Dá-lhe, Robeeertooooo!!!

quarta-feira, 08 junho 2011 - postado por fabiocascadura

Hummm… Faz um tempo que não escrevo um texto pra esse blog, né? Pois é, muitas coisas! Coisas e coisas… Do disco e da vida cotidiana de gente que vive a vida cotidiana…

No meio disso tudo, tínhamos que decidir como faríamos para ter a participação de nosso amigo Beto Bruno, cantor da banda igualmente amiga Cachorro Grande. Beto foi um dos primeiros nomes em que pensamos para participar do Aleluia. Amigo de primeira hora, de quem somos fãs, não poderia ficar de fora desse processo, já que esta é uma vontade antiga: dividirmos uma faixa, Cascadura e Cachorro Grande, juntos.

Deixe-me contar o episódio em que nos conhecemos: nos idos de 2003, quando estávamos chegando à cidade de São Paulo, fomos tomados pelo lançamento do disco “As próximas horas serão muito boas”, o segundo da discografia dos gaúchos. Já os havíamos visto na MTV, com o clipe “Lunático”, tirado do seu álbum de estreia. O conceito era tão bom (a música, o visual, a performance) que chegamos a pensar, inicialmente, que se tratava de um tipo de campanha publicitária! “Existe uma banda assim no Brasil?!”. Existe: Cachorro Grande.

Soubemos que eles tocariam na Outs, casa de show que, naquele instante, era nossa referência em Sampa. Já havíamos tocado lá e iniciado uma amizade/parceria com os donos do lugar. Fomos vê-los…

O lugar estava cheio, na medida de estar agradável. Era um dia como quarta ou quinta-feira, meio de semana, e muita gente foi conferir os caras no palco. Já na chegada, soubemos que eles estavam lançando um disco novo. Nosso amigo Luiz Pimentel (então chefe de redação da saudosa revista Zero) foi quem nos contou.

Assistimos ao show entre o entusiasmo contagiante que eles emanam quando estão em ação e o mais completo espanto de estar diante de uma banda tão verdadeira no que pensamos ser seu “auge”. Engano nosso: eles estavam apenas começando o seu “auge”. Terminada a apresentação, fomos falar com eles e foi quase impossível cumprimentá-los, tamanho o assédio. Mas, enfim, conseguimos e falamos do nosso trabalho e da nossa admiração.

No dia seguinte, o mesmo Luiz que havia falado do lançamento do disco nos ligou dizendo que queria nos juntar a eles numa conversa em um barzinho: topamos na hora. Nos encontramos na Augusta e, de lá, rumamos conversando até o bairro do Bexiga, sentamos em um bar próximo ao Café Aurora, onde deveríamos prestigiar o show de outra banda amiga: Velhas Virgens. Em nossa mesa, também sentaram os parceiros da Tomada, banda paulistana de rock.

Foram muitos assuntos e muitas risadas. Ali, nasceu uma amizade que corre até hoje, sempre pautada na admiração e na colaboração mútua. “Os Cachorro” desde então cresceram no cenário e se tornaram uma banda muito conhecida. No entanto, se mantiveram os caras naturalmente alegres e engraçados que sempre foram.

Na ocasião desse papo, entregamos a eles um CD contendo o nosso “Vivendo em Grande Estilo”, ainda inédito. Lembro que o Beto perguntou: “Vocês estão dando um disco de vocês que ainda não saiu pra gente ouvir?! Que confiança! Valeu!”.

Vimos quando o disco deles chegou pela revista Outracoisa, do Lobão, e tomou de assalto o mercado. Por meses em São Paulo só se falava nesse lançamento. Não por acaso, o nosso disco seguinte, “Bogary”, também sairia por esse projeto: a Cachorro Grande foi uma grande advogada nossa nesse processo.

De lá pra cá foram muitos episódios, em muitos encontros: fui roadie deles numa viagem pelo Sul, eles viajaram em nossa van para uma apresentação nossa, junto com os Astronautas, de Recife, no festival Demosul, em Londrina/PR, tocamos juntos em Salvador, fiz um caruru no apartamento em que morávamos em Sampa e eles saíram falando do “bicho caruru que era bom demais”, fizemos uma dobradinha de shows para uma edição do programa Bem Brasil, da TV Cultura, gravado em junho de 2007 no palco do Sesc Pompeia… Vivíamos andando juntos, para cima e para baixo, como uma gangue só.

Certa vez, Beto me perguntou: “ô, Negão… Quando é que vamos fazer essa parceria, Bruno/Magalhães?!”… Só faltava isso. Será?… Daí a ideia de chamá-lo para esse disco.

Apresentei uma canção a andré t e falei que o queria cantando junto. Mais que isso: queria que ele escrevesse a letra daquela música para cantar.

O problema é que ele é do Rio Grande do Sul, onde cumpre extensa agenda de apresentações com a banda, mora em São Paulo e está em pleno processo de construção de mais um disco. Beto não usa celular e e-mail é um troço que ele realmente não faz ideia de como funcione. A comunicação é muito específica. Assim, o tempo escasso era nosso censor. Tentamos trazê-lo para gravar em Salvador, como fizemos com outros convidados, em três oportunidades distintas, sem sucesso. Desse modo, como Maomé não veio à montanha, a montanha teve de ir a Maomé.

Chegamos a São Paulo, eu e Thiago Trad, depois de três horas de atraso do avião. Descemos em Guarulhos ao invés de Congonhas, como havíamos planejado. Ficamos na casa do amigo Rodrigo “Minha Pedra” Santos e marcamos para encontrar a “fera” no estúdio onde eles estavam preparando seu disco.

Uma alegria imensa entrar num ambiente e encontrar esses caras: Beto, Coruja (Rodolfo Kieger, baixista da Cachorro Grande), Gross… É sempre um evento feliz e cheio de camaradagem. Acho que o termo “camarada” é o que nos acolhe melhor.

Falei a ele do conceito do disco, da relação do álbum com Salvador, que ele teria de escrever a letra (e ele disse que teríamos de escrevê-la juntos) e que melodia e harmonia foram construídas pensando nele… Beto se encheu de alegria e, com a confiança que lhe é intrínseca, chamou-nos a um boteco, em frente ao estúdio da Trama, e disse que depois de “umas” cervejas iríamos ao estúdio de Duda Machado (o Madeira II), com quem havíamos combinado de gravar essa voz, e lá mandaríamos ver.

Fomos para o estúdio/casa de Duda e encontramos outros tantos amigos lá: Ricardo Spencer, Rafael Spencer (chef, agora morando lá e com um ótimo restaurante de comida baiana chamado Sotero), Rodrigo “Minha Pedra”, Martin… Clima de festa!

