Enfim, de volta ao palco!

sexta-feira, 21 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Como se diz na gíria: 2011 chegou chegando! Veio com o projeto Sanguinho Novo, onde apresentamos um novo show, inserindo músicas inéditas que farão parte do Aleluia, numa proposta de dividir o palco com bandas mais novas e de trabalho relevante no cenário musical soteropolitano, e ainda chamar atenção para a necessidade da doação voluntária de sangue.

As duas primeiras etapas das quatro do projeto foram de grande sucesso. Na primeira, fomos surpreendidos por um número muito maior do que imaginávamos de pessoas interessadas em participar dessa ação: algo em torno de 2 mil pessoas ficaram de fora da estreia no Largo Tereza Batista, sendo que a lotação oficial do espaço do pelourinho é de 1.200.

Como as acomodações do camarim da praça são bem pequenas, decidimos nos aquartelar numa pousada que fica ali perto. E de lá vimos e ouvimos a Dubstereo agitar a massa numa proporção que ainda nos era desconhecida. Claro que somos admiradores da trajetória e da obra desse jovem projeto, que dá uma identidade ultracontemporânea ao painel musical de Salvador. Claro que acompanhamos suas ações e que conhecemos seu potencial. Mas eles se superaram. Um monte de gente cantava boa parte das músicas por eles apresentadas, a plenos pulmões, com toda empolgação. Memorável! Somos agradecidos à Dubstereo por sua adesão ao Sanguinho Novo. Queremos muito reviver essa parceria. Aguardem!

E chegou a nossa hora! A multidão ainda esperava a chance de entrar. Atravessamos a rua estreita e muito cheia até chegarmos ao portão de entrada. Subimos as escadas e esperamos ser chamados pelo mestre de cerimônias Tiago Moura (também conhecido como Tiago “Curto Circuito”, nome do seu programa de rádio). Ao som de “Hooked on a feeling”, do Blue Swede, entramos para tocar.

O show foi, antes de tudo, uma catarse. Um desabafo da saudade! Nossa e dos nossos fãs. Estamos falando de exatos 12 meses de ausência dos palcos. Corremos com canções do Bogary, do Vivendo em Grande Estilo e quatro das tantas que virão compor o Aleluia, dentre as quais a própria canção título, “O Rei do Olhar”, “O Delator” (da qual já falamos aqui e que no disco contará com a participação especial de Jajá Cardoso, da Vivendo do Ócio) e “O Tempo Pode Virar”, que encerra parte importante da apresentação.

Além das novas canções, o novo show vem com os novos colaboradores, andré t, Jô Estrada e Du Txai, e com eles um novo comportamento, onde nos revezamos por entre guitarras, baixo e teclados, para suprir as necessidades dos arranjos que desenvolvemos. Isso trouxe nova cara e vitalidade para canções antigas como “Wendy”, onde passei a tocar baixo, além de cantar, e andré toca teclado.

A praça estava realmente lotada. O público empolgado. Dançava, agitava, cantava emociandamente conosco, emocionando-me! Mas com todas as coisas que fez, comportou-se de modo exemplar! Ali, não houve um único incidente. E que siga assim. Saímos de alma lavada pela espera, pelo trabalho executado, pelo esforço, nosso e de nossos parceiros e equipe.

Porém, ainda tínhamos muito o que fazer nos dias seguintes. Como falei: 2011 chegou chegando! E ao passo que vamos desenvolvendo o Sanguinho Novo, nos pusemos de volta ao Aleluia.

Enquanto nos preparávamos para realizar o segundo show, dessa vez dividindo o palco com a excelente Vendo 147 na abertura, recebemos duas figuras que vieram para contribuir com toda a abordagem que pretendemos em nosso novo álbum: os artistas plásticos Izolag e Ananda Nahu. Com eles, embarcamos num tipo de aventura pela arte visual: produção frenética, injeção de cores e muitas surpresas saltando aos nossos olhos. Eles vieram conceber e produzir as ilustrações da capa do disco e essa é uma matéria que trataremos com o cuidado devido aqui.

Não bastando, ainda em paralelo, realizamos um encontro no estúdio com outro artista que trouxe sua incisiva colaboração. Essa pessoa veio ajudar-nos a contar uma das histórias mais importantes do Aleluia e que, sem ela, talvez não teríamos como fazer… Aguardem mais novidades.

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E é Verão…

quarta-feira, 05 janeiro 2011 - postado por fabiocascadura

Quando pisarmos no palco do Largo Tereza Batista, no Pelourinho, na estreia do projeto Sanguinho Novo, estaremos dando início a uma nova etapa em nossa carreira. Será a abertura de um novo processo com novos colaboradores no palco, novo repertório, nova abordagem artística… Não sei se tudo isso estará tão evidente para os que a nós assistirem. Mas, certamente, esse momento trará novas emoções a todos.

Ainda não posso definir muito bem que emoção é essa que nos toma agora. Há uma ansiedade pairando no ar. Temos tomado cuidados com detalhes dentro do show que estamos montando e ensaiando arduamente em estúdio. Mas tem também uma curiosidade imensa em saber a opinião daqueles que realmente importam para o CASCADURA: os fãs!

Somos conscientes de que esse é um reencontro aguardado, por nós e pelos fãs, há um ano. O show mais recente do CASCADURA deu-se em 30 de janeiro de 2010! Foi a despedida da turnê do Bogary. Depois disso, como todos já sabem, entramos em estúdio para a gravação do Aleluia. Como o disco ainda não foi lançado, essa não é a turnê referente a ele. É sim a realização de um dos projetos que temos e pelo qual nutrimos grande carinho, por sua motivação social e artística.

Não quero entregar o jogo antes da hora. A surpresa é ingrediente fundamental no sucesso do que nos propomos a fazer. Mas todos podem ir à apresentação de estreia do Sanguinho Novo certos de que uma história inteira será contada ali e a aurora de um novo CASCADURA também lhes será apresentada. Também é da nossa vontade mostrar um repertório diferente a cada apresentação, que ocorrerá na programação do projeto, a cada domingo até o final do mês de janeiro.

Em paralelo à realização do Sanguinho Novo, estaremos dando continuidade à parte mais aguda das gravações do Aleluia. Nesse mês, entraremos em estúdio com muitas novidades: gravações de arranjos, participações especiais de amigos… Acabamento! Tudo isso será detalhado aqui ao passo que for acontecendo e quem vier aqui acompanhará essa história.

Assim, o Verão, que agora se faz imponente em seu calor sobre a Cidade da Bahia, será muito atarefado para nós, do CASCADURA.

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Fábio Cascadura participa do novo DVD de Pitty

sábado, 11 dezembro 2010 - postado por assessoria de imprensa

Cantor faz dueto com a conterrânea na música “Sob o Sol”, em gravação ao vivo que acontece em 18 de dezembro no Circo Voador (RJ)

Lançado em 2009, o disco “Chiaroscuro”, de Pitty, depois de ter gerado o DVD “Chiaroscope”, com o making of das gravações, agora vai render um registro ao vivo. O show a ser realizado no próximo dia 18 de dezembro (sábado), no Circo Voador, no Rio de Janeiro, pretende ecoar o conteúdo deste álbum que é um marco na carreira da cantora. Neste momento especial, Fábio Cascadura, líder da banda baiana Cascadura, estará presente: ele vai cantar com Pitty a canção “Sob o Sol”, uma composição feita pela própria dupla.

Parte do DVD “Chiaroscope” e do compacto de “Me Adora”, que será vendido exclusivamente no dia do show no Circo, em vinil de cor especial (variações de preto e branco), “Sob o Sol” é a primeira criação em conjunto dos amigos – uma realização que concretiza o encontro de dois dos mais importantes nomes do rock da Bahia.

