“Valeu, tio!”

sexta-feira, 19 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Falei em um post anterior sobre alguns álbuns recém-lançados que nos forneceram combustível para pensar num conceito para nosso próximo disco de estúdio, o Aleluia, esse mesmo, matéria-prima e razão de ser desse blog.

Falei do “Chá Chá Chá” (Retrofoguetes), “Frascos, Comprimidos, Compressas” (Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta), “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” (homônimo) e “Maçalê” (Tiganá Santana). Óbvio que não só disso vive o Aleluia, mas esses marcaram por serem obras contemporâneas, de artistas que estão num patamar de ascensão dentro do panorama musical brasileiro e que, acima de tudo, representam a inquietude diante da própria música.

Mas deixei de citar um outro disco, lançado há pouco tempo e que, tanto quanto ou mais que estes, interfere na produção que estamos fazendo em estúdio e nos ensina algumas coisas para além da música que pretendemos criar: “Zii e Zie”, de Caetano Veloso.

Escutei esse disco pela primeira vez na casa do próprio num período em que nos aproximamos, exatamente porque ele nos citou no blog que criou para expor o processo de criação desse álbum, exatamente como estamos fazendo com o Aleluia, aqui, em A Ponte.

Mas nossa relação com Caetano vem de antes: uma vez, nos idos de 1999, encontrei um amigo no Largo de Santana (Rio Vermelho). Era um começo de noite de uma sexta-feira e eu estava ali para encontrar com Martin e Jorginho (o famoso King Cobra). Éramos parceiros num evento que vinha acontecendo havia alguns meses: o Rock Nights! Toda semana, (Dr.) CASCADURA e King Cobra (banda da qual, então, Martin era guitarrista) revezavam-se no palco do Havana Sushi Bar, exatamente naquela praça. Eram noites bem concorridas e que nos custaram muito trabalho para tornarem-se assim, prestigiadas. As edições do Rock Nights aconteciam nas quintas e o combinado com a direção da casa era recebemos o cachê da noite anterior no começo da noite de sexta. Eu sempre ia acompanhado do então Cascadura Paulinho Oliveira, e encontrávamos com os dois “Cobras”.

Nessa noite, porém, me encontrei com esse camarada, o lendário Alexandre “Polho” Torres, que nos disse: “Você viu? Caetano falou de vocês na MTV! Foi no Jornal da MTV, agora há pouco…”.

“Cuma?”
Tanto eu quanto Paulinho achamos que havia um engano aí: Caetano é famoso e nós somos uma banda de rock soteropolitana suando para sobreviver localmente! Ele confirmou e, sabendo que nos encontraria ali (na época, nenhum de nós tinha telefone celular), veio nos encontrar para comentar o fato (e de quebra sentar para uma rodada de cerveja e papo). Ele repetiu umas três vezes que Caetano tinha dito no programa da MTV que estava escutando “uma banda de Salvador que fazia um rock assim… bem Stones: Dr. Cascadura!”.

Seguimos descrentes, até que chegou um outro amigo: Wallace (hoje guitarrista da banda de rock ultrapauleira Bestiário). E qual foi a primeira frase dele? “Poxa! Caetano falou que está escutando vocês!”… “Porra, véi… Foi mesmo?”. Polho não perdeu a deixa: “Viu aí, mané?! Eu tô maluco?!”.

Aquilo repercutiu por um tempo e nos trouxe satisfação: era sinal de que estávamos trabalhando bastante e fazendo nossa obra chegar ao maior número de pessoas possível, dentro da nossa limitação (sobretudo, orçamentária). Mas logo demos sequência e seguimos.

Ficamos sabendo que Caetano, que costuma passar temporadas de verão em Salvador e, nestes períodos, habitualmente, frequenta o Rio Vermelho, foi a uma loja de discos do bairro, a extinta Na Mosca, e pediu ao Tony Lopes, proprietário do estabelecimento, algumas “novidades” da Bahia. Acabou caindo-lhe as mãos nossos dois primeiros discos: “Dr. Cascadura #1” (1997) e “Entre!” (1999). E pronto…

Esse lance de “Caetano falou de vocês”, virava e mexia, vinha à baila. Só que, com o tempo, fomos dando cada vez menos ênfase a isso. Não tenho certeza, mas acho que ele acabou fazendo esse comentário de estar escutando CASCADURA em mais alguns outros veículos, sendo que eu mesmo jamais havia lido, ouvido ou o visto falar de nós.

