de shows do Rio Vermelho, recentemente fechada), era um show dos Retrofoguetes. Dei-lhe os parabéns pela conquista do prêmio e mais ainda pelo resultado atingido naquele mambo. Ele efusivamente agradeceu e disse: “Vocês estão na minha ‘lista negra’!”. Ou seja, éramos os próximos…

O trabalho da Rumpilezz me pegou em cheio, como o fez com a maioria das pessoas que conheço, interessadas em boa música. As texturas dos sopros, metais e palhetas, inseridos na flutuação rítmica dos toques cerimoniais do candomblé, afirmavam o óbvio de uma forma completamente nova, para nós brasileiros e para o resto do mundo. Assim como “Frascos, Comprimidos e Compressas”, de Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta; “Maçalê”, de Tiganá Santana; além do já citado “Chá Chá Chá”, dos Retrofoguetes, “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” é um disco que muito inspira a concepção e o desenrolar desse “Aleluia”, que ora estamos construindo. É um verdadeiro desenrolar de um novelo.

Sabendo do desejo do maestro Letieres em trabalhar dentro da nossa realidade e realmente enamorado do conceito da Rumpilezz, estudando os arquétipos da cultura afro-brasileira, manifestados como orixás/voduns/iquices, debrucei-me sobre uma composição baseada em um dos toques litúrgicos do culto afro. Ela, na verdade, faz parte de um bloco de canções, que foram desenvolvidas a partir do mesmo sistema de audição de determinado toque, observação de seu uso no processo cerimonial (dança, arquétipo, movimento, elemento natural ao qual é associado etc.) e aplicação dentro do conceito ao qual o “Aleluia” está atrelado. Tudo está muito ligado. Ao menos para mim, tudo faz muito sentido. Saberei o quanto funcionará e se todo o esforço valeu a pena quando vocês as escutarem…

Foi para mostrar essa composição ao maestro que nos reunimos. Ele chegou acompanhado de seu filho, Lucas, com 14 anos e já introduzido no mundo da música. Escutamos meia dúzia das bases que já temos, para que ele tivesse uma percepção da nossa pretensão com o disco que estamos a fazer. Ele parece ter aprovado o que lhe mostramos.

Daí, o apresentamos à canção a ele destinada para arranjar. Letieres sacou tudo de chofre quais as emoções a serem provocadas. Traduziu-nos inclusive alguns pontos que não havíamos percebidos. Entendidos, estabelecemos prazos e ficamos de nos reencontrar para mais uma rodada de ideias e histórias.

Inteligente e culto, Letieres interpretou todas as intenções estrategicamente dispostas na canção, que será a primeira experiência do CASCADURA em outra língua que não o português, justamente porque a palavra será mero acessório para o entendimento do que nela estará contido, mas esse é outro assunto… Será uma grande aventura artística trafegar nesse terreno ao lado desse cara.

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

Thiago Trad, Letieres Leite, Fábio Cascadura, Jô Estrada e andré t

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Vivendo no Aleluia

terça-feira, 14 setembro 2010 - postado por fabiocascadura

Já falei sobre a Vivendo do Ócio aqui antes. Comentei sobre a amizade que existe entre nós e sobre minha sincera adesão à proposta da banda dentro do rock, sobretudo no panorama que temos no Brasil.

Vou seguir:
A Vivendo do Ócio propõe rock de verdade – não é banda Ki-Suco, toda colorida. E rock bom assim é coisa da Bahia! E a Bahia deve se orgulhar deles! E outros devem respeitar a Bahia por isso… Assim, guardei uma música buscando a interferência do som deles.

Eu escrevi uma canção tendo como tema o famoso dedo-duro. Tem em todo lugar: pra dar com a língua nos dentes, pra difamar e caguetar (conhece esse verbo? Vem do substantivo alcaguete – delator). Estou falando do fofoqueiro. Quem não conhece um grande fofoqueiro? Quem não é fofoqueiro que atire a primeira pedra. Na Bahia, então… Quase uma instituição onipresente. Jorge Amado, João Ubaldo, Gregório de Mattos… Todos trataram do assunto, que por sinal é riquíssimo e pode inspirar comédia e tragédia.

Veja bem: não estou falando do olho-gordo, o que deseja o que não lhe pertence (ainda que um pecado possa estar impelindo o outro), para esse tema teremos um espaço específico no Aleluia. Eu falo do próprio: o delator!

Veio um riff, uma insinuação de soul music, rhythm’n’blues. Pusemos tudo aos cuidados do rock. “O Delator” é uma música assim: muito pop! E Lady Gaga é o fim do mundo, música pop vem dos Beatles, dos Beach Boys…

Eu tive a ideia de contar com a voz de nosso amigo Jajá Cardoso, da Vivendo do Ócio. O timbre do Jajá é muito peculiar. Você escuta e imediatamente identifica que é ele quem canta. Não sei como, mas ele canta numa região de “médios” que consegue se sobressair em qualquer volume, sob qualquer mixagem. Além disso, ele sabe cantar.