Além de Fábio Cascadura e da banda oficial (o guitarrista Martin, o baixista Joe e o baterista Duda), o novo DVD vai contar com a participação do tecladista Brunno Cunha (Caixa Preta) e de Hique Gomez (Tangos e Tragédias), que toca violino em “Água Contida”. Segundo Pitty, este será um trabalho “mais roots, diferente do anterior, com uma pegada mais direta, inclusive privilegiando lados B da minha carreira”, explica.

“Sob o Sol” – Na casa de Pitty, Fábio Cascadura cozinhou um caruru para um jantar de festa – e foi lá que, entre um assunto e outro, surgiu a conversa de escreverem juntos. “Pitty é minha amiga há bastante tempo, mas nunca havíamos cogitado a possibilidade de fazer uma canção juntos”, conta Fábio, também em referência ao fato de que, além de terem compartilhado a cena musical baiana na década de 1990 e de terem dado seguimento sólido ao rock local, os músicos que integram as duas bandas (a de Pitty e o Cascadura) têm histórias costuradas: Thiago Trad, baterista do Cascadura, tocou com Pitty no Inkoma; e Martin Mendonça, Joe e Duda Machado já passaram pelo Cascadura.

“Naquela noite, conversamos sobre Salvador, suas possibilidades, reais alegrias e mazelas… Aí, ali mesmo, ao redor da mesa, nos propusemos, quase que simultaneamente, a escrever algo falando disso”, lembra Fábio. Alguns meses depois, a ideia foi posta em prática e eles fizeram um rock misturado com bolero. “Criei o riff a partir do desejo de compor um bolero mesmo. Virou um rock com embalo ‘abolerado’. Ou seria um bolero pesado?”, ele tenta definir.

Na letra, a capital da Bahia, tão bem conhecida por ambos, se apresenta em suas riquezas e tristezas – sobretudo na relação de descaso que há para com ela e a desfaçatez de quem deveria ter o compromisso de torná-la uma cidade mais justa para os que aqui vivem. Fábio resume: “Salvador definha a olhos vistos, sem que nem mesmo nós, soteropolitanos, tomemos a frente para colocá-la numa condição menos indigna… Ao menos para que ela não fique tão só”.

“Sob o Sol” foi gravada nas sessões do álbum “Chiaroscuro”. Não entrou no disco, mas apareceu no DVD “Chiaroscope”, chegando ao público e aos shows da turnê de Pitty. Foi esse público que tornou a canção relevante de fato. “Agora, toda essa trajetória vem desaguar na minha participação na gravação do DVD, o que é uma honra para mim. Há da minha parte uma alegria enorme pela canção ter chegado a esse destaque. E, antes de mais nada, esta será uma celebração ao lado de grandes e bons amigos”, conclui Fábio.

SERVIÇO
SHOW: PITTY – GRAVAÇÃO DO DVD
Quando:
18 de dezembro (sábado), 21 horas
Onde: Circo Voador (Rua dos Arcos, S/N, Lapa – Rio de Janeiro/RJ)
Quanto: R$ 50 (inteira); R$ 25 (meia)
Vendas: www.ingresso.com

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Bahia de Todos os Rocks 2010!

segunda-feira, 29 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Dia 23 de novembro, uma terça à noite, fui à cerimônia de entrega do Prêmio Bahia de Todos os Rocks 2010. Na edição anterior, de 2008, o Cascadura recebeu os prêmios de Banda do Ano e Melhor Clipe, por “Mesmo Eu Estando do Outro Lado”, dirigido por Zeca de Souza e Luis “Mingau” Guilherme.

O Prêmio é uma ideia muito legal do pessoal da PutzGrillo!, jovem produtora local, e visa a premiar a produção do rock baiano, além de criar uma oportunidade de congraçamento entre todos que participam desse mercado.

Esse ano, não tivemos indicação, não concorremos em nenhuma categoria. Nosso lançamento dentro do período julgado (2009-2010) foi o DVD Efeito Bogary e não há categoria em que ele se enquadre (além de o conteúdo dessa obra já ter sido avaliado). Porém, além de vários amigos estarem participando como concorrentes, acho de grande relevância prestigiar a festa.

Aconteceu no Teatro Casa do Comércio, mesmo lugar da cerimônia da primeira edição. Foi uma premiação justa com muitos trabalhos importantes sendo apontados aos troféus (que é uma brincadeira bem sacada com uma “figa”) e com a participação de boa parte dos que circulam pelos espaços da chamada cena alternativa soteropolitana. A falta, na minha opinião, está justamente aí: é preciso chegar ao interior da Bahia, onde há boa produção também.

Do mesmo modo, gostaria de ver ali outras possibilidades para além do rock, como o reggae e a música eletrônica, que, se não estão alinhados esteticamente, têm muito que contribuir para o crescimento e a circulação dessa orientação cultural. Enfim, o Prêmio Bahia de Todos os Rocks pode, daqui para frente, dar uma contribuição ainda maior ao panorama artístico da cidade e do estado, chamando à adesão uma gama maior de artistas e estilos.

No mais, foi uma felicidade ver o reconhecimento e o carinho de todos que estavam lá com gente como Messias, que recebeu o prêmio de “Música do Ano” por sua “Resilience”; como Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta (houve um pequeno incidente que acabou dando mais charme à apresentação deles, que também concorriam à “Música do Ano”: a guitarra de Edinho não funcionou e ele, como não podia tocar, cantou e dançou. Foi sensacional!); bacana o prêmio de “Músico Destaque” para Morotó, que, ao meu ver, sempre será indicado (na ausência do premiado, quem acabou indo buscar o troféu foi seu parceiro de Retrofoguetes, Rex, que também concorria na categoria. Foi engraçadíssimo vê-lo lá! Rex é um cara muito espirituoso e inteligente. Deveria inclusive ser cotado para apresentar as próximas edições).

A banda Quarteto de Cinco levou o prêmio “iBahia Garage Band”, o que a credencia a participar do Festival de Verão 2011; o videoclipe vencedor foi o da Teclas Pretas (talvez a concorrência mais acirrada do Prêmio); Silvis Rodrigues ganhou como “Designer do Ano” e Luciano Matos, pelo blog El Cabong, levou “Mídia do Ano”. Merecidíssimo o prêmio para “Frascos, Comprimidos e Compressas”, de Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta: “Disco do Ano”! Bem como para “Banda do Ano”, que foi a Vivendo do Ócio (eles fizeram um 2010 fantástico, trazendo adimiração e orgulho a todos nós que curtimos o som deles), e o “Show do Ano”: Paulinho Oliveira, que aniversariava naquela noite.

Na 1ª edição, o prêmio mais aplaudido foi o que foi oferecido ao pessoal d’Os Panteras, batizado de “Dinossauro Referência” (parêntese: acho o nome desse prêmio muito feio. Poderiam escolher um título melhor, menos pseudopomposo. Talvez bastasse “Referência Rock”… Mas Dinossauro Referência é feio demais…). Nessa edição, este prêmio coube ao comunicador, radialista e agitador cultural Valdir Serrão, o Big Ben!

Antes de mais nada, a homenagem é mais que merecida: Valdir Serrão é um cara que tem sua marca na história do rock local. Com cinco ou seis anos de idade, lembro do programa que ele tinha na TV Itapoan, o “Som do Big Ben”, e depois escutei mil outras histórias de suas iniciativas para divulgar o rock’n’roll, o reggae e outros estilos por aqui (tem aquela famosa lenda de que, em 1969 ou 70, ele teria colocado “Voodoo Chile”, de Jimi Hendrix, para tocar em seu programa na rádio e durante a execução choveram telefonemas perguntando por que a estação estava fora do ar…). Enfim, o prêmio é mais que merecido. Só achei que a produção do vídeo de apresentação não foi a contento. Tem que ter mais cuidado ao expor uma figura pública, tanto mais quando vamos homenageá-la.