Passa um tempo, a banda muda, a música muda, “pererê-parará-pão-duro”, como dizia minha mãe… Eis o Verão de 2008/09. Quando chegam as festas de fim de ano, é tradição em Salvador o baile “O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes”. É praticamente uma festa de confraternização entre os que frequentam e trabalham no circuito de música alternativa da cidade. E sempre que dá, eles me chamam para uma canja. Eu adoro participar.

Os Retrofoguetes são organizados em suas diversas ações, não dão ponto sem nó. Para esses shows com convidados, fazem questão de armar um ensaio antes da apresentação. Para a festa do Natal de 2008, além de mim, do maestro Letieres e o pessoal da Anacê, eles convidaram nosso amigo Glauber Guimarães.

Glauber é primo de Rex (baterista dos Retro), foi ele quem me substituiu quando saí d’Os Feios, banda de rock 50’s da qual fazia parte, juntamente com Joe (hoje baixista de Pitty), Morotó (guitarra) e o próprio Rex Crotus, na bateria. Depois, como todos sabem, eles se tornariam os The Dead Billies e Glauber mudaria seu nome para Moskabilly. Ok…

Passadas essas aventuras, Glauber acabou desenvolvendo-se como compositor e cantor (dando ênfase ao seu projeto Teclas Pretas) e, naquele instante, estava muito ligado ao universo virtual dos blogs. Ele chegou ao ensaio, onde eu já estava (foi no estúdio de Bola, ex-guitarrista da Dinky Dau e Sangria, na região do Largo 2 de Julho, Centro de Salvador), e me cumprimentou dizendo: “Caetano falou de vocês…”. “De novo essa conversa?!”, pensei. “Mas foi essa semana! Você viu?!”, ele completou, e ainda afirmou que “está escrito na internet…”.

Glauber vinha acompanhando uma estratégia inovadora de Caetano para divulgar seu disco. “Pois é, bicho! O cara tá gravando um disco novo e decidiu expor todo o processo de construção em um blog na internet, onde, quem quiser, fica sabendo o que tá rolando no estúdio, nos shows de preparação e desenvolvimento desse trabalho… Chama-se: ‘Obra em Progresso’ e lá ele disse que curte o som do Cascadura e que vem acompanhando vocês!”, contou.

“Pera aê, Glauber!.. Ele tá gravando um disco e mostrando o que tá fazendo antes de lançar?”, me assustei com a informação. Caetano é um “medalhão”. Se essa estratégia fosse implementada por alguém do universo alternativo, eu até compreenderia, acharia natural, pois a necessidade de lançar mão de algumas ferramentas mais radicais para divulgação dos projetos dessa fatia do mercado é sempre eminente. Mas um cara que trabalha num patamar como o dele?…
“Vá lá ver, rapaz!”, sugeriu.
Eu fui…

Li o texto em que ele nos cita, li o texto em que ele falava da música do disco, da abordagem, do conceito do álbum, dos shows que faria/fizera no Canecão, no Rio, onde testaria possibilidades e arranjos e li mais: os comentários dos que visitavam o blog “Obra em Progresso”.

Centenas de comentários por post. Havia uma legião de fãs, curiosos e detratores ali, prontos para debater, bater papo, comentar somente, mandar um alô, um beijinho, fazer uma graça ou xingar o Caetano. E ele estava lá, nu! Exposto, debatendo o quer que fosse, contra-argumentando, concordando… O legal ali era que quem lesse poderia comentar. Não era, como de costume em casos de artistas de grande alcance, uma via de mão única. Podia-se “responder”, com grandes possibilidades de réplica por parte do autor.

Tendo ele nos elogiado e chamado a atenção para o CASCADURA em seu texto, decidi deixar um comentário, agradecendo o carinho e tal… Não lembro se houve réplica, mas fiquei de boa com isso tudo e segui… Foi quando nosso produtor de então, Dimitri, foi ao Rio Vermelho e acabou encontrando com o próprio Caetano: “Oi, Caetano! Eu sou produtor do CASCADURA, sabe?! Os caras ficaram contentes com seu texto e tal… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Parece que Caetano falou que queria nos conhecer e Dimitri disse que iria me ligar para que pudéssemos falar.

