A Volta do Private Hell’s Club

segunda-feira, 13 maio 2013 - postado por fabiocascadura

O CASCADURA volta aos palcos de Salvador com um dos seus projetos de maior sucesso: CASCADURA. A festa terá lugar no Dubliners Irish Pub (Praia da Paciência, 255 – Rio Vermelho), dia 18.05 (sábado), a partir das 23 horas.

Esse é um evento que marcou não só a carreira da banda, mas também o cenário rock soteropolitano: durante a divulgação do álbum Bogary, entre 2008 e 2009, a banda se apresentou em uma temporada semanal num bar no bairro da Barra. Eram noites concorridas, onde os amantes do estilo podiam encontrar a banda apresentando todo o repertório de sua longa e conceituada trajetória num clima de “inferninho rock’n roll”.

Eram noites divertidas! Lembro de muita gente que começou a frequentar os shows do CASCADURA ali… A moçada comparecia em peso pra curtir, se encontrar… Foi importante porque nos aproximou ainda mais das pessoas. O Private Hell’s é um dos projetos que mais me entusiasmam e acho que surte um efeito positivo em todo mundo que nos acompanha.” – comentou o vocalista Fábio Cascadura.

O momento para a volta deste projeto não poderia ser mais apropriado: em fase de divulgação de seu mais recente disco, o álbum duplo “Aleluia”, a banda segue recebendo reconhecimento pela obra e mais motivada a reafirmar sua identidade roqueira com um disco tão plural e representativo, fato recentemente retificado publicamente por Caetano Veloso: “É um disco de responsa, que todos os amantes de rock deveriam ouvir”, afirmou sobre o “Aleluia” na sua coluna para o jornal O Globo, em 10.02.2013 . Veloso, aliás, fez questão de ir ao mais recente show da banda para levar seu abraço.

Nesta nova edição, o endereço mudará da Barra para o Rio Vermelho e o local escolhido foi o Dubliners Irish Pub, já tradicional ponto de encontro do rock da cidade, localizado na Praia da Paciência, 255 – Rio Vermelho. Nada mais apropriado para uma esta que tem como conceito relacionado à cultura rock’n roll. Os 100 primeiros expectadores a comprar o ingresso na porta do evento ganharão de brinde um exemplar original do célebre CD Bogary!

Festa CASCADURA Private Hell’s Club
Local: Dubliners Irish Pub (Praia da Paciência, 255 – Rio Vermelho)
Data: 18.05 (sábado)
Horário: 23h
Ingresso: R$ 15 (preço único)
Info: 71 9957-4653 / 9925-6263

Bookmark and Share

Turnê #AleluiaCASCADURA em São Paulo e Florianópolis

terça-feira, 19 fevereiro 2013 - postado por fabiocascadura

Cascadura segue apresentando o show do novo álbum no sul/sudeste do Brasil

Em mais uma etapa na trajetória de divulgação do álbum Aleluia, o CASCADURA retorna à capital paulista, onde se apresentará no Studio SP (R. Augusta), dia 22.02 (sexta). Na sequência, dia 23.02 (sábado), toca pela primeira vez em Florianópolis/ SC, no Green Park (Estrada da Joaquina).

Essas apresentações fazem parte da programação do projeto Intercenas Musicais, da Maquinário Produções (Salvador/BA), que tem levado artistas locais a circular em diversas cidades da Bahia e capitais outros estados. Através dessa iniciativa, o CASCADURA já passou por Itabuna, Feira de Santana e Juazeiro e agora parte para levar o show #AleluiaCASCADURA às cidades do sul/sudeste do Brasil.

Em cada noite a banda terá a oportunidade de mostrar o repertório do novo disco no palco que contará também com os elogiados shows de Curumim e Lucas Santanna, em São Paulo. Em Florianópolis, haverá também apresentação do grupo Abayomi.

O álbum Aleluia foi lançado no final de 2012 e vem sendo apontado como um dos melhores lançamentos desta temporada, tendo recentemente recebido o clipe da canção “Soteropolitana”, dirigido pelo baterista Thiago Trad e que, seguindo a orientação do disco, mostra em imagens e som traços do cotidiano da Cidade do Salvador. Totalmente filmado no bairro do Engenho Velho de Brotas, na capital baiana, é também uma homenagem ao fotografo e etnógrafo Pierre Fatumbi Verger. Esta música foi eleita pela Revista Rolling Stone Brasil como uma das 25 Melhores Músicas de 2012.

As apresentações começarão às 22 horas e os ingressos custarão R$ 17 (promocional) e R$ 30 em São Paulo e R$ 20 e R$ 10 (Meia) em Florianópolis.

Serviço:

#Aleluia CASCADURA no INTERCENAS MUSICAIS
São Paulo/SP – CASCADURA, Curumim e Lucas Santanna
Local: Studio SP (R. Augusta)
Data 22.02 (sexta)
Horário: 22 horas
Ingressos: R$ 17 (promocional) e R$ 30

Florianópolis/SC – CASCADURA, Lucas Santanna e Abyomi
Local: Green Park (Estrada da Joaquina)
Data: 23.02 (sábado)
Horário: 22 horas
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (Meia)

Bookmark and Share

#AleluiaCASCADURA, o documentário

segunda-feira, 19 novembro 2012 - postado por assessoria de imprensa

Sessões de gravação, depoimentos dos envolvidos, cenas de shows e imagens da cidade de Salvador – matéria-prima fundamental do trabalho – contam como foi construído o Aleluia, quinto disco da banda de rock CASCADURA, no documentário #AleluiaCASCADURA.

Dirigido por Fábio Cascadura, cantor, guitarrista e compositor da banda, ao lado de Léo Monteiro, o documentário revela os bastidores da produção e apresenta falas do quarteto responsável por ela – Fábio Cascadura, Thiago Trad (baterista), andré t (produtor) e Jô Estrada (coprodutor) –, além de alguns dos parceiros do processo: Letieres Leite e Gabriel Guedes (Orkestra Rumpilezz) e Jajá Cardoso (Vivendo do Ócio). Momentos no estúdio, incluindo de participações especiais, como a da cantora Pitty, também se somam a registros da primeira vez que as novas canções foram apresentadas ao público, durante os quatro shows do projeto Sanguinho Novo, em janeiro de 2011, no Pelourinho. Tudo isto ilustrado por mostras de uma Salvador que não se estampa em capas de revista, mas que está no cotidiano dos seus cidadãos: justamente aquilo que serve como principal fonte de inspiração do Aleluia, um disco totalmente dedicado à capital da Bahia.

Bookmark and Share

CASCADURA + Velotroz, no Pelô!

quarta-feira, 26 setembro 2012 - postado por assessoria de imprensa

Dia 28.09 (sexta), vamos apresentar o nosso novo show, que já começa a rodar o Brasil dentro da Turnê #AleluiaCASCADURA, no Largo Tereza Batista (Pelourinho). Será a primeira oportunidade para os soteropolitanos apreciarem as muitas novidades que já foram apresentadas em Vitória da Conquista, Camaçari, Brasília/DF e São Paulo/SP. Vamos lá, Salvador!

