CASCADURA, Brasil e Argentina

segunda-feira, 05 julho 2010 - postado por thiagotrad

Já se vão quase três semanas desde que iniciamos o A Ponte e eu estou adorando a forma dinâmica com que o blog tem rolado: a participação de todos tem sido fundamental na construção dessa nova estrada. Provavelmente, vocês já notaram que eu não sou tão adepto da internet quanto o Fábio; eu até curto navegar pelos sites de música, culinária, notícias e afins, mas ainda não tenho nem um Orkut, por exemplo. Nada contra, só não aprendi a lidar com essa linguagem.

Mas quando surgiu a ideia de criarmos o blog, eu logo me animei, acho que estava faltando essa ferramenta para estreitarmos um pouco mais a comunicação entre o CASCADURA e vocês. E o momento era esse, afinal estamos gravando um álbum inédito, numa fase de muitas novidades. A necessidade de um disco novo era angustiante – já não gravávamos há 4 anos – e a largada foi dada!

O Aleluia está em pleno período de produção, músicas inéditas, novas parcerias, e uma busca enlouquecedora em descobrir sonoridades ainda não usadas por nós, além dessa troca de informação, que nos interessa muito. Desde o primeiro texto que Fábio escreveu para o blog, vi que o nível seria altíssimo. E a cada nova curiosidade revelada, gosto mais. Gostei demais do último post – até eu, que convivo direto com Fabão, pirei. Ele sempre tem alguma referência nova para apresentar, o negão saca tudo de Rhythm’n Blues; dentre tantas outras, acho que essa é a sua maior especialidade. E, pelo que vem rolando até aqui, certamente o Aleluia será um disco regado com muito Rhythm’n Blues.

Aliás, aproveito esse gancho sobre as influências do CASCADURA para voltar no tempo e contextualizar melhor essa história. Logo que eu entrei na banda, por volta de 2001, percebi que as referências de Fábio eram muitas e iam muito além das tradicionais bandas de rock dos anos 1960 e 70 (Beatles, Stones, The Who, Deep Purple etc.), ou das bandas de southern rock norte-americano (The Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd e cia.). Realmente, os dois primeiros discos do CASCADURA têm muito dessa época, mas não definiam ou encerravam o gosto musical de Fábio. O lance é que, entre um papo e outro, ele sempre citava alguns nomes para mim, de rockabilly e country music a Caetano e Gil. Não que Fabão seja um cara eclético (esse termo é perigoso, rs), mas seu gosto musical é amplo: se tiver uma boa melodia, ele para para ouvir.

Em muitas de nossas conversas, ele mencionava bandas argentinas. Confesso que, naquela época, conhecia pouco do rock dos nossos hermanos, apesar de saber que por lá o rock’n roll faz parte do estilo de vida deles. E essa ligação Brasil-Argentina ganhou força através do convívio com Nestor Madrid, um argentino radicado há muitos anos em Salvador e primeiro produtor dos discos do CASCADURA. Ele sempre falava que a gente teria uma grande aceitação por lá. O fato é que, nesse exato momento, Fábio está conferindo isso de perto, curtindo alguns dias em Buenos Aires.

Tenho certeza de que essa viagem vai mexer com a cabeça dele, talvez algumas músicas novas possam estar sendo compostas por lá. Além do mais, andré t também acaba de chegar de uma viagem por terras portenhas. Eu acredito que o Aleluia não ficará imune a isso. Apesar da eliminação de ambos países na Copa do Mundo, eu acho que Brasil e Argentina vão se encontrar no estúdio t.

Pra acabar com música, uma listinha de bandas argentinas que eu recomendo conferir: Almendra (uma das preferidas de Fábio), Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota e Ratones Paranoicos.

Bookmark and Share

O Rei do Olhar

terça-feira, 22 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Marcamos às 9 horas. Eu cheguei 9h15, mesma hora que Jô Estrada: andré t nos esperava para começarmos o dia de gravação. Sexta-feira, 18 de junho.

Tínhamos algumas baterias que foram registradas no “esquema teste” e que, de tão boas, acabaram sendo adotadas como oficiais para trabalharmos: deu-se o start no Aleluia!

Sugeri a gravação de um tema bem pesado: então, vamos começar pelo peso… Tive a ideia dessa música a partir de um instrumento em especial: uma baritone guitar.