Por coincidência, Vivendo do Ócio estava de passagem pela Bahia. Fizeram um belo show na capital, no Pelourinho (Largo Tereza Batista), e uma apresentação, que soube, memorável num festival em Morro de São Paulo. Seria uma oportunidade e tanto para termos a presença dele gravando a sua voz… Porém, não o tínhamos convidado ainda e nem tínhamos gravado a base da dita canção.

Perguntei a andré t o que faríamos. Ele:
“Simples! Gravamos a voz dele antes da base da música!”… Simples?

Ele lembrou que durante o período de pré-produção e testes do Aleluia, havíamos registrado um beat de bateria para essa música. Foi num esquema teste mesmo e, escutando depois de um certo tempo, percebemos que estava um pouco lento. andré propôs que acelerássemos esse andamento. Ok… Como?

Ele mexeu em seu equipamento, fez umas mágicas tecnológicas lá e, tal qual seu cargo propõe, produziu uma bateria para servir de referência na gravação da voz. Mas entenda: não se trata de uma bateria mecânica, eletrônica, tocada pelo computador. É uma bateria de verdade, que foi executada por Thiago Trad, que somente teve de ser “acelerada”. Você pode pensar: “Ah, com computador, qualquer um faz isso”… Em algum tempo, te mostrarei a dita bateria e farei a proposta: “Faça uma igual…”.

Bom, tínhamos a bateria… Restava saber se teríamos o nosso cantor.

Aí, você, que não é menino nem nada, pensa: “Poxa! Se o Fábio Cascadura se deu ao trabalho de chegar até aqui com esse texto, é porque eles conseguiram o Jajá. Lógico!”.

Ok… Conseguimos, sim.
O convidei por telefone e ele, sangue bom que é, aceitou numa boa. Marquei com andré para a sexta-feira (as sextas-feiras estão definindo muita coisa nesse disco. Não à toa, ele se chama Aleluia!). Seria um dia após o show da banda do Jajá. Gravar num dia seguinte a um show não é brincadeira. Mas aí é que tá: existem os artistas de verdade e os frescos maquiados… Jajá mostrou que é artista e sabe do ofício de cantar.

Nosso assistente de produção, Jorginho Falcão, foi buscá-lo, e eles chegaram ao estúdio t pontualmente no horário combinado. Mostramos a ele a demo que havíamos feito no andamento original. Depois, mostramos com o andamento alterado e ele abriu um sorriso dizendo: “É assim que vai ficar, né?!”. É!

Ainda tínhamos que gravar uma guitarra e um baixo-guia para essa “base”, ou playback, como queiram. andré, magistralmente, concluiu essa tarefa. Vá lá: não foi tão magistralmente, mas na velocidade que ele gravou os dois instrumentos podia até ter deixado mais alguns errinhos que estava plenamente perdoado.

Fomos para a sala de gravações: eu e Jajá. Cantamos juntos, numa experiência que raramente tenho. Passamos uma, duas, três vezes. andré observou algumas pronúncias inadequadas e algumas divisões a serem corrigidas. Foi.

Depois de uns seis takes, as vozes para a canção estavam prontas! Ouvimos todos: andré, eu, Jajá, Thiago Trad (que chegou bem no começo da gravação propriamente dita) e Jorginho Falcão.

Agora que temos a voz pronta, vamos partir para a construção do arranjo. Um caminho inverso. Nunca fiz isso, nunca vi ninguém fazer. Acho que vou adorar. Quem sabe a bateria, que geralmente é gravada primeiro, não fica para a última sessão? Nos faltará mixar antes da gravação… Será? Hahahaha!!!

Bem, mas além de sua voz fantástica e sua energia incrível, Jajá nos deixou mais duas coisas: a prova de que ele é um cara humilde e pronto para aprender – nos ensinando muito nesse seu modo tranquilo de ser, numa trilha onde fama e grana são consequência de um trabalho bem feito, como o que a Vivendo do Ócio faz – e a impressão de que já não é mais o moleque que cantava nas matinês da Boomerangue: Jajá é gente grande.

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Segue o baba!

terça-feira, 31 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Desde que os conheci, quando ainda disputavam as seletivas do Gas Sound, tipo de “battle of the bands” de alcance nacional, promovido por uma marca de refrigerante, fiquei entretido pelo estilo, pelo som e pelo carisma dos Vivendo do Ócio.

Foi Thiago Trad quem me falou deles a primeira vez. Mas o contato entre nós foi estabelecido por Luciano Matos, jornalista, quando trabalhávamos no programa Jam Session Rock, na rádio A Tarde FM – ele como redator e eu, como comentarista, aqui em Salvador.