Havia somente um porém nisso: estou acostumado a gravar em meio à tranquilidade do estúdio t, sem muitas interferências, concentrado e em silêncio. Mas esse é o Aleluia, cheio de imprevistos e novas experiências. Ok… Vamos ver no que vai dar…

Sentamos e escutamos a base que havia levado: bateria, baixo, guitarra de 12 cordas e violão. Pronto! Era o que precisávamos. Em quinze minutos, uma letra brotou: “Sonho de Garoto”. Um discurso bem simples, uma brincadeirinha/homenagem a nosso amigo Lobão ali, e ficou bacana.

Beto fez questão de acertar a afinação, respiração, divisão, dicção, interpretação no cantar. Foi um exercício que exigiu muito dele: havíamos acabado de fazer a letra, que, por mais simples que seja, ainda estava muito fresca e não tínhamos nos familiarizado com ela, não houve esse timing. Talvez por isso, o grande charme que ela adquiriu. Ele repetiu algumas vezes até dar-se por satisfeito e me perguntar: “E aí?”.

Em meio a toda atenção, tensão e movimentação em torno da gravação (e da festa lá fora), esquecemos de registrar imagens desse momento… Entre uma bisbilhotada e outra dos que estavam de fora do estúdio, Beto gravou a voz. Ao final do último take, ainda com Beto Bruno de fone, cantando no microfone, Ricardo Spencer comenta: “Dá-lhe, Robeeertoooooo!!!”. Beto responde: “Roberto, corta essa!”…

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Um guia na rabeca

domingo, 10 abril 2011 - postado por fabiocascadura

Já falamos aqui da música “Colombo” (inclusive postamos um vídeo da gravação), das implicações dela fazer parte do Aleluia e do diálogo que ela estabelece com outras músicas, como “Os Reis Católicos”.

Bom, há pouco recebemos no estúdio a colaboração de um músico que muito admiramos e que veio a Salvador única e exclusivamente para deixar sua contribuição e sua marca em “Colombo”: Siba Veloso!

Siba é pernambucano, de Recife. Apareceu para a música brasileira através de seu antigo grupo, Mestre Ambrósio. Em paralelo a outros expoentes (como o também pernambucano Antonio Nóbrega), trouxe à baila um instrumento muito antigo, seminal, que estava, vamos dizer, relegado a uma discrição um tanto maior do que ele realmente merecia: a rabeca.

O Mestre Ambrósio conquistou espaço por seu modo particular de articular cultura popular nordestina e elementos da música pop moderna, numa dose equilibrada e mostrando novas possibilidades para ambos os recursos. Os vi tocar ao vivo no Abril pro Rock, lá em Recife, em 1995, quando da participação do (Dr.) CASCADURA nesse famoso festival. Excursionaram o mundo e, mais adiante, interromperam sua trajetória. Siba então foi morar na Zona da Mata de Pernambuco, e lá formou o grupo Siba e a Fuloresta, com o qual, até bem pouco tempo, vinha trabalhando. Na companhia de verdadeiros mestres da cultura popular da região, ele cantava e dava vazão a recitais de poemas populares.

Hoje ele prepara um novo projeto, em que retorna ao seu instrumento de origem: a guitarra. Bom, mas ele veio para tocar a rabeca! Logo em sua chegada, o cercamos transbordando de curiosidade sobre o instrumento, sua tecnologia, sua execução e sobre aquele que o executaria… Siba nos deu uma noção ampla sobre todos esses detalhes e mais: tocou!

Tocando, ele mostra a tamanha intimidade com aquele instrumento medieval, desenvolvido na Europa (mais ainda na Península ibérica) a partir da influência moura (islâmica): eram os tempos das Cruzadas. “Vixe! Faz tempo que não toco rabeca… Tenho me dedicado mais ao estudo da guitarra para o meu novo projeto…”, disse isso em contraposição àquela demonstração de destreza com a rabeca no colo.

Falamos da canção e ele, em um lance só, entendeu. Discorremos sobre isso ou aquilo que ela poderia ser, mas Siba é preciso e culto, inteligente. Num espaço muito breve de tempo, deu à música muito mais do que imaginávamos que seria. Ficou sensacional!

Nordeste brasileiro, Península Ibérica, Norte da África, Salvador Medieval… Pelas mãos de Siba, através dos sons que tirava da rabeca, tínhamos uma aula de geografia histórica… Nos perdemos e nos achamos naqueles instantes dentro do estúdio! O guia era Siba Veloso.

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A Verdadeira (está em todo lugar)

domingo, 20 março 2011 - postado por fabiocascadura

Quando postei o texto “A Mulher de Roxo”, pedi que me cobrassem um post sobre “A Verdadeira”. Cobrança feita, eis que venho cumprir a promessa… Mas exatamente o quê uma coisa tem a ver com a outra?

Nessa história de tratar da Cidade do Salvador no disco Aleluia, confrontando seus contrastes, suas disparidades, emergiram duas canções: “A Mulher de Roxo”, que, pelos motivos que expliquei no post específico, fala da repressão ao feminino, e “A Verdadeira”, que explicarei agora.

Há uma música muito famosa, que ganhou notoriedade na voz de João Gilberto: “Falsa Baiana”. Essa canção, curiosamente, não foi escrita pelo “pai da bossa nova”, e sim por um compositor chamado Geraldo Pereira.

Geraldo era um motorista de caminhão de coleta de lixo que viveu por entre a boemia carioca nos anos 1930 e 40. Morador da região do Morro da Mangueira, amigo do ilustre Cartola, participou ativamente da construção do que ficou conhecido como samba sincopado, apontado como um dos alicerces da própria bossa nova dos anos 50. Geraldo teve um punhado de sambas seus conhecidos: “Acertei no Milhar”, “Bolinha de Papel” e “Ministério da Economia” (em que exaltava as medidas trabalhistas/populistas do Governo Vargas). Porém, sua música mais conhecida é mesmo “Falsa Baiana”, onde descreve a discrepância de atitude entra a “falsa” e a “verdadeira” baianas diante de uma roda de samba.

Tão categórica é a sua explanação que tais características acabaram sendo absorvidas pelo folclore da “Terra de São Salvador”: “Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/ Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca…”. Apesar desse sucesso todo, Geraldo morreu pobre e de forma trágica: morto numa briga de bar, supostamente pela faca do legendário Madame Satã. Mas sua obra contribuiu muito com o que se chama de samba hoje em dia e, em especial, “Falsa Baiana” entrou para o imaginário do que é a “típica soteropolitana”. O detalhe: ele era mineiro.

Ouvindo esse samba famoso, na voz de João Gilberto, pensei: essa baiana realmente existiu? Se sim, será que ainda está aqui, hoje?! Generalizar é uma merda…

Em “Falsa Baiana”, o foco central é aquela que não mexe as cadeiras e que não deixa a moçada com água na boca em contraponto à que vira os olhinhos e diz: ‘Eu sou filha de São Salvador!’ enquanto samba… Se é assim, então, a “verdadeira baiana” nada mais é do que a hoje identificada como PIRIGUETE! Acompanhou o meu raciocínio, Geraldo?!