A apresentação terá, como lastro central, parte do repertório do disco Aleluia, recentemente indicado como Melhor Disco no VMB 2012 (MTV Brasil) e que tem como tema a própria Cidade da Bahia. Assim, simbolicamente, será o primeiro encontro entre a banda, a obra e sua inspiração! Além disso, será a estréia em palco do novo parceiro do grupo: o percussionista Nielton Marinho, que veio para dar maior fidelidade aos elaborados arranjos do Aleluia, onde a já notória veia roqueira da banda se justapõe às possibilidades ritmicas da terra.

Ainda, além de canções do novo álbum (duplo), o CASCADURA também executará algumas das mais conhecidas músicas que lançou ao longo de sua carreira, já que neste ano a banda completa duas décadas em atividade. Será ao mesmo tempo, uma celebração à sua carreira e uma exposição de sua nova abordagem.

Mas, a noite ainda contará com a presença marcante da banda Velotroz, uma das mais interessantes da nova safra da música feita na Bahia. Performáticos e poéticos, eles celebram em apresentações elétricas o melhor da música, conjugando rock, MPB, psicodelía, tropicalismo… Ano passado, venceram o festival Desafio das Bandas, promovido pelo Grupo A Tarde e estão em processo de preparação do seu primeiro disco. A dobradinha já foi um grande sucesso, quando às duas bandas se juntaram no mesmo Largo Tereza Batista, numa das quatro apresentações do Projeto Sanguinho Novo, em 2011!

Mas, entre essas atrações, o som ficará a cargo da DJ Carol Morena, já conhecida da noite soteropolitana com seu set infalível, tocando em festa concorridas da city, como A Bolha.

Enfim, você tem muitos motivos para não perder essa festa. É chegar cedinho, pois os portões abrem às 20h e os ingressos estão sendo vendidos antecipadamente nas Lojas Foxtrot (Piedade, Shopping Salvador Norte e Shopping Bela Vista): R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Assista o convite para esta noite incrível!

Serviço:
Show: CASCADURA + Velotroz (part. DJ Carol Morena)
Onde: Largo Tereza Batista (Pelourinho)
Quando: 28 de setembro (sexta)
Hora: 20h (abertura dos portões)
Preço: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Vendas antecipadas nas Lojas Foxtrot (Piedade, Salvador Norte Shopping e Shopping Bela Vista)
Contato: 71 8167 7885

Bookmark and Share

Discursos do rock and roll

quarta-feira, 13 julho 2011 - postado por fabiocascadura

Li este texto que segue abaixo no blog da minha amiga Paula Berbert. De tão bem escrito, sensato e pertinente, resolvi divulgá-lo com mais afinco e pedi permissão a ela para replicá-lo aqui.

É uma excelente reflexão sobre Salvador, a Bahia, a música, o rock e as diversas gerações que transitam nesse contexto todo. Com cuidado e respeito, Paula trata de uma série de questões que creio relevantes e nos traz uma luz bacana… Porque, como disse Ronei Jorge, precisamos sair da caverna…

Boa leitura!

———————————

O Dia Mundial do Rock está chegando.
As entrevistas e perguntas de como é fazer rock em Salvador também.
Esta é minha homenagem ao momento em que a mídia baiana nos dá mais esmola.

Depois da cerimônia de entrega de troféus da 2ª edição do Prêmio Bahia de Todos os Rocks, em novembro passado, cujo palco reproduzia algo similar a um ambiente de furna, Ronei Jorge, entre os diversos e merecidos elogios feitos ao evento, comentou algo assim: “Eu mexeria no cenário. Precisamos sair da caverna”.

———————————

Recentemente, uma aluna do curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia solicitou uma entrevista com o Cascadura – no caso, Fábio Cascadura e eu – para integrar a grande reportagem que iria fazer como Trabalho de Conclusão de Curso. O tema: a relação das bandas underground de rock de Salvador com redes e mídias sociais, comparando as estratégias de divulgação na década de 1990 com as de hoje, com o uso da internet.

O pedido, por e-mail, era evidentemente lúcido, respaldado, bem escrito, seguro. Inclusive, ela indicou uma lista de outras pessoas a quem também entrevistaria – lista que demonstrava que ela estava sabendo muito bem quem podia dar depoimentos importantes sobre a pauta. Messias Bandeira e Ednilson Sacramento, por exemplo. Uma proposta bacana, de onde deve sair (ou já ter saído) boa coisa.

Eu e Fábio nos disponibilizamos prontamente – mas, em minha resposta afirmativa, eu me intrometi e falei de um ponto primário do trabalho dela: que a definição “bandas underground” tem em si uma carga preconceituosa delicada. Disse que achava que partir do princípio de que estaria falando de “undergrounds” já tendenciaria o desenvolvimento da pesquisa para uma avaliação “menor”. Esta não deveria ser uma definição a priori, creio eu. Pedi que ela reavaliasse o rótulo, especialmente por se tratar de um projeto de comunicação – e, ainda que haja uma definição formal e acadêmica para “underground” que não tenha este caráter, fato é que a representação social desta expressão é negativa. Não se pode escapar do senso comum quando a pauta está na comunicação. Não se pode descuidar do discurso num caso assim. Eu justamente questionaria o termo referido pelas fontes. Por que underground? Precisamos deixar de ser subterrâneos.

———————————

Fico feliz de ver a música independente ser pautada na Academia. Tem sido frequente. Vira e mexe, me aparece um trabalho centrado em temas relacionados a isso. Sempre na área de comunicação. Me parece ótimo que estejam discutindo. Que proponham entender como funciona esta engrenagem, que problematizem. Tenho impressão de que se forem formados comunicólogos com visão menos folclorizada do que é “fazer rock na Bahia” poderemos esperar uma atuação mais competente dos profissionais em relação à diversidade das mais diversas linguagens artísticas.

Também recentemente, alunos de jornalismo da Faculdade Social me enviaram umas questões para uma matéria. As perguntas todas giravam em torno das mazelas. Por exemplo, algo assim: “Quais as maiores dificuldades das bandas do cenário alternativo? Como assessora de imprensa destas bandas, quais as suas principais dificuldades?”.

E eu respondi que a produção artística é uma atividade que, como todas as outras, tem suas dificuldades. E as dificuldades são diversas, não localizadas em um ponto específico. E isto não tem a ver só com as bandas independentes, mas com um contexto social como um todo. Assim como é difícil abrir uma empresa e fazê-la tomar seu espaço no mercado, é também difícil engatar uma carreira na música. E no teatro. E na dança. E no circo. E nas artes visuais. E no cinema. Enfim. Não é privilégio nosso. Acho que insistir no discurso de “como é difícil!” é complicado. Não são só os roqueiros baianos que têm desafios na vida. Precisamos abandonar nosso complexo de vira-lata.