“Alô, Fábio… É o Caetano!..”, era a voz do “Cinema Transcendental” mesmo. “Olha, vamos nos encontrar uma hora dessas… Acho o som de vocês demais… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Foram uns cinco minutos de papo e deixei uns telefones com ele, caso ele quisesse ligar e marcar algo.

Passaram-se algumas semanas e no meio de uma partida de buraco da qual eu participava somente para fazer número (minha sogra, meu cunhado e esposa sabem jogar. Eu, não), toca o telefone: “Oi, Fábio! É o Caetano… Vai fazer o quê hoje?!

O cara me convidou para ir a uma festa na casa dele aqui em Salvador e lá, enfim, nos conhecemos pessoalmente. Gente fina! Tava lá a galera do Grupo de Teatro Olodum, o produtor Arto Lindsey, o músico e arranjador Tuzé de Abreu e dentre outros tantos famosos David Byrne (ex-Talking Heads).

Caetano fez questão de nos apresentar a ele e não perdeu a chance de uma brincadeira (em inglês fluente): “David, esses são roqueiros daqui de Salvador… Eles odeiam pagode, axé e carnaval!..”, falou com um meio sorriso zombeteiro e tomando um drinque. Eu, de supetão, quis contradizê-lo, falando um “It’s not true…”, e me saí com um estúpido “Not too much!”. O círculo irrompeu em gargalhas (“Olha, David! Eu sou preconceituoso, mas NEM TANTO!”, seria a tradução da gafe que cometi).

O Mr. Byrne nem nos deu trela, mais simpático foi o Arto Lindsey. Mas estávamos ali para conhecer Caetano e era o que valia. Fomos eu, Thiago Trad, acompanhados das namoradas, e Dimitri. Conversamos um tempo sobre música. Ele falou muito bem da produção do Bogary, com propriedade de quem realmente ouviu. Citei a vontade de fazer um próximo disco mais diferente e arriscado, buscando diálogos com informações locais e cheguei a dizer que “tenho vontade de justapor Stones e samba-reggae”. Ele fez cara de “É…” (?).

Passadas algumas horas, fomos nos despedir. Ele pediu que voltássemos num dia qualquer, somente para trocar informações sobre música e arte. Esse retorno acabou acontecendo três semanas depois, e com a presença de Glauber, que ele pediu que eu levasse, e andré t, outro que pediu que convidasse, desde que munido de algumas coisas que vinha trabalhando em estúdio, além de Trad e Heitor, um amigo e parceiro de Glauber.

Passamos uma tarde conversando sobre histórias do passado (muitas das quais já conhecia de livros sobre a música brasileira), tiramos dúvidas sobre o rock em Salvador no período em que ele morou aqui (entre os 50 e 60 do século passado), o escutamos dizer algumas vezes “Caras, eu sou ‘tiozinho’! As vezes as pessoas se esquecem, mas sou ‘tiozinho’!”, e ele falou sobre o que deveria vir a ser seu próximo disco, o que estava expondo no blog “Obra em Progresso”.

Daí, ele convidou-nos a ouvir música na sala (antes estávamos num pátio na frente da casa). andré t levou um CD com uma compilação de produções dele: Messias (músicas do que depois viria a ser o sensacional álbum triplo “Escrever-me, Envelhecer-me, Esquecer-me”), que parece ter gostado muito, e uma demo de um projeto dub no qual eu e ele vínhamos trabalhando com uma dupla de baixo-bateria fenomenal. Quando tocou a primeira das faixas dessa experiência (que estava, como ainda está, inacabada), Caetano deu um sorriso e disse: “Esse é o som!”. Explicamos que era um projeto aberto e que não sabíamos exatamente o que fazer com aquilo. E ele mandou: “Quero participar também!”. Logo depois, numa entrevista coletiva aqui em Salvador, ele tornaria a comentar esse projeto e sua vontade de fazer parte dele.

Atenção, você que me lê agora: até aqui, escrevi a introdução do texto… O assunto vem agora!