A piriguete não totaliza todas as baianas, mas está presente no cotidiano da cidade. A despeito do estereótipo sobre o qual o termo foi gerado, quando era representado pela moça de origem pobre, suburbana, usando trajes mínimos e de cabelos sempre molhados (fruto do uso de cremes específicos para esse fim e de baixo custo, como o famoso Kolene), ela está hoje em todos os lugares: nas ruas do centro, nos shopping centers, nas praias, nos salões de beleza, nos mercados (populares ou nem tanto), atrás dos balcões, nas recepções dos consultórios e não se enganem: estão nos consultórios, nos anúncios na TV, canteiros de obras, agências publicitárias, tribunais, fóruns, no Carnaval (em cima e embaixo dos trios elétricos), sobre os palcos… Elas estão em todos os lugares, são de todas as origens, com todos os tons de pele, já aderiram à chapinha e tudo mais…

Vulgares? Outrora chamadas de “ninjas” (gíria muito popular em Salvador entre o final dos anos 1990 e começo dos 2000), as piriguetes reafirmam a independência feminina, a voluntariedade no fazer o que se quer, sem pensar em consequências ou opiniões alheias… A piriguete é o “agente antirepressivo” da mulher. Em geral tratado com humor, piriguete acabou por se tornar um termo depreciativo. Ok… Mas não há como negar: as piriguetes estão em todo lugar.

Assim, para contrapor a repressão ao feminino, tão frugal na Cidade da Bahia, que eclode em “A Mulher de Roxo”, escrevi “A Verdadeira”. Se a “Falsa Baiana” não entra na roda, “A Verdadeira” vai! “A Verdadeira”, porque a “Falsa Baiana” o mineirinho Geraldo Azevedo já havia escrito.

A letra diz:

A Verdadeira
Revira os olhinhos, deixa colar
Já foi Rosa de Ouro, hoje é estrela vulgar
Jeito de corpo, ela vai até o chão
Já foi coisa de louco – hoje, chamam, ela vai

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou no escuro
Ai de quem seja seu par

É verdadeira até não poder mais
Veio dessa maneira e não pode mudar
Chega na hora e só sai no final
Ela é dessas mulheres que só dizem “Mais!”

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou sozinho
Ai de quem seja seu par

Coração!
Coração!

Veio como uma valsinha, em ¾ (lógico, Cascadura!). Pensei que nada de samba haveria nela: seria o óbvio fazer isso! E quisemos posicioná-la mais como modinha romântica que qualquer outra coisa. Um argumento que nos remetesse a Machado de Assis, José de Alencar, Brasil do século XIX (lembremos que os movimentos literários/artísticos vindos da Europa chegavam aqui para ser propagados com muito mais tempo de atraso que hoje… Mas, ainda hoje, sofremos dessa influência… C’est la mondialisation!). E pensamos no nome do nosso amigo, compositor, arranjador Paulo Rios Filho.

Paulo Rios é formado em composição pela Escola de Música da UFBA. Destaca-se por uma profusa produção, marcada por intercâmbio com criadores de outros continentes como Europa e África. Membro do grupo OCA (Oficina de Composição Agora), que realiza um interessante e instigante trabalho de repensar e renovar as abordagens dentro da composição para Música de Concerto e Orquestra (como eles, humildemente, preferem chamar o que muitos se referem como “Música Erudita”…). O Grupo OCA é um caso à parte nesse extenso panorama criativo da Bahia (e submerso pela “grande mídia”) que recomendo: procurem conhecer. Ainda neste semestre, estarão lançando uma série de concertos gratuitos no Teatro Vila Velha, aqui mesmo em Salvador. Informem-se!

Num papo, expus um esboço da canção a Paulinho. Expliquei-lhe tudo isso que abordei acima. Discorri sobre a falsa e a verdadeira, o contraponto entre as duas e a oposição que essa música significaria diante de “A Mulher de Roxo”: ele entendeu! Sugeriu um arranjo baseado em uma orquestrinha de câmara, com ênfase em instrumentos do grupo de (sopro) madeiras: oboé, fagote, clarineta… Fiquei exultante e curioso.

Ele elaborou o arranjo baseado em uma demo caseira que fiz com a voz e sampler de trechos instrumentais (dos Beatles, inclusive, especificamente a canção “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, do disco Sgt. Peppers), e de uma outra que fizemos apenas com voz e violão no estúdio t, gravada por sugestão de andré t.

Algumas semanas passadas e ele nos traz sua abordagem para o tema… Ali, Paulo Rios Filho brindou-nos com sua grande inteligência musical, sua sensibilidade apurada e sua cultura. O arranjo primoroso abordava um clima romântico, como queríamos, mas com um algo mais. Por vezes o fagote, instrumento tão lindo, profundamente grave e solene, brincava com os “pi ri rim pom pom” dos arrochas e pagodes da vida!

Num lance de muita beleza, oboé, flauta transversa, violino e clarineta passeiam lado a lado, fugindo uns dos outros por vezes, agrupando-se num instante de comunhão… Eita, que ficou bonito! Deixamos um pouco disso para que você veja e escute por si mesmo o que foi essa sessão…

Diana Bakardjieva (Oboé)
Cláudia Sales (Fagote)
Flávio Hamaoka (Flauta)
Pedro Robatto (Clarinete)
Mário Britto (Violino)

Ao final, ficamos todos muito satisfeitos.
Acreditamos que, mesmo antes da gravação das vozes, ainda há o que ser feito. E vamos fazê-lo! Ainda não sabemos o quê…

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1, 2, 3… Rumpilezz no Aleluia!

segunda-feira, 14 março 2011 - postado por fabiocascadura

No texto “Um instante, Maestro”, postado aqui em A Ponte há algum tempo, falei do convite que fizemos ao maestro Letieres Leite para escrever o arranjo de uma das canções do Aleluia. Na ocasião, aconteceu uma visita dele ao estúdio t para escutar o que tínhamos do disco, absorver a atmosfera que estamos criando e, principalmente, conhecer a composição que escrevi pensando justamente em ter a sua Orkestra Rumpilezz como convidada.

Foi muito bom perceber que ele entendeu e curtiu nossa intenção. Antes dele, somente os membros envolvidos diretamente na construção desse projeto e um grande amigo haviam escutado uma demo caseira que gravei com a “intenção” da música em questão. Aliás, esse grande amigo, o guitarrista e compositor Graco Vieira (membro fundador da banda Scambo, ex-guitarrista do Inkoma e parceiro de Thiago Trad no projeto carnavalesco Bailinho de Quinta), foi um grande incentivador dessa ação. Quando escutou a demo aqui em minha casa, de primeira, falou: “Isso me remete a duas fontes: White Stripes e Rumpilezz!”.

