CASCADURA + produtor andré t

sexta-feira, 08 outubro 2010 - postado por andré t

Há bastante tempo temos conversado sobre o próximo disco do CASCADURA e o que ele deveria ser ou não ser. Curioso, pois nunca passamos tanto tempo desenvolvendo conceitos.

Um pouco da nossa história (CASCADURA + produtor andré t):
Começamos a trabalhar juntos quase dez anos atrás, com um EP que se transformou no disco “Vivendo em Grande Estilo” (lançado em 2004). Entramos no estúdio e fizemos o álbum: simples assim!

Alguns anos depois, com a banda reduzida a Fábio e Thiago, chamamos Jô Estrada para a função de coprodutor (acumulada à de guitarrista) e gravamos o “Bogary”. Nesse disco, tivemos um tempo de preparação de conceitos: dois ou três cafés na casa de Jô (onde lutávamos para convencer Fábio a deixar “Adeus, Solidão” no disco), divididos entre inúmeras discussões sobre a música dos Beatles, Beach Boys, os artistas da Atlantic e os causos do nosso grande amigo Alvaro Tattoo!

No estúdio, o trabalho foi muito simples: Fábio tocava a música no violão, nós conversávamos um pouco sobre o que fazer (bem pouco mesmo) e Thiago sentava na bateria, muitas vezes sem nem saber a estrutura completa da música! E o trabalho fluiu…

Resolvemos continuar com esse grupo para o Aleluia; além de trabalharmos bem juntos, ao ponto de muitas vezes não precisar falar absolutamente nada e todos entenderem, somos muito amigos fora do trabalho e conversamos sobre tudo.

Desta vez, as coisas estão um tanto diferentes. Uma coisa aconteceu paralela e coincidentemente a todos: uma “redescoberta” da nossa casa. Da minha parte, passei pouco mais de dois meses entre São Paulo e Rio no ano passado, gravando e mixando o disco “Chiaroscuro”, de Pitty, e, ao mesmo tempo que foi um trabalho recompensador, entre amigos muito queridos, não via a hora de voltar para casa, e ouvir o sotaque que é peculiar a Salvador.

Essa “redescoberta” fez muito desse conceito do Aleluia. Que tal olhar para a cidade em que vivemos e reinterpretar nossa música e nossa maneira de apresentá-la? Que tal quebrar alguns paradigmas e mudar quase que completamente nosso modus operandi? Que tal não fazer um “Bogary 2, A Volta”? Que tal fazer algo que nos estimule e nos desafie, para que possamos fazer algo melhor do que tudo que já fizemos antes?…

Ao mesmo tempo que olhamos para a nossa cidade e para as nossas raízes, olhamos também para as raízes desse tal de rock’n'roll, um certo rhythm’n'blues que veio justamente dos filhos e netos dos escravos (alguma coincidência aqui?). Voltamos a falar da Atlantic (ouçam Atlantic Rhythm’n'Blues, coletânea fantástica), como conversei com Fábio num dos nossos primeiros encontros, onde descobrimos nosso amor mútuo pela música de Ray Charles (aliás, eu poderia passar horas falando só dele), Aretha Franklin, Otis Redding etc.

Mas e o disco? Simplesmente estamos dando um tratamento único para cada música. O normal e mais rápido numa gravação, como Fábio já explicou, é montar a estrutura e fazer todas as baterias e baixos juntos, numa só sentada! No Aleluia, estamos fazendo questão de trabalhar cada música de uma maneira particular, muitas vezes com instrumentação muito diferente entre uma e outra.

Thiago, por exemplo, está experimentando gravar com vários kits de bateria diferentes, com afinações e técnicas de gravação que nunca tentamos antes. E não é que ele está tocando melhor do que nunca? Acho que esse desafio, entre os quais tocar algumas coisas de uma maneira muito suave, o está fazendo buscar qualidades que ele nem sabia que tinha! Além do mais, agora vemos nosso baterista tocando percussão erudita. Ao mesmo tempo, ele, um paulistano-soteropolitano, é um dos primeiros a falar do tal do sotaque de Salvador.

Num próximo texto, falarei um pouco mais sobre o processo de gravação e suas peculiaridades. Agora estou ansioso pela próxima sessão, onde deveremos ter uma visita ilustríssima!

