Dá-lhe, Robeeertooooo!!!

quarta-feira, 08 junho 2011 - postado por fabiocascadura

Hummm… Faz um tempo que não escrevo um texto pra esse blog, né? Pois é, muitas coisas! Coisas e coisas… Do disco e da vida cotidiana de gente que vive a vida cotidiana…

No meio disso tudo, tínhamos que decidir como faríamos para ter a participação de nosso amigo Beto Bruno, cantor da banda igualmente amiga Cachorro Grande. Beto foi um dos primeiros nomes em que pensamos para participar do Aleluia. Amigo de primeira hora, de quem somos fãs, não poderia ficar de fora desse processo, já que esta é uma vontade antiga: dividirmos uma faixa, Cascadura e Cachorro Grande, juntos.

Deixe-me contar o episódio em que nos conhecemos: nos idos de 2003, quando estávamos chegando à cidade de São Paulo, fomos tomados pelo lançamento do disco “As próximas horas serão muito boas”, o segundo da discografia dos gaúchos. Já os havíamos visto na MTV, com o clipe “Lunático”, tirado do seu álbum de estreia. O conceito era tão bom (a música, o visual, a performance) que chegamos a pensar, inicialmente, que se tratava de um tipo de campanha publicitária! “Existe uma banda assim no Brasil?!”. Existe: Cachorro Grande.

Soubemos que eles tocariam na Outs, casa de show que, naquele instante, era nossa referência em Sampa. Já havíamos tocado lá e iniciado uma amizade/parceria com os donos do lugar. Fomos vê-los…

O lugar estava cheio, na medida de estar agradável. Era um dia como quarta ou quinta-feira, meio de semana, e muita gente foi conferir os caras no palco. Já na chegada, soubemos que eles estavam lançando um disco novo. Nosso amigo Luiz Pimentel (então chefe de redação da saudosa revista Zero) foi quem nos contou.

Assistimos ao show entre o entusiasmo contagiante que eles emanam quando estão em ação e o mais completo espanto de estar diante de uma banda tão verdadeira no que pensamos ser seu “auge”. Engano nosso: eles estavam apenas começando o seu “auge”. Terminada a apresentação, fomos falar com eles e foi quase impossível cumprimentá-los, tamanho o assédio. Mas, enfim, conseguimos e falamos do nosso trabalho e da nossa admiração.

No dia seguinte, o mesmo Luiz que havia falado do lançamento do disco nos ligou dizendo que queria nos juntar a eles numa conversa em um barzinho: topamos na hora. Nos encontramos na Augusta e, de lá, rumamos conversando até o bairro do Bexiga, sentamos em um bar próximo ao Café Aurora, onde deveríamos prestigiar o show de outra banda amiga: Velhas Virgens. Em nossa mesa, também sentaram os parceiros da Tomada, banda paulistana de rock.

Foram muitos assuntos e muitas risadas. Ali, nasceu uma amizade que corre até hoje, sempre pautada na admiração e na colaboração mútua. “Os Cachorro” desde então cresceram no cenário e se tornaram uma banda muito conhecida. No entanto, se mantiveram os caras naturalmente alegres e engraçados que sempre foram.

Na ocasião desse papo, entregamos a eles um CD contendo o nosso “Vivendo em Grande Estilo”, ainda inédito. Lembro que o Beto perguntou: “Vocês estão dando um disco de vocês que ainda não saiu pra gente ouvir?! Que confiança! Valeu!”.

Vimos quando o disco deles chegou pela revista Outracoisa, do Lobão, e tomou de assalto o mercado. Por meses em São Paulo só se falava nesse lançamento. Não por acaso, o nosso disco seguinte, “Bogary”, também sairia por esse projeto: a Cachorro Grande foi uma grande advogada nossa nesse processo.

De lá pra cá foram muitos episódios, em muitos encontros: fui roadie deles numa viagem pelo Sul, eles viajaram em nossa van para uma apresentação nossa, junto com os Astronautas, de Recife, no festival Demosul, em Londrina/PR, tocamos juntos em Salvador, fiz um caruru no apartamento em que morávamos em Sampa e eles saíram falando do “bicho caruru que era bom demais”, fizemos uma dobradinha de shows para uma edição do programa Bem Brasil, da TV Cultura, gravado em junho de 2007 no palco do Sesc Pompeia… Vivíamos andando juntos, para cima e para baixo, como uma gangue só.

Certa vez, Beto me perguntou: “ô, Negão… Quando é que vamos fazer essa parceria, Bruno/Magalhães?!”… Só faltava isso. Será?… Daí a ideia de chamá-lo para esse disco.

Apresentei uma canção a andré t e falei que o queria cantando junto. Mais que isso: queria que ele escrevesse a letra daquela música para cantar.

O problema é que ele é do Rio Grande do Sul, onde cumpre extensa agenda de apresentações com a banda, mora em São Paulo e está em pleno processo de construção de mais um disco. Beto não usa celular e e-mail é um troço que ele realmente não faz ideia de como funcione. A comunicação é muito específica. Assim, o tempo escasso era nosso censor. Tentamos trazê-lo para gravar em Salvador, como fizemos com outros convidados, em três oportunidades distintas, sem sucesso. Desse modo, como Maomé não veio à montanha, a montanha teve de ir a Maomé.

Chegamos a São Paulo, eu e Thiago Trad, depois de três horas de atraso do avião. Descemos em Guarulhos ao invés de Congonhas, como havíamos planejado. Ficamos na casa do amigo Rodrigo “Minha Pedra” Santos e marcamos para encontrar a “fera” no estúdio onde eles estavam preparando seu disco.

Uma alegria imensa entrar num ambiente e encontrar esses caras: Beto, Coruja (Rodolfo Kieger, baixista da Cachorro Grande), Gross… É sempre um evento feliz e cheio de camaradagem. Acho que o termo “camarada” é o que nos acolhe melhor.

Falei a ele do conceito do disco, da relação do álbum com Salvador, que ele teria de escrever a letra (e ele disse que teríamos de escrevê-la juntos) e que melodia e harmonia foram construídas pensando nele… Beto se encheu de alegria e, com a confiança que lhe é intrínseca, chamou-nos a um boteco, em frente ao estúdio da Trama, e disse que depois de “umas” cervejas iríamos ao estúdio de Duda Machado (o Madeira II), com quem havíamos combinado de gravar essa voz, e lá mandaríamos ver.