O programa era semanal e era praxe haver uma entrevista com quem estivesse fazendo algo interessante. Esse papo rolava sempre por telefone. Justamente por terem passado da 1ª etapa do dito concurso, Luciano os recomendou como entrevistados daquela edição do JSR.

Foram três perguntas que fiz ao Jajá, cantor do grupo. Sinceramente, nem conhecia a música deles… Até ali. O cara (pra mim, um garoto) foi bem tranquilo em suas respostas. Depois, botamos no ar uma música de uma demo que o próprio Luciano nos trouxe. Não tava bem gravada, mas tava ali e dava pra tocar… Pela simpatia, acabei anotando o nome mentalmente e decide observar. Lembro que eles fizeram um show, numa matinê na Boomerangue (uma casa de shows daqui da cidade, que fechou recentemente), logo depois desse papo. Mas a agenda do CASCADURA nesse tempo e a minha preguiça me impediram de ir.

Pela imprensa, soube que eles seguiram bem no tal festival e chegaram à final. Fiquei sinceramente feliz.

Não lembro se antes ou depois disso, convidamos eles para o lançamento de um projeto que havíamos idealizado: o Sanguinho Novo! Como o CASCADURA sempre teve a política de tocar com outras bandas mais novas, num intercâmbio onde trocávamos tudo, e essa prática acabou gerando, para nossa honra, uma demanda de bandas querendo tocar com a gente, decidimos criar um momento, uma festa dedicada a essa atividade – da mesma forma que criamos o Cascadura’s Private Hell (para os essenciais shows em “inferninhos”) e o Laboratório Acústico do Dr. Cascadura (onde experimentamos possibilidades sem uso de tanta eletricidade/plug)…

O Sanguinho Novo é uma festa em que convidamos bandas/artistas mais novos, mas com uma trajetória bacana, e onde podemos chamar a atenção das pessoas para a necessidade da doação de sangue… Sim! Consideramos isso um verdadeiro ato cidadão! Mais adiante, abordaremos essa festa em especial, deixe-me voltar aos Vivendo do Ócio…

Para a primeira edição dessa festa, os convidamos. Ali os assistimos, os ouvimos e eu, ao menos, me tornei um grande fã da banda. A vibe foi tão boa que decidimos até fazer outro show juntos, o que ainda não aconteceu… Mas, dali, eles seguiram, ganharam o Gas Sound, gravaram um disco de estreia muito bom, foram morar em Sampa e enfim…

No momento que decidiram partir para São Paulo, resolveram fazer um show de despedida e me convidaram para cantar uma música nesse espetáculo. O palco seria o mesmo onde havíamos nos encontrado anteriormente: Boomerangue.

Para participar desse show, fui convidado a ensaiar no estúdio que a banda tinha, ou tem, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo. Estudei a vida inteira no Barbalho, bairro vizinho àquele lugar. Tudo ali me era muito familiar e foi uma viagem e tanto chegar ao estúdio passando por entre as ruas estreitas da região.

Bem recebido (lógico! Os caras são muito camaradas!), tivemos um ensaio fantástico! A minha participação foi passada umas três vezes: “Break on through”, dos Doors. Tudo foi muito fácil! Eles me contaram seus planos para a ida à nova experiência e me vi um pouco neles, quando cerca de cinco anos antes rumei com o CASCADURA para lá também… Me despedi e fui: de volta pra casa. “Até o domingo!”

Caminhava no fim de tarde pelas mesmas ruas estreitas que haviam me levado ao estúdio. Passei perto dos postes enferrujados (velhos, mas muito característicos do bairro) e percebi a chegada de uma centelha de ideia: um riff! Andei uns cinco minutos solfejando a sequência de notas que formava o riff e logo veio também a ideia da melodia a ser cantada… Uepa!

Tirei o celular (meu companheiro e salvaguarda! Quantas melodias deixei de perder, graças a ti?!) do bolso e pus a cantarolar, a meia voz: riff, melodia da voz… era tudo. Ainda tenho arquivado esse momento. Cheguei em casa e aprimorei o que tinha criado. Tinha uma carga ao mesmo tempo familiar e nova. Tinha rock, mas queria pular fora disso, ou chamar algo diferente para a roda.

“E se… Não, nããão!” – foi a primeira resposta à minha percepção de qual novidade aquele riff parecia propor… Pagodão?

Eu já havia pensado na maluquice que poderia ser justapor uma coisa e outra. Ok… O Fantasmão pôs guitarra no pagode… Achei sui generis. Não gostei por crer exagerado, apesar de aplaudir a tentativa e a busca de algo novo. Mas ficou feio, na minha opinião. Gostei mais do que fez o Sam Hop com seu “Ser negão é massa”.