Ah, Ray Charles…
Trinta anos atrás, quando começava a tocar piano, chegava da escola e procurava algo diferente para ouvir, dentre os discos do meu pai. Descobri um disco duplo com uma capa escura com um perfil de uma pessoa. Era um disco ao vivo do Ray Charles. Pronto! Depois disso, todos os dias chegava correndo em casa, punha o disco no “três-em-um” e tentava tocar que nem ele. Ainda não consegui…

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Vivendo no Aleluia

terça-feira, 14 setembro 2010 - postado por fabiocascadura

Já falei sobre a Vivendo do Ócio aqui antes. Comentei sobre a amizade que existe entre nós e sobre minha sincera adesão à proposta da banda dentro do rock, sobretudo no panorama que temos no Brasil.

Vou seguir:
A Vivendo do Ócio propõe rock de verdade – não é banda Ki-Suco, toda colorida. E rock bom assim é coisa da Bahia! E a Bahia deve se orgulhar deles! E outros devem respeitar a Bahia por isso… Assim, guardei uma música buscando a interferência do som deles.

Eu escrevi uma canção tendo como tema o famoso dedo-duro. Tem em todo lugar: pra dar com a língua nos dentes, pra difamar e caguetar (conhece esse verbo? Vem do substantivo alcaguete – delator). Estou falando do fofoqueiro. Quem não conhece um grande fofoqueiro? Quem não é fofoqueiro que atire a primeira pedra. Na Bahia, então… Quase uma instituição onipresente. Jorge Amado, João Ubaldo, Gregório de Mattos… Todos trataram do assunto, que por sinal é riquíssimo e pode inspirar comédia e tragédia.

Veja bem: não estou falando do olho-gordo, o que deseja o que não lhe pertence (ainda que um pecado possa estar impelindo o outro), para esse tema teremos um espaço específico no Aleluia. Eu falo do próprio: o delator!

Veio um riff, uma insinuação de soul music, rhythm’n’blues. Pusemos tudo aos cuidados do rock. “O Delator” é uma música assim: muito pop! E Lady Gaga é o fim do mundo, música pop vem dos Beatles, dos Beach Boys…

Eu tive a ideia de contar com a voz de nosso amigo Jajá Cardoso, da Vivendo do Ócio. O timbre do Jajá é muito peculiar. Você escuta e imediatamente identifica que é ele quem canta. Não sei como, mas ele canta numa região de “médios” que consegue se sobressair em qualquer volume, sob qualquer mixagem. Além disso, ele sabe cantar.

Por coincidência, Vivendo do Ócio estava de passagem pela Bahia. Fizeram um belo show na capital, no Pelourinho (Largo Tereza Batista), e uma apresentação, que soube, memorável num festival em Morro de São Paulo. Seria uma oportunidade e tanto para termos a presença dele gravando a sua voz… Porém, não o tínhamos convidado ainda e nem tínhamos gravado a base da dita canção.

Perguntei a andré t o que faríamos. Ele:
“Simples! Gravamos a voz dele antes da base da música!”… Simples?

Ele lembrou que durante o período de pré-produção e testes do Aleluia, havíamos registrado um beat de bateria para essa música. Foi num esquema teste mesmo e, escutando depois de um certo tempo, percebemos que estava um pouco lento. andré propôs que acelerássemos esse andamento. Ok… Como?

Ele mexeu em seu equipamento, fez umas mágicas tecnológicas lá e, tal qual seu cargo propõe, produziu uma bateria para servir de referência na gravação da voz. Mas entenda: não se trata de uma bateria mecânica, eletrônica, tocada pelo computador. É uma bateria de verdade, que foi executada por Thiago Trad, que somente teve de ser “acelerada”. Você pode pensar: “Ah, com computador, qualquer um faz isso”… Em algum tempo, te mostrarei a dita bateria e farei a proposta: “Faça uma igual…”.

Bom, tínhamos a bateria… Restava saber se teríamos o nosso cantor.

Aí, você, que não é menino nem nada, pensa: “Poxa! Se o Fábio Cascadura se deu ao trabalho de chegar até aqui com esse texto, é porque eles conseguiram o Jajá. Lógico!”.

Ok… Conseguimos, sim.
O convidei por telefone e ele, sangue bom que é, aceitou numa boa. Marquei com andré para a sexta-feira (as sextas-feiras estão definindo muita coisa nesse disco. Não à toa, ele se chama Aleluia!). Seria um dia após o show da banda do Jajá. Gravar num dia seguinte a um show não é brincadeira. Mas aí é que tá: existem os artistas de verdade e os frescos maquiados… Jajá mostrou que é artista e sabe do ofício de cantar.