Fomos para o estúdio/casa de Duda e encontramos outros tantos amigos lá: Ricardo Spencer, Rafael Spencer (chef, agora morando lá e com um ótimo restaurante de comida baiana chamado Sotero), Rodrigo “Minha Pedra”, Martin… Clima de festa!

Havia somente um porém nisso: estou acostumado a gravar em meio à tranquilidade do estúdio t, sem muitas interferências, concentrado e em silêncio. Mas esse é o Aleluia, cheio de imprevistos e novas experiências. Ok… Vamos ver no que vai dar…

Sentamos e escutamos a base que havia levado: bateria, baixo, guitarra de 12 cordas e violão. Pronto! Era o que precisávamos. Em quinze minutos, uma letra brotou: “Sonho de Garoto”. Um discurso bem simples, uma brincadeirinha/homenagem a nosso amigo Lobão ali, e ficou bacana.

Beto fez questão de acertar a afinação, respiração, divisão, dicção, interpretação no cantar. Foi um exercício que exigiu muito dele: havíamos acabado de fazer a letra, que, por mais simples que seja, ainda estava muito fresca e não tínhamos nos familiarizado com ela, não houve esse timing. Talvez por isso, o grande charme que ela adquiriu. Ele repetiu algumas vezes até dar-se por satisfeito e me perguntar: “E aí?”.

Em meio a toda atenção, tensão e movimentação em torno da gravação (e da festa lá fora), esquecemos de registrar imagens desse momento… Entre uma bisbilhotada e outra dos que estavam de fora do estúdio, Beto gravou a voz. Ao final do último take, ainda com Beto Bruno de fone, cantando no microfone, Ricardo Spencer comenta: “Dá-lhe, Robeeertoooooo!!!”. Beto responde: “Roberto, corta essa!”…

Bookmark and Share

#DVDPittynoCirco

segunda-feira, 20 dezembro 2010 - postado por fabiocascadura

Foi uma experiência única! Fazer parte da gravação do novo DVD da amiga Pitty, com toda galera que a acompanha, todos amigos de longa data, foi realmente um prazer enorme.

Os ensaios já traziam a carga emocional daquilo que vivenciaríamos no palco. Sob a direção de Rafael Ramos, que faz a produção musical de toda a obra da Pitty, foi desenvolvida a estrutura da música com a minha participação. Ficou muito legal. As dicas de Rafael foram bastante precisas e todas deram certo.

Não bastando estar com os amigos da banda tradicional (Pitty, Martin, Duda e Joe), ainda conheci o tecladista Bruno Cunha, que passa a excursionar como membro da trupe, e também o grande Hique Gomez, violinista/cantor/performer conhecido por todos por seu projeto Tangos & Tragédias, que já correu o Brasil levando humor e música, e ali também para fazer uma participação no DVD, na canção “Água Contida”.

Iria somente apresentar “Sob o Sol”, parceria minha com a Pitty, gravada nas sessões do álbum Chiaroscuro e que acaba de ser lançada no Lado B de um lindo compacto de vinil preto e branco, que também conta com o sucesso “Me Adora” no Lado A. Mas, lá mesmo, nos ensaios, foi sugerido que tocássemos, em regime de experiência, a música “Senhor das Moscas”, do Bogary. O resultado foi tão bacana que acabaram levando-a para o show também. Não acredito que faça parte do DVD, mas a reação de todos foi tão positiva que já valeu!

A viagem entre São Paulo (onde ensaiamos) e o Rio de Janeiro, onde rolaria o show, no histórico Circo Voador, foi feita de ônibus com boa parte da equipe a bordo. Apesar de toda camaradagem e bom papo que acabou fluindo e da alegria de todos em participar desse projeto, o trajeto não foi nada fácil: é que a saída de São Paulo é realmente movimentada (ainda mais num fim de tarde de sexta-feira) e um engarrafamento nos atrasou em mais de quatro horas. Resultado: só chegamos ao Rio na madrugada do dia do show, quando deveríamos estar lá ainda no começo da noite do dia anterior! Ok…

Ainda cedo, acordei e fui dar um giro pela vizinhança do hotel, que ficava no tradicional bairro da Glória. Já conhecia aquele trecho do Rio e aproveitei somente para caminhar, andar por entre a gente carioca, rever alguns lugares que acho bacanas: Largo do Machado, Catete, Jardim do Museu da República… Na volta, encontrei Duda disposto a um banho de mar antes de ir para o Circo Voador e começar os preparativos para a grande noite. Topei!

Fomos à praia do Leme, eu, Duda e Léo Leone. Demos um mergulho naquelas águas geladas, tão características das praias cariocas. Não demoramos muito: ainda havia muito o que fazer. Fiquei no hotel enquanto, aos grupos, quase todos foram dar sua contribuição à montagem do espetáculo e de toda a estrutura para sua captura em audiovisual. Uma equipe de cinegrafistas (dentre eles o amigo Rafael Kent, aqui de Salvador, além do grande Ricardo Spencer, diretor da empreitada) circulava a caminho do local do show/filmagem enquanto outros da equipe técnica preparavam o som, o cenário (desenvolvido pelo Renan, que já conhecia pela internet por ser fã da Pitty), camarim e tudo mais que envolve a produção de um show.

Acabei chegando ao Circo Voador por volta das 17h30 e tudo já estava praticamente pronto. Aguardei somente que o som fosse acertado e subi para ensaiar minha parte, agora, no palco, com tudo que aconteceria na hora do show. E como não poderia ser diferente, tudo deu muito certo… Aliás, parece que tudo que foi planejado correu como deveria. Isso deu mais confiança a todos e a satisfação estava muito evidente nos sorrisos e cumprimentos entre os envolvidos.

Encontrei com o amigo Fred (Supergalo, ex-Raimundos) que não via há um tempo, acho que desde que ele veio com a Supergalo tocar em Salvador, no Carnaval de 2008, a nosso convite, num trio. Além dele, outras figuras do Rio de Janeiro fizeram questão de levar seu abraço a Pitty e equipe pela realização desse DVD, dentre eles Marcelo D2: muito tranquilo e simpático. Muito legal perceber o carinho que todos têm com o trabalho de Pitty. Não somente com ela, que, por seu carisma, sempre cativa a todos, mas especialmente pelas coisas que ela fala e expõe em suas canções e em sua atitude, levando em uma nova argumentação uma série de temas à discussão por muita gente (jovem) que, sem essa iniciativa, estaria à margem de qualquer oportunidade de debate.