Também disse que, aliás, estas próprias questões poderiam ser por mim apresentadas como uma das principais dificuldades que encontro como assessora de imprensa de bandas independentes: este tratamento de que se trata de um trabalho exótico, heróico, inusitado. A grande mídia não consegue fazer uma entrevista com uma banda de rock aqui sem perguntar “como é fazer rock na Bahia?”, como se isto fosse impressionante, uma escolha desconexa, rebelde, improvisada, desajustada. Não é: é um trabalho sério, executado por pessoas competentes, respeitado pela crítica nacional e por um público crescente. Espero que um dia a grande mídia deixe de reforçar certos estereótipos e ignorar determinadas produções. Espero um dia ver um personagem de novela que goste de rock não estar sempre usando roupa preta e sendo a figura esquisita do folhetim. Espero não ver mais o Fantástico fazer uma matéria de roqueiros (devidamente excêntricos) versus pagodeiros (devidamente felizes) – e chamando Nando Reis, uma das fontes entrevistadas, de ex-roqueiro (ele não é mais mau, não canta mais Bichos Escrotos, é ex-roqueiro, óbvio). Este estranhamento sem reflexão devida é um desserviço.

É claro que sei que a Bahia tem suas limitações para todas as expressões de arte e para todos os estilos de música. E que é também um estado que por muitos anos investiu na consagração de uma monocultura musical, relacionada ao sistema do Axé, e que isto se reflete na dimensão do espaço midiático e na possibilidade de atingir públicos mais diversos. Mas também acho que tudo isto, no entanto, tem, a olhos vistos, sido paulatinamente superado por ações de fomento à diversidade cultural e, especialmente, pelo trabalho incessante de artistas comprometidos com a arte que produzem.

———————————

Mês passado, participei de uma banca avaliadora de um Trabalho de Conclusão de Curso que se propunha a realizar uma grande reportagem sobre a música independente da cidade: um trabalho de pesquisa visivelmente exaustiva, que, com certeza, arrancou muito suor de suas autoras. Teria sido excelente se não fosse um detalhe: a delimitação do tema. “Música independente de Salvador”, na prática, virou “rock consumido pela classe média jovem frequentadora do Rio Vermelho”. Sim: elas indicaram que iriam falar da música independente da cidade e ignoraram as periferias, os outros universos soteropolitanos, o arrocha, o samba, o rap, o heavy metal… Música independente é um conceito grande demais. Salvador é um espaço enorme (e até o Rio Vermelho também: todo mundo já viu os sambões que acontecem em Dinha? O chorinho do São Jorge? Os shows de MPB e bossa nova que rolam no Sesi? E o que está dentro do Twist, da Padaria, do Salvador Dali?). A ambição de abarcar toda a realidade deste tema só poderia ter sido frustrada.

É óbvio que demarcar um estilo musical, um espaço geográfico e um público seria não apenas mais eficiente, como também recomendável – claro, pesquisas precisam de focos bem definidos. Não haveria mal nenhum em adentrar só neste cenário se esta tivesse sido uma escolha consciente, ponderada, descrita, justificada. O problema era achar que retratar a história de 20 e poucas bandas do rock riovermelhense era dar conta da proposta.

Também é comum rotularem este pedaço da cidade e da produção musical soteropolitana como a representação do “cenário alternativo”. Alternativo a quê? Para quem? No meu entendimento, há duas variáveis bastante relevantes no uso desta expressão. Vejamos:

1) Dizer-se “alternativo” é se colocar num lugar menor. Há uma via principal e há a alternativa? Não corroboraria isso. Até porque, considerando que assim seja, não haveria uma alternativa, e sim várias. O rock, sozinho, não é cena alternativa de um lugar.

2) Dizer-se “alternativo” é se colocar num lugar maior. É dar-se um título de poder indevido, pretensioso, que conota uma ideia de caminho da salvação. “Somos a alternativa” soa como “somos diferenciados”: vocês, do mainstream – pobres mortais alienados –, lá; nós, alternativos – espertos conhecedores do mundo –, cá.

À pergunta final de um dos trabalhos acadêmicos citados, “Como você define o público axé e o público rock?”, eu respondi: “Nego-me aos estereótipos. Há gente de todo tipo nestes dois públicos, e há muita gente que faz parte de ambos. Não reforçamos as secções”. É caduca esta conduta. Caduca e pedante. Não há público melhor ou pior; não há mérito ou alienação intrínseca a público algum. Precisamos parar de nos sentir diferentes – no bom ou no mau sentido – e querer dar prateleiras pra todas as coisas da vida.

———————————

Estou ficando velha e chata, não tenho mais a mesma paciência de estar em ambientes com pessoas de quem eu quase poderia ser mãe, serelepes na descoberta do mundo e das noitadas roqueiras de classe média. Talvez por isso mesmo – por estar velha e chata –, não tenho gosto pela maioria dos trabalhos da chamada “nova geração” do rock de Salvador. (Lembremos que a música independente e até mesmo o rock da capital baiana estão bem além dos shows do Rio Vermelho e da Barra. A nova cena destes bairros não é uma nova cena da cidade.) Não que sejam ruins. Não tenho nenhum superpoder atômico que me dê o direito de dizer o que é bom, o que não é. Mas eles não “falam” comigo. É, de fato, um processo protagonizado e consumido por gente mais jovem, que está chegando nos palcos e nas plateias para ocupar seus merecidos espaços. A fila anda.

Me vale dizer, porém, que respeito o que esta galera anda fazendo: o mérito da união de forças, da programação superativa, dos eventos promovidos, do público por eles conquistado, do profissionalismo. Estão fazendo barulho, chamando atenção, aparecendo na mídia, formando novos técnicos (as bandas estão criando equipes de trabalho de verdade), produzindo o tempo todo. E tudo isto, até onde sei, é novidade: sair do limbo da reclamação, de que na Bahia não tem isso e aquilo, para a ação; interromper o discurso de que, no dito limitado espaço existente, é impossível concorrer com “os grandes”; ignorar as perseguições e encarar com dignidade as patrulhas. Sem medo de errar, de amadurecer, de construir uma história. Fazendo mais que falando. Precisamos aplaudir o que é de merecimento, reconhecer o novo e ver isso se refletir nos discursos sociais e midiáticos.

Bora nessa.

Bookmark and Share

A Verdadeira (está em todo lugar)

domingo, 20 março 2011 - postado por fabiocascadura

Quando postei o texto “A Mulher de Roxo”, pedi que me cobrassem um post sobre “A Verdadeira”. Cobrança feita, eis que venho cumprir a promessa… Mas exatamente o quê uma coisa tem a ver com a outra?

Nessa história de tratar da Cidade do Salvador no disco Aleluia, confrontando seus contrastes, suas disparidades, emergiram duas canções: “A Mulher de Roxo”, que, pelos motivos que expliquei no post específico, fala da repressão ao feminino, e “A Verdadeira”, que explicarei agora.

Há uma música muito famosa, que ganhou notoriedade na voz de João Gilberto: “Falsa Baiana”. Essa canção, curiosamente, não foi escrita pelo “pai da bossa nova”, e sim por um compositor chamado Geraldo Pereira.