Terminado o CD levado por andré, Caetano pegou um outro CD-R e disse: “Esse é o ‘Zii e Zie’, meu novo disco. Vou pôr para vocês ouvirem”. Entrou uma música extremamente diferente… Era guitarra e era samba. Mas não era guitarra e samba de Benjor ou Gil… Era outra parada! E era da boa! A sequência ia rolando e a gente meio espantado, para o visível deleite dele. Quando tocou uma que hoje sei chamar-se “Menina da Ria”, comentei que lembrava um frevo torto com suspiros McCartianos (sic!): “Um frevo-beatle!”.

Caetano explicou seu desejo de falar com o olho de sua geração, “de tios e tias”, sobre o Rio de Janeiro. Acendeu-se uma lâmpada sobre a minha cabeça! Na real, já estava acesa. Só ganhou alguns watts de potência.

Antes de escutar o “Zii e Zie”, ali e depois com mais calma, em casa, já queria um disco do CASCADURA todo DE Salvador, em contraponto ao Bogary, que foi feito em São Paulo, mas PARA Salvador. Porém o modo articulado apresentado nesse disco de Caetano, com sua banda formada sobre instrumentos identificados como “de rock”, com seu som mais vivo e claro que o “Cê”, supostamente o “disco roqueiro” de sua obra, levou-me a certeza de que teria que enfrentar esse desejo, desapegando-me de muito do que estava comigo em termos de crença e perspectiva, no que diz respeito à minha própria produção. Será que me fiz entender?…

Ao final da “audição”, ele nos perguntou o que havíamos achado. Visivelmente mexidos, elogiamos. andré emendou uma analise técnica mais apurada e lançou seu “Não gostei do som do ‘Cê’…”. Exato! Caetano arregalou os olhos e parece ter achado massa a sinceridade de andré, tanto mais quando ele explicou que o som do “Zii e Zie” era muito superior e a produção, que valorizava as “salas” de cada instrumento, dava a esse disco um som próprio e muito bem acabado. Ele explicou o porquê do nome, “Zii e Zie”, sendo reforçado pelos complementos de Glauber, bem mais interado naquele momento das intenções que ele havia exposto no “Obra em Progresso”.

Terminamos essa com abraços e promessas de breve reencontro. Com o passar dos meses, o “Zii e Zie” foi lançado, trazendo espanto, admiração de muitos e também certa rejeição da parte de quem não o assimilou. Segui ouvindo-o. Entendendo que, nele, Caetano busca tratar da sua territorialidade vigente: o Rio de Janeiro em seus diversos aspectos. Esse olhar, muito simples e objetivo, reforçou a trilha que buscava e que, somado aos outros discos, a alguns livros e filmes, ajuda a compor o mosaico de influências que adornam o Aleluia.

Ainda mais: a forma como o disco foi apresentado, com seus shows de teste no Canecão e o infalível blog “Obra em Progresso”. Não fosse aquela experiência, talvez não tivéssemos o impulso de fazer o mesmo com o nosso novo álbum de estúdio, abrindo o processo para que todos possam saber um pouco mais do caminho que estamos percorrendo. Não fosse assim, talvez eu não estivesse escrevendo essas linhas e você não as estaria lendo. Por isso, tenho que agradecer a Caetano Veloso: “Valeu, tio!”

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CASCADURA, Brasil e Argentina

segunda-feira, 05 julho 2010 - postado por thiagotrad

Já se vão quase três semanas desde que iniciamos o A Ponte e eu estou adorando a forma dinâmica com que o blog tem rolado: a participação de todos tem sido fundamental na construção dessa nova estrada. Provavelmente, vocês já notaram que eu não sou tão adepto da internet quanto o Fábio; eu até curto navegar pelos sites de música, culinária, notícias e afins, mas ainda não tenho nem um Orkut, por exemplo. Nada contra, só não aprendi a lidar com essa linguagem.

Mas quando surgiu a ideia de criarmos o blog, eu logo me animei, acho que estava faltando essa ferramenta para estreitarmos um pouco mais a comunicação entre o CASCADURA e vocês. E o momento era esse, afinal estamos gravando um álbum inédito, numa fase de muitas novidades. A necessidade de um disco novo era angustiante – já não gravávamos há 4 anos – e a largada foi dada!