O que é uma baritone guitar?
Trata-se de uma guitarra barítono, ou seja, uma guitarra mais grave que as normais. Tem seis cordas, seu aspecto é bem similar ao das guitarras convencionais. Mas ao invés de afinada em E (mi), ela é afinada em B (si), três tons e meio abaixo. Tem gente que confunde com a famigerada guitarra de sete cordas ou ainda com guitarras convencionais afinadas em tons mais baixos. Mas uma guitarra assim pode ter sua afinação abaixada até C (dó), no máximo. Aqui estamos falando de mais um semitom… e com segurança (sem as variações/ desafinações que ocorrem com cordas folgadas). A tensão nela é perfeita.

Esses detalhes talvez não façam tanto sentido para quem não é músico. Mas, como disse, foi a partir desse instrumento que me veio a ideia da canção…

andré havia feito uma viagem de passeio à Europa. E quando andré vai a algum lugar, ele precisa, muito, conhecer as lojas de instrumentos musicais da localidade. Tanto faz se estiver em Paris ou Boquira! Ele irá pesquisar se há algum apetrecho de uso musical que ainda não tenha e que precise conhecer… e levar consigo. Sua esposa que o diga.

Antes de ele fazer essa citada viagem, conversamos justamente sobre baritone guitar. Na volta, ele apareceu com uma, modelo Danelectro, que comprou na França… sei lá… Me emprestou por uns dias para que eu conhecesse o instrumento, já que eu nunca havia tocado um. Pimba! Veio o riff!

Depois, percebi que é meio “filho” da linha de baixo daquele sucesso do U2: “New Years Day”. Danelectro baritone guitar + pedal Rat Proco + amplificador Fender Bassman valvulado! Vixe! Riff em C (dó), música em G (sol). Certeiro!

Mostrei a andré e foi essa música que tocamos para Thiago Trad “acertar o som de uma bateria”. Ele apareceu com uma célula rítmica totalmente diferente da que eu havia imaginado, ainda que, devido a nosso entrosamento, desenvolvesse o que chamamos de bridge (ponte) e o refrão de forma muito similar ao que pensava. Mas a condução e a dinâmica da parte A (aquela onde desenvolvemos a historinha das letras) veio com muitas novidades e, ao mesmo tempo, impregnada de referências que curtimos.

Na sexta, fomos completar esse arranjo.
O baixo foi executado por Jô, coisa que ele fez em canções como “Senhor das Moscas”. Sugeri uma marcação com jeito de bolero… É! Be-o-Bó-lê-é-Le-rê-o-Ro! Bolero!

Se ligue: rock e bolero andam juntos, all the time! De “P.S. I Love You”, do 1° disco dos Beatles, a “Mesmo Eu Estando do Outro Lado”, tudo é bolero! O bolero é a grande força rítmica que ocupa o ocidente. Herança africana, muito bem desenvolvida no Caribe a partir de um toque dos cultos yorubanos trazidos pelos escravos dessa etnia (alguns chamam esse toque “tanimobé”, aqui na Bahia também chamado “arrebate”), sua presença no rock deu-se via Rhythm’n Blues dos anos 50, em exemplos como “You Better Move On”, do grande Arthur Alexander (regravada pelos Rolling Stones no começo da carreira; aliás, os Beatles também interpretaram coisas desse cara genial, como “Anna (Go to Him)”, também bolero) e “Stand By Me”, sucesso de Ben E. King.

Não esquecer que isso que chamam de “arrocha” nada mais é que uma leitura própria e peculiar sobre esse mesmo ritmo: bolero! Um exemplo massa que acho é o da música “Shama Lama Ding Dong”, incluída na trilha sonora do filme “Animal House” (em português, “Clube dos Cafajestes”), constante presença nas programações vespertina das TVs, interpretada pelo grupo Otis Day and The Knights.

Reproduzimos o baritone guitar, também executado por Jô Estrada, com a mesma filosofia que usei na demo que registrei no meu celular (é isso mesmo: assim que tenho uma ideia, registro-a de imediato no celular e depois vejo se vale a pena ser trabalhada ou não).

Ainda como reforço e somente para termos como alternativa no momento da mixagem, foram gravadas algumas dobras de guitarra, usando distorção bem convencional, mas num timbre todo especial descolado por andré t: ficou pesadíssimo! Em tempo, conta muito o fato de quem executa e quem grava: Jô Estrada e andré t.

Terminamos o dia de sexta bem satisfeitos, às 16 horas, porquê Jô e andré precisavam ensaiar com Messias, com quem tocam e com o qual farão o show de lançamento do excelente disco da estreia solo do líder da brincando de deus. O show acontecerá dia 30 de junho, na Igreja da Barroquinha (templo que, aliás, tem muito a ver com o projeto desse disco do CASCADURA… depois eu conto). E lá se foram: continuaríamos no sábado.