Geraldo era um motorista de caminhão de coleta de lixo que viveu por entre a boemia carioca nos anos 1930 e 40. Morador da região do Morro da Mangueira, amigo do ilustre Cartola, participou ativamente da construção do que ficou conhecido como samba sincopado, apontado como um dos alicerces da própria bossa nova dos anos 50. Geraldo teve um punhado de sambas seus conhecidos: “Acertei no Milhar”, “Bolinha de Papel” e “Ministério da Economia” (em que exaltava as medidas trabalhistas/populistas do Governo Vargas). Porém, sua música mais conhecida é mesmo “Falsa Baiana”, onde descreve a discrepância de atitude entra a “falsa” e a “verdadeira” baianas diante de uma roda de samba.

Tão categórica é a sua explanação que tais características acabaram sendo absorvidas pelo folclore da “Terra de São Salvador”: “Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/ Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca…”. Apesar desse sucesso todo, Geraldo morreu pobre e de forma trágica: morto numa briga de bar, supostamente pela faca do legendário Madame Satã. Mas sua obra contribuiu muito com o que se chama de samba hoje em dia e, em especial, “Falsa Baiana” entrou para o imaginário do que é a “típica soteropolitana”. O detalhe: ele era mineiro.

Ouvindo esse samba famoso, na voz de João Gilberto, pensei: essa baiana realmente existiu? Se sim, será que ainda está aqui, hoje?! Generalizar é uma merda…

Em “Falsa Baiana”, o foco central é aquela que não mexe as cadeiras e que não deixa a moçada com água na boca em contraponto à que vira os olhinhos e diz: ‘Eu sou filha de São Salvador!’ enquanto samba… Se é assim, então, a “verdadeira baiana” nada mais é do que a hoje identificada como PIRIGUETE! Acompanhou o meu raciocínio, Geraldo?!

A piriguete não totaliza todas as baianas, mas está presente no cotidiano da cidade. A despeito do estereótipo sobre o qual o termo foi gerado, quando era representado pela moça de origem pobre, suburbana, usando trajes mínimos e de cabelos sempre molhados (fruto do uso de cremes específicos para esse fim e de baixo custo, como o famoso Kolene), ela está hoje em todos os lugares: nas ruas do centro, nos shopping centers, nas praias, nos salões de beleza, nos mercados (populares ou nem tanto), atrás dos balcões, nas recepções dos consultórios e não se enganem: estão nos consultórios, nos anúncios na TV, canteiros de obras, agências publicitárias, tribunais, fóruns, no Carnaval (em cima e embaixo dos trios elétricos), sobre os palcos… Elas estão em todos os lugares, são de todas as origens, com todos os tons de pele, já aderiram à chapinha e tudo mais…

Vulgares? Outrora chamadas de “ninjas” (gíria muito popular em Salvador entre o final dos anos 1990 e começo dos 2000), as piriguetes reafirmam a independência feminina, a voluntariedade no fazer o que se quer, sem pensar em consequências ou opiniões alheias… A piriguete é o “agente antirepressivo” da mulher. Em geral tratado com humor, piriguete acabou por se tornar um termo depreciativo. Ok… Mas não há como negar: as piriguetes estão em todo lugar.

Assim, para contrapor a repressão ao feminino, tão frugal na Cidade da Bahia, que eclode em “A Mulher de Roxo”, escrevi “A Verdadeira”. Se a “Falsa Baiana” não entra na roda, “A Verdadeira” vai! “A Verdadeira”, porque a “Falsa Baiana” o mineirinho Geraldo Azevedo já havia escrito.

A letra diz:

A Verdadeira
Revira os olhinhos, deixa colar
Já foi Rosa de Ouro, hoje é estrela vulgar
Jeito de corpo, ela vai até o chão
Já foi coisa de louco – hoje, chamam, ela vai

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou no escuro
Ai de quem seja seu par

É verdadeira até não poder mais
Veio dessa maneira e não pode mudar
Chega na hora e só sai no final
Ela é dessas mulheres que só dizem “Mais!”

Ali onde a roda é som e fúria (e solidão é reza)
Aqui onde as ondas avançam o mar
Ai de quem não andou sozinho
Ai de quem seja seu par

Coração!
Coração!

Veio como uma valsinha, em ¾ (lógico, Cascadura!). Pensei que nada de samba haveria nela: seria o óbvio fazer isso! E quisemos posicioná-la mais como modinha romântica que qualquer outra coisa. Um argumento que nos remetesse a Machado de Assis, José de Alencar, Brasil do século XIX (lembremos que os movimentos literários/artísticos vindos da Europa chegavam aqui para ser propagados com muito mais tempo de atraso que hoje… Mas, ainda hoje, sofremos dessa influência… C’est la mondialisation!). E pensamos no nome do nosso amigo, compositor, arranjador Paulo Rios Filho.

Paulo Rios é formado em composição pela Escola de Música da UFBA. Destaca-se por uma profusa produção, marcada por intercâmbio com criadores de outros continentes como Europa e África. Membro do grupo OCA (Oficina de Composição Agora), que realiza um interessante e instigante trabalho de repensar e renovar as abordagens dentro da composição para Música de Concerto e Orquestra (como eles, humildemente, preferem chamar o que muitos se referem como “Música Erudita”…). O Grupo OCA é um caso à parte nesse extenso panorama criativo da Bahia (e submerso pela “grande mídia”) que recomendo: procurem conhecer. Ainda neste semestre, estarão lançando uma série de concertos gratuitos no Teatro Vila Velha, aqui mesmo em Salvador. Informem-se!

Num papo, expus um esboço da canção a Paulinho. Expliquei-lhe tudo isso que abordei acima. Discorri sobre a falsa e a verdadeira, o contraponto entre as duas e a oposição que essa música significaria diante de “A Mulher de Roxo”: ele entendeu! Sugeriu um arranjo baseado em uma orquestrinha de câmara, com ênfase em instrumentos do grupo de (sopro) madeiras: oboé, fagote, clarineta… Fiquei exultante e curioso.

Ele elaborou o arranjo baseado em uma demo caseira que fiz com a voz e sampler de trechos instrumentais (dos Beatles, inclusive, especificamente a canção “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, do disco Sgt. Peppers), e de uma outra que fizemos apenas com voz e violão no estúdio t, gravada por sugestão de andré t.

Algumas semanas passadas e ele nos traz sua abordagem para o tema… Ali, Paulo Rios Filho brindou-nos com sua grande inteligência musical, sua sensibilidade apurada e sua cultura. O arranjo primoroso abordava um clima romântico, como queríamos, mas com um algo mais. Por vezes o fagote, instrumento tão lindo, profundamente grave e solene, brincava com os “pi ri rim pom pom” dos arrochas e pagodes da vida!