No mais, espero que daqui pra frente o Prêmio Bahia de Todos os Rocks só cresça, contribuindo para tornar ainda mais visível o resultado do esforço de quem trabalha pela música na Bahia.
Parabéns aos indicados, aos premiados, aos organizadores… Enfim: Parabéns!

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“Valeu, tio!”

sexta-feira, 19 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Falei em um post anterior sobre alguns álbuns recém-lançados que nos forneceram combustível para pensar num conceito para nosso próximo disco de estúdio, o Aleluia, esse mesmo, matéria-prima e razão de ser desse blog.

Falei do “Chá Chá Chá” (Retrofoguetes), “Frascos, Comprimidos, Compressas” (Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta), “Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz” (homônimo) e “Maçalê” (Tiganá Santana). Óbvio que não só disso vive o Aleluia, mas esses marcaram por serem obras contemporâneas, de artistas que estão num patamar de ascensão dentro do panorama musical brasileiro e que, acima de tudo, representam a inquietude diante da própria música.

Mas deixei de citar um outro disco, lançado há pouco tempo e que, tanto quanto ou mais que estes, interfere na produção que estamos fazendo em estúdio e nos ensina algumas coisas para além da música que pretendemos criar: “Zii e Zie”, de Caetano Veloso.

Escutei esse disco pela primeira vez na casa do próprio num período em que nos aproximamos, exatamente porque ele nos citou no blog que criou para expor o processo de criação desse álbum, exatamente como estamos fazendo com o Aleluia, aqui, em A Ponte.

Mas nossa relação com Caetano vem de antes: uma vez, nos idos de 1999, encontrei um amigo no Largo de Santana (Rio Vermelho). Era um começo de noite de uma sexta-feira e eu estava ali para encontrar com Martin e Jorginho (o famoso King Cobra). Éramos parceiros num evento que vinha acontecendo havia alguns meses: o Rock Nights! Toda semana, (Dr.) CASCADURA e King Cobra (banda da qual, então, Martin era guitarrista) revezavam-se no palco do Havana Sushi Bar, exatamente naquela praça. Eram noites bem concorridas e que nos custaram muito trabalho para tornarem-se assim, prestigiadas. As edições do Rock Nights aconteciam nas quintas e o combinado com a direção da casa era recebemos o cachê da noite anterior no começo da noite de sexta. Eu sempre ia acompanhado do então Cascadura Paulinho Oliveira, e encontrávamos com os dois “Cobras”.

Nessa noite, porém, me encontrei com esse camarada, o lendário Alexandre “Polho” Torres, que nos disse: “Você viu? Caetano falou de vocês na MTV! Foi no Jornal da MTV, agora há pouco…”.

“Cuma?”
Tanto eu quanto Paulinho achamos que havia um engano aí: Caetano é famoso e nós somos uma banda de rock soteropolitana suando para sobreviver localmente! Ele confirmou e, sabendo que nos encontraria ali (na época, nenhum de nós tinha telefone celular), veio nos encontrar para comentar o fato (e de quebra sentar para uma rodada de cerveja e papo). Ele repetiu umas três vezes que Caetano tinha dito no programa da MTV que estava escutando “uma banda de Salvador que fazia um rock assim… bem Stones: Dr. Cascadura!”.

Seguimos descrentes, até que chegou um outro amigo: Wallace (hoje guitarrista da banda de rock ultrapauleira Bestiário). E qual foi a primeira frase dele? “Poxa! Caetano falou que está escutando vocês!”… “Porra, véi… Foi mesmo?”. Polho não perdeu a deixa: “Viu aí, mané?! Eu tô maluco?!”.

Aquilo repercutiu por um tempo e nos trouxe satisfação: era sinal de que estávamos trabalhando bastante e fazendo nossa obra chegar ao maior número de pessoas possível, dentro da nossa limitação (sobretudo, orçamentária). Mas logo demos sequência e seguimos.

Ficamos sabendo que Caetano, que costuma passar temporadas de verão em Salvador e, nestes períodos, habitualmente, frequenta o Rio Vermelho, foi a uma loja de discos do bairro, a extinta Na Mosca, e pediu ao Tony Lopes, proprietário do estabelecimento, algumas “novidades” da Bahia. Acabou caindo-lhe as mãos nossos dois primeiros discos: “Dr. Cascadura #1” (1997) e “Entre!” (1999). E pronto…

Esse lance de “Caetano falou de vocês”, virava e mexia, vinha à baila. Só que, com o tempo, fomos dando cada vez menos ênfase a isso. Não tenho certeza, mas acho que ele acabou fazendo esse comentário de estar escutando CASCADURA em mais alguns outros veículos, sendo que eu mesmo jamais havia lido, ouvido ou o visto falar de nós.

Passa um tempo, a banda muda, a música muda, “pererê-parará-pão-duro”, como dizia minha mãe… Eis o Verão de 2008/09. Quando chegam as festas de fim de ano, é tradição em Salvador o baile “O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes”. É praticamente uma festa de confraternização entre os que frequentam e trabalham no circuito de música alternativa da cidade. E sempre que dá, eles me chamam para uma canja. Eu adoro participar.

Os Retrofoguetes são organizados em suas diversas ações, não dão ponto sem nó. Para esses shows com convidados, fazem questão de armar um ensaio antes da apresentação. Para a festa do Natal de 2008, além de mim, do maestro Letieres e o pessoal da Anacê, eles convidaram nosso amigo Glauber Guimarães.

Glauber é primo de Rex (baterista dos Retro), foi ele quem me substituiu quando saí d’Os Feios, banda de rock 50’s da qual fazia parte, juntamente com Joe (hoje baixista de Pitty), Morotó (guitarra) e o próprio Rex Crotus, na bateria. Depois, como todos sabem, eles se tornariam os The Dead Billies e Glauber mudaria seu nome para Moskabilly. Ok…

Passadas essas aventuras, Glauber acabou desenvolvendo-se como compositor e cantor (dando ênfase ao seu projeto Teclas Pretas) e, naquele instante, estava muito ligado ao universo virtual dos blogs. Ele chegou ao ensaio, onde eu já estava (foi no estúdio de Bola, ex-guitarrista da Dinky Dau e Sangria, na região do Largo 2 de Julho, Centro de Salvador), e me cumprimentou dizendo: “Caetano falou de vocês…”. “De novo essa conversa?!”, pensei. “Mas foi essa semana! Você viu?!”, ele completou, e ainda afirmou que “está escrito na internet…”.

Glauber vinha acompanhando uma estratégia inovadora de Caetano para divulgar seu disco. “Pois é, bicho! O cara tá gravando um disco novo e decidiu expor todo o processo de construção em um blog na internet, onde, quem quiser, fica sabendo o que tá rolando no estúdio, nos shows de preparação e desenvolvimento desse trabalho… Chama-se: ‘Obra em Progresso’ e lá ele disse que curte o som do Cascadura e que vem acompanhando vocês!”, contou.

“Pera aê, Glauber!.. Ele tá gravando um disco e mostrando o que tá fazendo antes de lançar?”, me assustei com a informação. Caetano é um “medalhão”. Se essa estratégia fosse implementada por alguém do universo alternativo, eu até compreenderia, acharia natural, pois a necessidade de lançar mão de algumas ferramentas mais radicais para divulgação dos projetos dessa fatia do mercado é sempre eminente. Mas um cara que trabalha num patamar como o dele?…
“Vá lá ver, rapaz!”, sugeriu.
Eu fui…

Li o texto em que ele nos cita, li o texto em que ele falava da música do disco, da abordagem, do conceito do álbum, dos shows que faria/fizera no Canecão, no Rio, onde testaria possibilidades e arranjos e li mais: os comentários dos que visitavam o blog “Obra em Progresso”.