Pouco antes de subir ao palco, no camarim, fui convidado a fazer parte da “roda”: Pitty, Duda, Martin, Joe, Bruno, Hique, Rafael Ramos, eu… nenhuma palavra dita. Um “Hey!” pronunciado por ela e a magia estava feita! Subiram ao palco para uma sequência de canções que, segundo eles, eram “lados B”. Na verdade, as mais de 2 mil pessoas que lá estavam conheciam todas as músicas e participaram de cada uma delas com toda força, toda vontade, toda vibração. Bonito de ver.

Teve um outro momento significativo, ainda no começo, que ficou marcado: enquanto tocavam “Desconstruindo Amélia”, a banda via um monte de garotas, nos ombros de amigos(as), ficarem somente de sutiã! Algumas tentaram até ir além, mas não rolou…

A participação de Hique Gomez foi fantástica. Além de grande musicista, ele também é um cara ligado às performances teatrais e trouxe ao show um toque muito especial: sendo um tango, ele e Pitty acabaram arriscando uns passos durante a música “Água Contida”.

Depois da primeira metade da apresentação, chegou o momento da minha participação. Foi muito emocionante entrar no palco do Circo Voador (onde só havia pisado uma vez, num show com Cascadura e Cachorro Grande) e partilhar essa canção. A resposta da galera não poderia ter sido mais bacana: muito carinhosos, todos! Para a surpresa da assistência, ainda emendamos “Senhor das Moscas” que, aí para a minha surpresa, muitos conheciam.

Já na coxia, após o término, fomos convidados a repetir a performance a pedido de Ricardo Spencer, e Rafael foi muito enfático: “Olha, gente… Ficou ótimo! A performance e a interpretação estão prontas. Mas o pessoal da captura de vídeo (Spencer) pediu para repetir porque faltou filmar alguma coisa. Pode ser?” Não é algo que seja muito confortável… Pitty muito sensivelmente me perguntou se tudo bem pra mim e eu disse que “sim”… Lá vamos nós outra vez.

Eles voltaram como num bis, mandaram uma para reaquecer e então viria mais uma versão de “Sob o Sol”: Pitty canta a primeira estrofe, eu entro no refrão e… alguma coisa acontece no meu coração e nós dois erramos os nossos trechos da letra e essa nova tentativa ficou na tentativa mesmo… Pena! Fiquei pensando se aquilo comprometeria o resultado final.

Logo todos estavam confraternizando numa festa improvisada no camarim. Todos celebrando o êxito na realização desse projeto. Ao final, chamei Spencer e ele disse: “Cara a sua participação arrepiou! Ficou muito bom! As vozes de vocês dois… Blá, blá, blá…”. Aí, eu falei: “Legal, man… pena que não capturou direito, né? Foram poucas tomadas?”. Ele respondeu meio espantado: “Oxe… capturamos direito, sim! Filmamos tudo! Peguei todos os closes que imaginei…”. E eu: “Ô?! E por que você pediu para refazermos a minha parte?!”. Aí, ele arremessou: “Foi tão bonito que eu queria ver de novo!…”

Bookmark and Share

Vespas Mandarinas + Fábio Cascadura no Festival DoSol

terça-feira, 16 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Depois de um voo que fez, desde São Paulo, duas paradas, em Brasília/DF e Fortaleza/CE, completando mais de seis horas de viagem, chegamos à “Cidade do Sol”: Natal, Rio Grande do Norte. Por isso o nome do festival: DoSol!

Voo demorado é aquilo… Numa cadeira espremida, durante o processo de implantação da nova política da companhia que, para baratear a passagem, passou a vender as refeições durante a viagem: tudo certo! Sou a favor disso, mas R$ 4 numa garrafa d’água é um pouco demais. A água desce com gosto de sal… Até fazermos o check-in no balcão, seria uma única parada, em Recife, achávamos. No “Boa tarde!” do comandante, ficamos conhecendo essa rota de pinga-pinga… Vá lá. Tudo certo se as comissárias não estivessem com a cara amarrada… sempre!

Eu tenho 1,92 metro de altura. Boa parte disso é perna… Cadeirinha espremida é tortura pra mim. Por seis horas, então… Let’s rock!
O que deu um toque pitoresco à tudo foi a presença do famoso Comissário Ronald, que assumiu o comando do serviço de bordo a partir de Fortaleza, e que nos brindou com uma inesquecível e original explicação das normas de segurança do voo.

A produção do evento, na 7ª edição esse ano, é bem experimentada. Chegamos ao aeroporto e eles lá estavam para nos receber.

Quando estive com o CASCADURA, em 2008, para tocar nesse festival, fiquei em um hotel próximo ao centro da cidade e perguntei como chegaria à Praia de Ponta Negra, muito famosa. Pela distância da qual estava, acabei não conhecendo o lugar. Nem bem entrei na van e perguntei: “Onde fica Ponta Negra?”. Me responderam que o nosso hotel ficava em frente a essa praia! “Ponto para nóis”!

Vista do hotel da Praia de Ponta Negra [Foto por Nicolau Gomes]

Vista do hotel da Praia de Ponta Negra (Foto por Nicolau Gomes)

Nos instalamos e fomos jantar. Logo mais, iríamos à 1ª noite do festival, que teria a apresentação dos AMP, de Recife, e do pessoal do Love Bazukas, junção entre Chuck Hipolitho, dos Vespas Mandarinas, e os caras do Black Drawing Chalks (GO), que tocaram no DoSol Bar. Ambos os shows foram muito bons. Sai de lá com o ouvido apitando e algumas cervejas na cabeça. Fui dormir, porque o sábado prometia. E acordei cedo (8 horas, de pé!) para aproveitar o dia.