Fiquei feliz e intrigado com o que ele disse. Primeiro, porque ele falou de duas coisas que eu realmente curto ouvir e, depois, pelo fato de que, talvez, inconscientemente, eu tenha direcionado a composição para isso mesmo… E o disco todo!

Combinar influências díspares tem sido um exercício dentro da realidade do Aleluia. O novo, o antigo, o tradicional e o inovador. O local e o gringo… O disco tem seguido assim, sem forçar a barra e “sem querer reinventar a roda”, como costuma dizer Thiagão.

Pois então: Letieres sugeriu que o arranjo fosse executado por oito músicos de sua orquestra, sendo que um deles já tinha vindo participar em outras faixas (e já teve um post dedicado inteiramente a ele aqui no blog): o indispensável mestre dos atabaques do candomblé Gabi Guedes! O maestro Letieres trouxe partituras para um set maravilhoso de sopros. No mínimo inusitado. E convidou alguns dos seus melhores músicos para executar esse arranjo durante a sessão que marcamos.

Devido à agenda concorridíssima dele, tivemos que esperar algumas semanas. Mas a espera valeu demais a pena. Letieres foi muito sensível em nossa proposta estética. Usou a base daquela demo que falei, mantendo alguns pontos que caracterizam a composição e subvertendo outros para sua forma de perceber harmonia e ritmo.

Para escrever essa música, que chamo de “To your head” (tradução: “Para sua cabeça”), usei como lastro de condução rítmica um trecho de um toque cerimonial do candomblé. Veja bem: andré t, em uma de suas muitas pesquisas, havia registrado em um terreiro desse culto afrobrasileiro um número de toques litúrgicos cujas apresentação “aos de fora” e gravação são permitidas (sendo uma religião pautada em preceitos misteriosos, nem sempre o que há no seio do culto pode ser livremente mostrado).

Essa gravação parece ter sido feita há mais de 15 anos e ele a guardou para alguma utilização futura. andré fez e faz essas pesquisas para enriquecer seu arsenal de timbres, texturas, ritmos e composições melódicas. O faz como exercício artístico e cerca-se sempre dos cuidados requeridos por cada experiência. Conheço uma outra pesquisa sua que diz respeito a gravação de sons de equipamentos industriais (molas, bigornas, chapas de diversas ligas metálicas, caixas de pregos e assim por diante), mas a essa não tive acesso.

Criterioso, em sua pesquisa, andré solicitou ao alabê (músico responsável pela execução dos toques nas cerimônias do candomblé) que liderava o “naipe” de percussão no instante em que ele gravava que, antes de cada toque apresentado, pronunciasse o nome deste e, se possível, para qual finalidade ou orixá ele costuma ser apresentado. Daí, era mostrada a célula rítmica do gã (agogô), depois a célula concernente aos dois tambores menores (rumpí e lé) e, finalmente, toda a “orquestra” tocando junta (com a adição do tambor maior, geralmente sob a execução do mestre: o rum). Dessa experiência, extraiu um registro extraordinário de parte do coloridíssimo universo rítmico dos cultos afrodescendentes: fidedigno e claro!

Ouvindo essa coleção, me deparei com células que, depois, de alguma forma que cabe à historiografia musical contar, se desdobrariam para o jazz, o blues, o samba, o rhythm’n’blues, o funk, a soul music, o bolero, o tango, o rock e obviamente toda gama rítmica que povoa a música feita na Bahia. E foi em cima de um trecho de um toque que a voz na gravação denominava como “ibí” (segundo ela mesma, toque cerimonial em honra de Oxalá) que desenvolvi o esboço de “To your head”.

Mas por que em inglês? Não sei exatamente! Eu cantarolei uma melodia a partir de partes de samplers que fiz de algumas gravações de pop, jazz e música de teatro de revista (se é que posso denominar assim). Construí uma trilha de sons, bem a “grosso modo”, sobre a qual poderia cantar. E me veio à boca alguns fonemas em inglês (isso costuma me ocorrer quando estou cantando, depois me viro para conjugar o som daquelas palavras, que textualmente entre si não fazem qualquer sentido, para o português e ainda, contar uma história plausível. Um exemplo dessa prática é a música “Não posso julgar ninguém”, dentre outras da obra do CASCADURA). Fui ouvindo e deixando aqueles sílabas ali. Quando percebi os versos, para meu espanto, combinavam-se entre si e resolvi que essa seria minha primeira composição no idioma da velha ilha da Bretanha, e assim vai ficando…

Tudo isso é para situar o que veio com a chegada do sensacional (ao menos para nós) arranjo do maestro Letieres. Numa segunda-feira pela tarde, nos encontramos no estúdio t. Estávamos todos lá: andré t, Thiago Trad, Jô Estrada… A equipe de sempre por trás do Aleluia. Logo chegaram Letieres e alguns dos músicos que havia convidado. Fazia um calor absurdo.

Para começar, o maestro convidou que sentassem os músicos dedicados à região do graves, os que leem a pauta sob a chave de fá: Adaílson Rodrigues no trombone baixo, Gilmar Santos na tuba, e sax barítono a cargo do sensacional Junior Maceió. Eles construíram o que serve de linha condutora na parte harmônica da música: um riff de sopros graves.

Sob a regência de Letieres e experientes como são, deram conta de tudo em poucos minutos. A interferência de andré t, sempre oportuna e certeira, também deu fluidez a todo o processo. Ele é experimentado na arte da microfonação, sabe o que quer atingir quando expõe esse ou aquele elemento. Pode parecer supérfluo, mas ele sabe, como poucos, mostrar o porquê da distância desse microfone para aquele instrumento. Sabe como poucos o quer, do equipamento e do músico.

A simbiose gerada entre Letieres (o maestro) e andré t (o produtor musical) é um caso à parte e merecia um texto único para tratar do tema… O diálogo encontrou viés para se desenvolver e a música foi surgindo, mansa e vigorosamente.

Terminada essa parte, Letieres sugeriu que outra sessão dos sopros fosse gravada imediatamente: “Não vamos perder essa energia que ainda está pairando na sala!”, disse. Assumiram seus postos os músicos encarregados do set de sopros das regiões mais acima dos anteriores (na clave de sol): sax tenor, que foi executado por Kiko Souza (amigo que conheci por meio do exímio baixista e também amigo Ivan Oliveira, ex-CASCADURA), trombone e trompete. Além dele, gravaram esse take: Marcílio Santana (trompete), João Teoria (trompete) e, novamente, Gilmar Santos (trombone), Júnior Maceió (dessa vez no sax alto) e Adaílson Rodrigues (trombone).

As partes dialogaram também. O set grave ditava o riff, o grupo seguinte, então, respondia em texturizações inteligentemente intricadas pelo autor da partitura. Ficou uma joia!