Nosso assistente de produção, Jorginho Falcão, foi buscá-lo, e eles chegaram ao estúdio t pontualmente no horário combinado. Mostramos a ele a demo que havíamos feito no andamento original. Depois, mostramos com o andamento alterado e ele abriu um sorriso dizendo: “É assim que vai ficar, né?!”. É!

Ainda tínhamos que gravar uma guitarra e um baixo-guia para essa “base”, ou playback, como queiram. andré, magistralmente, concluiu essa tarefa. Vá lá: não foi tão magistralmente, mas na velocidade que ele gravou os dois instrumentos podia até ter deixado mais alguns errinhos que estava plenamente perdoado.

Fomos para a sala de gravações: eu e Jajá. Cantamos juntos, numa experiência que raramente tenho. Passamos uma, duas, três vezes. andré observou algumas pronúncias inadequadas e algumas divisões a serem corrigidas. Foi.

Depois de uns seis takes, as vozes para a canção estavam prontas! Ouvimos todos: andré, eu, Jajá, Thiago Trad (que chegou bem no começo da gravação propriamente dita) e Jorginho Falcão.

Agora que temos a voz pronta, vamos partir para a construção do arranjo. Um caminho inverso. Nunca fiz isso, nunca vi ninguém fazer. Acho que vou adorar. Quem sabe a bateria, que geralmente é gravada primeiro, não fica para a última sessão? Nos faltará mixar antes da gravação… Será? Hahahaha!!!

Bem, mas além de sua voz fantástica e sua energia incrível, Jajá nos deixou mais duas coisas: a prova de que ele é um cara humilde e pronto para aprender – nos ensinando muito nesse seu modo tranquilo de ser, numa trilha onde fama e grana são consequência de um trabalho bem feito, como o que a Vivendo do Ócio faz – e a impressão de que já não é mais o moleque que cantava nas matinês da Boomerangue: Jajá é gente grande.

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Stomp (Música de Trabalho)

terça-feira, 03 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Um vídeo sobre a experiência com stomp, no Café Teatro Sitorne.
Participaram: eu e Thiago Trad (baterista), nós dois membros do CASCADURA, andré t (produtor do disco), Jô Estrada (coprodutor), Mark Mesquita (baterista d’Os Irmãos da Bailarina e assistente do estúdio t) e Paulinho Oliveira (ex-CASCADURA e, hoje, diretor do teatro).

Leia mais sobre esta gravação aqui.

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Música de Trabalho

segunda-feira, 26 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Uma nova experiência nasceu da nossa reunião, numa segunda-feira à noite, no Teatro Sitorne. Faz um tempo, durante os testes de bateria, antes da gravação propriamente dita, eu havia mostrado a andré t um trecho melódico que me ocorreu em uma tarde, diante de uma vitrine num shopping center de Salvador, enquanto esperava minha amada. Era um trecho de 16 compassos de blues ou, se preferir, encharcado de “blue notes”. A ideia me agradava, ainda que eu não tenha a menor pretensão em gravar um blues, nem falso, muito menos autêntico – deixo essa tarefa para os que dele realmente são. Mas mostrei a melodia a andré e ele também curtiu.

Contei a ele do excelente documentário/show a que assisti certa vez, quando trabalhava vendendo discos numa loja aqui de Salvador. Tratava-se do DVD “Down From The Mountain”, com artistas interpretando ao vivo a trilha sonora do aclamado filme “O Brother, Where Art Thou?” (com título em português “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”), dos Irmãos Cohen. Nele, o grupo The Fairfield Four (curiosamente um quinteto, a despeito do “quatro” no nome) reproduz uma canção chamada “Po’ Lazarus”. Esse grupo nasceu dentro do ambiente da música Gospel do Tennessee (EUA) e está até hoje na ativa, desde 1921 (!).

“Po’ Lazarus” é uma canção tradicional, de tema bíblico, e por eles executada no esquema stomp (com o bater dos pés sobre o tablado do palco) e palmas, imitando a sensação gerada pelo evento daquilo que os norte-americanos denominam “work song” – música de trabalho. Em geral, estamos acostumados a ouvir o gospel americano (o gospel de verdade, não esse treco que embala o polpudo mercado de música evangélica atualmente e de péssimo gosto estético/harmônico/melódico. A mensagem pode ser a mais bonita, mas a música fica em décimo plano) com acompanhamento de coral (sempre de efusivas possibilidades) e set instrumental guitarra-baixo-bateria-órgão hammond B3 (a base do que seria utilizado na instrumentação do blues elétrico, do jazz e do rock). Na “work song”, a cadência dos versos ritmava o trabalho nas lavouras, na construção de estradas e ferrovias, EUA afora, no correr do século XIX. Também nesse contexto, estão as mais profundas raízes da música norte-americana e, por consequência, muito do que chamamos universalmente de Música Pop.