Centenas de comentários por post. Havia uma legião de fãs, curiosos e detratores ali, prontos para debater, bater papo, comentar somente, mandar um alô, um beijinho, fazer uma graça ou xingar o Caetano. E ele estava lá, nu! Exposto, debatendo o quer que fosse, contra-argumentando, concordando… O legal ali era que quem lesse poderia comentar. Não era, como de costume em casos de artistas de grande alcance, uma via de mão única. Podia-se “responder”, com grandes possibilidades de réplica por parte do autor.

Tendo ele nos elogiado e chamado a atenção para o CASCADURA em seu texto, decidi deixar um comentário, agradecendo o carinho e tal… Não lembro se houve réplica, mas fiquei de boa com isso tudo e segui… Foi quando nosso produtor de então, Dimitri, foi ao Rio Vermelho e acabou encontrando com o próprio Caetano: “Oi, Caetano! Eu sou produtor do CASCADURA, sabe?! Os caras ficaram contentes com seu texto e tal… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Parece que Caetano falou que queria nos conhecer e Dimitri disse que iria me ligar para que pudéssemos falar.

“Alô, Fábio… É o Caetano!..”, era a voz do “Cinema Transcendental” mesmo. “Olha, vamos nos encontrar uma hora dessas… Acho o som de vocês demais… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá… Blá, blá, blá…”. Foram uns cinco minutos de papo e deixei uns telefones com ele, caso ele quisesse ligar e marcar algo.

Passaram-se algumas semanas e no meio de uma partida de buraco da qual eu participava somente para fazer número (minha sogra, meu cunhado e esposa sabem jogar. Eu, não), toca o telefone: “Oi, Fábio! É o Caetano… Vai fazer o quê hoje?!

O cara me convidou para ir a uma festa na casa dele aqui em Salvador e lá, enfim, nos conhecemos pessoalmente. Gente fina! Tava lá a galera do Grupo de Teatro Olodum, o produtor Arto Lindsey, o músico e arranjador Tuzé de Abreu e dentre outros tantos famosos David Byrne (ex-Talking Heads).

Caetano fez questão de nos apresentar a ele e não perdeu a chance de uma brincadeira (em inglês fluente): “David, esses são roqueiros daqui de Salvador… Eles odeiam pagode, axé e carnaval!..”, falou com um meio sorriso zombeteiro e tomando um drinque. Eu, de supetão, quis contradizê-lo, falando um “It’s not true…”, e me saí com um estúpido “Not too much!”. O círculo irrompeu em gargalhas (“Olha, David! Eu sou preconceituoso, mas NEM TANTO!”, seria a tradução da gafe que cometi).

O Mr. Byrne nem nos deu trela, mais simpático foi o Arto Lindsey. Mas estávamos ali para conhecer Caetano e era o que valia. Fomos eu, Thiago Trad, acompanhados das namoradas, e Dimitri. Conversamos um tempo sobre música. Ele falou muito bem da produção do Bogary, com propriedade de quem realmente ouviu. Citei a vontade de fazer um próximo disco mais diferente e arriscado, buscando diálogos com informações locais e cheguei a dizer que “tenho vontade de justapor Stones e samba-reggae”. Ele fez cara de “É…” (?).

Passadas algumas horas, fomos nos despedir. Ele pediu que voltássemos num dia qualquer, somente para trocar informações sobre música e arte. Esse retorno acabou acontecendo três semanas depois, e com a presença de Glauber, que ele pediu que eu levasse, e andré t, outro que pediu que convidasse, desde que munido de algumas coisas que vinha trabalhando em estúdio, além de Trad e Heitor, um amigo e parceiro de Glauber.

Passamos uma tarde conversando sobre histórias do passado (muitas das quais já conhecia de livros sobre a música brasileira), tiramos dúvidas sobre o rock em Salvador no período em que ele morou aqui (entre os 50 e 60 do século passado), o escutamos dizer algumas vezes “Caras, eu sou ‘tiozinho’! As vezes as pessoas se esquecem, mas sou ‘tiozinho’!”, e ele falou sobre o que deveria vir a ser seu próximo disco, o que estava expondo no blog “Obra em Progresso”.

Daí, ele convidou-nos a ouvir música na sala (antes estávamos num pátio na frente da casa). andré t levou um CD com uma compilação de produções dele: Messias (músicas do que depois viria a ser o sensacional álbum triplo “Escrever-me, Envelhecer-me, Esquecer-me”), que parece ter gostado muito, e uma demo de um projeto dub no qual eu e ele vínhamos trabalhando com uma dupla de baixo-bateria fenomenal. Quando tocou a primeira das faixas dessa experiência (que estava, como ainda está, inacabada), Caetano deu um sorriso e disse: “Esse é o som!”. Explicamos que era um projeto aberto e que não sabíamos exatamente o que fazer com aquilo. E ele mandou: “Quero participar também!”. Logo depois, numa entrevista coletiva aqui em Salvador, ele tornaria a comentar esse projeto e sua vontade de fazer parte dele.

Atenção, você que me lê agora: até aqui, escrevi a introdução do texto… O assunto vem agora!

Terminado o CD levado por andré, Caetano pegou um outro CD-R e disse: “Esse é o ‘Zii e Zie’, meu novo disco. Vou pôr para vocês ouvirem”. Entrou uma música extremamente diferente… Era guitarra e era samba. Mas não era guitarra e samba de Benjor ou Gil… Era outra parada! E era da boa! A sequência ia rolando e a gente meio espantado, para o visível deleite dele. Quando tocou uma que hoje sei chamar-se “Menina da Ria”, comentei que lembrava um frevo torto com suspiros McCartianos (sic!): “Um frevo-beatle!”.

Caetano explicou seu desejo de falar com o olho de sua geração, “de tios e tias”, sobre o Rio de Janeiro. Acendeu-se uma lâmpada sobre a minha cabeça! Na real, já estava acesa. Só ganhou alguns watts de potência.

Antes de escutar o “Zii e Zie”, ali e depois com mais calma, em casa, já queria um disco do CASCADURA todo DE Salvador, em contraponto ao Bogary, que foi feito em São Paulo, mas PARA Salvador. Porém o modo articulado apresentado nesse disco de Caetano, com sua banda formada sobre instrumentos identificados como “de rock”, com seu som mais vivo e claro que o “Cê”, supostamente o “disco roqueiro” de sua obra, levou-me a certeza de que teria que enfrentar esse desejo, desapegando-me de muito do que estava comigo em termos de crença e perspectiva, no que diz respeito à minha própria produção. Será que me fiz entender?…

Ao final da “audição”, ele nos perguntou o que havíamos achado. Visivelmente mexidos, elogiamos. andré emendou uma analise técnica mais apurada e lançou seu “Não gostei do som do ‘Cê’…”. Exato! Caetano arregalou os olhos e parece ter achado massa a sinceridade de andré, tanto mais quando ele explicou que o som do “Zii e Zie” era muito superior e a produção, que valorizava as “salas” de cada instrumento, dava a esse disco um som próprio e muito bem acabado. Ele explicou o porquê do nome, “Zii e Zie”, sendo reforçado pelos complementos de Glauber, bem mais interado naquele momento das intenções que ele havia exposto no “Obra em Progresso”.