Num lance de muita beleza, oboé, flauta transversa, violino e clarineta passeiam lado a lado, fugindo uns dos outros por vezes, agrupando-se num instante de comunhão… Eita, que ficou bonito! Deixamos um pouco disso para que você veja e escute por si mesmo o que foi essa sessão…

Diana Bakardjieva (Oboé)
Cláudia Sales (Fagote)
Flávio Hamaoka (Flauta)
Pedro Robatto (Clarinete)
Mário Britto (Violino)

Ao final, ficamos todos muito satisfeitos.
Acreditamos que, mesmo antes da gravação das vozes, ainda há o que ser feito. E vamos fazê-lo! Ainda não sabemos o quê…

Bookmark and Share

“Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”

terça-feira, 08 fevereiro 2011 - postado por assessoria de imprensa

Este é o texto na íntegra da matéria “Aleluia! em gestação: obra quer dialogar com a cidade”, assinada pelo jornalista Chico Castro Jr., publicada na edição de hoje, 8 de fevereiro de 2011, do jornal A Tarde (Caderno 2+, página 4).

Não importa quantas presepadas e onomatopeias infantis ainda sejam inventadas daqui até o Carnaval: o verão de 2011 ainda será lembrado como o momento em que o “ensaio” de uma banda do rock local concorreu de igual para igual com os dos artistas do mainstream. No mês de janeiro, as quatro datas da temporada 2011 do projeto Sanguinho Novo, do Cascadura, tiveram excesso de público.

No último domingo do projeto, no dia 30, milhares de pessoas compareceram ao Pelourinho. Claro, depois que entraram 1,2 mil, lotação oficial do Largo Teresa Batista, os portões foram fechados e a multidão que não entrou, foi para casa, com fome de Cascadura.

“Foi muito legal ver toda aquela mobilização em torno de bandas que supostamente não têm público”, observa Fábio Cascadura. “Deu muito mais gente do que imaginávamos. O que acontece é que existe uma orientação cultural em Salvador de que o rock não tem público, que é a ‘terra do axé’. Aí, o que aconteceu? A própria grande mídia, que tá assim de gente ‘do rock’, não foi lá cobrir. Só o jornal A TARDE e a TVE”, constata.

Estereótipo do “baiano feliz”
Passado o furacão de quatro domingos no Pelourinho, a banda volta a se concentrar no estúdio t para concluir as gravações do 5º álbum de carreira, Aleluia!.

É um projeto ambicioso. Será um álbum duplo, com cerca de 30 faixas, muita percussão de terreiro de candomblé (Fábio é devoto) e participações muito especiais: Pitty, Jajá (Vivendo do Ócio), Orkestra Rumpilezz, Siba (rabequeiro, ex-Mestre Ambrósio) e Gabi Guedes (mestre de percussão, tocou dez anos com Jimmy Cliff, entre outros).

Na quinta-feira passada, a banda e seus produtores (e membros honorários) andré t. e Jô Estrada receberam A TARDE no estúdio, para proceder às gravações do dia e também mostrar um pequeno preview do que vem por aí no álbum Aleluia!.

“O disco gira em torno de Salvador”, diz Fábio. Se o último disco, Bogary (2006) foi criado com um olhar um pouco mais distante, durante um período que a banda passou em São Paulo, neste, o processo foi inverso. “Você está aqui, curtindo a praia, mas também sentindo o cheiro de mijo”, avisa.

A ideia é que o disco seja uma espécie de documento, uma tradução do momento (tétrico, diga-se de passagem) por que passa esta cidade: “Salvador está precisando urgentemente de uma virada histórica. É uma cidade de 500 anos que ainda mantém hábitos medievais. Você tem os senhores feudais encastelados, o populacho e lixo, muito lixo nas ruas”, vê.

“Se você pegar aqueles livros de Jorge Amado escritos nos anos 1930, 40, você percebe que os problemas de Salvador que ele aponta estão a mesma coisa, senão pior”, acrescenta o guitarrista e co-produtor Jô.

Uma coisa parece bem clara: a banda (e não só eles) está de saco cheio do estereótipo do “baiano feliz”. “As pessoas aqui se contentam com migalhas”, opina Thiago Trad, bateria.

“A gente não vende fitinha do Senhor do Bonfim”, acrescenta Jô. Já Fábio acha que é hora de “questionar qual é o papel do artista neste momento. Essa coisa de reis, rainhas, gênios. Todo mundo é gênio aqui? Mas para que serve isso? Qual o benefício que isso traz para a cidade? Qual o benefício que esse modelo de Carnaval trouxe”?, questiona.

Stones da Cidade Baixa: disco tem som de concepção bem ambiciosa
Em termos sonoros, pelo que foi mostrado na audição exclusiva para A TARDE, o quinto álbum do Cascadura deverá ter uma das concepções mais ousadas dos últimos tempos em termos de fusão sonora na música popular brasileira.

Imagine que Mick Jagger e Keith Richards são baianos e nasceram na Cidade Baixa. Agora, imagine que, formados os Rolling Stones soteropolitanos, eles estão no estúdio, ensaiando seu rock‘n’roll encharcado de rhythm‘n’blues.

Ao fundo, ouve-se a percussão pesada e cheia de espiritualidade de um terreiro de candomblé ali perto.

Surpreendentemente, as duas instâncias sonoras (a banda de R&B e a percussão afrobaiana) se entrelaçam em perfeita harmonia. É como se uma luz se acendesse, e de repente, esses elementos começassem a fazer total sentido juntos.

Pé no primeiro disco
“Algumas músicas têm um pé lá no primeiro disco (Dr. Cascadura, 1995). Aquela coisa meio Stones, só que, agora, misturada com essa percussão que a gente quer mostrar”, descreve Thiago Trad.

Claro, rock com percussão existe não é de hoje. Do guitarrista Santana, passando por Barão Vermelho à Nação Zumbi, existem muitos exemplos. O negócio é ver como o Cascadura fez sua própria versão do estilo.

Faixa com Orkestra Rumpilezz ganha riff de guitarra e deixa Letieres Leite feliz
Em uma das faixas, To Your Head, ouve-se um majestoso arranjo de sopros e percussão: é a Orkestra Rumpilezz, do maestro Letieres Leite. Na tarde da visita ao estúdio, a banda se preparava para adicionar um riff de guitarra à faixa. Jô, empunhando uma Danelectro barítono (instrumento de braço mais longo e afinação mais grave), toca o riff várias vezes. Diz para andré: “Eu quero aquele veneninho”. Qual um cientista, ele começa a mexer nos botões dos compressores de áudio. “Tente de novo”, diz andré. Jô toca o riff novamente e entra em êxtase. Depois, toca o riff de Back in Black (AC/DC) e cai na risada. “Velho, já foi”, encerra o produtor. “No dia que Letieres veio aqui, ele entrou direto, nem falou nada. Foi lá e gravou. Quando saiu, tava todo mundo de cara aqui”, lembra andré. “Depois que a gente gravou, tava todo mundo calado. Aconteceu alguma coisa” lembra Letieres. “Fiquei feliz com o resultado”.