Baseados nessa história de apenas o bater dos pés sobre um assoalho de madeira acompanhar o cantor, partimos para a tentativa de gerar uma base convincente para essa ideia. Falamos com a direção da Escola de Artes Sitorne, que gentilmente nos cedeu um horário para que gravássemos na sala do seu teatro. Chegamos na segunda-feira à noite: eu, Jô Estrada e Thiago Trad, antes, e encontramos com o amigo Paulinho Oliveira, ex-CASCADURA, que hoje trabalha lá mesmo. Depois, vieram nosso andré t e seu assistente Mark Mesquita.

andré dispôs seus microfones, montou seu set up, subimos ao tablado e testamos o som. Uns poucos ajustes e ele disse: “Podemos começar!”. Esse grupo de seis pessoas passou a circular pelo palco do teatro buscando o espaço onde o som ficaria melhor: confesso que esse foi o detalhe mais demorado de todo o processo. Mas, enfim, achamos um lugar no fundo do tablado onde a madeira parece ter sido ajustada para tal finalidade. Vamos gravar!

Pausa: bem, não tenho impressora em casa, assim, gravei um esboço da letra para essa música em um pen drive, onde estavam outras que pretendo aproveitar nesse processo do álbum. Não encontrei um lugar que pudesse imprimir pelo caminho e pensei: “Estou indo a uma escola! Lá tem impressora!”. Chegando lá, pus a mão no bolso para pedir a alguém para imprimir o bendito esboço e o pen drive não estava! No trajeto entre casa e escola, ele deve ter caído… Lamentei, mas seguimos sem letra mesmo. Afinal, o que iria valer, se iria realmente valer, eram os stomps e as palmas… Acaba a pausa…

Cantarolei a melodia num andamento que imaginava ser o mais natural. Marcamos com os pés o ritmo. Tentamos uma sequência de uma batida de pé a cada compasso. Depois, duas batidas, alternadas no segundo e no quarto tempo. Com palmas, sem palmas… Em vinte minutos, já tínhamos quatro ou cinco takes que nos deixaram satisfeitos.

andré t pôs os fones e ficou escutando… “Do caralho! Sonzão! Por mim, fica esse, como está!”. Ouvimos todos e compartilhamos da opinião de andré. Primeiro Thiago, depois Jô, assim por diante, ouvimos todos: eu, Paulinho, Mark… E nos cumprimentamos em saudação ao sucesso de algo que parecia ser mais complexo executar do que realmente foi.

Torno a chamar a atenção para o fato de que queremos apenas usar a alegoria desenvolvida do mundo do espetáculo americano, desde o começo do século XX, para contextualizá-lo à nossa necessidade de emoldurar uma obra atual. Não queremos ser grupo de blues, nem “macaquiar” coisa de gringo! Muito pelo contrário; a ideia é dar um novo direcionamento àquilo que já sabemos, conhecemos: reciclar!

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O Rei do Olhar

terça-feira, 22 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Marcamos às 9 horas. Eu cheguei 9h15, mesma hora que Jô Estrada: andré t nos esperava para começarmos o dia de gravação. Sexta-feira, 18 de junho.

Tínhamos algumas baterias que foram registradas no “esquema teste” e que, de tão boas, acabaram sendo adotadas como oficiais para trabalharmos: deu-se o start no Aleluia!

Sugeri a gravação de um tema bem pesado: então, vamos começar pelo peso… Tive a ideia dessa música a partir de um instrumento em especial: uma baritone guitar.

O que é uma baritone guitar?
Trata-se de uma guitarra barítono, ou seja, uma guitarra mais grave que as normais. Tem seis cordas, seu aspecto é bem similar ao das guitarras convencionais. Mas ao invés de afinada em E (mi), ela é afinada em B (si), três tons e meio abaixo. Tem gente que confunde com a famigerada guitarra de sete cordas ou ainda com guitarras convencionais afinadas em tons mais baixos. Mas uma guitarra assim pode ter sua afinação abaixada até C (dó), no máximo. Aqui estamos falando de mais um semitom… e com segurança (sem as variações/ desafinações que ocorrem com cordas folgadas). A tensão nela é perfeita.