Terminamos essa com abraços e promessas de breve reencontro. Com o passar dos meses, o “Zii e Zie” foi lançado, trazendo espanto, admiração de muitos e também certa rejeição da parte de quem não o assimilou. Segui ouvindo-o. Entendendo que, nele, Caetano busca tratar da sua territorialidade vigente: o Rio de Janeiro em seus diversos aspectos. Esse olhar, muito simples e objetivo, reforçou a trilha que buscava e que, somado aos outros discos, a alguns livros e filmes, ajuda a compor o mosaico de influências que adornam o Aleluia.

Ainda mais: a forma como o disco foi apresentado, com seus shows de teste no Canecão e o infalível blog “Obra em Progresso”. Não fosse aquela experiência, talvez não tivéssemos o impulso de fazer o mesmo com o nosso novo álbum de estúdio, abrindo o processo para que todos possam saber um pouco mais do caminho que estamos percorrendo. Não fosse assim, talvez eu não estivesse escrevendo essas linhas e você não as estaria lendo. Por isso, tenho que agradecer a Caetano Veloso: “Valeu, tio!”

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CASCADURA + produtor andré t

sexta-feira, 08 outubro 2010 - postado por andré t

Há bastante tempo temos conversado sobre o próximo disco do CASCADURA e o que ele deveria ser ou não ser. Curioso, pois nunca passamos tanto tempo desenvolvendo conceitos.

Um pouco da nossa história (CASCADURA + produtor andré t):
Começamos a trabalhar juntos quase dez anos atrás, com um EP que se transformou no disco “Vivendo em Grande Estilo” (lançado em 2004). Entramos no estúdio e fizemos o álbum: simples assim!

Alguns anos depois, com a banda reduzida a Fábio e Thiago, chamamos Jô Estrada para a função de coprodutor (acumulada à de guitarrista) e gravamos o “Bogary”. Nesse disco, tivemos um tempo de preparação de conceitos: dois ou três cafés na casa de Jô (onde lutávamos para convencer Fábio a deixar “Adeus, Solidão” no disco), divididos entre inúmeras discussões sobre a música dos Beatles, Beach Boys, os artistas da Atlantic e os causos do nosso grande amigo Alvaro Tattoo!

No estúdio, o trabalho foi muito simples: Fábio tocava a música no violão, nós conversávamos um pouco sobre o que fazer (bem pouco mesmo) e Thiago sentava na bateria, muitas vezes sem nem saber a estrutura completa da música! E o trabalho fluiu…

Resolvemos continuar com esse grupo para o Aleluia; além de trabalharmos bem juntos, ao ponto de muitas vezes não precisar falar absolutamente nada e todos entenderem, somos muito amigos fora do trabalho e conversamos sobre tudo.

Desta vez, as coisas estão um tanto diferentes. Uma coisa aconteceu paralela e coincidentemente a todos: uma “redescoberta” da nossa casa. Da minha parte, passei pouco mais de dois meses entre São Paulo e Rio no ano passado, gravando e mixando o disco “Chiaroscuro”, de Pitty, e, ao mesmo tempo que foi um trabalho recompensador, entre amigos muito queridos, não via a hora de voltar para casa, e ouvir o sotaque que é peculiar a Salvador.

Essa “redescoberta” fez muito desse conceito do Aleluia. Que tal olhar para a cidade em que vivemos e reinterpretar nossa música e nossa maneira de apresentá-la? Que tal quebrar alguns paradigmas e mudar quase que completamente nosso modus operandi? Que tal não fazer um “Bogary 2, A Volta”? Que tal fazer algo que nos estimule e nos desafie, para que possamos fazer algo melhor do que tudo que já fizemos antes?…

Ao mesmo tempo que olhamos para a nossa cidade e para as nossas raízes, olhamos também para as raízes desse tal de rock’n'roll, um certo rhythm’n'blues que veio justamente dos filhos e netos dos escravos (alguma coincidência aqui?). Voltamos a falar da Atlantic (ouçam Atlantic Rhythm’n'Blues, coletânea fantástica), como conversei com Fábio num dos nossos primeiros encontros, onde descobrimos nosso amor mútuo pela música de Ray Charles (aliás, eu poderia passar horas falando só dele), Aretha Franklin, Otis Redding etc.

Mas e o disco? Simplesmente estamos dando um tratamento único para cada música. O normal e mais rápido numa gravação, como Fábio já explicou, é montar a estrutura e fazer todas as baterias e baixos juntos, numa só sentada! No Aleluia, estamos fazendo questão de trabalhar cada música de uma maneira particular, muitas vezes com instrumentação muito diferente entre uma e outra.

Thiago, por exemplo, está experimentando gravar com vários kits de bateria diferentes, com afinações e técnicas de gravação que nunca tentamos antes. E não é que ele está tocando melhor do que nunca? Acho que esse desafio, entre os quais tocar algumas coisas de uma maneira muito suave, o está fazendo buscar qualidades que ele nem sabia que tinha! Além do mais, agora vemos nosso baterista tocando percussão erudita. Ao mesmo tempo, ele, um paulistano-soteropolitano, é um dos primeiros a falar do tal do sotaque de Salvador.

Num próximo texto, falarei um pouco mais sobre o processo de gravação e suas peculiaridades. Agora estou ansioso pela próxima sessão, onde deveremos ter uma visita ilustríssima!

Ah, Ray Charles…
Trinta anos atrás, quando começava a tocar piano, chegava da escola e procurava algo diferente para ouvir, dentre os discos do meu pai. Descobri um disco duplo com uma capa escura com um perfil de uma pessoa. Era um disco ao vivo do Ray Charles. Pronto! Depois disso, todos os dias chegava correndo em casa, punha o disco no “três-em-um” e tentava tocar que nem ele. Ainda não consegui…

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Na Ruy Barbosa

sexta-feira, 17 setembro 2010 - postado por fabiocascadura

Um tanto cedo, por volta de cinco e meia da manhã, já estava de pé. Havia combinado com meu velho amigo (velho porque o conheço há mais de 20 anos!) Ricardo Ferro uma sessão de fotos no Centro de Salvador – esse sim, muito velho! Queria ser fotografado caminhando pela Rua Ruy Barbosa, uma via estreita que liga a famosa Praça Castro Alves à Ladeira da Praça (no caso, da Praça Municipal).

Cresci frequentando um consultório médico de um otorrinolaringologista, que ficava naquela rua (todos sabem que desde pequeno sou surdo de um dos ouvidos). Tinha que fazer o percurso entre o Largo do Tanque até o antigo terminal da Barroquinha, subir as escadarias da igreja de mesmo nome (e onde, nos fundos, nasceu o primeiro candomblé como o conhecemos; leia o livro “O Candomblé da Barroquinha”, por Renato da Silveira) e de lá passar pela frente do antigo e então decadente Cine Glauber Rocha (que antes fora o Cine Guarany e, hoje, revitalizado, recebe o nome de Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha, mas com seu funcionamento comprometido devido ao insistente uso da Praça Castro Alves, onde está localizado, para toda e qualquer manifestação “popular”: de shows/cultos evangélicos e comícios eleitorais a festas ligadas a meios de comunicação) e, em seguida, pelo lindo prédio com fachada de pedra, onde outrora já funcionou a redação do Jornal A Tarde e as primeiras instalações do Estúdio WR. Então, entrava na Rua Ruy Barbosa, contígua àquela que na primeira metade do século XX foi a mais charmosa via pública da Bahia: a Rua Chile.