1ª AUDIÇÃO: ALGUMAS FAIXAS DE ALELUIA!
Colombo Introdução lembra o clássico White Rabbit (da banda Jefferson Airplane). Linda faixa, terá solo de rabeca de Siba.

Peru de Fora (título provisório) “A maioria das coisas que você acha que é teclado, na verdade, é guitarra”, diz Jô. Ao timbre cavernoso, logo se adicionam percussões infernais. “É o pagode do inferno”, avisa Fábio.

O Delator Na linha Senhor das Moscas (do Bogary): pesada, acelerada, com participação excelente de Jajá (Vivendo do Ócio).

Soteropolitana Um tratado sobre a cidade e seu povo, já nasceu com jeito de hino. Letra épica e histórica para uma pegada stoneana (se Jagger & Richards fossem nativos do Bonfim). Inacreditavelmente bela.

Cordeiro Com percussão monstra de Gabi Guedes e o dedo na ferida: “Ninguém me convidou / mas aqui é minha casa / sou eu que levo soco / e você que vai no meio”.

Bookmark and Share

Izolag & Ananda Nahu!

terça-feira, 01 fevereiro 2011 - postado por fabiocascadura

Virei a esquina entre a Rua São Raimundo e a Rua Direita da Piedade, no Centro, e percebi que alguém me olhava fixamente… Senti esse olhar com a visão periférica e, de chofre, me virei, num reflexo de defesa muito comum.

Aí, saquei que não era alguém de carne e osso, mas uma imagem grafitada num muro esquecido logo ali. Era a figura de uma mulher negra, usando um penteado black power, agachada, de olhos fixos para o infinito (o que dá a impressão de que ela está olhando quem passa diante dela).

De imediato, fiquei pasmo com a expressão daquele desenho e com o realismo impregnado pela técnica do artista. Nunca tinha visto algo assim na rua!

Eu gosto muito da arte do grafite. Quando ando pela cidade, fico particularmente atraído pelas impressões em muros e paredes, analisando as formas e cores. Sempre achei de uma destreza imensa quem consegue dominar jatos de spray a ponto de criar desenhos intricados e multicoloridos.

Ao lado do desenho dessa mulher, havia também um outro, de um cara com um megafone, um pouco mais colorido e com efeito de volume, como se em três dimensões…

Fiquei uns minutos admirando e me perguntando: “Quem teria feito isso?!”.

Depois de observar os muitos detalhes da imagem, percebi uma pequena assinatura e um e-mail impressos na base da figura. Notei: Ananda_Nahu! Guardei essa informação e saí…

Passados uns dias, sem que eu tomasse iniciativa para pesquisar sobre aquela assinatura, num trajeto que cruzava a Rua Lucaia, onde essa se encontra com a Avenida Juracy Magalhães Jr., próximo ao Rio Vermelho, passei rapidamente (não lembro se vinha de carro ou ônibus) por outro desenho com o mesmo realismo da figura que havia visto antes no centro de Salvador: “Deve ser do mesmo artista…”, pensei. Tinha o desenho de uma Billie Holliday, muito bonito e igualmente realista (talvez, mais realista ainda que o que eu vira anteriormente).

Daí, fui notando outras impressões, com aqueles traços, espalhadas pela cidade: Avenida Contorno, Viaduto da Graça, Politeama… Num desses, achei outra assinatura: Izolag. Então, decidi tentar contato pelo veiculo disponível: o e-mail.

Escrevi para aquele endereço eletrônico um texto falando de como as gravuras por eles feitas nas paredes de Salvador haviam me impressionado e etc e tal… Esperei uma resposta que não veio.

Numa visita que fiz ao estúdio de tatuagem do amigo Álvaro Medrado, encontrei seu colega Robson, também tatuador e conhecido artisticamente como Finho. Sabia que Robson Finho, além de grande talento da tatuagem, era grafiteiro, conhecia das artes de controlar os jatos de spray. Comentei com ele das figuras, da impressão que aquilo havia me causado. Citei os nomes que havia colhido nas assinaturas das obras e ele disse que os conhecia! Pedi que ele me pusesse em contato com os artistas, pois queria conhecê-los. Ele disse que tentaria, mas que eles viviam viajando.

Esse caminho mostrou-se pouco eficaz também: apesar do esforço de Robson em me ajudar a chegar aos dois artistas, fiquei ainda sem encontrá-los… Mas continuava a ver algumas de suas gravuras pela cidade. Aos poucos, infelizmente, elas foram sendo apagadas, por vândalos ou pela própria ordem pública que, cega ao valor do que eles criaram, passava uma triste tinta cinza por cima delas.

Passaram-se alguns meses desde o primeiro contato com esse legado deles e acabei procurando registros sobre os autores na internet: não achei muita coisa. Basicamente, Fotologs das duas personas, mas ainda sem muitos registros fotográficos do que eles faziam.

Soube pelo amigo Finho que eles haviam saído da cidade e agora moravam em outro lugar: ora diziam que eles estavam no Rio de Janeiro (que fiquei sabendo ser a cidade natal de Izolag) e, em outros momentos, que estariam em Petrolina/PE, cidade onde vive a família de Ananda Nahu.

Outro grande amigo, Ricardo Ferro, me falou que cursaram a Escola de Belas Artes da UFBA. Que tinha conversado com eles e que os admirava. Segui admirando-os também, pela internet. A cada vez que visitava seus canais de exposição na rede virtual, achava mais obras e fotos de ações e intervenções urbanas de sua autoria. Mas muito pouca informação sobre como falar com eles. Pelo Fotolog, eles não aceitavam comentários.

Durante essa busca, me perguntei do porque d’eu estar tão interessado em conhecê-los. Estava para além de 2006, portanto o disco Bogary já havia sido lançado, sua capa já estava pronta e não tínhamos nenhum motivo para contatá-los para alguma ação visual no entorno da obra do CASCADURA, naquele instante. A resposta me veio na inquietude provocada em mim pela expressão do que eles registraram nas ruas.

Havia em suas gravuras uma conexão com o moderno e o tradicional. Além de uma identificação imediata com o referencial musical: a obra de Ananda Nahu e Izolag é recheada de citações à música negra americana: o jazz, a soul music, o blues… tudo isso está em mim, tanto quanto no CASCADURA… E neles, obviamente.

Também, tinha nisso tudo uma afirmação da força do desdobramento da Diáspora Africana, o surgimento de uma nova cultura, híbrida, que se tornou, ao longo do Século XX, hegemônica por meio do viés conhecido como Cultura POP! Mas o que eles fazem não pode ser simplesmente rotulado de Pop Art, ainda que sofra, consciente ou inconscientemente, uma grande influencia desse movimento.

Meu encantamento só cresceu…

O tempo seguiu em anos e, durante o processo de composição das canções que farão parte do disco que agora estamos gravando, o “Aleluia”, encontrei-me por diversas vezes recorrendo às imagens disponíveis na internet para ganhar algum tipo de centelha criativa nesse ou naquele detalhe melódico ou lírico. A partir daí, sentia que estava sofrendo realmente uma interferência da arte de ambos, uma influência.