Fomos à praia, eu, Chuck, Thadeu, Mauro e Mike, esses últimos acompanhados das namoradas, e lá encontramos os amigos Fabrício Nobre, do MQN (GO) e da Abrafin, e sua esposa, que se juntaram ao nosso sombreiro. Por lá, passaram muitos dos que se apresentariam à noite, dentre eles o Márcio do Mechanics (GO) e o Dennis, Black Drawing Chalks. Com tanto goiano em Natal, eis que surge um carrinho vendendo camarão com a estampa “Camarão Goiano”. Foi solicitado. Mas Goiás produz camarão?!

Que temperatura, a da água de Ponta Negra! Sensacional! Você tem vontade de ficar lá e pronto… E o sol expressava o calor nas mais altas casas, justificando o nome da cidade. Um calor diferente do de Salvador.

Com o banho de mar, perdemos a hora do almoço que o evento banca para os participantes. E em festival indie é assim: TUDO TEM HORÁRIO. Perdeu? Tchau!… Fomos então a um restaurante que fica ao lado do hotel. Caro, mas muito bom! Comemos… camarão. Delicioso. O detalhe é que havíamos comido isso na noite anterior e durante a estada na praia. Quando voltei ao quarto para uma soneca revigorante, sofri um “mini-piriri-cagancha”… Mas nada demais para um intestino forjado a azeite de dendê, por anos a fio…

Antes de subirmos ao quarto, quando passávamos pela porta do hotel, ouvimos um miado com sotaque de “S.O.S.”. Um segurança do hotel, em frente a um carro branco, falou: “É um gato que entrou no motor desse carro… Tá aí desde cedo, miando, e não consegue sair…”. Chuck, entre o indignado e o assombrado, perguntou por que ele não tinha feito nada para tirar o bichinho. Deitou-se no chão, pôs a cabeça embaixo do carro e foi aventurar-se a resgatar o felino. Eu pensei: “Vamos lá!”, e o imitei. Sem sucesso, tentamos arrancá-lo dos ferros. Só depois que subi, frustrado por não ter conseguido, Chuck e Thadeu o tiraram de lá, numa verdadeira operação resgate: “We can be heroes!”.

Chegamos à Rua Chile, no bairro da Ribeira (olha as semelhanças com Salvador de novo), onde rola o Festival. Um palco maior fica montado no “Armazém”, casa que deve abrigar umas duas mil pessoas. O menor fica no próprio DoSol Bar, na mesma rua. Foi onde o CASCADURA tocou em 2008. O show “Vespas Mandarinas + Fábio Cascadura” estava marcado para às 22h30, no palco do “Armazém”, mas, para minha alegria, acabou sendo transferido para o palco menor, no DoSol Bar. Gostei demais de ter tocado lá.

Chegamos com nossos instrumentos e ficamos aguardando a multidão se acomodar para levá-los ao camarim. Enquanto isso, conheci o Nevilton, cantor/compositor/líder da banda homônima. Cheio de energia, dando bons e seguros primeiros passos no universo independente brasileiro, vem conquistando o apreço da mídia, dos colegas e do público que o viu. Humilde e falante, Nevilton pareceu–me uma figura legal, autêntica e muito própria. Nos veremos novamente, muito em breve…

Reencontrei o amigo Esdras Nogueira, sax barítono dos Móveis Coloniais de Acaju (DF), banda que faz o trabalho mais consistente que tenho visto nos últimos anos, rodando o Brasil com seu show festivo e lançando bons produtos no mercado. Começamos a alinhavar uma possível colaboração mútua (mais detalhes, em algumas semanas, aqui mesmo). Autoramas, Cabruêra (com um show que hipnotizou a audiência), Superguidis, muita gente lá…

Cerca de 40 minutos para subirmos no palco, já com os instrumentos no camarim e em meio à correria reinante, fomos convidados para uma entrevista ao vivo via web. Acho que foi a única vez em que não falei numa ocasião assim e fiquei muito feliz com isso… Nos reunimos num círculo juntamente com Fabrício Nobre, que passava por lá na hora e demos aquela energia para o show: palco!

Os Vespas Mandarinas começaram espetacularmente com a sua “Sem Nome”, e o público reagiu bem. Seguiram com “Live Wire”, petardo do 1° disco do AC/DC. E assim continuaram até que Chuck falou: “Fabão!”. Subi ao palco energizado pelo que eles já haviam tocado.

Chuck disse: “Espero que vocês gostem de punk rock…”, e deu a indicação para que eu puxasse a canção a seguir. Fui com tanta sede ao pote que disse “Ok, vamos lá!” e, ao invés de tocar “Rosemary”, escolhida para ser a primeira música da minha participação, engatei “Ele, o Super-Herói”! Oh, não! Oh, sim! Errei feio… Mas o clima era de muita partilha, muita entrega, fui perdoado pelos olhares de Mike, Mauro, Chuck e Thadeu, que sorriram e pararam para recomeçarmos…

“Rosemary”, “Retroceder” (da qual esqueci a harmonia e com a qual mais me diverti ali no palco, a única coisa que fiz foi dançar e fazer pose de “guitar hero”), “Mesmo Eu Estando do Outro Lado” (com uma galera cantando junto), “O Inimigo” (sem dúvida a mais impactante música do repertório), “Ele, o Super-Herói” (finalmente, no lugar certo…) e “Rádio Blá”, num clima rock steady/ska/Stones/festa geral, deu o enlace final dessa apresentação. Todos dançando, todos dançaram… Descemos numa confraternização sincera. Recebemos o abraço de todos e o aplauso da moçada.

Pode não ter sido o melhor show do festival e nem era pra ser. Mas certamente foi o show onde todos se encontraram: banda, convidado, público e organização em torno do sincero amor à música.
Valeu, Vespas Mandarinas! Valeu, DoSol! Até a próxima.

Bookmark and Share

Os Vespas Mandarinas

quinta-feira, 11 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

São quatro caras. Três de São Paulo e um do Rio Grande do Sul. Mas, dentre os paulistas, há um potiguar, que se criou no interior do estado de SP. São todos de grande talento musical, no criar e executar, vindos de outras bandas que já deixaram seus nomes na história do rock e da música do Brasil nesse século.

Mauro Motoki, nissei, sansei, não sei… Descendente de japoneses, é compositor, multi-instumentista e faz parte do Ludov. Toca baixo e canta nos Vespas Mandarinas.