O Aleluia está em pleno período de produção, músicas inéditas, novas parcerias, e uma busca enlouquecedora em descobrir sonoridades ainda não usadas por nós, além dessa troca de informação, que nos interessa muito. Desde o primeiro texto que Fábio escreveu para o blog, vi que o nível seria altíssimo. E a cada nova curiosidade revelada, gosto mais. Gostei demais do último post – até eu, que convivo direto com Fabão, pirei. Ele sempre tem alguma referência nova para apresentar, o negão saca tudo de Rhythm’n’Blues; dentre tantas outras, acho que essa é a sua maior especialidade. E, pelo que vem rolando até aqui, certamente o Aleluia será um disco regado com muito Rhythm’n’Blues.

Aliás, aproveito esse gancho sobre as influências do CASCADURA para voltar no tempo e contextualizar melhor essa história. Logo que eu entrei na banda, por volta de 2001, percebi que as referências de Fábio eram muitas e iam muito além das tradicionais bandas de rock dos anos 1960 e 70 (Beatles, Stones, The Who, Deep Purple etc.), ou das bandas de southern rock norte-americano (The Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd e cia.). Realmente, os dois primeiros discos do CASCADURA têm muito dessa época, mas não definiam ou encerravam o gosto musical de Fábio. O lance é que, entre um papo e outro, ele sempre citava alguns nomes para mim, de rockabilly e country music a Caetano e Gil. Não que Fabão seja um cara eclético (esse termo é perigoso, rs), mas seu gosto musical é amplo: se tiver uma boa melodia, ele para para ouvir.

Em muitas de nossas conversas, ele mencionava bandas argentinas. Confesso que, naquela época, conhecia pouco do rock dos nossos hermanos, apesar de saber que por lá o rock’n roll faz parte do estilo de vida deles. E essa ligação Brasil-Argentina ganhou força através do convívio com Nestor Madrid, um argentino radicado há muitos anos em Salvador e primeiro produtor dos discos do CASCADURA. Ele sempre falava que a gente teria uma grande aceitação por lá. O fato é que, nesse exato momento, Fábio está conferindo isso de perto, curtindo alguns dias em Buenos Aires.

Tenho certeza de que essa viagem vai mexer com a cabeça dele, talvez algumas músicas novas possam estar sendo compostas por lá. Além do mais, andré t também acaba de chegar de uma viagem por terras portenhas. Eu acredito que o Aleluia não ficará imune a isso. Apesar da eliminação de ambos países na Copa do Mundo, eu acho que Brasil e Argentina vão se encontrar no estúdio t.

Pra acabar com música, uma listinha de bandas argentinas que eu recomendo conferir: Almendra (uma das preferidas de Fábio), Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota e Ratones Paranoicos.

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O Rei do Olhar

terça-feira, 22 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Marcamos às 9 horas. Eu cheguei 9h15, mesma hora que Jô Estrada: andré t nos esperava para começarmos o dia de gravação. Sexta-feira, 18 de junho.

Tínhamos algumas baterias que foram registradas no “esquema teste” e que, de tão boas, acabaram sendo adotadas como oficiais para trabalharmos: deu-se o start no Aleluia!

Sugeri a gravação de um tema bem pesado: então, vamos começar pelo peso… Tive a ideia dessa música a partir de um instrumento em especial: uma baritone guitar.

O que é uma baritone guitar?
Trata-se de uma guitarra barítono, ou seja, uma guitarra mais grave que as normais. Tem seis cordas, seu aspecto é bem similar ao das guitarras convencionais. Mas ao invés de afinada em E (mi), ela é afinada em B (si), três tons e meio abaixo. Tem gente que confunde com a famigerada guitarra de sete cordas ou ainda com guitarras convencionais afinadas em tons mais baixos. Mas uma guitarra assim pode ter sua afinação abaixada até C (dó), no máximo. Aqui estamos falando de mais um semitom… e com segurança (sem as variações/ desafinações que ocorrem com cordas folgadas). A tensão nela é perfeita.

Esses detalhes talvez não façam tanto sentido para quem não é músico. Mas, como disse, foi a partir desse instrumento que me veio a ideia da canção…

andré havia feito uma viagem de passeio à Europa. E quando andré vai a algum lugar, ele precisa, muito, conhecer as lojas de instrumentos musicais da localidade. Tanto faz se estiver em Paris ou Boquira! Ele irá pesquisar se há algum apetrecho de uso musical que ainda não tenha e que precise conhecer… e levar consigo. Sua esposa que o diga.