Sábado, 19 de junho, 9 horas: chegamos ao estúdio t.
Fomos recebidos por um entusiasmado andré t, que desde as 8 horas (!) mexia em um módulo de sintetizador – uma intervenção que a princípio me causou estranheza, confesso, mas que logo foi assimilada, apoiada e aplaudida! Uns arremates de guitarra e só restava gravar a voz.

Parêntese: ainda que saiba sobre o que a música irá falar, o tema, ainda não tenho uma letra completa. Somente o esboço do que virá a ser o texto dessa que já é a primeira música pronta do Aleluia. Sei que a canção tratará de uma analogia entre um ilusionista/ charlatão/ mágico e a mídia. Fala sobre o fato de “o truque do mágico só funciona se a plateia quiser acreditar nele”. Seu título: “O Rei do Olhar”.

P.S.: Depois da gravação de sábado, fomos os três nos recolher e descansar para um compromisso muito importante que teríamos naquela noite e que aponta para o motivo pelo qual Thiago Trad esteve ausente dessas duas sessões: sua união com a sua amada! Agora, Thiago é um homem casado! Tudo de melhor para ele.

Bookmark and Share

“Entrando” no estúdio

sexta-feira, 18 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Hoje, sexta-feira, entramos no estúdio t para “começar” a gravação do Aleluia, nosso novo disco.

As aspas dizem respeito ao fato de termos dado alguns passos “extraoficiais” rumo à confecção dessa obra, mesmo antes do anúncio do projeto. Já foi comentado, no post passado, que aqui discorreremos sobre tudo que diz respeito ao Aleluia: as referências, as influências, as participações, quem vai trabalhar nele. E, olha, vem assunto por aí…

Começamos a pesquisa já em fevereiro desse ano, mas tenho que confessar que desde o início de 2009 a ideia de um álbum novo, que se contrapusesse a tudo que já havíamos realizado, vinha me atraindo e, de certo modo, consumindo minha concentração.

A pretensão é de que o Aleluia seja realmente diferente em nossa história. E será! Da ideia inicial, fermentada em Salvador e por ela mesma, passamos à pesquisa. Ouvimos de tudo, vimos de tudo. Tenho lido de quase tudo. Mas, ultimamente, o velho interesse por história (especialmente século XVI) vem sendo novamente alimentado e de modo natural (vou passar algumas indicações aqui também).

Não temos, ou não tínhamos, nenhuma canção definitivamente pronta. Se uma tem harmonia e melodia, falta-lhe uma letra, um texto digno. Outra, que é um texto interessante, traz incertezas em seus trechos musicais. Preocupados? Isso é o mais interessante! A experiência anterior nos dotou de confiança suficiente para desenvolvermos o caminho ou deixar que ele nos desenvolva em torno das canções.

Mas, voltando… Fizemos alguns testes de estúdio. Teste de áudio, minúcias que somente andré t pode nos esclarecer (ele o fará), procurando principalmente som de bateria (escolhemos 3 kits tradicionais e 1 menos ortodoxo, em novo post deixemos Trad falar sobre sua matéria), mas também verificando alguns métodos que não usamos antes.

A primeira coisa que ficou definida é que trabalharemos canção por canção. Pra quem não é familiarizado com a rotina de uma gravação de disco vou tentar explicar: no estúdio de gravação, tempo é dinheiro… Literalmente! Você paga pela hora de uso. Quase um taxímetro. Assim, para melhor fazer valer o tempo, monta-se determinado kit de bateria e grava-se todas as músicas com o máximo de aproveitamento possível (olha lá, o tempo tá correndo!). Depois desmonta-se esse circo e vamos às guitarras ou ao baixo e as vozes, os teclados e assim por diante… Ou quase.

Nosso plano foge completamente disso. Queremos que cada música repercuta seu som. Mesmo! Ainda que andré t seja um mestre de grande habilidade no estúdio, que consiga fazer uma mesma bateria soar como diversas, ainda assim nos impusemos a obrigatoriedade de trabalhar música por música.

Toma mais tempo, dá mais trabalho… No entanto, a dedicação a cada faixa será muito especial. Cada uma poderá mostrar-se em sua personalidade, com seus detalhes próprios.

Mas, bem… Naqueles testes de que falei, que realizamos no estúdio, durante a pesquisa, Thiago deixou algumas baterias gravadas que ficaram muito boas e que, acho, vamos usá-las hoje para começarmos o disco. Temos até o registro desses testes em vídeo e de repente conseguimos postar algo aqui em breve. Pois será sobre essas baterias que vamos trabalhar hoje. Vamos lá…

P.S.: Bem, e para um disco que se chamará Aleluia, não será nada mal começarmos numa sexta-feira. ;)

Bookmark and Share
  • Links

  • Arquivos