Thadeu Meneghini, fundador e líder do grupo Banzé!, que se separou há pouco tempo. Toca sua Les Paul com destreza, canta e dança… Mestre em todas essas artes. A faixa “O Inimigo”, da qual participamos eu, Jajá (da Vivendo do Ócio), Pitty, Nasi (do IRA!), dentre outras figuras do rock nacional, é uma composição sua.

Chuck Hipolitho, saído da Forgotten Boys, já foi diretor de programas da MTV. Pilota uma Fender Telecaster, é o pai da Nina e um rockstar legítimo.

Michel Vontobel (Mike), vindo da banda gaúcha VideoHits, mora em Porto Alegre e sempre se desloca para Sampa quando tem que ensaiar com o grupo. Tira um som muito peculiar da bateria e anda sempre sorrindo.

A música do Vespas Mandarinas soa como rock, mas está para muito além disso. A conexão com o contexto pop é muito evidente. As canções têm presença própria, cada uma, seu universo particular. A combinação de informações trazidas pelos músicos/parceiros dá ao seu repertório uma diversidade que demora a aparecer. O clima é de partilha e diversão. Ela foi formada para ser uma banda/projeto paralelo, mas parece estar assumindo o controle dos dias de cada um deles como músicos.

Entrei num estúdio com os VM e fui contaminado. Minha intenção era não atrapalhá-los no show e eles pareciam me pedir exatamente isso: “Atrapalhe-nos!”. Me senti à vontade no primeiro instante. Já conhecia o Chuck e o Thadeu, grande amigos, generosos e amáveis, mas, sei lá… na música, a mecânica costuma ser outra… Podíamos, a despeito da amizade, não combinar tocando juntos: mas nos demos bem, nesse caso.

Havíamos combinado de tocar: “Ele, o Super-Herói!”, “Mesmo Eu Estando do Outro Lado” e, por sugestão deles, uma inédita: ofereci “Rosemary”. Das deles, eu participaria de “Retroceder” e, lógico, “O Inimigo”, além de uma surpresa.

Enquanto passávamos o som no Estúdio 500, um puta complexo com várias salas para gravações e ensaios que fica no bairro do Morumbi (São Paulo), Chuck puxou a introdução de “Rádio Blá”, do Lobão. Ora! Essa música fez parte do repertório do CASCADURA durante parte da turnê Bogary: fui atrás. Todos nós fomos! E, assim, ela acabou entrando como elemento surpresa no show.

Ensaiamos por SEIS horas seguidas! Acho que desde que tenho 19 anos que não passo por uma sessão de ensaio tão extensa. Mas valeu! Terminamos satisfeitos. Foda foi sair e encontrar a confusão na Avenida Morumbi, com o engarrafamento de carros e fãs que iam ao show do Black Eyed Peas no estádio do São Paulo FC, que leva o mesmo nome e fica no final da avenida.

Deveríamos ter ido ao show do grupo paranaense Nevilton, que se apresentou naquela noite de quinta-feira no Studio SP, casa que fica na Rua Augusta, mas estávamos todos cansados e fincados na viagem de seis horas que faríamos no dia seguinte, rumo à capital potiguar.

O show, no sábado, foi espetacular. Uma das mais intensas experiências que já tive num palco. Poucas músicas e muita entrega. O público respondeu muito bem à nossa junção e nos divertimos todos juntos.

Ao final, ficou aquela sensação de “vamos fazer novamente?”.
Tomara que logo…

Bookmark and Share

Outra viagem no meio de tudo – São Paulo

quarta-feira, 10 novembro 2010 - postado por fabiocascadura

Mais uma vez, me afastei de Salvador durante esse processo de construção do Aleluia. Mas por um motivo muito, muito nobre, que me levou a uma experiência ainda mais surpreendente.

O propósito inicial seria participar da apresentação da banda Vespas Mandarinas (SP), composta por grandes amigos meus. O convite foi feito pelo organizador do Festival DoSol, de Natal/RN, Anderson Foca.

Eu já havia ido com o CASCADURA até lá, em 2008, numa das participações mais legais que já fizemos num evento dessa natureza. O caso foi que, ao visitar os Vespas Mandarinas em Sampa, num ensaio, para convidá-los a irem ao DoSol, Foca os ouviu tocar uma das músicas do Bogary e pensou que, como havia uma amizade entre nós e uma conexão artística muito óbvia entre as duas bandas, seria uma boa ter-me com os VM, no show deles lá no RN. Feitos os convites, convites aceitos!

Um ou dois e-mails e havíamos combinado quais músicas tocaríamos juntos e como seria a dinâmica da apresentação. Decidi, então, que iria a São Paulo, onde reside o núcleo da banda, uns dias antes, para ensaiarmos tudo. Aproveitei para visitar outros amigos da capital paulista, onde já morei com o CASCADURA e onde concebemos o Bogary.

Não posso deixar de falar que alguma coisa acontece no meu coração, que só quando chego na Augusta e encontro Duda Machado! Eu estava acompanhado do famoso Rodrigo “Minha Pedra”, outro “baulista”, hoje produtor da equipe de Pitty e que, generosamente, me hospedou em seu apartamento nesses dias. Duda havia ligado para ele, chamando-nos para um almoço na casa de sua irmã, a estilista Bia Machado, que reside na mesma rua. Era meio-dia!

“Meu querido Cascadura! Como vai?!”, deu-me uma abraço apertado. Trazia nos ombros Tomaz, seu afilhado de 3 anos e filho de Martin. Também estava acompanhado de Clara, sua namorada.

Caminhamos alguns metros e paramos na porta de uma lanchonete porque Tomaz queria uma água de côco. Como a balconista não tinha troco, Duda virou-se para mim e perguntou: “Cascadura, meu caro, já te ofereceram uma cervejinha hoje?”. “Rapaz!… É meio-dia!”, respondi. “Eu tô ligado… Já meio tarde e você com sede…”, já ia virar-se para pedir as cervejas e eu arranjei o dinheiro trocado para o côco de Tomaz e seguimos para o almoço.

Foi ótimo!
Reencontrar amigos que conhecemos à intimidade e que não vemos a toda hora é uma experiência muito excitante.

A todos, sou extremamente grato: Martin, Duda, Minha Pedra, Pitty, Luiz César, Telma, Rodrigo Lima, Sérgio, Spencer, Anna, Alê, Malásia, Chuck, Thadeu, Mauro, Mike… Isso, só em São Paulo! Ainda viria Natal, no Rio Grande do Norte, com seu festival DoSol e outros amigos do peito, de outros recantos, de todo o Brasil.