Esses detalhes talvez não façam tanto sentido para quem não é músico. Mas, como disse, foi a partir desse instrumento que me veio a ideia da canção…

andré havia feito uma viagem de passeio à Europa. E quando andré vai a algum lugar, ele precisa, muito, conhecer as lojas de instrumentos musicais da localidade. Tanto faz se estiver em Paris ou Boquira! Ele irá pesquisar se há algum apetrecho de uso musical que ainda não tenha e que precise conhecer… e levar consigo. Sua esposa que o diga.

Antes de ele fazer essa citada viagem, conversamos justamente sobre baritone guitar. Na volta, ele apareceu com uma, modelo Danelectro, que comprou na França… sei lá… Me emprestou por uns dias para que eu conhecesse o instrumento, já que eu nunca havia tocado um. Pimba! Veio o riff!

Depois, percebi que é meio “filho” da linha de baixo daquele sucesso do U2: “New Years Day”. Danelectro baritone guitar + pedal Rat Proco + amplificador Fender Bassman valvulado! Vixe! Riff em C (dó), música em G (sol). Certeiro!

Mostrei a andré e foi essa música que tocamos para Thiago Trad “acertar o som de uma bateria”. Ele apareceu com uma célula rítmica totalmente diferente da que eu havia imaginado, ainda que, devido a nosso entrosamento, desenvolvesse o que chamamos de bridge (ponte) e o refrão de forma muito similar ao que pensava. Mas a condução e a dinâmica da parte A (aquela onde desenvolvemos a historinha das letras) veio com muitas novidades e, ao mesmo tempo, impregnada de referências que curtimos.

Na sexta, fomos completar esse arranjo.
O baixo foi executado por Jô, coisa que ele fez em canções como “Senhor das Moscas”. Sugeri uma marcação com jeito de bolero… É! Be-o-Bó-lê-é-Le-rê-o-Ro! Bolero!

Se ligue: rock e bolero andam juntos, all the time! De “P.S. I Love You”, do 1° disco dos Beatles, a “Mesmo Eu Estando do Outro Lado”, tudo é bolero! O bolero é a grande força rítmica que ocupa o ocidente. Herança africana, muito bem desenvolvida no Caribe a partir de um toque dos cultos yorubanos trazidos pelos escravos dessa etnia (alguns chamam esse toque “tanimobé”, aqui na Bahia também chamado “arrebate”), sua presença no rock deu-se via Rhythm’n Blues dos anos 50, em exemplos como “You Better Move On”, do grande Arthur Alexander (regravada pelos Rolling Stones no começo da carreira; aliás, os Beatles também interpretaram coisas desse cara genial, como “Anna (Go to Him)”, também bolero) e “Stand By Me”, sucesso de Ben E. King.

Não esquecer que isso que chamam de “arrocha” nada mais é que uma leitura própria e peculiar sobre esse mesmo ritmo: bolero! Um exemplo massa que acho é o da música “Shama Lama Ding Dong”, incluída na trilha sonora do filme “Animal House” (em português, “Clube dos Cafajestes”), constante presença nas programações vespertina das TVs, interpretada pelo grupo Otis Day and The Knights.

Reproduzimos o baritone guitar, também executado por Jô Estrada, com a mesma filosofia que usei na demo que registrei no meu celular (é isso mesmo: assim que tenho uma ideia, registro-a de imediato no celular e depois vejo se vale a pena ser trabalhada ou não).

Ainda como reforço e somente para termos como alternativa no momento da mixagem, foram gravadas algumas dobras de guitarra, usando distorção bem convencional, mas num timbre todo especial descolado por andré t: ficou pesadíssimo! Em tempo, conta muito o fato de quem executa e quem grava: Jô Estrada e andré t.

Terminamos o dia de sexta bem satisfeitos, às 16 horas, porquê Jô e andré precisavam ensaiar com Messias, com quem tocam e com o qual farão o show de lançamento do excelente disco da estreia solo do líder da brincando de deus. O show acontecerá dia 30 de junho, na Igreja da Barroquinha (templo que, aliás, tem muito a ver com o projeto desse disco do CASCADURA… depois eu conto). E lá se foram: continuaríamos no sábado.

Sábado, 19 de junho, 9 horas: chegamos ao estúdio t.
Fomos recebidos por um entusiasmado andré t, que desde as 8 horas (!) mexia em um módulo de sintetizador – uma intervenção que a princípio me causou estranheza, confesso, mas que logo foi assimilada, apoiada e aplaudida! Uns arremates de guitarra e só restava gravar a voz.