Foram mais repetições. Havia nessa parte alguns pormenores a serem posicionados, devidamente colocados: dinâmica, ataque e duração de notas. Tudo isso, Letieres dá conta aos músicos com um gesto das mãos, enquanto eles executam. Por vezes para e pede que repitam. Pede: “andré, retorne ao ponto ‘tal’ para que essa linha seja refeita…”. andré prontamente o atendia. E sugeria também: “Mais forte, Maestro? Pode ser?”.

Houve um momento em que, no meio do naipe de sax tenor/trombone/trompete, os músicos queriam ouvir determinado detalhe de um glissando (expressão originada da língua italiana utilizada na terminologia da música, que denomina uma passagem suave de uma altura a outra na escala) feito pelo trombone durante a sua execução. andré se dirigiu a Letieres: “Maestro, teremos algum ‘fortíssimo’ por parte do trombone nesse pedaço? É que a extensão do trompete é muito ampla…”. Com a negativa sobre a presença do “fortíssimo”, ele girou o botão de um dos seus compressores, com aquela volúpia que tínhamos com os antigos seletores de canal das TVs antigas, para numa volta chegarmos a determinado programa em outra emissora, e o som do trompete surgiu “gordo”! Todos içaram mais confortáveis.

A dinâmica estabelecida nessa gravação foi outro show à parte. A beleza de uma orquestra de sopro, aliás, está justamente aí: os músicos tocam juntos, como um corpo só, insinuando-se a cada movimento, crescendo e amainando a execução de acordo com a intenção proposta pelo autor/arranjador. E por falar em autor: me fiz de espectador. Nada falei…

A sessão foi concluída em seis horas e, para finalizá-la, mais alguns detalhes de trompetes e flauta. Todos estavam felizes com o resultado atingido. Mais um tempo de conversa em torno de uma pizza providenciada por nosso Jorginho Falcão, que cuida com zelo da parte funcional de todo processo da gravação do Aleluia: nosso assistente de produção! Combinamos que não demoraríamos para seguir com a gravação da sessão rítmica: seria dali a dois dias, numa quarta-feira.

Nesse dia, Salvador amanheceu sob forte temporal: uma chuva calamitosa despencava sobre a cidade. Havíamos marcado para chegar às dez da manhã. Como Jorginho teria que dar apoio aos dois percussionistas chamados por Letieres para realizar a gravação, eu não teria carona. Assim, deveria me virar para chegar ao estúdio no horário. Depois de esperar a chuva diminuir (porque passar, ela não passaria tão cedo), fui até o ponto e peguei o ônibus. São cinco minutos nessa condução até o estúdio, tempo suficiente para a chuva, que já estava bem fininha, tornar a ser um dilúvio. Desci próximo à rua onde fica o estúdio t, mas tão eficiente era o temporal que, depois de dois passos na direção que deveria seguir, retrocedi, atravessei a rua e me abriguei sob a marquise de uma lojinha. Me abriguei, mas já estava totalmente encharcado…

Foram 25 minutos contando os pingos que caíam no chão… “A chuva veio forte… Não para agora, não…”, comentou um senhor que saía da loja com um cigarro em uma mão e uma cerveja em outra (numa quarta-feira, 10h30 da manhã!…). Quando já pensava em enfrentar o temporal, ele decide por acalmar-se. Vejo chegar pela calçada Mark Mesquita, que trabalha como assistente do estúdio de andré e é baterista de uma das bandas mais legais de Salvador: Os Irmãos da Bailarina. “Vou pegar a sua carona!”, gritei para ele, que vinha a pé; “Então, vamo logo, que a chuva vai ca…”, ele respondia quando o aguaceiro tornou a carga… Já era tarde para retroceder. Seguimos correndo – eu, tentando correr, dentro da minha alpercata de couro, molhada e escorregadia, literalmente todo molhado.

Chego à porta do estúdio e encontro um andré t igualmente ensopado, irritado com operários da obra do edifício ao lado que, justo naquela manhã, haviam decidido instalar alguns andares de andaimes bem na frente de sua garagem, inviabilizando a entrada de qualquer veículo… Sob seu olhar feroz, dois funcionários da obra desmontavam em regime “operação tartaruga” a armação metálica. Nisso, já estavam lá Letieres Leite e Jô Estrada: “Jô, o professor (como carinhosamente chamamos andré t) tá ensopado, nesse ar condicionado polar dele, vai acabar ficando gripado e eu também. Vamos lá em casa pegar umas toalhas, umas camisetas e nos recompor…” – falei. De um só movimento, Jô Estrada se levantou e foi até o carro, o segui e fomos buscar com o que nos secar.

Seguimos pela Avenida Cardeal da Silva, Federação, inundada, com cerca de 50 centímetros de água. Carros parando, uns com motores comprometidos, outros por haverem inadvertidamente caído em buracos. E nada da chuva quietar… Depois do trajeto feito, dos apetrechos para secagem resgatados e de eu ter trocado a roupa toda, voltamos pelo mesmo caminho, e já sem chuva… A rua estava sem água, mas repleta de novos buracos e velhos bem mais alargados e aprofundados. “Que asfalto ‘mingau’ é esse, mermão?!”… Aos poucos as nuvens que nos assombravam foram se dispersando. “Quer ver? Vai estar todo mundo ‘foguetado’ nessa gravação, exceto mestre Gabi Guedes… Conhece Gabi Guedes, Jô?!”, perguntei. “Só de nome. De vocês falarem… Nunca encontrei com ele, não…”, Jô respondeu. “Pode crer… O cara tem um astral, uma calma que chega no lugar e contamina… Hoje você vai ver”.

Descemos do carro secos, porém ainda no esquema correria. Chegando ao estúdio, achamos um andré t a toda, no trabalho, microfonando isso, comprimindo aquilo… Lá na sala de gravação, Gabi posicionando seus tambores. Ofereci toalha e camiseta enxuta a andré, e ele nem viu ou ouviu, concentrado que já estava. Passados uns minutos, o próprio Guedes veio nos cumprimentar, com seu sorriso e sua gentileza. Logo chegou Jorginho na companhia de outro percussionista: Kainã. Deve ter uns 18 anos, no máximo. Mas é dono da mesma tranquilidade do outro alabê e, de certa forma, apesar da pouca idade, de parte de sua elegância no tocar e portar-se. Vai ver o treinamento inclui esse tipo de etiqueta. Brincadeira: é de berço mesmo.

Eles se puseram na sala de gravação e começaram a tocar orientados pelo Maestro Letieres e andré t. Nesse instante, para que corresse tudo bem, aproveitei a estiagem para ir com Jorginho cuidar de alguns detalhes burocráticos referentes à gravação. Quando retornamos, cerca de meia hora depois, as partes estavam praticamente prontas. Num piscar de olhos, a turma revelou-se dentro da canção e estava toda a contribuição ali, diante de nós.