Esse trajeto faz parte das minhas lembranças de garoto. Toda semana ia lá, ao consultório de Dr. Carlos Fera, e era o mesmo de sempre: esperar duas horas até ser atendido (ordem de chegada era o padrão do esquema INPS, o SUS daqueles tempos; só não entendia porque tinha gente que chegava depois de mim e era atendido antes: ainda não haviam me explicado todas as possibilidades da aplicação da palavra “particular”). Sentado na cadeira tipo dentista, o médico, já um velhinho, pedia que eu virasse a cabeça. Apontava uma lanterninha para meu ouvido surdo, coletava algum material lá de dentro, pingava umas gotinhas de qualquer coisa, conversava com quem estivesse me acompanhando e nos dispensava.

Quando ia com Dindinha, minha tia e madrinha, corria o “risco” de ganhar um passeio com bolinho da Cubana, caso decidíssemos descer o Elevador Lacerda para pegar o ônibus (na Bahia ninguém toma o ônibus: pega) no ponto que fica em frente ao Mercado Modelo. Ou ainda melhor: empadinha da Savoy, lanchonete que fica em frente ao Relógio de São Pedro, na Avenida Sete (oficialmente, Avenida Sete de Setembro). Lá achávamos a mais incrível empadinha.

Na Ruy Barbosa, ficava um sebo de livros que alimentava muito a minha imaginação. Quando a espera era por demais demorada e enfadonha, conseguia escapulir por uns dez minutos e ir olhar a vitrine do Sebo Brandão, que ainda fica lá. Capas e capas: gravuras aos montes, índios em fotos multicoloridas, desenhos de caravelas e dinossauros estampavam livros de capa dura (verde ou vermelha) em tinta dourada… acho que li todos aqueles livros sem jamais tê-los aberto. Nos minutos diante da vitrine, me alimentava de toda aquela informação visual que, no correr da minha vida, foi sendo paulatinamente explicada, a cada passagem, a cada nova experiência!

Era nessas viagens até a Rua Ruy Barbosa que eu tomava contato com outros personagens da cidade: o “Charlie Chaplin da Bahia” (que, parece-me, morreu assassinado com um tiro à queima-roupa), o “Velhinho da Mágica” e, sobretudo, “A Mulher de Roxo”. Meio santa, meio bruxa, vestida de freira, de rainha ou de noiva, diziam ser louca, ter sido rica um dia. Amedrontava e consternava. Num dado momento, terá um texto dedicado a ela aqui e explicarei o porquê.

Por tudo isso e muito mais, decidi que esta sessão de fotos seria lá. Uma sessão de fotos solo, que ainda não tem nenhum objetivo prático e nem faz parte do projeto do disco Aleluia (ao menos, ainda não). Uma sessão de fotos para mim! Chegamos ao nosso destino com a cena bem vazia: eram seis horas da manhã, de uma segunda-feira, véspera de feriado: 7 de setembro. Boa parte da Cidade do Salvador ainda estava dormindo.

Essa rua tem alguns pequenos hotéis e pousadas, estrategicamente ali posicionados: próximos a pontos turísticos importantes de Salvador. Tem também uma galeria de arte, alguns antiquários e o Sebo Brandão. Funcionam, em outros prédios, mais bem conservados, alguns órgãos púbicos, ligados à Câmara de Vereadores e à Prefeitura de Salvador.

Por acaso, encontramos um grande amigo que trabalha naquela região como policial. Conversamos alguns minutos com ele antes de iniciarmos a sessão e logo fomos advertidos: “Sem mole! Ok, moçada?”. O cara é nosso amigo desde a adolescência (conhece o Ricardo Ferro desde a infância, quando estudaram juntos), é policial há bastante tempo, sempre trabalhando ali pelo Centro.

Lembrei com eles essa minha relação com a rua. Falei também da minha perplexidade de ver, cada vez mais, esse centro da cidade abandonado: todo mundo sabe, todo mundo critica, mas nada tem sido feito. É muleta de político falar do crack: câncer social e flagelo! É o que mais se fala.

Depois de algum tempo, nosso amigo “poliça” partiu para concluir seu turno. Ficamos lá, entre um click e outro, ligados, mas ao mesmo tempo sob a vigilância dos porteiros de alguns dos hotéis da rua. A área está realmente sinistra… A degradação da região é tremenda! O Centro de Salvador é uma pérola largada. Será que nenhuma ação séria será tomada pela prefeitura dessa cidade quanto ao trecho mais representativo do seu patrimônio histórico? A imundície entre o Terreiro de Jesus e Rua da Ajuda é quase medieval e certamente faria lembrar os tempos de arruaça de Álvaro Duarte, primeiro playboy da Bahia (bom checar as “aventuras” e comportamento dele que, filho do segundo Governador Geral do Brasil, Duarte da Costa, formou a primeira gang de arruaceiros daqui, no livro “A Coroa, a Cruz e a Espada”, de Eduardo Bueno). Lixo, usuários de crack, vias mal pavimentadas, poluição visual (com a colaboração dos candidatos dessa eleição de 2010)… Tudo muito aquém do merecimento dessa cidade…

Quando falo isso, lembro que nos meus tempos de garoto, essa cidade também tinha os mesmos problemas (exceto o do uso do crack, droga indisponível naqueles tempos). Mas e daí? Até quando? Será que já não nos demos conta da força da existência de todo esse patrimônio de Salvador? Não somente no reposicionamento turístico da cidade, mas também cultural. Seria ótimo se a própria população pudesse usufruir mais daquele trecho onde a cidade de fato nasceu. Seria sensacional se houve opções culturais de fato, como casas de shows estruturadas, bares bacanas que desfrutassem da mais privilegiada vista que Salvador pode oferecer, mas com transporte adequado, segurança eficiente e responsável e serviços que valessem o valor a ser pago, como acontece em outros lugares.

Seria incrível se o poder público municipal se organizasse a ponto de dar àquele lugar uma oportunidade de viver dignamente e não, como observou Ferro, “sobreviver e só…”. Acordar a cidade inteira a partir daquele lugar extraordinário. Aí, sim, Salvador se tornaria referência cultural, disponibilizando a seu povo um circuito cultural.

Seguimos fotografando até perto das oito horas, quando nos demos por satisfeitos. Rumamos para um lanche na Avenida Carlos Gomes: a Esfiha do Chinês! Abre parêntese: onde mais, em que outro local do planeta, a referência de um quitute árabe é um chinês? Na verdade, nem se sabe se era mesmo chinês, pois ele já não é mais o dono do estabelecimento: implantou a lanchonete, vindo de São Paulo, contam, mas já passou o ponto adiante. Reza outra lenda, por conta de ter sido “largado pela amante… brasileira”. Fecha parêntese.

Chegamos ao cruzamento onde se localiza a famosa Esfiha do Chinês e as portas estavam fechadas. Lembramos de outra lanchonete, na Rua Chile, logo depois da Rua do Tira Chapéu, na Praça Municipal. Voltamos… Paramos à porta, onde funcionários preparavam para abri-la para o dia de trabalho. Combinei com Ricardo Ferro de irmos rodando até encontrar um lugar para tomar um café e comer alguma coisa… Qualquer coisa.

Descemos a Rua Chile, cruzamos a Praça Castro Alves novamente, pegamos a Avenida Carlos Gomes, passamos pelo Largo dos Aflitos, seguimos até o Campo Grande: a Praça Dois de Julho (a original)… Encontramos uma padaria no Canela, perto da Escola de Belas Artes, na Rua Floriano Peixoto, se não me engano. Ricardo costuma frequentá-la. Coincidentemente, somente ali, àquela hora, oito e pouca da manhã, a cidade parecia acordar. Tomara.

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Segue o baba!

terça-feira, 31 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

Desde que os conheci, quando ainda disputavam as seletivas do Gas Sound, tipo de “battle of the bands” de alcance nacional, promovido por uma marca de refrigerante, fiquei entretido pelo estilo, pelo som e pelo carisma dos Vivendo do Ócio.