Antes de ele fazer essa citada viagem, conversamos justamente sobre baritone guitar. Na volta, ele apareceu com uma, modelo Danelectro, que comprou na França… sei lá… Me emprestou por uns dias para que eu conhecesse o instrumento, já que eu nunca havia tocado um. Pimba! Veio o riff!

Depois, percebi que é meio “filho” da linha de baixo daquele sucesso do U2: “New Years Day”. Danelectro baritone guitar + pedal Rat Proco + amplificador Fender Bassman valvulado! Vixe! Riff em C (dó), música em G (sol). Certeiro!

Mostrei a andré e foi essa música que tocamos para Thiago Trad “acertar o som de uma bateria”. Ele apareceu com uma célula rítmica totalmente diferente da que eu havia imaginado, ainda que, devido a nosso entrosamento, desenvolvesse o que chamamos de bridge (ponte) e o refrão de forma muito similar ao que pensava. Mas a condução e a dinâmica da parte A (aquela onde desenvolvemos a historinha das letras) veio com muitas novidades e, ao mesmo tempo, impregnada de referências que curtimos.

Na sexta, fomos completar esse arranjo.
O baixo foi executado por Jô, coisa que ele fez em canções como “Senhor das Moscas”. Sugeri uma marcação com jeito de bolero… É! Be-o-Bó-lê-é-Le-rê-o-Ro! Bolero!

Se ligue: rock e bolero andam juntos, all the time! De “P.S. I Love You”, do 1° disco dos Beatles, a “Mesmo Eu Estando do Outro Lado”, tudo é bolero! O bolero é a grande força rítmica que ocupa o ocidente. Herança africana, muito bem desenvolvida no Caribe a partir de um toque dos cultos yorubanos trazidos pelos escravos dessa etnia (alguns chamam esse toque “tanimobé”, aqui na Bahia também chamado “arrebate”), sua presença no rock deu-se via Rhythm’n Blues dos anos 50, em exemplos como “You Better Move On”, do grande Arthur Alexander (regravada pelos Rolling Stones no começo da carreira; aliás, os Beatles também interpretaram coisas desse cara genial, como “Anna (Go to Him)”, também bolero) e “Stand By Me”, sucesso de Ben E. King.

Não esquecer que isso que chamam de “arrocha” nada mais é que uma leitura própria e peculiar sobre esse mesmo ritmo: bolero! Um exemplo massa que acho é o da música “Shama Lama Ding Dong”, incluída na trilha sonora do filme “Animal House” (em português, “Clube dos Cafajestes”), constante presença nas programações vespertina das TVs, interpretada pelo grupo Otis Day and The Knights.

Reproduzimos o baritone guitar, também executado por Jô Estrada, com a mesma filosofia que usei na demo que registrei no meu celular (é isso mesmo: assim que tenho uma ideia, registro-a de imediato no celular e depois vejo se vale a pena ser trabalhada ou não).

Ainda como reforço e somente para termos como alternativa no momento da mixagem, foram gravadas algumas dobras de guitarra, usando distorção bem convencional, mas num timbre todo especial descolado por andré t: ficou pesadíssimo! Em tempo, conta muito o fato de quem executa e quem grava: Jô Estrada e andré t.

Terminamos o dia de sexta bem satisfeitos, às 16 horas, porquê Jô e andré precisavam ensaiar com Messias, com quem tocam e com o qual farão o show de lançamento do excelente disco da estreia solo do líder da brincando de deus. O show acontecerá dia 30 de junho, na Igreja da Barroquinha (templo que, aliás, tem muito a ver com o projeto desse disco do CASCADURA… depois eu conto). E lá se foram: continuaríamos no sábado.

Sábado, 19 de junho, 9 horas: chegamos ao estúdio t.
Fomos recebidos por um entusiasmado andré t, que desde as 8 horas (!) mexia em um módulo de sintetizador – uma intervenção que a princípio me causou estranheza, confesso, mas que logo foi assimilada, apoiada e aplaudida! Uns arremates de guitarra e só restava gravar a voz.