Bookmark and Share

Fábio Cascadura no Festival DoSol

domingo, 03 outubro 2010 - postado por assessoria de imprensa

O Festival DoSol, um dos mais importantes do país, que acontece há dez anos em Natal/RN, anunciou sua grade para este ano. Dentre as atrações, está o show de lançamento da banda paulistana Vespas Mandarinas, formada por ex e atuais membros de bandas como Ludov, Forgotten Boys e Banzé!, que vai contar com a participação de Fábio Cascadura.

O convite surgiu a partir do curador do Festival, Anderson Foca, que assistiu a um ensaio dos Vespas, onde eles tocaram a canção “O Centro do Universo”, do álbum Bogary, do CASCADURA. Ali, o produtor potiguar imaginou, em um show, a “união dos mais talentosos compositores de rock do Brasil”: Mauro Motoki (Ludov), Thadeu Meneghini (ex-Banzé!), Chuck Hipolitho (ex-Forgotten Boys) e o cantor do CASCADURA, Fábio.

Para essa apresentação especial, serão ensaiadas canções do disco de estreia do Vespas Mandarinas, prestes a ser lançado (e que também tem a participação de Fábio Cascadura na parceria de composição com Chuck Hipolitho na canção “Cuide dela”, e cantando na música “O Inimigo”, da qual também participam outros ícones do rock brasileiro como Pitty, Fabrício Nobre e Khoala, do Hateen), e músicas do CASCADURA.

O show acontece na segunda noite do Festival, dia 6 de novembro.

Bookmark and Share

Violência a la carte!

quinta-feira, 26 agosto 2010 - postado por fabiocascadura

É impossível não estar ansioso depois de quase um mês sem mexer em nada no disco. Nesse tempo, andré t foi a São Paulo mixar o disco de uma banda que o Duda Machado produziu: Apolônio, e que tem um amigo nosso, Pablo Marques, tocando acordeom.

Thiago Trad deu início ao seu trabalho como orientador de um projeto de formação básica em percussão para jovens: o “Toque Cidadão”, no bairro de Itapuã, aqui mesmo em Salvador. Essa iniciativa, que foi concebida e agora está sendo implantada por ele, tem como objetivo levar noções básicas sobre os diversos tipos de percussão para jovens de uma das áreas mais carentes da capital baiana, com aulas práticas e teóricas, distribuição de material didático, além da contribuição na formação cultural dessa moçada através de palestras e exibições de documentários, que os situarão diante da produção cultural e da história de sua cidade. (Vamos esperar agora um texto do Trad com detalhes sobre o assunto.)

Jô Estrada foi tocar com seu projeto, Lacme (que teve um disco lançado, produzido por ele e o próprio andré), também na capital paulista. Apesar de, para nossa sorte, ele ter voltado a morar em Salvador e os demais componentes do Lacme terem ficado em Sampa, a banda continua a existir, só que com atividades espaçadas: pintou um show, ele foi.

Eu estive, por duas semanas, envolvido com a Exposição Revolution – Beatles, do meu amigo Marco Mallagoli, que aconteceu num shopping center daqui da cidade. Foi uma experiência ótima, aprendendo um pouco mais sobre a história dos Fab Four com um cara que os conheceu de fato: Mallagoli foi um dos dois únicos brasileiros que conhecerem os quatro Beatles e George Martin, o mítico produtor da banda (a outra foi a carioca Lizzy Bravo – que participou da gravação da canção “Across the Universe”). Um brinde à nossa maior inspiração em todos os momentos.

Mas, com agosto chegando a seu final, o disco nos chamou de volta.
Nem bem retornou, andré me procurou para retomarmos o Aleluia.

Decidimos dar sequência ao trabalho iniciado com o stomp, que gravamos no Teatro Sitorne. Sobre a construção da parte musical (melodia, harmonia e ritmo), já escrevi aqui… então queria agora falar sobre o tema que escolhi para esta canção.

A experiência com esse novo trabalho tem nos exigido um “algo mais” para além do que já realizamos. Temos sido provocados a sair da nossa zona de conforto, do espaço que já conquistamos com álbuns como “Vivendo em Grande Estilo” (2004) e “Bogary” (2006). Apesar da temática “pessoal”, do olhar sobre nós mesmos ainda nos interessar, temos dado maior vazão a uma produção em torno daquilo que nos cerca… De preferência, de forma tão direta quanto possível.

Confesso que poucas coisas me incomodam tanto hoje como o tratamento que vem sendo dado à violência pela mídia. Parece que os casos de crimes vão para a mídia embalados com requinte de reality show. Seja na cobertura nacional de um caso envolvendo “celebridades” ou no horário do almoço, com gente desvalida, marginalizada, expondo seus podres em nome da audiência local.

A violência alimenta um mercado imenso. Nos filmes, nos livros, nos brinquedos (nos jogos de videogame, então, nem se fala) e, sim, na música. Ela se apresenta, nos excitando, como elemento que, como o sexo, nos coloca novamente dentro da perspectiva de uma natureza selvagem, como se o homem ainda fosse parte da natureza “lá fora”!

Isso é assim, desde sempre.
“Bebida é água, comida é pasto… Você tem fome de quê?”.

Numa conversa, meu amigo Álvaro Tattoo lembrou: “Os romanos jogavam cristãos aos leões!”. E era casa cheia! Fonte Nova em tarde de BaVi! Assistindo à série “Band of Brothers”, sobre a famosa Easy Company, companhia de batedores do exército dos Estados Unidos da América que desembarcaram na Normandia no Dia D, vi um trecho, com depoimento de um ex-combatente, personagem real da trama encenada naquele episódio: “Na minha cidade, alguns jovens, dispensados do serviço na guerra, acabaram se suicidando! Eram outros tempos…”. Eram mesmo…

A violência bate à nossa porta, laureada em glória. Sempre…
Até que ela vem embalada em laço de realidade, com a cara de desespero ou os olhos embotados em alguma substância capaz de fazer o cérebro perder noção de limites. Aí, é hora de exclamar: fudeu!