Foi Thiago Trad quem me falou deles a primeira vez. Mas o contato entre nós foi estabelecido por Luciano Matos, jornalista, quando trabalhávamos no programa Jam Session Rock, na rádio A Tarde FM – ele como redator e eu, como comentarista, aqui em Salvador.

O programa era semanal e era praxe haver uma entrevista com quem estivesse fazendo algo interessante. Esse papo rolava sempre por telefone. Justamente por terem passado da 1ª etapa do dito concurso, Luciano os recomendou como entrevistados daquela edição do JSR.

Foram três perguntas que fiz ao Jajá, cantor do grupo. Sinceramente, nem conhecia a música deles… Até ali. O cara (pra mim, um garoto) foi bem tranquilo em suas respostas. Depois, botamos no ar uma música de uma demo que o próprio Luciano nos trouxe. Não tava bem gravada, mas tava ali e dava pra tocar… Pela simpatia, acabei anotando o nome mentalmente e decide observar. Lembro que eles fizeram um show, numa matinê na Boomerangue (uma casa de shows daqui da cidade, que fechou recentemente), logo depois desse papo. Mas a agenda do CASCADURA nesse tempo e a minha preguiça me impediram de ir.

Pela imprensa, soube que eles seguiram bem no tal festival e chegaram à final. Fiquei sinceramente feliz.

Não lembro se antes ou depois disso, convidamos eles para o lançamento de um projeto que havíamos idealizado: o Sanguinho Novo! Como o CASCADURA sempre teve a política de tocar com outras bandas mais novas, num intercâmbio onde trocávamos tudo, e essa prática acabou gerando, para nossa honra, uma demanda de bandas querendo tocar com a gente, decidimos criar um momento, uma festa dedicada a essa atividade – da mesma forma que criamos o Cascadura’s Private Hell (para os essenciais shows em “inferninhos”) e o Laboratório Acústico do Dr. Cascadura (onde experimentamos possibilidades sem uso de tanta eletricidade/plug)…

O Sanguinho Novo é uma festa em que convidamos bandas/artistas mais novos, mas com uma trajetória bacana, e onde podemos chamar a atenção das pessoas para a necessidade da doação de sangue… Sim! Consideramos isso um verdadeiro ato cidadão! Mais adiante, abordaremos essa festa em especial, deixe-me voltar aos Vivendo do Ócio…

Para a primeira edição dessa festa, os convidamos. Ali os assistimos, os ouvimos e eu, ao menos, me tornei um grande fã da banda. A vibe foi tão boa que decidimos até fazer outro show juntos, o que ainda não aconteceu… Mas, dali, eles seguiram, ganharam o Gas Sound, gravaram um disco de estreia muito bom, foram morar em Sampa e enfim…

No momento que decidiram partir para São Paulo, resolveram fazer um show de despedida e me convidaram para cantar uma música nesse espetáculo. O palco seria o mesmo onde havíamos nos encontrado anteriormente: Boomerangue.

Para participar desse show, fui convidado a ensaiar no estúdio que a banda tinha, ou tem, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo. Estudei a vida inteira no Barbalho, bairro vizinho àquele lugar. Tudo ali me era muito familiar e foi uma viagem e tanto chegar ao estúdio passando por entre as ruas estreitas da região.

Bem recebido (lógico! Os caras são muito camaradas!), tivemos um ensaio fantástico! A minha participação foi passada umas três vezes: “Break on through”, dos Doors. Tudo foi muito fácil! Eles me contaram seus planos para a ida à nova experiência e me vi um pouco neles, quando cerca de cinco anos antes rumei com o CASCADURA para lá também… Me despedi e fui: de volta pra casa. “Até o domingo!”

Caminhava no fim de tarde pelas mesmas ruas estreitas que haviam me levado ao estúdio. Passei perto dos postes enferrujados (velhos, mas muito característicos do bairro) e percebi a chegada de uma centelha de ideia: um riff! Andei uns cinco minutos solfejando a sequência de notas que formava o riff e logo veio também a ideia da melodia a ser cantada… Uepa!

Tirei o celular (meu companheiro e salvaguarda! Quantas melodias deixei de perder, graças a ti?!) do bolso e pus a cantarolar, a meia voz: riff, melodia da voz… era tudo. Ainda tenho arquivado esse momento. Cheguei em casa e aprimorei o que tinha criado. Tinha uma carga ao mesmo tempo familiar e nova. Tinha rock, mas queria pular fora disso, ou chamar algo diferente para a roda.

“E se… Não, nããão!” – foi a primeira resposta à minha percepção de qual novidade aquele riff parecia propor… Pagodão?

Eu já havia pensado na maluquice que poderia ser justapor uma coisa e outra. Ok… O Fantasmão pôs guitarra no pagode… Achei sui generis. Não gostei por crer exagerado, apesar de aplaudir a tentativa e a busca de algo novo. Mas ficou feio, na minha opinião. Gostei mais do que fez o Sam Hop com seu “Ser negão é massa”.

Mas e se subvertermos o ritmo de lá? Se o trouxermos até cá e lhe dermos contornos daquilo que conhecemos? Vamos lá… Levei a ideia adiante em minha cabeça, depois em minhas demos caseiras, até que a apresentei ao Professor t. andré adorou o desafio.

Trouxe uma letra que desfazia do que desfaz: o famoso “olho gordo”:

“Segue o baba
Esse sonho é meu
São meus passos, meus freios
Peru-de-fora, olho gordo”

… e tá dando nisso:

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Violência a la carte!

quinta-feira, 26 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

É impossível não estar ansioso depois de quase um mês sem mexer em nada no disco. Nesse tempo, andré t foi a São Paulo mixar o disco de uma banda que o Duda Machado produziu: Apolônio, e que tem um amigo nosso, Pablo Marques, tocando acordeom.

Thiago Trad deu início ao seu trabalho como orientador de um projeto de formação básica em percussão para jovens: o “Toque Cidadão”, no bairro de Itapuã, aqui mesmo em Salvador. Essa iniciativa, que foi concebida e agora está sendo implantada por ele, tem como objetivo levar noções básicas sobre os diversos tipos de percussão para jovens de uma das áreas mais carentes da capital baiana, com aulas práticas e teóricas, distribuição de material didático, além da contribuição na formação cultural dessa moçada através de palestras e exibições de documentários, que os situarão diante da produção cultural e da história de sua cidade. (Vamos esperar agora um texto do Trad com detalhes sobre o assunto.)

Jô Estrada foi tocar com seu projeto, Lacme (que teve um disco lançado, produzido por ele e o próprio andré), também na capital paulista. Apesar de, para nossa sorte, ele ter voltado a morar em Salvador e os demais componentes do Lacme terem ficado em Sampa, a banda continua a existir, só que com atividades espaçadas: pintou um show, ele foi.

Eu estive, por duas semanas, envolvido com a Exposição Revolution – Beatles, do meu amigo Marco Mallagoli, que aconteceu num shopping center daqui da cidade. Foi uma experiência ótima, aprendendo um pouco mais sobre a história dos Fab Four com um cara que os conheceu de fato: Mallagoli foi um dos dois únicos brasileiros que conhecerem os quatro Beatles e George Martin, o mítico produtor da banda (a outra foi a carioca Lizzy Bravo – que participou da gravação da canção “Across the Universe”). Um brinde à nossa maior inspiração em todos os momentos.

Mas, com agosto chegando a seu final, o disco nos chamou de volta.
Nem bem retornou, andré me procurou para retomarmos o Aleluia.

Decidimos dar sequência ao trabalho iniciado com o stomp, que gravamos no Teatro Sitorne. Sobre a construção da parte musical (melodia, harmonia e ritmo), já escrevi aqui… então queria agora falar sobre o tema que escolhi para esta canção.