Pedi a Letieres que fosse dada ênfase a um pequenino detalhe estilístico, já que não se tratava da gravação de algo sacro, mas baseado nisso. Não era e nem é um toque de candomblé, mas um ritmo extraído de um dos toques que sustenta a canção. Ele me atendeu e os dois “ases dos tambores” ainda gravaram o detalhe tocando darbuka (tambores tunisianos) com agdavi (baquetas para atabaque). Foi o link de todo o jazz de Letieres com o pop possível do CASCADURA.

Saímos do estúdio e batemos um papo rápido enquanto Marcelo Zimmermann, incubido da captura das imagens do que vem acontecendo nas gravações do Aleluia, colhia impressões em vídeo dos que estavam ali, sobre o que presenciaram. Fazia nessa hora o mesmo calor da segunda-feira passada, quando gravamos os sopros. Todos do lado de fora conversávamos sobre o temporal: chuva, relâmpago, “hoje é quarta-feira, não se esqueça…”, lama, “muita água nas ruas e as ruas com buracos…”, caos… Caos! Até que Gabi Guedes sai da sala e, num silêncio oportunamente feito por todos, pronuncia: “Mas o céu se abriu, ó…”

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Um mestre entre nós!

quinta-feira, 14 outubro 2010 - postado por fabiocascadura

Tivemos a grande alegria de receber na gravação do Aleluia a participação de um músico excepcional: Gabi Guedes.

Gabi GuedesPercussionista experimentado, já tocou com gente como Jimmy Cliff, com quem excursionou pelo mundo, e hoje é considerado uma referência no que diz respeito aos toques cerimoniais do candomblé. Não por acaso, Mestre Gabi Guedes é membro da badalada Orkestra Rumpilezz, que tem no comando o maestro Letieres Leite.

Trazendo todo seu conhecimento e sua habilidade com atabaques, agogô e outros instrumentos de percussão, ele contribuiu em três faixas.

Essas composições foram pensadas e escritas para experimentar uma ligação mais íntima entre as influências do CASCADURA e toques originais do culto afrobrasileiro. Nelas, teremos ao mesmo tempo rock, blues, rhythm’n’blues, soul, reagge, jazz… Porque tudo isso na verdade vem de um lugar só. Uma mesma raiz.

Aqui, o CASCADURA agradece a contribuição ímpar de Gabi Guedes, que executou de modo magistral seus instrumentos e ajudou-nos, como um guia, a esclarecer certas nuances musicais daquilo pretendíamos.

andré t, Fábio Cascadura, Gabi Guedes e Thiago Trad

andré t, Fábio Cascadura, Gabi Guedes e Thiago Trad

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Vivendo no Aleluia

terça-feira, 14 setembro 2010 - postado por fabiocascadura

Já falei sobre a Vivendo do Ócio aqui antes. Comentei sobre a amizade que existe entre nós e sobre minha sincera adesão à proposta da banda dentro do rock, sobretudo no panorama que temos no Brasil.

Vou seguir:
A Vivendo do Ócio propõe rock de verdade – não é banda Ki-Suco, toda colorida. E rock bom assim é coisa da Bahia! E a Bahia deve se orgulhar deles! E outros devem respeitar a Bahia por isso… Assim, guardei uma música buscando a interferência do som deles.

Eu escrevi uma canção tendo como tema o famoso dedo-duro. Tem em todo lugar: pra dar com a língua nos dentes, pra difamar e caguetar (conhece esse verbo? Vem do substantivo alcaguete – delator). Estou falando do fofoqueiro. Quem não conhece um grande fofoqueiro? Quem não é fofoqueiro que atire a primeira pedra. Na Bahia, então… Quase uma instituição onipresente. Jorge Amado, João Ubaldo, Gregório de Mattos… Todos trataram do assunto, que por sinal é riquíssimo e pode inspirar comédia e tragédia.

Veja bem: não estou falando do olho-gordo, o que deseja o que não lhe pertence (ainda que um pecado possa estar impelindo o outro), para esse tema teremos um espaço específico no Aleluia. Eu falo do próprio: o delator!

Veio um riff, uma insinuação de soul music, rhythm’n’blues. Pusemos tudo aos cuidados do rock. “O Delator” é uma música assim: muito pop! E Lady Gaga é o fim do mundo, música pop vem dos Beatles, dos Beach Boys…

Eu tive a ideia de contar com a voz de nosso amigo Jajá Cardoso, da Vivendo do Ócio. O timbre do Jajá é muito peculiar. Você escuta e imediatamente identifica que é ele quem canta. Não sei como, mas ele canta numa região de “médios” que consegue se sobressair em qualquer volume, sob qualquer mixagem. Além disso, ele sabe cantar.

Por coincidência, Vivendo do Ócio estava de passagem pela Bahia. Fizeram um belo show na capital, no Pelourinho (Largo Tereza Batista), e uma apresentação, que soube, memorável num festival em Morro de São Paulo. Seria uma oportunidade e tanto para termos a presença dele gravando a sua voz… Porém, não o tínhamos convidado ainda e nem tínhamos gravado a base da dita canção.

Perguntei a andré t o que faríamos. Ele:
“Simples! Gravamos a voz dele antes da base da música!”… Simples?

Ele lembrou que durante o período de pré-produção e testes do Aleluia, havíamos registrado um beat de bateria para essa música. Foi num esquema teste mesmo e, escutando depois de um certo tempo, percebemos que estava um pouco lento. andré propôs que acelerássemos esse andamento. Ok… Como?

Ele mexeu em seu equipamento, fez umas mágicas tecnológicas lá e, tal qual seu cargo propõe, produziu uma bateria para servir de referência na gravação da voz. Mas entenda: não se trata de uma bateria mecânica, eletrônica, tocada pelo computador. É uma bateria de verdade, que foi executada por Thiago Trad, que somente teve de ser “acelerada”. Você pode pensar: “Ah, com computador, qualquer um faz isso”… Em algum tempo, te mostrarei a dita bateria e farei a proposta: “Faça uma igual…”.

Bom, tínhamos a bateria… Restava saber se teríamos o nosso cantor.

Aí, você, que não é menino nem nada, pensa: “Poxa! Se o Fábio Cascadura se deu ao trabalho de chegar até aqui com esse texto, é porque eles conseguiram o Jajá. Lógico!”.

Ok… Conseguimos, sim.
O convidei por telefone e ele, sangue bom que é, aceitou numa boa. Marquei com andré para a sexta-feira (as sextas-feiras estão definindo muita coisa nesse disco. Não à toa, ele se chama Aleluia!). Seria um dia após o show da banda do Jajá. Gravar num dia seguinte a um show não é brincadeira. Mas aí é que tá: existem os artistas de verdade e os frescos maquiados… Jajá mostrou que é artista e sabe do ofício de cantar.