Parêntese: ainda que saiba sobre o que a música irá falar, o tema, ainda não tenho uma letra completa. Somente o esboço do que virá a ser o texto dessa que já é a primeira música pronta do Aleluia. Sei que a canção tratará de uma analogia entre um ilusionista/ charlatão/ mágico e a mídia. Fala sobre o fato de “o truque do mágico só funciona se a plateia quiser acreditar nele”. Seu título: “O Rei do Olhar”.

P.S.: Depois da gravação de sábado, fomos os três nos recolher e descansar para um compromisso muito importante que teríamos naquela noite e que aponta para o motivo pelo qual Thiago Trad esteve ausente dessas duas sessões: sua união com a sua amada! Agora, Thiago é um homem casado! Tudo de melhor para ele.

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“Entrando” no estúdio

sexta-feira, 18 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Hoje, sexta-feira, entramos no estúdio t para “começar” a gravação do Aleluia, nosso novo disco.

As aspas dizem respeito ao fato de termos dado alguns passos “extraoficiais” rumo à confecção dessa obra, mesmo antes do anúncio do projeto. Já foi comentado, no post passado, que aqui discorreremos sobre tudo que diz respeito ao Aleluia: as referências, as influências, as participações, quem vai trabalhar nele. E, olha, vem assunto por aí…

Começamos a pesquisa já em fevereiro desse ano, mas tenho que confessar que desde o início de 2009 a ideia de um álbum novo, que se contrapusesse a tudo que já havíamos realizado, vinha me atraindo e, de certo modo, consumindo minha concentração.

A pretensão é de que o Aleluia seja realmente diferente em nossa história. E será! Da ideia inicial, fermentada em Salvador e por ela mesma, passamos à pesquisa. Ouvimos de tudo, vimos de tudo. Tenho lido de quase tudo. Mas, ultimamente, o velho interesse por história (especialmente século XVI) vem sendo novamente alimentado e de modo natural (vou passar algumas indicações aqui também).

Não temos, ou não tínhamos, nenhuma canção definitivamente pronta. Se uma tem harmonia e melodia, falta-lhe uma letra, um texto digno. Outra, que é um texto interessante, traz incertezas em seus trechos musicais. Preocupados? Isso é o mais interessante! A experiência anterior nos dotou de confiança suficiente para desenvolvermos o caminho ou deixar que ele nos desenvolva em torno das canções.

Mas, voltando… Fizemos alguns testes de estúdio. Teste de áudio, minúcias que somente andré t pode nos esclarecer (ele o fará), procurando principalmente som de bateria (escolhemos 3 kits tradicionais e 1 menos ortodoxo, em novo post deixemos Trad falar sobre sua matéria), mas também verificando alguns métodos que não usamos antes.

A primeira coisa que ficou definida é que trabalharemos canção por canção. Pra quem não é familiarizado com a rotina de uma gravação de disco vou tentar explicar: no estúdio de gravação, tempo é dinheiro… Literalmente! Você paga pela hora de uso. Quase um taxímetro. Assim, para melhor fazer valer o tempo, monta-se determinado kit de bateria e grava-se todas as músicas com o máximo de aproveitamento possível (olha lá, o tempo tá correndo!). Depois desmonta-se esse circo e vamos às guitarras ou ao baixo e as vozes, os teclados e assim por diante… Ou quase.

Nosso plano foge completamente disso. Queremos que cada música repercuta seu som. Mesmo! Ainda que andré t seja um mestre de grande habilidade no estúdio, que consiga fazer uma mesma bateria soar como diversas, ainda assim nos impusemos a obrigatoriedade de trabalhar música por música.

Toma mais tempo, dá mais trabalho… No entanto, a dedicação a cada faixa será muito especial. Cada uma poderá mostrar-se em sua personalidade, com seus detalhes próprios.

Mas, bem… Naqueles testes de que falei, que realizamos no estúdio, durante a pesquisa, Thiago deixou algumas baterias gravadas que ficaram muito boas e que, acho, vamos usá-las hoje para começarmos o disco. Temos até o registro desses testes em vídeo e de repente conseguimos postar algo aqui em breve. Pois será sobre essas baterias que vamos trabalhar hoje. Vamos lá…

P.S.: Bem, e para um disco que se chamará Aleluia, não será nada mal começarmos numa sexta-feira. ;)

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