Como não bastasse estar na arte, migra em tons de crueza para o noticiário, fazendo sucesso a ponto de ganhar especificidade: os programas “pinga-sangue”! A modalidade já era conhecida, impressa com tinta e sangue: jornais sensacionalistas que estampam manchetes sobre assassinatos, extermínios, estupros e demais crimes cruéis. Lembro que, nos anos de 1980, numa tentativa de imitar o modelo de sucesso no Rio de Janeiro, houve um que se arriscasse aqui na Bahia: naufragou em um quadriênio…

E chegamos, com velhos e novos personagens, aos programas “pinga-sangue” do horário do almoço. É o fim! É a degradação ao máximo. Em nada contribui. Eu, nascido e criado na Bahia, estou de saco cheio disso. Não acredito que isso contribua em nada para uma melhoria na condição de vida das pessoas desse estado. E tudo parece ficar muito claro quando depois do aviso de “não mude de canal, meu amigo… Que nós vamos mostrar aquele facínora, aquele escroque que fez isso e fez aquilo… Mas antes, vamos mostrar essa maravilha que é o ‘creme de ervilha’ para massagem facial e você precisa comprar ele… e etc… etc… Apenas por ‘uma fortuna que seu salário-mínimo não pode comprar’, mas você vai comprar, não é?”. É a tal da neurolinguística!

Bem, eu não tô aqui para analisar essa situação, isso devem fazer os sociólogos, cientistas políticos e jornalistas. Eu sou poeta, um compositor de rock. Extraio da vida o que me dá caminho para a criação artística. Por isso, pela necessidade de exclamar sobre esse “fenômeno” do degrado, que envergonha quem tem o mínimo de bom senso, em rejeição a essa manifestação da mais hedionda forma de exploração, que resolvi usar aquele espaço vago a um texto, dentro daquela ideia de cantar um blues sobre os passos e palmas gravados no Teatro Sitorne.

Já que o blues nasceu pelo lamento, eu lamento…

Bookmark and Share

Uma viagem no meio

quarta-feira, 14 julho 2010 - postado por fabiocascadura

Bem no meio do processo de entrar no estúdio, dei-me o luxo de viajar, em férias, com minha noiva… Mas bem no meio das gravações?

É que a viagem estava planejada antes de pensarmos em marcar as datas de estúdio e na vida é assim: prioridade é o que vem primeiro. Mantive os planos com a amada (ai de mim tentar demovê-la disso!) e fomos: break nas gravações.

Buenos Aires orgulha-se de sua tradição europeia, considera-se europeia, mas tem uma afirmação imensa em ser latino-americana. Às vezes, nos confundem em sua confusão. Fábio "Magallanes" Tanto mais, chegando lá em tempos de Mundial de Futebol (aquilo que outrora chamávamos de Copa do Mundo, termo, agora, de uso proibido, sob pena de pagamento de royaltes ao dono: a FIFA). Ora eles afirmam torcer por todos “los hermanos sudamericanos”, ora afirmam preferir torcer para o “english team” ao Brasil. Acho que todos sabem da histórica rivalidade entre a Inglaterra e a Argentina, com caso de invasão inglesa a nossos vizinhos e tudo o mais… Fato é que Buenos Aires é autêntica, mesmo sendo uma réplica. Suas caras são, em geral, ibéricas e/ou caucasianas. Um índio de Tucumán (norte do país) aqui e outro ali. A colônia oriental é crescente e já opera interferência em alguns costumes da cidade: tinturaria e culinária (no agradável Bar 6, experimentamos um troço chamado “wok de carne”, um tipo de yakisoba adaptado ao modo argentino de ser). Negros? Em dez dias, lembro de ter visto quatro e somente um, suspeito eu, tenha nascido lá. Os demais eram imigrantes ou turistas.

Cemitério da Recoleta

A tradição europeia é tão forte que um dos pontos turísticos mais celebrados de lá é um cemitério. Tem algo mais europeu que o culto à morte? O cemitério da Recoleta é realmente muito rico em suas esculturas lúgubres, seus mármores, testemunhas de um tempo que a cidade contava com uma classe alta mais opulenta e influente. Confesso que, apesar de ter curtido ir lá, tirado foto em pose de coreografia de “Thriller” de MJ, fiquei um pouco chocado com o lance das visitas ao túmulo de Eva Perón: havia uma fila de gente para tirar foto ao lado da catacumba da criatura! Em um momento, um par de gêmeas, na casa dos nove anos de idade, posou sorrindo enquanto a mãe que, acho, era colombiana, dizia: “Um momento…”, e tirou a foto com as duas com rostos angelicais. Mais um pouco e chegariam a mulher-barbada, o atirador de facas e a mula-sem-cabeça…

Porém, ao lado desse cemitério fica um centro comercial moderno chamado Buenos Aires Design. O design, a forma, as artes visuais são outros exemplos de orgulho dos portenhos. E eles têm todo motivo para sentirem orgulho disso. A cidade é extremamente visual: nos monumentos antigos, no “rosáceo” do palácio presidencial, mundialmente conhecido como “A Casa Rosada”, no grafite às ruas, nas vitrines sempre muito caprichadas de qualquer estabelecimento comercial, no filatelista (aquele cara que cria placas floreadas em cores vibrantes)… No que diz respeito a ver, BsAs dá um show.

Lembro que sentamos num restaurante bem modesto em Villa Crespo, do tipo que amo ir em qualquer cidade que vá. Aquele lugar frequentado pelos locais. Era um lugar como o Risca Faca, da Rua Visconde de Ouro Preto, no Centro de São Paulo, ou a Ceasinha do Rio Vermelho, em Salvador: culinária popular. Lá, a vitrine era ornada com uma marca estampando o nome do lugar (Salgado Alimentos), o balcão surrado com uma balança antiga e bem conservada, uma “adega” com diversos vinhos expostos, cuidadosamente organizados. As mesas seguiam uma linha organizada em pares e os garçons e garçonetes, todos jovens, vestiam avental longo por cima do jeans/camiseta/all star. A comida desse lugar é um caso à parte: massa fresca de primeira qualidade.

Alias, comida não é problema numa cidade cosmopolita como a capital argentina. Come-se bem e come-se de tudo: massas, carnes, frutos do mar, empanadas… Para não falar nas sorveterias, rotisserias e padarias: doces, sorvetes, suspiros gigantes, alfajores (os imbatíveis Cachafaz e La Bizantina, ainda que o melhor tenha sido um gigante da Panaderia Las Famílias, na Calle Armenia), bolos, caldas… Açúcar!