Nosso assistente de produção, Jorginho Falcão, foi buscá-lo, e eles chegaram ao estúdio t pontualmente no horário combinado. Mostramos a ele a demo que havíamos feito no andamento original. Depois, mostramos com o andamento alterado e ele abriu um sorriso dizendo: “É assim que vai ficar, né?!”. É!

Ainda tínhamos que gravar uma guitarra e um baixo-guia para essa “base”, ou playback, como queiram. andré, magistralmente, concluiu essa tarefa. Vá lá: não foi tão magistralmente, mas na velocidade que ele gravou os dois instrumentos podia até ter deixado mais alguns errinhos que estava plenamente perdoado.

Fomos para a sala de gravações: eu e Jajá. Cantamos juntos, numa experiência que raramente tenho. Passamos uma, duas, três vezes. andré observou algumas pronúncias inadequadas e algumas divisões a serem corrigidas. Foi.

Depois de uns seis takes, as vozes para a canção estavam prontas! Ouvimos todos: andré, eu, Jajá, Thiago Trad (que chegou bem no começo da gravação propriamente dita) e Jorginho Falcão.

Agora que temos a voz pronta, vamos partir para a construção do arranjo. Um caminho inverso. Nunca fiz isso, nunca vi ninguém fazer. Acho que vou adorar. Quem sabe a bateria, que geralmente é gravada primeiro, não fica para a última sessão? Nos faltará mixar antes da gravação… Será? Hahahaha!!!

Bem, mas além de sua voz fantástica e sua energia incrível, Jajá nos deixou mais duas coisas: a prova de que ele é um cara humilde e pronto para aprender – nos ensinando muito nesse seu modo tranquilo de ser, numa trilha onde fama e grana são consequência de um trabalho bem feito, como o que a Vivendo do Ócio faz – e a impressão de que já não é mais o moleque que cantava nas matinês da Boomerangue: Jajá é gente grande.

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Segue o baba!

terça-feira, 31 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Desde que os conheci, quando ainda disputavam as seletivas do Gas Sound, tipo de “battle of the bands” de alcance nacional, promovido por uma marca de refrigerante, fiquei entretido pelo estilo, pelo som e pelo carisma dos Vivendo do Ócio.

Foi Thiago Trad quem me falou deles a primeira vez. Mas o contato entre nós foi estabelecido por Luciano Matos, jornalista, quando trabalhávamos no programa Jam Session Rock, na rádio A Tarde FM – ele como redator e eu, como comentarista, aqui em Salvador.

O programa era semanal e era praxe haver uma entrevista com quem estivesse fazendo algo interessante. Esse papo rolava sempre por telefone. Justamente por terem passado da 1ª etapa do dito concurso, Luciano os recomendou como entrevistados daquela edição do JSR.

Foram três perguntas que fiz ao Jajá, cantor do grupo. Sinceramente, nem conhecia a música deles… Até ali. O cara (pra mim, um garoto) foi bem tranquilo em suas respostas. Depois, botamos no ar uma música de uma demo que o próprio Luciano nos trouxe. Não tava bem gravada, mas tava ali e dava pra tocar… Pela simpatia, acabei anotando o nome mentalmente e decide observar. Lembro que eles fizeram um show, numa matinê na Boomerangue (uma casa de shows daqui da cidade, que fechou recentemente), logo depois desse papo. Mas a agenda do CASCADURA nesse tempo e a minha preguiça me impediram de ir.

Pela imprensa, soube que eles seguiram bem no tal festival e chegaram à final. Fiquei sinceramente feliz.

Não lembro se antes ou depois disso, convidamos eles para o lançamento de um projeto que havíamos idealizado: o Sanguinho Novo! Como o CASCADURA sempre teve a política de tocar com outras bandas mais novas, num intercâmbio onde trocávamos tudo, e essa prática acabou gerando, para nossa honra, uma demanda de bandas querendo tocar com a gente, decidimos criar um momento, uma festa dedicada a essa atividade – da mesma forma que criamos o Cascadura’s Private Hell (para os essenciais shows em “inferninhos”) e o Laboratório Acústico do Dr. Cascadura (onde experimentamos possibilidades sem uso de tanta eletricidade/plug)…

O Sanguinho Novo é uma festa em que convidamos bandas/artistas mais novos, mas com uma trajetória bacana, e onde podemos chamar a atenção das pessoas para a necessidade da doação de sangue… Sim! Consideramos isso um verdadeiro ato cidadão! Mais adiante, abordaremos essa festa em especial, deixe-me voltar aos Vivendo do Ócio…

Para a primeira edição dessa festa, os convidamos. Ali os assistimos, os ouvimos e eu, ao menos, me tornei um grande fã da banda. A vibe foi tão boa que decidimos até fazer outro show juntos, o que ainda não aconteceu… Mas, dali, eles seguiram, ganharam o Gas Sound, gravaram um disco de estreia muito bom, foram morar em Sampa e enfim…

No momento que decidiram partir para São Paulo, resolveram fazer um show de despedida e me convidaram para cantar uma música nesse espetáculo. O palco seria o mesmo onde havíamos nos encontrado anteriormente: Boomerangue.

Para participar desse show, fui convidado a ensaiar no estúdio que a banda tinha, ou tem, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo. Estudei a vida inteira no Barbalho, bairro vizinho àquele lugar. Tudo ali me era muito familiar e foi uma viagem e tanto chegar ao estúdio passando por entre as ruas estreitas da região.

Bem recebido (lógico! Os caras são muito camaradas!), tivemos um ensaio fantástico! A minha participação foi passada umas três vezes: “Break on through”, dos Doors. Tudo foi muito fácil! Eles me contaram seus planos para a ida à nova experiência e me vi um pouco neles, quando cerca de cinco anos antes rumei com o CASCADURA para lá também… Me despedi e fui: de volta pra casa. “Até o domingo!”

Caminhava no fim de tarde pelas mesmas ruas estreitas que haviam me levado ao estúdio. Passei perto dos postes enferrujados (velhos, mas muito característicos do bairro) e percebi a chegada de uma centelha de ideia: um riff! Andei uns cinco minutos solfejando a sequência de notas que formava o riff e logo veio também a ideia da melodia a ser cantada… Uepa!

Tirei o celular (meu companheiro e salvaguarda! Quantas melodias deixei de perder, graças a ti?!) do bolso e pus a cantarolar, a meia voz: riff, melodia da voz… era tudo. Ainda tenho arquivado esse momento. Cheguei em casa e aprimorei o que tinha criado. Tinha uma carga ao mesmo tempo familiar e nova. Tinha rock, mas queria pular fora disso, ou chamar algo diferente para a roda.

“E se… Não, nããão!” – foi a primeira resposta à minha percepção de qual novidade aquele riff parecia propor… Pagodão?