Parêntese: ainda que saiba sobre o que a música irá falar, o tema, ainda não tenho uma letra completa. Somente o esboço do que virá a ser o texto dessa que já é a primeira música pronta do Aleluia. Sei que a canção tratará de uma analogia entre um ilusionista/ charlatão/ mágico e a mídia. Fala sobre o fato de “o truque do mágico só funciona se a plateia quiser acreditar nele”. Seu título: “O Rei do Olhar”.

P.S.: Depois da gravação de sábado, fomos os três nos recolher e descansar para um compromisso muito importante que teríamos naquela noite e que aponta para o motivo pelo qual Thiago Trad esteve ausente dessas duas sessões: sua união com a sua amada! Agora, Thiago é um homem casado! Tudo de melhor para ele.

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“Entrando” no estúdio

sexta-feira, 18 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Hoje, sexta-feira, entramos no estúdio t para “começar” a gravação do Aleluia, nosso novo disco.

As aspas dizem respeito ao fato de termos dado alguns passos “extraoficiais” rumo à confecção dessa obra, mesmo antes do anúncio do projeto. Já foi comentado, no post passado, que aqui discorreremos sobre tudo que diz respeito ao Aleluia: as referências, as influências, as participações, quem vai trabalhar nele. E, olha, vem assunto por aí…

Começamos a pesquisa já em fevereiro desse ano, mas tenho que confessar que desde o início de 2009 a ideia de um álbum novo, que se contrapusesse a tudo que já havíamos realizado, vinha me atraindo e, de certo modo, consumindo minha concentração.

A pretensão é de que o Aleluia seja realmente diferente em nossa história. E será! Da ideia inicial, fermentada em Salvador e por ela mesma, passamos à pesquisa. Ouvimos de tudo, vimos de tudo. Tenho lido de quase tudo. Mas, ultimamente, o velho interesse por história (especialmente século XVI) vem sendo novamente alimentado e de modo natural (vou passar algumas indicações aqui também).

Não temos, ou não tínhamos, nenhuma canção definitivamente pronta. Se uma tem harmonia e melodia, falta-lhe uma letra, um texto digno. Outra, que é um texto interessante, traz incertezas em seus trechos musicais. Preocupados? Isso é o mais interessante! A experiência anterior nos dotou de confiança suficiente para desenvolvermos o caminho ou deixar que ele nos desenvolva em torno das canções.

Mas, voltando… Fizemos alguns testes de estúdio. Teste de áudio, minúcias que somente andré t pode nos esclarecer (ele o fará), procurando principalmente som de bateria (escolhemos 3 kits tradicionais e 1 menos ortodoxo, em novo post deixemos Trad falar sobre sua matéria), mas também verificando alguns métodos que não usamos antes.

A primeira coisa que ficou definida é que trabalharemos canção por canção. Pra quem não é familiarizado com a rotina de uma gravação de disco vou tentar explicar: no estúdio de gravação, tempo é dinheiro… Literalmente! Você paga pela hora de uso. Quase um taxímetro. Assim, para melhor fazer valer o tempo, monta-se determinado kit de bateria e grava-se todas as músicas com o máximo de aproveitamento possível (olha lá, o tempo tá correndo!). Depois desmonta-se esse circo e vamos às guitarras ou ao baixo e as vozes, os teclados e assim por diante… Ou quase.

Nosso plano foge completamente disso. Queremos que cada música repercuta seu som. Mesmo! Ainda que andré t seja um mestre de grande habilidade no estúdio, que consiga fazer uma mesma bateria soar como diversas, ainda assim nos impusemos a obrigatoriedade de trabalhar música por música.

Toma mais tempo, dá mais trabalho… No entanto, a dedicação a cada faixa será muito especial. Cada uma poderá mostrar-se em sua personalidade, com seus detalhes próprios.

Mas, bem… Naqueles testes de que falei, que realizamos no estúdio, durante a pesquisa, Thiago deixou algumas baterias gravadas que ficaram muito boas e que, acho, vamos usá-las hoje para começarmos o disco. Temos até o registro desses testes em vídeo e de repente conseguimos postar algo aqui em breve. Pois será sobre essas baterias que vamos trabalhar hoje. Vamos lá…

P.S.: Bem, e para um disco que se chamará Aleluia, não será nada mal começarmos numa sexta-feira. ;)

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