A experiência com esse novo trabalho tem nos exigido um “algo mais” para além do que já realizamos. Temos sido provocados a sair da nossa zona de conforto, do espaço que já conquistamos com álbuns como “Vivendo em Grande Estilo” (2004) e “Bogary” (2006). Apesar da temática “pessoal”, do olhar sobre nós mesmos ainda nos interessar, temos dado maior vazão a uma produção em torno daquilo que nos cerca… De preferência, de forma tão direta quanto possível.

Confesso que poucas coisas me incomodam tanto hoje como o tratamento que vem sendo dado à violência pela mídia. Parece que os casos de crimes vão para a mídia embalados com requinte de reality show. Seja na cobertura nacional de um caso envolvendo “celebridades” ou no horário do almoço, com gente desvalida, marginalizada, expondo seus podres em nome da audiência local.

A violência alimenta um mercado imenso. Nos filmes, nos livros, nos brinquedos (nos jogos de videogame, então, nem se fala) e, sim, na música. Ela se apresenta, nos excitando, como elemento que, como o sexo, nos coloca novamente dentro da perspectiva de uma natureza selvagem, como se o homem ainda fosse parte da natureza “lá fora”!

Isso é assim, desde sempre.
“Bebida é água, comida é pasto… Você tem fome de quê?”.

Numa conversa, meu amigo Álvaro Tattoo lembrou: “Os romanos jogavam cristãos aos leões!”. E era casa cheia! Fonte Nova em tarde de BaVi! Assistindo à série “Band of Brothers”, sobre a famosa Easy Company, companhia de batedores do exército dos Estados Unidos da América que desembarcaram na Normandia no Dia D, vi um trecho, com depoimento de um ex-combatente, personagem real da trama encenada naquele episódio: “Na minha cidade, alguns jovens, dispensados do serviço na guerra, acabaram se suicidando! Eram outros tempos…”. Eram mesmo…

A violência bate à nossa porta, laureada em glória. Sempre…
Até que ela vem embalada em laço de realidade, com a cara de desespero ou os olhos embotados em alguma substância capaz de fazer o cérebro perder noção de limites. Aí, é hora de exclamar: fudeu!

Como não bastasse estar na arte, migra em tons de crueza para o noticiário, fazendo sucesso a ponto de ganhar especificidade: os programas “pinga-sangue”! A modalidade já era conhecida, impressa com tinta e sangue: jornais sensacionalistas que estampam manchetes sobre assassinatos, extermínios, estupros e demais crimes cruéis. Lembro que, nos anos de 1980, numa tentativa de imitar o modelo de sucesso no Rio de Janeiro, houve um que se arriscasse aqui na Bahia: naufragou em um quadriênio…

E chegamos, com velhos e novos personagens, aos programas “pinga-sangue” do horário do almoço. É o fim! É a degradação ao máximo. Em nada contribui. Eu, nascido e criado na Bahia, estou de saco cheio disso. Não acredito que isso contribua em nada para uma melhoria na condição de vida das pessoas desse estado. E tudo parece ficar muito claro quando depois do aviso de “não mude de canal, meu amigo… Que nós vamos mostrar aquele facínora, aquele escroque que fez isso e fez aquilo… Mas antes, vamos mostrar essa maravilha que é o ‘creme de ervilha’ para massagem facial e você precisa comprar ele… e etc… etc… Apenas por ‘uma fortuna que seu salário-mínimo não pode comprar’, mas você vai comprar, não é?”. É a tal da neurolinguística!

Bem, eu não tô aqui para analisar essa situação, isso devem fazer os sociólogos, cientistas políticos e jornalistas. Eu sou poeta, um compositor de rock. Extraio da vida o que me dá caminho para a criação artística. Por isso, pela necessidade de exclamar sobre esse “fenômeno” do degrado, que envergonha quem tem o mínimo de bom senso, em rejeição a essa manifestação da mais hedionda forma de exploração, que resolvi usar aquele espaço vago a um texto, dentro daquela ideia de cantar um blues sobre os passos e palmas gravados no Teatro Sitorne.

Já que o blues nasceu pelo lamento, eu lamento…

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“Entrando” no estúdio

sexta-feira, 18 junho 2010 - postado por fabiocascadura

Hoje, sexta-feira, entramos no estúdio t para “começar” a gravação do Aleluia, nosso novo disco.

As aspas dizem respeito ao fato de termos dado alguns passos “extraoficiais” rumo à confecção dessa obra, mesmo antes do anúncio do projeto. Já foi comentado, no post passado, que aqui discorreremos sobre tudo que diz respeito ao Aleluia: as referências, as influências, as participações, quem vai trabalhar nele. E, olha, vem assunto por aí…

Começamos a pesquisa já em fevereiro desse ano, mas tenho que confessar que desde o início de 2009 a ideia de um álbum novo, que se contrapusesse a tudo que já havíamos realizado, vinha me atraindo e, de certo modo, consumindo minha concentração.

A pretensão é de que o Aleluia seja realmente diferente em nossa história. E será! Da ideia inicial, fermentada em Salvador e por ela mesma, passamos à pesquisa. Ouvimos de tudo, vimos de tudo. Tenho lido de quase tudo. Mas, ultimamente, o velho interesse por história (especialmente século XVI) vem sendo novamente alimentado e de modo natural (vou passar algumas indicações aqui também).

Não temos, ou não tínhamos, nenhuma canção definitivamente pronta. Se uma tem harmonia e melodia, falta-lhe uma letra, um texto digno. Outra, que é um texto interessante, traz incertezas em seus trechos musicais. Preocupados? Isso é o mais interessante! A experiência anterior nos dotou de confiança suficiente para desenvolvermos o caminho ou deixar que ele nos desenvolva em torno das canções.

Mas, voltando… Fizemos alguns testes de estúdio. Teste de áudio, minúcias que somente andré t pode nos esclarecer (ele o fará), procurando principalmente som de bateria (escolhemos 3 kits tradicionais e 1 menos ortodoxo, em novo post deixemos Trad falar sobre sua matéria), mas também verificando alguns métodos que não usamos antes.

A primeira coisa que ficou definida é que trabalharemos canção por canção. Pra quem não é familiarizado com a rotina de uma gravação de disco vou tentar explicar: no estúdio de gravação, tempo é dinheiro… Literalmente! Você paga pela hora de uso. Quase um taxímetro. Assim, para melhor fazer valer o tempo, monta-se determinado kit de bateria e grava-se todas as músicas com o máximo de aproveitamento possível (olha lá, o tempo tá correndo!). Depois desmonta-se esse circo e vamos às guitarras ou ao baixo e as vozes, os teclados e assim por diante… Ou quase.

Nosso plano foge completamente disso. Queremos que cada música repercuta seu som. Mesmo! Ainda que andré t seja um mestre de grande habilidade no estúdio, que consiga fazer uma mesma bateria soar como diversas, ainda assim nos impusemos a obrigatoriedade de trabalhar música por música.

Toma mais tempo, dá mais trabalho… No entanto, a dedicação a cada faixa será muito especial. Cada uma poderá mostrar-se em sua personalidade, com seus detalhes próprios.

Mas, bem… Naqueles testes de que falei, que realizamos no estúdio, durante a pesquisa, Thiago deixou algumas baterias gravadas que ficaram muito boas e que, acho, vamos usá-las hoje para começarmos o disco. Temos até o registro desses testes em vídeo e de repente conseguimos postar algo aqui em breve. Pois será sobre essas baterias que vamos trabalhar hoje. Vamos lá…

P.S.: Bem, e para um disco que se chamará Aleluia, não será nada mal começarmos numa sexta-feira. ;)

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