Mas e se subvertermos o ritmo de lá? Se o trouxermos até cá e lhe dermos contornos daquilo que conhecemos? Vamos lá… Levei a ideia adiante em minha cabeça, depois em minhas demos caseiras, até que a apresentei ao Professor t. andré adorou o desafio.

Trouxe uma letra que desfazia do que desfaz: o famoso “olho gordo”:

“Segue o baba
Esse sonho é meu
São meus passos, meus freios
Peru-de-fora, olho gordo”

… e tá dando nisso:

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Colombo (vídeo)

segunda-feira, 09 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Vídeo com desenvolvimento parcial do arranjo para a canção “Colombo” (Fábio Cascadura).
Thiago Trad (percussão), Jô Estrada (guitarra) e andré (direção de estúdio).

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Bateria em “O Rei do Olhar”

sexta-feira, 09 julho 2010 - postado por thiagotrad

Para vocês, um trecho das gravações de bateria de “O Rei do Olhar”, a primeira música desta jornada do Aleluia.

Leia mais sobre o processo de criação de “O Rei do Olhar” aqui.

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CASCADURA, Brasil e Argentina

segunda-feira, 05 julho 2010 - postado por thiagotrad

Já se vão quase três semanas desde que iniciamos o A Ponte e eu estou adorando a forma dinâmica com que o blog tem rolado: a participação de todos tem sido fundamental na construção dessa nova estrada. Provavelmente, vocês já notaram que eu não sou tão adepto da internet quanto o Fábio; eu até curto navegar pelos sites de música, culinária, notícias e afins, mas ainda não tenho nem um Orkut, por exemplo. Nada contra, só não aprendi a lidar com essa linguagem.

Mas quando surgiu a ideia de criarmos o blog, eu logo me animei, acho que estava faltando essa ferramenta para estreitarmos um pouco mais a comunicação entre o CASCADURA e vocês. E o momento era esse, afinal estamos gravando um álbum inédito, numa fase de muitas novidades. A necessidade de um disco novo era angustiante – já não gravávamos há 4 anos – e a largada foi dada!

O Aleluia está em pleno período de produção, músicas inéditas, novas parcerias, e uma busca enlouquecedora em descobrir sonoridades ainda não usadas por nós, além dessa troca de informação, que nos interessa muito. Desde o primeiro texto que Fábio escreveu para o blog, vi que o nível seria altíssimo. E a cada nova curiosidade revelada, gosto mais. Gostei demais do último post – até eu, que convivo direto com Fabão, pirei. Ele sempre tem alguma referência nova para apresentar, o negão saca tudo de Rhythm’n’Blues; dentre tantas outras, acho que essa é a sua maior especialidade. E, pelo que vem rolando até aqui, certamente o Aleluia será um disco regado com muito Rhythm’n’Blues.

Aliás, aproveito esse gancho sobre as influências do CASCADURA para voltar no tempo e contextualizar melhor essa história. Logo que eu entrei na banda, por volta de 2001, percebi que as referências de Fábio eram muitas e iam muito além das tradicionais bandas de rock dos anos 1960 e 70 (Beatles, Stones, The Who, Deep Purple etc.), ou das bandas de southern rock norte-americano (The Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd e cia.). Realmente, os dois primeiros discos do CASCADURA têm muito dessa época, mas não definiam ou encerravam o gosto musical de Fábio. O lance é que, entre um papo e outro, ele sempre citava alguns nomes para mim, de rockabilly e country music a Caetano e Gil. Não que Fabão seja um cara eclético (esse termo é perigoso, rs), mas seu gosto musical é amplo: se tiver uma boa melodia, ele para para ouvir.

Em muitas de nossas conversas, ele mencionava bandas argentinas. Confesso que, naquela época, conhecia pouco do rock dos nossos hermanos, apesar de saber que por lá o rock’n roll faz parte do estilo de vida deles. E essa ligação Brasil-Argentina ganhou força através do convívio com Nestor Madrid, um argentino radicado há muitos anos em Salvador e primeiro produtor dos discos do CASCADURA. Ele sempre falava que a gente teria uma grande aceitação por lá. O fato é que, nesse exato momento, Fábio está conferindo isso de perto, curtindo alguns dias em Buenos Aires.

Tenho certeza de que essa viagem vai mexer com a cabeça dele, talvez algumas músicas novas possam estar sendo compostas por lá. Além do mais, andré t também acaba de chegar de uma viagem por terras portenhas. Eu acredito que o Aleluia não ficará imune a isso. Apesar da eliminação de ambos países na Copa do Mundo, eu acho que Brasil e Argentina vão se encontrar no estúdio t.

Pra acabar com música, uma listinha de bandas argentinas que eu recomendo conferir: Almendra (uma das preferidas de Fábio), Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota e Ratones Paranoicos.

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