Em Buenos Aires, pode-se encontrar desde a famosa parrilla (recomendo o Lo de Jesus, em Palermo) à comida armênia (fomos ao Sarkis, também em Villa Crespo). Villa Crespo e Palermo: bairros bem situados, cheios de charme, lojas, gente interessante e bares. Pode-se andar em plena madrugada tranquilamente que é seguro. Ainda que, em Palermo, haja um tanto mais de barulho à noite (o cruzamento Serrano/Cabrera é carro e gente passando e falando a noite inteira), tanto mais é se perto da pequena e movimentada Plaza Cortazar, com bares/restaurantes/cafés 24 horas!

Foi bem próximo a essa praça que, num começo de noite, voltando para o hotel, paramos à porta de uma loja de roupas e percebemos que lá tocava o disco “Zii e Zie“, de Caetano. Como brasileiros, baianos, achamos massa, mas achamos normal: Caetano é mundialmente famoso.

No dia seguinte, indo para um passeio mais ao centro da cidade, passamos na frente da mesma loja e tocava Tom Zé: “Poxa! O cara gosta de música brasileira! Vou deixar um disco do CASCADURA que trouxe comigo com eles”.

À noite, voltamos pelo mesmo trajeto, justamente para deixar o disco na loja e, de repente, bater um papo com o pessoal de lá. Para nossa surpresa, ao chegarmos tocava um disco com música de capoeira! Pensei: “Esse é daqueles que sonha com a Bahia toda noite!”. Fazia frio. Chamei o camarada que devia ser o dono e entreguei o disco, me apresentei. O camarada ficou felizão: “Você é da Bahia?! Que legal… Que lindo, cara!”. Achar a Bahia “que lindo, cara!” é lugar comum para quem é de lá.

Lembro do domingo, quando íamos à tradicional Feira de San Telmo e, parados numa esquina, ponderávamos se estávamos seguindo na direção correta. Uma senhora de baixa estatura, no alto dos seus setenta e tantos anos, trajando um lindo e antigo abrigo vermelho, nos perguntou se queríamos ajuda. Aceitamos e ela nos orientou. Seguimos na mesma direção, ela perguntando se éramos do Brasil, de que cidade vínhamos… Quando dissemos Salvador, ela exclamou: “Hmmmm… Hay, llá, muchas iglesias, no?! Muy tradicional!”. Simpática! Disse que seu sonho era vir à Bahia e a Ouro Preto. Agradam-lhes as cidades com história, tradições verdadeiras… Essa senhorinha de amáveis olhos azuis foi uma das amostras do que se pode ter de simpatia dos argentinos. Sim! Não são de todo antipáticos. São carrancudos, em geral. Sempre sérios e apressados.

Posso citar também o tiozinho do kiosko Milagritos (no cruzamento das calles Thames/J. Ramires Velasco). Kiosko é um tipo de “barraquinha-vende-tudo” e, lá, vende-se de tudo mesmo: refrigerante, cigarros, canetas, alfajores, figurinhas da copa… Num dos últimos dias, tínhamos que pegar o “omnibus” e não tínhamos dinheiro em moedas. E para pegar “omnibus, ou bus, como gostam de falar os portenhos, tem que se ter “monedas”. Por isso, as moedas são escassas nas ruas de Buenos Aires: quem as tem, guarda para usar no transporte urbano (esse sistema é, aliás, algo que realmente nos faz sentir inveja. Quem dera essa administração que aí está, na cidade do Salvador, pudesse enxergar alternativas a serem copiadas de lá. Mas a visão é estreita, a mente, pequena e a ganância, grande…).

Como não tínhamos os 1,10 pesos argentinos trocados para cada passagem, tínhamos que trocar e ninguém troca. Entramos no kiosko Milagro e, para nosso espanto, o “tiozinho” meio índio, meio “chino” trocou nossas moedas e deu-nos a indicação de onde pegaríamos o ônibus certo para o nosso destino, falando pausadamente, para que entendêssemos, preocupação menor para quem vive em Buenos Aires.

Outros exemplos de simpatia da cidade vieram de duas pessoas ligadas ao universo da música. O primeiro foi o produtor independente Martín Ramicone, atuante na cidade com seu selo/produtora Da Chance Music, com quem vinha me correspondendo. Figura única, conhecedor do Brasil (já morou em Maceió/AL), da música de cá e dos organismos do mercado musical de lá. Conversamos sobre história da América Latina, futebol e rock! Ganhei um bom amigo e parceiro para projetos futuros.

O outro foi um cara chamado Juan Trasmonte. Ele produz um programa de rádio chamado Club Brasil, com grande sucesso na FM local, em que apresenta música brasileira de todos os tempos, e ainda produz apresentações de artistas brasileiros por lá. Encontrei com ele rapidamente, em uma rápida conversa, em que me apresentou seu total domínio do nosso idioma e mostrou realmente conhecer a música daqui. Chamou-me atenção ele saber da grandeza do som que faz o amigo Tiganá Santana: achei o máximo! Falou de muita coisa sobre a música do Brasil, de como ela atinge positivamente as pessoas na Argentina, de como vinha a divulgando, o alcance de seu programa, o êxito. Falei a ele da trajetória do CASCADURA, dos planos para o futuro e da vontade de fazer o nosso novo trabalho, Aleluia, chegar lá.

Na despedida, ele me perguntou como o encontrei. Disse-lhe que foi por indicação de uma amiga, Mariana, que havia trabalhado com ele e que hoje tem um hotel supercharmoso, onde nos hospedávamos: o Querido! Querido é o nome apropriado para esse lugar, que fica em Villa Crespo (Calle Juan Ramirez Velasco, n° 934), ao lado do fantástico bairro de Palermo. Se for a Buenos Aires, fique lá: vale muito a pena. Eu vou voltar e vou ficar lá.

P.S.: Agora, de volta a casa, retomo as gravações do Aleluia junto a Thiago, Jô e andré. Acumulei, nessa viagem, referências e comparações para trazer algo de novo ao álbum. Tomara que funcione…

Quando eu chegar a Nicarágua!...

Quando eu chegar a Nicarágua!...

Bookmark and Share
  • Links

  • Arquivos