Eu já havia pensado na maluquice que poderia ser justapor uma coisa e outra. Ok… O Fantasmão pôs guitarra no pagode… Achei sui generis. Não gostei por crer exagerado, apesar de aplaudir a tentativa e a busca de algo novo. Mas ficou feio, na minha opinião. Gostei mais do que fez o Sam Hop com seu “Ser negão é massa”.

Mas e se subvertermos o ritmo de lá? Se o trouxermos até cá e lhe dermos contornos daquilo que conhecemos? Vamos lá… Levei a ideia adiante em minha cabeça, depois em minhas demos caseiras, até que a apresentei ao Professor t. andré adorou o desafio.

Trouxe uma letra que desfazia do que desfaz: o famoso “olho gordo”:

“Segue o baba
Esse sonho é meu
São meus passos, meus freios
Peru-de-fora, olho gordo”

… e tá dando nisso:

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Colombo (vídeo)

segunda-feira, 09 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Vídeo com desenvolvimento parcial do arranjo para a canção “Colombo” (Fábio Cascadura).
Thiago Trad (percussão), Jô Estrada (guitarra) e andré (direção de estúdio).

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Stomp (Música de Trabalho)

terça-feira, 03 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Um vídeo sobre a experiência com stomp, no Café Teatro Sitorne.
Participaram: eu e Thiago Trad (baterista), nós dois membros do CASCADURA, andré t (produtor do disco), Jô Estrada (coprodutor), Mark Mesquita (baterista d’Os Irmãos da Bailarina e assistente do estúdio t) e Paulinho Oliveira (ex-CASCADURA e, hoje, diretor do teatro).

Leia mais sobre esta gravação aqui.

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Música de Trabalho

segunda-feira, 26 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Uma nova experiência nasceu da nossa reunião, numa segunda-feira à noite, no Teatro Sitorne. Faz um tempo, durante os testes de bateria, antes da gravação propriamente dita, eu havia mostrado a andré t um trecho melódico que me ocorreu em uma tarde, diante de uma vitrine num shopping center de Salvador, enquanto esperava minha amada. Era um trecho de 16 compassos de blues ou, se preferir, encharcado de “blue notes”. A ideia me agradava, ainda que eu não tenha a menor pretensão em gravar um blues, nem falso, muito menos autêntico – deixo essa tarefa para os que dele realmente são. Mas mostrei a melodia a andré e ele também curtiu.

Contei a ele do excelente documentário/show a que assisti certa vez, quando trabalhava vendendo discos numa loja aqui de Salvador. Tratava-se do DVD “Down From The Mountain”, com artistas interpretando ao vivo a trilha sonora do aclamado filme “O Brother, Where Art Thou?” (com título em português “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”), dos Irmãos Cohen. Nele, o grupo The Fairfield Four (curiosamente um quinteto, a despeito do “quatro” no nome) reproduz uma canção chamada “Po’ Lazarus”. Esse grupo nasceu dentro do ambiente da música Gospel do Tennessee (EUA) e está até hoje na ativa, desde 1921 (!).

“Po’ Lazarus” é uma canção tradicional, de tema bíblico, e por eles executada no esquema stomp (com o bater dos pés sobre o tablado do palco) e palmas, imitando a sensação gerada pelo evento daquilo que os norte-americanos denominam “work song” – música de trabalho. Em geral, estamos acostumados a ouvir o gospel americano (o gospel de verdade, não esse treco que embala o polpudo mercado de música evangélica atualmente e de péssimo gosto estético/harmônico/melódico. A mensagem pode ser a mais bonita, mas a música fica em décimo plano) com acompanhamento de coral (sempre de efusivas possibilidades) e set instrumental guitarra-baixo-bateria-órgão hammond B3 (a base do que seria utilizado na instrumentação do blues elétrico, do jazz e do rock). Na “work song”, a cadência dos versos ritmava o trabalho nas lavouras, na construção de estradas e ferrovias, EUA afora, no correr do século XIX. Também nesse contexto, estão as mais profundas raízes da música norte-americana e, por consequência, muito do que chamamos universalmente de Música Pop.

Baseados nessa história de apenas o bater dos pés sobre um assoalho de madeira acompanhar o cantor, partimos para a tentativa de gerar uma base convincente para essa ideia. Falamos com a direção da Escola de Artes Sitorne, que gentilmente nos cedeu um horário para que gravássemos na sala do seu teatro. Chegamos na segunda-feira à noite: eu, Jô Estrada e Thiago Trad, antes, e encontramos com o amigo Paulinho Oliveira, ex-CASCADURA, que hoje trabalha lá mesmo. Depois, vieram nosso andré t e seu assistente Mark Mesquita.

andré dispôs seus microfones, montou seu set up, subimos ao tablado e testamos o som. Uns poucos ajustes e ele disse: “Podemos começar!”. Esse grupo de seis pessoas passou a circular pelo palco do teatro buscando o espaço onde o som ficaria melhor: confesso que esse foi o detalhe mais demorado de todo o processo. Mas, enfim, achamos um lugar no fundo do tablado onde a madeira parece ter sido ajustada para tal finalidade. Vamos gravar!

Pausa: bem, não tenho impressora em casa, assim, gravei um esboço da letra para essa música em um pen drive, onde estavam outras que pretendo aproveitar nesse processo do álbum. Não encontrei um lugar que pudesse imprimir pelo caminho e pensei: “Estou indo a uma escola! Lá tem impressora!”. Chegando lá, pus a mão no bolso para pedir a alguém para imprimir o bendito esboço e o pen drive não estava! No trajeto entre casa e escola, ele deve ter caído… Lamentei, mas seguimos sem letra mesmo. Afinal, o que iria valer, se iria realmente valer, eram os stomps e as palmas… Acaba a pausa…

Cantarolei a melodia num andamento que imaginava ser o mais natural. Marcamos com os pés o ritmo. Tentamos uma sequência de uma batida de pé a cada compasso. Depois, duas batidas, alternadas no segundo e no quarto tempo. Com palmas, sem palmas… Em vinte minutos, já tínhamos quatro ou cinco takes que nos deixaram satisfeitos.

andré t pôs os fones e ficou escutando… “Do caralho! Sonzão! Por mim, fica esse, como está!”. Ouvimos todos e compartilhamos da opinião de andré. Primeiro Thiago, depois Jô, assim por diante, ouvimos todos: eu, Paulinho, Mark… E nos cumprimentamos em saudação ao sucesso de algo que parecia ser mais complexo executar do que realmente foi.

Torno a chamar a atenção para o fato de que queremos apenas usar a alegoria desenvolvida do mundo do espetáculo americano, desde o começo do século XX, para contextualizá-lo à nossa necessidade de emoldurar uma obra atual. Não queremos ser grupo de blues, nem “macaquiar” coisa de gringo! Muito pelo contrário; a ideia é dar um novo direcionamento àquilo que já sabemos, conhecemos: reciclar!

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