Chegou a hora de realizar uma nova obra e todo o conceito do “Aleluia” veio à tona. Numa reunião, sugeri que as ilustrações para a capa do disco fossem feitas por eles: Izolag e Ananda. Mas como encontrá-los? Por meio das redes sociais, Orkut e Facebook, acabei encontrando seus perfis e propondo um contato mais constante. Fui aceito e logo estava me comunicando com eles. Fiz-lhes o convite para participarem do projeto do nosso novo álbum e eles assentiram, o que me deixou feliz.

Por meio da internet também passei a ter noção do alcance da arte dos dois: citados no livro “The Stencil History X” (publicação que através de critérios rígidos e bem definidos aponta as grandes expressões da técnica do estêncil), Ananda e Izolag representam o que há de melhor em sua arte no mundo! Obras deles estão espalhadas pelas galerias do planeta, com trabalhos expostos em Amsterdam, Nova York, Paris, Londres, Vancouver, São Paulo, Rio de Janeiro… Foi ótimo perceber que, além de competentes e talentosos, eles são bem sucedidos, de modo honesto e com reconhecimento irrepreensível.

A despeito de sua competência, Izolag e Ananda são de uma simplicidade cativante. Me conquistaram por sua objetividade, sua competência e sobretudo pela vasta cultura musical. Eles ouvem muito do que amo e ainda trouxeram novas referências para a minha dieta musical.

Recentemente, Izolag foi matéria da conceituada revista + Soma. Dentre outras coisas, a publicação dá muita ênfase à importância da música na obra deles e a carga emocional, que caracteriza tanto o trabalho da dupla.

Vê-los em ação foi um deleite, um espanto: a lona bege foi ganhando cor, insinuando formas e, de repente, eis que surgem as figuras, uma a uma, que vão então formando um painel suntuoso e que, visualmente, traduzem o sentimento do que será o disco: “Aleluia!”.

Sobre o processo de construção das ilustrações, da oportunidade única que foi vê-los trabalhar e a observação sobre o seu método criativo, falarei num novo texto. Izolag e Ananda são demais para um texto só…

Bookmark and Share

Sanguinho Novo 2011: SUCESSO!

segunda-feira, 31 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Pensamos num projeto que reunisse um público médio de 1000 pessoas por apresentação. Nos surpreendemos com a procura: foram mais de 5 mil pessoas que viram os shows do Sanguinho Novo, nos quatro domingos em que ele aconteceu, durante o mês de janeiro de 2011, no Largo Tereza Batista (Pelourinho. Salvador/BA). Sendo que muita gente ficou do lado de fora.

Na noite de encerramento, a fila alcançava a Catedral Basílica, no terreiro de Jesus. Para quem não conhece o sítio do Centro Histórico de Salvador, isso corresponde a quase 1 quilometro de fila serpenteando pelas ladeiras de pedra do Pelourinho!

Gente de toda origem, de toda cor, de todas as “tendências”… Um público fantástico, não somente por seu numero, mas especialmente por seu comportamento.
Ver toda essa multidão se juntar para ver as bandas “da terra”, cantar suas canções (as vezes, dançar mais que cantar, como foi o caso do show da banda instrumental Vendo 147), foi um ponto muito especial dessa realização.

O CASCADURA procurou unir pessoas em torno da produção cultural alternativa (roqueira ou não) soteropolitana para lembrar essas mesmas pessoas de suas responsabilidades civis. O tema escolhido foi a doação voluntária de sangue.

Mas existem intenções que excedem essas duas abordagens. O que pretendemos de verdade é fazer com que a cidade tome conta da cidade: demos essa pequena contribuição e esperamos que outros se disponham a fazê-lo também.

Cremos que, para além do entretenimento, o artista pode trazer outras provocações úteis para as platéias. Foi uma felicidade receber o retorno positivo de quem foi, ao menos uma única das quatro etapas do Sanguinho Novo, quanto a proposta que fizemos.

A disposição das bandas convidadas em colaborar foi algo espetacular.

Além de subirem ao palco com grande profissionalismo, proporcionando ainda mais brilho a todo evento com apresentações acima da média, Velotroz, Maglore, Dubstereo e a já citada Vendo 147, mostraram a força de uma nova geração do rock soteropolitano. Trouxeram novas canções, novas propostas, novo vigor e reafirmando o dinamismo de um panorama que não cessa em produzir. Aliás, a escolha dessas bandas teve como critério principal a produção desses jovens artistas. Todos arregaçam as mangas e se põem a trabalhar para divulgar a sua arte, sem esperar qualquer solução cair do céu ou reclamar das dificuldades no caminho.
Dificuldades existem para serem suplantadas. É possível! O Sanguinho Novo mostrou isso. Nos identificamos com essa atitudes e por isso decidimos convidá-los e reuni-los nesse evento. A despeito do velho questionamento sobre o “espaço” do rock em Salvador, o Sanguinho também mostrou onde ele está: no coração das pessoas!

As pessoas! As pessoas que estavam na platéia deram um outro show à Salvador.

Quatro fins de tarde de domingo, entrando pela noite! Todas com a praça lotada, em sua capacidade máxima. Duas delas, a primeira e a última, com uma fila enorme a espera de uma chance para entrar, com os shows já em andamento. Nenhum incidente. Nada! Nenhuma briga, nenhum caso de violência… Nada! Somente a convivência pacifica. Certo que, alguns se assustam quando a galera mais “vigorosa” dança seu pogo no centro da platéia, parecendo estar brigando, numa dança que já é tradição no seio do mundo do rock. No meio daquele bolo afoito, só entra quem tem disposição. Como se diz na Bahia: “Se não agüenta a vara, peça cacetinho!”. No mais, todos a seu modo e de uma maneira muito democrática, se divertiram. Tenho muito orgulho do público que segue o CASCADURA e não canso de dizer isso. É uma grande conquista!
Assim, concluímos o Projeto Sanguinho Novo, lavados de alegria, emoção e êxito. Esse é um mérito nosso, da nossa equipe (reunimos um time fantástico que com grande competência soube lidar com cada detalhe para que o resultado fosse o que foi: um sucesso), dos parceiros, do público e dos que apostaram na possibilidade de um evento diferente, novo. Sanguinho Novo! Porque a música circula e se renova…

foto por Léo Monteiro (Projeto Sanguinho Novo. 30.01.2011)

Tenho muito que agradecer, em nome do CASCADURA, pelos momentos de alegria que dividimos lá no Largo Tereza Batista. Tudo isso nos fortalece e nos trás ainda mais disposição para por em prática os novos projetos que temos.
Muito obrigado a todos!

Bookmark and Share

A Mulher de Roxo

quarta-feira, 26 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Lembra quando comentei aqui, no post “Na Ruy Barbosa”, sobre a região que compreende a Rua Chile, Rua da Ajuda, a própria Rua Ruy Barbosa, Praça Castro Alves, no Centro de Salvador? É… Falei naquele texto sobre a minha história com aquele pedaço da cidade. Que costumava ir lá, quando ali ainda havia lojas bem cuidadas, consultórios médicos e um comércio mais aquecido. Muito antes daquele trecho cair em abandono pelas autoridades devido ao deslocamento das atividades comerciais para outras regiões da cidade, deixando-o sem nenhum plano estratégico de manutenção e conservação. É um daqueles “precedentes dos absurdos”, do qual falava o Governador Mangabeira…

Pois bem… Criança, quando eu passava pela Rua Chile, descendo de mãos dadas com algum adulto da minha família, costumava me deparar com a figura exótica conhecida na Bahia como “A Mulher de Roxo”. Ela surgia, velha de face muito enrugada, vestindo um hábito, ou suposto hábito, de freira de uma ordem desconhecida. Seu traje era marcadamente roxo. Contavam que tinha aparecido ali, do nada, vestida desse modo, vinda sabe-se lá de onde, por ter sido abandonada pelo noivo no altar. Outras versões dão que ela teria sido forçada a casar com alguém indesejável em detrimento de um amor verdadeiro… Muitas histórias de sua procedência rondavam as calçadas das antiga rua mais chique de Salvador.

Existe quem conte que ela chamava-se Florinda Santos, que era vinda de família outrora abastada da zona caucaueira, no sul do estado. Com certeza, sabia-se que ela apareceria, todos os dias, entre a Praça Municipal e a Praça Castro Alves, caminhando bem cedinho pela Rua Chile. Passava o dia mendigando, pedindo colaborações para seu almoço, seu lanche da tarde. Conversando fiado com habitués da região. Por vezes, aparecia com um batom e se maquiava diante de uma vitrine. A extinta Loja Slopper era seu ponto referencial. Tantas vezes acompanhei minha tia Amandina, que chamo carinhosamente de Dindinha (apesar de ela ser a madrinha do meu irmão mais velho), a essa famosa loja de departamentos, onde as senhoras das famílias de classe média iam comprar “presente bom” pra agradar alguém (e nem da classe média nos éramos…), e lá na porta encontrava aquela pessoa sombria aos meus olhos infantis, que, dizem, tinha voz meiga e doce, e hábitos inocentes.

Uma certa vez, essa mulher me olhou, comentou “Que menino bonito!” e veio passar a mão pela minha cabeça. Me escondi atrás de quem me portava e esbocei aquele choro… Na verdade, a Mulher de Roxo servia como ameaça para qualquer falta cometida pelas crianças: “Se não ficar quieto, a Mulher de Roxo vem e te pega, ouviu?!”, “A Mulher de Roxo gosta de pegar menino que chora a toa…”, “Menino, se não comer eu vou deixar a Mulher de Roxo te pegar!”. E assim era… Passados os anos, com o avanço da sua velhice, ela acabou ganhando notoriedade de lenda viva, habitando entre o real e o imaginário da cidade do Salvador. Tão famosa ficou que jornais dos anos 1970 e 80 costumavam editar matérias sobre a misteriosa. Há até uma em PDF, do extinto Jornal da Bahia, à disposição na internet. Este inclusive cita e destaca um suposto encontro entre o famoso compositor Caetano Veloso e a Mulher de Roxo.

Vamos lembrar o que já disse: no fim dos anos 70, apesar de uma certa depressão haver se abatido sobre aquele trecho, a Chile ainda gozava de um status de ponto elegante de compras em Soterópolis. Lá estavam, além da Slopper, a casa O Adamastor (que foi de propriedade do pai do cineasta conquistense Glauber Rocha), o elegante Hotel Palace e outros… Remexendo nas gavetas da memória, encontrei essa personagem e ela me remeteu a uma situação muito comum na nossa sociedade: a repressão ao feminino! Como? Repressão na Bahia? “Vai descendo na boquinha da garrafa…”, “Segure o Tchan! Amarre o Tchan…” Não tem nada mais machista que a sensualização exarcebada da mulher. E eu não estou aqui criticando a conduta e a abordagem das bandas de pagode, estou só constatando um fato. A freira e a piriguete são faces da mesma moeda: a repressão ao feminino. E teremos oportunidade de discutir esses dois lados, aqui no A Ponte e no próprio disco “Aleluia” (me cobrem um post sobre “A Verdadeira”).

E a Mulher de Roxo?
Quando lembrei dela, em carreata pela minha mente, surgiram outras peças que compuseram o cotidiano da minha infância, de um modo POP baiano/brazuca: o jornalista França Teixeira (com seu bordão “Minha cara, minha nobre família baiana), “A Escrava Isaura”, o falecido radialista-populista Fernando José (que narrava o gol dizendo ao goleiro “Vai buscar [a bola] no fundo, fulano-de-tal…” e que, depois, numa estratégia sórdida dos caciques da terra, foi irresponsavelmente conduzido ao gabinete da Prefeitura de Salvador, e lembrado como o pior administrador que essa cidade já teve, até que esta atual gestão ocupasse o Palácio Tomé de Souza)…

A religiosidade e a profanação estavam encarnados na Mulher de Roxo. Quer algo mais baiano? Em quem ela teria se inspirado para vestir-se de freira? Irmã Dulce? Uma Irmã Dulce do mundo bizarro? Ou do mundo real?… Do nosso mundo… Apesar de nunca tê-la visto trajando outra coisa senão aquela veste modorrenta, ela também se vestiu de rainha, com coroa e tudo, e ainda de noiva. Um relato que me foi prestado sobre ela veio do amigo Álvaro Medrado, famoso tatuador que ainda rapaz veio da Ilha de Itaparica trabalhar em Salvador: “Eu lembro de passar por ali, na Rua Chile, porque era meu trajeto da casa para o trabalho, e me deparar com ela, de saias levantadas, fazendo… as suas necessidades…”. Incomodava também…

O diabo é que para mim foi passado que ela era incômoda. Pesquisando, encontro um monte de textos falando dela com certa ternura. Então, por que não fomos com ela? Não fomos por ela… Poucos se compadeceram e buscaram cuidar de algum modo do bem-estar da Mulher de Roxo – certamente o pessoal do também extinto Albergue Municipal, que ficava localizado da Av. J.J. Seabra, popularmente conhecida como Baixa dos Sapateiros (onde Ary Barroso encontrou a morena mais frajola da Bahia), era exceção. Lá era onde ela pernoitava.

Florinda dos Santos morreu em 1997. A Mulher de Roxo seguiu no imaginário dos que tomaram contato com a sua existência… Enfim, veio à tona uma canção. Uma algaravia de sons em riffs pesados: A Mulher de Roxo! Mais surpreendente é que é um rock dos mais rocks que já fiz… Levei ao estúdio e já pusemos a gravar. Assim, a Mulher de Roxo retorna…

Outros relatos sobre A Mulher de Roxo e sua história aqui na internet:
No Blog do Gutemberg
No Recanto das Letras
No 15 Mistérios

Bookmark and Share
  • Links

  • Arquivos